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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Lastimar e Rejubilar

Costumamos imaginar que tristeza e alegria são estados que se alternam, como luz e sombra que nunca se tocam. Mas, na prática, não é bem assim. Às vezes, o choro e o riso se confundem — basta lembrar de uma despedida: a dor da separação e a gratidão pelo encontro vivido se misturam na mesma lágrima. Lastimar e rejubilar são dois gestos da alma que, em vez de se anularem, se completam.

O filósofo Nietzsche, em A Gaia Ciência, já lembrava que a vida só ganha profundidade quando aceitamos seu caráter trágico. Para ele, não há alegria verdadeira que não carregue um certo peso, assim como não há dor que não esconda a semente de uma possível renovação. O “eterno retorno” nietzschiano não é só a repetição dos prazeres, mas também das dores — e ainda assim, ele nos desafia a dizer “sim” à vida em sua totalidade.

Na sociologia das emoções, Émile Durkheim observava como rituais coletivos — festas, funerais, comemorações — sempre trazem essa mistura. Num funeral, por exemplo, lastima-se a perda, mas também se rejubila a vida daquele que partiu. A sociedade cria formas de elaborar essa tensão, porque sabe que o humano não vive apenas de luto nem apenas de festa, mas da combinação entre ambos.

No cotidiano, essa ambiguidade aparece de maneira quase banal. Uma mãe que vê o filho partir para estudar em outra cidade lastima a ausência, mas rejubila pela conquista. Um trabalhador que se aposenta sente a perda da rotina que o estruturava, mas rejubila pelo descanso merecido. São momentos em que a vida nos pede para segurar duas emoções aparentemente contrárias na mesma mão.

No Brasil, Rubem Alves já escrevia com sua doçura filosófica que “a saudade é a nossa maneira de rejubilar o que se perdeu”. Isso mostra como até a dor pode ser uma celebração disfarçada, porque só se sofre pelo que foi valioso.

Talvez a grande sabedoria esteja em perceber que lastimar e rejubilar não são estágios separados, mas dois movimentos do mesmo coração. Lastimamos porque amamos, rejubilamos porque sobrevivemos às perdas. E, no fim, viver é justamente essa arte paradoxal: aprender a sorrir com os olhos marejados.