As
caminhadas pela manhã são diferenciadas, estou mais relaxado e com expectativas
para as novidades do dia, as vozes que habitam minha mente estão mais calmas e
atentas dando ouvidos ao mundo exterior, esperando o momento para entrarem em
ação, elas são muitas. Há vozes que querem convencer. Outras só querem existir.
Algumas explicam, outras confundem, e há aquelas que apenas acompanham — como
se caminhassem ao nosso lado sem pedir nada.
A
voz da infância ainda fala baixo dentro de nós, usando palavras simples. A da
juventude fala rápido, como se o tempo estivesse sempre acabando. A da
maturidade aprende a fazer silêncio entre uma frase e outra. E a do cansaço…
essa não fala: suspira.
Também
há vozes que não são nossas. A voz da cidade, feita de buzinas e anúncios. A
voz da família, que ecoa mesmo quando ninguém está por perto. A voz da
internet, que fala em coro. E, no meio de todas elas, tentamos reconhecer qual
ainda nos pertence.
As
vozes diferentes não brigam apenas entre si — elas disputam a nossa atenção.
Uma pede coragem. Outra pede prudência. Uma diz “vai”. A outra diz “espera”. E
quase nunca concordam.
Fernando
Pessoa escreveu que “viver é ser outro”. Talvez por
isso sejamos um pequeno coral ambulante, afinado e desafinado ao mesmo tempo,
tentando transformar ruído em melodia.
No
cotidiano, aprender a viver não é escolher uma única voz. É aprender quando
cada uma deve ser escutada.
Porque
algumas vozes nos empurram. Outras nos protegem. E algumas só existem para
lembrar que ainda estamos vivos.

