Costumamos imaginar que tristeza e alegria são estados que se alternam, como luz e sombra que nunca se tocam. Mas, na prática, não é bem assim. Às vezes, o choro e o riso se confundem — basta lembrar de uma despedida: a dor da separação e a gratidão pelo encontro vivido se misturam na mesma lágrima. Lastimar e rejubilar são dois gestos da alma que, em vez de se anularem, se completam.
O
filósofo Nietzsche, em A Gaia Ciência, já lembrava que a vida só
ganha profundidade quando aceitamos seu caráter trágico. Para ele, não há
alegria verdadeira que não carregue um certo peso, assim como não há dor que
não esconda a semente de uma possível renovação. O “eterno retorno” nietzschiano
não é só a repetição dos prazeres, mas também das dores — e ainda assim, ele
nos desafia a dizer “sim” à vida em sua totalidade.
Na
sociologia das emoções, Émile Durkheim observava como rituais coletivos
— festas, funerais, comemorações — sempre trazem essa mistura. Num funeral, por
exemplo, lastima-se a perda, mas também se rejubila a vida daquele que partiu.
A sociedade cria formas de elaborar essa tensão, porque sabe que o humano não
vive apenas de luto nem apenas de festa, mas da combinação entre ambos.
No
cotidiano, essa ambiguidade aparece de maneira quase banal. Uma mãe que vê o
filho partir para estudar em outra cidade lastima a ausência, mas rejubila pela
conquista. Um trabalhador que se aposenta sente a perda da rotina que o
estruturava, mas rejubila pelo descanso merecido. São momentos em que a vida
nos pede para segurar duas emoções aparentemente contrárias na mesma mão.
No
Brasil, Rubem Alves já escrevia com sua doçura filosófica que “a saudade
é a nossa maneira de rejubilar o que se perdeu”. Isso mostra como até a dor
pode ser uma celebração disfarçada, porque só se sofre pelo que foi valioso.
Talvez
a grande sabedoria esteja em perceber que lastimar e rejubilar não são estágios
separados, mas dois movimentos do mesmo coração. Lastimamos porque amamos,
rejubilamos porque sobrevivemos às perdas. E, no fim, viver é justamente essa
arte paradoxal: aprender a sorrir com os olhos marejados.