Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador #ímpios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #ímpios. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de dezembro de 2025

Ímpios e a Maldade

Quando o mal aprende a falar baixo

Dezembro faz destas coisas com a gente, o Natal especialmente faz isto, ele nos faz pensar a respeito de coisas graves que vão sendo banalizadas e a gente vai se acostumando, a impiedade no automático. Há dias em que a palavra ímpio soa grande demais para o que vemos. Parece coisa de texto antigo, de profeta exaltado ou de sermão severo. Mas basta sair de casa, abrir o celular ou sentar numa reunião qualquer para perceber que a impiedade não desapareceu — ela só trocou de roupa. Hoje, ela não grita, não blasfema, não quebra altares. Ela sorri, cumpre horários, assina e-mails educados e diz: “não é nada pessoal”.

Este ensaio nasce dessa suspeita, deste momento natalino: penso que talvez a maldade contemporânea não esteja nos grandes crimes, mas na normalização silenciosa do dano. O ímpio moderno não é necessariamente violento; ele é indiferente. E a indiferença, quando organizada, pode ser mais devastadora do que o ódio explícito.

Tradicionalmente, o ímpio era aquele que rompia com o sagrado, que negava a ordem divina ou vivia como se ela não existisse. Mas numa época em que o sagrado foi diluído — não destruído, apenas diluído — a impiedade mudou de eixo. Hoje, o sagrado não é apenas Deus, mas o outro. A dignidade, o limite, a vulnerabilidade alheia.

Ser ímpio, então, é viver como se o outro fosse descartável.

Hannah Arendt falava da banalidade do mal: o mal que não nasce de monstros, mas de gente comum que abdica de pensar. O ímpio contemporâneo é justamente esse: alguém que terceirizou a consciência. Ele não decide se algo é bom ou mau; ele pergunta se é permitido, lucrativo ou conveniente.

A maldade raramente se apresenta como tal. Ela vem disfarçada de eficiência, de pragmatismo, de “realismo”. No cotidiano, ela aparece assim:

  • O chefe que humilha com ironia, mas diz estar “preparando para o mercado”.
  • O amigo que espalha uma informação íntima e justifica: “todo mundo já sabe”.
  • O cidadão que vê uma injustiça e pensa: “não é problema meu”.
  • O usuário de redes sociais que destrói alguém com comentários e depois dorme em paz.

Nada disso parece, isoladamente, maldade absoluta. Mas o ímpio não age pelo excesso — ele age pela repetição. Ele cria um mundo onde o dano é rotineiro e, por isso, invisível.

A maldade moderna não precisa odiar o bem; basta não se importar com ele.

Nietzsche já desconfiava da moral automática, daquela que não nasce da reflexão, mas do costume. Quando a moral vira hábito, ela também pode virar instrumento. O ímpio não se sente mau porque aprendeu a operar dentro das regras — mesmo quando essas regras produzem sofrimento.

Aqui surge um ponto decisivo: a maldade contemporânea se alimenta da dissociação entre ação e responsabilidade. Eu faço, mas não sou o autor; executo, mas não escolho; sigo ordens, algoritmos, tendências, normas.

O ímpio é aquele que diz: “eu só fiz a minha parte”.

E exatamente aí o mal encontra solo fértil: quando ninguém se sente responsável pelo todo.

Imagine alguém que atravessa diariamente um semáforo quebrado. No começo, hesita. Depois, acostuma-se. Um dia, quase atropela alguém — e se irrita com a pessoa, não consigo mesmo. A maldade funciona assim: ela começa como adaptação e termina como cinismo.

Ou pense na empresa que corta direitos pouco a pouco. Nada escandaloso. Um benefício aqui, um prazo ali. Quando alguém sofre, a resposta vem pronta: “é o sistema”. O sistema, essa entidade sem rosto, virou o novo deus — e o novo álibi dos ímpios.

O mais assustador no ímpio não é o que ele faz, mas o fato de não travar mais nenhuma batalha interior. Não há culpa, nem dilema, nem pausa. Ele age com fluidez. A consciência, quando aparece, é tratada como fraqueza.

Talvez o oposto do ímpio não seja o santo, mas o inquieto — aquele que ainda se pergunta: “isso que faço me diminui ou me amplia?”

O problema da maldade hoje é que ela não nos assusta. Ela se parece demais conosco. Usa as mesmas palavras, as mesmas justificativas, o mesmo cansaço. E é por isso que este ensaio não termina apontando culpados, mas espelhos.

A pergunta não é “onde estão os ímpios?”, mas:

em que momentos eu ajo como se o outro não importasse?

Talvez a verdadeira resistência à maldade não esteja em grandes gestos morais, mas em pequenos atos de interrupção: pensar antes de repetir, sentir antes de justificar, parar antes de ferir.

Num mundo que normalizou a impiedade, talvez o gesto mais radical seja simples — e profundamente filosófico: recusar a indiferença.