Quando o mal aprende a falar baixo
Dezembro
faz destas coisas com a gente, o Natal especialmente faz isto, ele nos faz
pensar a respeito de coisas graves que vão sendo banalizadas e a gente vai se
acostumando, a impiedade no automático. Há dias em que a palavra ímpio
soa grande demais para o que vemos. Parece coisa de texto antigo, de profeta
exaltado ou de sermão severo. Mas basta sair de casa, abrir o celular ou sentar
numa reunião qualquer para perceber que a impiedade não desapareceu — ela só
trocou de roupa. Hoje, ela não grita, não blasfema, não quebra altares. Ela
sorri, cumpre horários, assina e-mails educados e diz: “não é nada pessoal”.
Este
ensaio nasce dessa suspeita, deste momento natalino: penso que talvez a maldade
contemporânea não esteja nos grandes crimes, mas na normalização silenciosa do
dano. O ímpio moderno não é necessariamente violento; ele é indiferente. E a
indiferença, quando organizada, pode ser mais devastadora do que o ódio
explícito.
Tradicionalmente,
o ímpio era aquele que rompia com o sagrado, que negava a ordem divina ou vivia
como se ela não existisse. Mas numa época em que o sagrado foi diluído — não
destruído, apenas diluído — a impiedade mudou de eixo. Hoje, o sagrado não é apenas
Deus, mas o outro. A dignidade, o limite, a vulnerabilidade alheia.
Ser
ímpio, então, é viver como se o outro fosse descartável.
Hannah
Arendt falava da banalidade do mal: o mal que não
nasce de monstros, mas de gente comum que abdica de pensar. O ímpio
contemporâneo é justamente esse: alguém que terceirizou a consciência. Ele não
decide se algo é bom ou mau; ele pergunta se é permitido, lucrativo ou
conveniente.
A
maldade raramente se apresenta como tal. Ela vem disfarçada de eficiência, de
pragmatismo, de “realismo”. No cotidiano, ela aparece assim:
- O chefe que humilha com ironia, mas
diz estar “preparando para o mercado”.
- O amigo que espalha uma informação
íntima e justifica: “todo mundo já sabe”.
- O cidadão que vê uma injustiça e
pensa: “não é problema meu”.
- O usuário de redes sociais que
destrói alguém com comentários e depois dorme em paz.
Nada
disso parece, isoladamente, maldade absoluta. Mas o ímpio não age pelo
excesso — ele age pela repetição. Ele cria um mundo onde o dano é rotineiro e,
por isso, invisível.
A
maldade moderna não precisa odiar o bem; basta não se importar com ele.
Nietzsche
já
desconfiava da moral automática, daquela que não nasce da reflexão, mas do
costume. Quando a moral vira hábito, ela também pode virar instrumento. O ímpio
não se sente mau porque aprendeu a operar dentro das regras — mesmo quando
essas regras produzem sofrimento.
Aqui
surge um ponto decisivo: a maldade contemporânea se alimenta da dissociação
entre ação e responsabilidade. Eu faço, mas não sou o autor; executo, mas não
escolho; sigo ordens, algoritmos, tendências, normas.
O
ímpio é aquele que diz: “eu só fiz a minha parte”.
E
exatamente aí o mal encontra solo fértil: quando ninguém se sente responsável
pelo todo.
Imagine
alguém que atravessa diariamente um semáforo quebrado. No começo, hesita.
Depois, acostuma-se. Um dia, quase atropela alguém — e se irrita com a pessoa,
não consigo mesmo. A maldade funciona assim: ela começa como adaptação e
termina como cinismo.
Ou
pense na empresa que corta direitos pouco a pouco. Nada escandaloso. Um
benefício aqui, um prazo ali. Quando alguém sofre, a resposta vem pronta: “é
o sistema”. O sistema, essa entidade sem rosto, virou o novo deus — e o
novo álibi dos ímpios.
O
mais assustador no ímpio não é o que ele faz, mas o fato de não travar mais
nenhuma batalha interior. Não há culpa, nem dilema, nem pausa. Ele age com
fluidez. A consciência, quando aparece, é tratada como fraqueza.
Talvez
o oposto do ímpio não seja o santo, mas o inquieto — aquele que ainda se
pergunta: “isso que faço me diminui ou me amplia?”
O
problema da maldade hoje é que ela não nos assusta. Ela se parece demais
conosco. Usa as mesmas palavras, as mesmas justificativas, o mesmo cansaço. E é
por isso que este ensaio não termina apontando culpados, mas espelhos.
A
pergunta não é “onde estão os ímpios?”, mas:
em
que momentos eu ajo como se o outro não importasse?
Talvez
a verdadeira resistência à maldade não esteja em grandes gestos morais, mas em
pequenos atos de interrupção: pensar antes de repetir, sentir antes de
justificar, parar antes de ferir.
Num
mundo que normalizou a impiedade, talvez o gesto mais radical seja simples — e
profundamente filosófico: recusar a indiferença.
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