Eu
aprendi que o sagrado não mora apenas nos altares, assim como o profano não
vive apenas nas quedas. Eles se misturam no mesmo gesto, no mesmo dia, no mesmo
corpo. O café tomado em silêncio pode ser mais sagrado que uma oração distraída;
uma risada fora de hora pode ser mais verdadeira que uma reverência vazia. O
sagrado nasce quando algo nos atravessa com sentido. O profano surge quando
repetimos sem presença. No fundo, não é o lugar que decide, nem o ritual, nem a
forma — é a qualidade do olhar. E talvez a maturidade consista exatamente
nisso: perceber que o sagrado não está acima da vida, mas escondido dentro
dela, e que o profano não é o oposto do divino, mas apenas a vida quando
esquecemos de senti-la.
Blog de Filosofia e Sociologia trata de assuntos que rolaram durante a semana, tal como noticias, curiosidades, vídeos, musicas, educação, temas de filosofia, sociologia, teologia, enfim assuntos que também poderão ser discutidos em salas de aula e até nas conversas de cafeteria.
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domingo, 18 de janeiro de 2026
Sagrado e Profano
domingo, 21 de dezembro de 2025
Ímpios e a Maldade
Quando o mal aprende a falar baixo
Dezembro
faz destas coisas com a gente, o Natal especialmente faz isto, ele nos faz
pensar a respeito de coisas graves que vão sendo banalizadas e a gente vai se
acostumando, a impiedade no automático. Há dias em que a palavra ímpio
soa grande demais para o que vemos. Parece coisa de texto antigo, de profeta
exaltado ou de sermão severo. Mas basta sair de casa, abrir o celular ou sentar
numa reunião qualquer para perceber que a impiedade não desapareceu — ela só
trocou de roupa. Hoje, ela não grita, não blasfema, não quebra altares. Ela
sorri, cumpre horários, assina e-mails educados e diz: “não é nada pessoal”.
Este
ensaio nasce dessa suspeita, deste momento natalino: penso que talvez a maldade
contemporânea não esteja nos grandes crimes, mas na normalização silenciosa do
dano. O ímpio moderno não é necessariamente violento; ele é indiferente. E a
indiferença, quando organizada, pode ser mais devastadora do que o ódio
explícito.
Tradicionalmente,
o ímpio era aquele que rompia com o sagrado, que negava a ordem divina ou vivia
como se ela não existisse. Mas numa época em que o sagrado foi diluído — não
destruído, apenas diluído — a impiedade mudou de eixo. Hoje, o sagrado não é apenas
Deus, mas o outro. A dignidade, o limite, a vulnerabilidade alheia.
Ser
ímpio, então, é viver como se o outro fosse descartável.
Hannah
Arendt falava da banalidade do mal: o mal que não
nasce de monstros, mas de gente comum que abdica de pensar. O ímpio
contemporâneo é justamente esse: alguém que terceirizou a consciência. Ele não
decide se algo é bom ou mau; ele pergunta se é permitido, lucrativo ou
conveniente.
A
maldade raramente se apresenta como tal. Ela vem disfarçada de eficiência, de
pragmatismo, de “realismo”. No cotidiano, ela aparece assim:
- O chefe que humilha com ironia, mas
diz estar “preparando para o mercado”.
- O amigo que espalha uma informação
íntima e justifica: “todo mundo já sabe”.
- O cidadão que vê uma injustiça e
pensa: “não é problema meu”.
- O usuário de redes sociais que
destrói alguém com comentários e depois dorme em paz.
Nada
disso parece, isoladamente, maldade absoluta. Mas o ímpio não age pelo
excesso — ele age pela repetição. Ele cria um mundo onde o dano é rotineiro e,
por isso, invisível.
A
maldade moderna não precisa odiar o bem; basta não se importar com ele.
Nietzsche
já
desconfiava da moral automática, daquela que não nasce da reflexão, mas do
costume. Quando a moral vira hábito, ela também pode virar instrumento. O ímpio
não se sente mau porque aprendeu a operar dentro das regras — mesmo quando
essas regras produzem sofrimento.
Aqui
surge um ponto decisivo: a maldade contemporânea se alimenta da dissociação
entre ação e responsabilidade. Eu faço, mas não sou o autor; executo, mas não
escolho; sigo ordens, algoritmos, tendências, normas.
O
ímpio é aquele que diz: “eu só fiz a minha parte”.
E
exatamente aí o mal encontra solo fértil: quando ninguém se sente responsável
pelo todo.
Imagine
alguém que atravessa diariamente um semáforo quebrado. No começo, hesita.
Depois, acostuma-se. Um dia, quase atropela alguém — e se irrita com a pessoa,
não consigo mesmo. A maldade funciona assim: ela começa como adaptação e
termina como cinismo.
Ou
pense na empresa que corta direitos pouco a pouco. Nada escandaloso. Um
benefício aqui, um prazo ali. Quando alguém sofre, a resposta vem pronta: “é
o sistema”. O sistema, essa entidade sem rosto, virou o novo deus — e o
novo álibi dos ímpios.
O
mais assustador no ímpio não é o que ele faz, mas o fato de não travar mais
nenhuma batalha interior. Não há culpa, nem dilema, nem pausa. Ele age com
fluidez. A consciência, quando aparece, é tratada como fraqueza.
Talvez
o oposto do ímpio não seja o santo, mas o inquieto — aquele que ainda se
pergunta: “isso que faço me diminui ou me amplia?”
O
problema da maldade hoje é que ela não nos assusta. Ela se parece demais
conosco. Usa as mesmas palavras, as mesmas justificativas, o mesmo cansaço. E é
por isso que este ensaio não termina apontando culpados, mas espelhos.
A
pergunta não é “onde estão os ímpios?”, mas:
em
que momentos eu ajo como se o outro não importasse?
Talvez
a verdadeira resistência à maldade não esteja em grandes gestos morais, mas em
pequenos atos de interrupção: pensar antes de repetir, sentir antes de
justificar, parar antes de ferir.
Num
mundo que normalizou a impiedade, talvez o gesto mais radical seja simples — e
profundamente filosófico: recusar a indiferença.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
Furor Divino
Às
vezes — e aqui falo quase em voz baixa, como quem mexe numa caixa antiga — me
pego pensando naquele tipo de impulso que não sabemos explicar. Não é raiva,
não é fé, não é entusiasmo comum. É como se algo maior cutucasse por dentro. Já
sentiu? Aquele momento em que você faz algo que parecia impossível, ousado
demais ou completamente fora do seu “perfil habitual”. E depois, quando volta
ao estado normal, pensa: “Meu Deus, o que deu em mim?”.
Chamemos
isso de furor divino — não porque seja literalmente divino, mas porque
escapa à lógica cotidiana. É um desses fenômenos que parecem nascer de um lugar
onde razão e mistério se tocam, como dois vizinhos que raramente se
cumprimentam, mas às vezes trocam um aceno silencioso.
O
Furor que ultrapassa o humano
Na
tradição filosófica, ninguém falou melhor sobre isso do que Platão,
especialmente no diálogo Íon e no Fedro. Ali, o filósofo descreve
o “furor divino” (theia mania) como um estado em que o humano é
arrebatado por uma força superior. Não é loucura comum; é uma espécie de êxtase
criativo, profético, amoroso ou poético.
Platão
distingue quatro tipos de mania:
- A profética,
inspirada por Apolo;
- A ritual,
ligada a Dioniso;
- A poética,
dada pelas Musas;
- A amorosa,
presente em Afrodite e Eros.
O
que chama atenção é que, para ele, momentos verdadeiramente grandiosos da vida
— e aqui podemos incluir decisões transformadoras, intuições certeiras,
criações inesperadas — não surgem do cálculo frio. Surgem desse excesso, desse
transbordamento que não cabe na planilha da razão.
E
quando penso nisso no cotidiano, lembro de situações quase banais, mas
reveladoras.
Às vezes alguém passa meses travado num projeto e, de repente, em uma
madrugada, escreve o texto perfeito. Um casal que parecia arrastando a vida
descobre um impulso de renovação amorosa inesperada. Uma pessoa tímida toma uma
atitude corajosa que nem ela imaginava. Há quem mude de profissão, de cidade,
de vida, num surto de clareza que parece vir de outro plano.
É
raro, mas quando acontece, sentimos a vibração do furor.
O
que esse fenômeno nos diz hoje?
Talvez
o que chamamos de “furor divino” seja aquilo que ainda não aprendemos a nomear
dentro de nós. Uma espécie de energia originária, uma fagulha de vida
que nos escapa quando tentamos controlá-la demais.
O
pensador brasileiro Roberto Machado, ao comentar a genealogia das
paixões e dos impulsos, dizia que há forças em nós que não devem ser totalmente
domadas, pois são justamente elas que nos projetam para fora da repetição
mecânica da vida. O furor, nesse sentido, é uma potência de ruptura — perigosa,
sim, mas também necessária.
É
como se a vida tivesse um dispositivo interno de desorganização criativa. Sem
ele, seríamos apenas previsíveis. E o que é mais triste do que ser totalmente
previsível para si mesmo?
O
risco e o brilho
É
claro que o furor divino não é confortável. Ele mexe, desloca, empurra. Ele faz
com que você perceba que viveu demasiado tempo acomodado no raso. E há pessoas
que passam a vida inteira tentando evitar esse tipo de impulso, com medo do que
podem descobrir sobre si.
Mas
o curioso é que, muitas vezes, é justamente no furor que encontramos a versão
mais verdadeira do que somos. Não a versão educada, adaptada, disciplinada —
mas aquela que sabe o que quer antes mesmo de saber por que quer.
O
furor divino não pede licença. Ele aparece.
E
talvez o ponto mais filosófico de tudo seja este:
o
furor divino não vem de fora — ele nos devolve o que já era nosso, mas que
tínhamos esquecido.
No
fim das contas…
O
furor divino é um remédio amargo, mas é remédio. É aquele estado em que a vida
nos toma pela gola e diz:
“Agora,
preste atenção.”
E
quando passa, ficamos meio tontos, estranhamente iluminados e, quem sabe, um
pouco mais próximos daquilo que podemos ser.
