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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Milagre Moderno


Há coisas que hoje acontecem tão rápido que não dão tempo nem de chamar de espanto. A gente apenas desliza o dedo na tela, recebe a notícia, reage com um “ah, que legal” e segue a vida. Se alguém do século XIII aparecesse agora na sala, talvez se ajoelhasse diante do Wi-Fi. Nós, não. Para nós, o extraordinário virou pano de fundo. É nesse ponto que o milagre moderno começa a ficar interessante: não porque ele deixou de existir, mas porque perdeu o nome.

Durante séculos, milagre era aquilo que interrompia a ordem do mundo. Um cego que vê, um morto que anda, o mar que se abre. Hoje, a ordem do mundo já nasce interrompida. Nada parece estável o suficiente para ser “quebrado” por um milagre. Tudo muda, tudo atualiza, tudo se reinventa.

O milagre moderno, curiosamente, não rasga as leis da natureza; ele as explora até o limite. Não é Deus suspendendo a gravidade, é o ser humano aprendendo a desobedecê-la parcialmente. Voar, falar com alguém do outro lado do planeta, armazenar uma vida inteira em um bolso — tudo isso seria lido como prodígio em qualquer outra época. Mas como vem acompanhado de manual de instruções e termos de uso, deixa de soar sagrado.

O sagrado, talvez, tenha sido terceirizado para a técnica.

O problema não é a ausência de milagres, mas a inflação deles. Quando tudo é possível, nada parece milagroso. A novidade dura pouco; logo vira obrigação. O que ontem era assombro, hoje é defeito se não funcionar.

Aqui surge um paradoxo: o milagre moderno não provoca silêncio, mas ansiedade. Ele não convida à contemplação, mas à atualização constante. Não se diz mais “graças a Deus”, e sim “ainda bem que tinha sinal”. O espanto foi substituído pela expectativa, e a gratidão, pela reclamação.

Talvez o milagre moderno seja justamente este: conseguir viver rodeado de prodígios sem enlouquecer completamente.

Mas há um tipo de milagre que ainda escapa aos algoritmos. Ele não aparece em manchetes, não vibra no bolso, não precisa de tomada. É o milagre da interrupção interior. Parar. Escutar. Mudar de ideia. Perdoar quando tudo empurra para o ressentimento. Continuar humano num mundo que recompensa a pressa e a performance.

Num tempo em que tudo pede reação imediata, pensar antes de responder já é quase sobrenatural. Em uma cultura que valoriza a exposição, preservar o silêncio virou ato raro. Em meio à lógica da substituição — pessoas, objetos, opiniões — insistir em cuidar do que é frágil pode ser o milagre mais improvável de todos.

Não porque seja impossível, mas porque exige esforço onde o mundo promete facilidade.

Talvez o milagre moderno não esteja no que acontece fora, mas no modo como algo nos desloca por dentro. Um encontro que muda o eixo da vida. Um livro lido por acaso. Uma conversa que desmonta certezas antigas. Nada explode, nada brilha, mas depois disso o mundo não é mais o mesmo.

Esse tipo de milagre não viola leis físicas, mas desorganiza mapas mentais. Ele não cura o corpo, mas mexe no sentido. E sentido, hoje, é artigo raro.

O milagre moderno não pede testemunhas, likes ou certificados. Ele acontece quase sempre à revelia do espetáculo. É discreto, silencioso, até meio constrangedor. Não rende postagem. Às vezes nem dá vontade de contar.

E talvez seja justamente aí que ele resista: no que não pode ser transformado em conteúdo. No que não vira produto. No que não se mede.

Num mundo que explica quase tudo, o milagre moderno não é aquilo que desafia a ciência, mas aquilo que desafia a indiferença. Continuar se espantando — não com o novo gadget, mas com o fato de ainda haver algo que nos toque — pode ser, hoje, a forma mais radical de milagre.

Não porque o céu tenha se aberto, mas porque, por um instante, nós nos abrimos.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Ímpios e a Maldade

Quando o mal aprende a falar baixo

Dezembro faz destas coisas com a gente, o Natal especialmente faz isto, ele nos faz pensar a respeito de coisas graves que vão sendo banalizadas e a gente vai se acostumando, a impiedade no automático. Há dias em que a palavra ímpio soa grande demais para o que vemos. Parece coisa de texto antigo, de profeta exaltado ou de sermão severo. Mas basta sair de casa, abrir o celular ou sentar numa reunião qualquer para perceber que a impiedade não desapareceu — ela só trocou de roupa. Hoje, ela não grita, não blasfema, não quebra altares. Ela sorri, cumpre horários, assina e-mails educados e diz: “não é nada pessoal”.

Este ensaio nasce dessa suspeita, deste momento natalino: penso que talvez a maldade contemporânea não esteja nos grandes crimes, mas na normalização silenciosa do dano. O ímpio moderno não é necessariamente violento; ele é indiferente. E a indiferença, quando organizada, pode ser mais devastadora do que o ódio explícito.

Tradicionalmente, o ímpio era aquele que rompia com o sagrado, que negava a ordem divina ou vivia como se ela não existisse. Mas numa época em que o sagrado foi diluído — não destruído, apenas diluído — a impiedade mudou de eixo. Hoje, o sagrado não é apenas Deus, mas o outro. A dignidade, o limite, a vulnerabilidade alheia.

Ser ímpio, então, é viver como se o outro fosse descartável.

Hannah Arendt falava da banalidade do mal: o mal que não nasce de monstros, mas de gente comum que abdica de pensar. O ímpio contemporâneo é justamente esse: alguém que terceirizou a consciência. Ele não decide se algo é bom ou mau; ele pergunta se é permitido, lucrativo ou conveniente.

A maldade raramente se apresenta como tal. Ela vem disfarçada de eficiência, de pragmatismo, de “realismo”. No cotidiano, ela aparece assim:

  • O chefe que humilha com ironia, mas diz estar “preparando para o mercado”.
  • O amigo que espalha uma informação íntima e justifica: “todo mundo já sabe”.
  • O cidadão que vê uma injustiça e pensa: “não é problema meu”.
  • O usuário de redes sociais que destrói alguém com comentários e depois dorme em paz.

Nada disso parece, isoladamente, maldade absoluta. Mas o ímpio não age pelo excesso — ele age pela repetição. Ele cria um mundo onde o dano é rotineiro e, por isso, invisível.

A maldade moderna não precisa odiar o bem; basta não se importar com ele.

Nietzsche já desconfiava da moral automática, daquela que não nasce da reflexão, mas do costume. Quando a moral vira hábito, ela também pode virar instrumento. O ímpio não se sente mau porque aprendeu a operar dentro das regras — mesmo quando essas regras produzem sofrimento.

Aqui surge um ponto decisivo: a maldade contemporânea se alimenta da dissociação entre ação e responsabilidade. Eu faço, mas não sou o autor; executo, mas não escolho; sigo ordens, algoritmos, tendências, normas.

O ímpio é aquele que diz: “eu só fiz a minha parte”.

E exatamente aí o mal encontra solo fértil: quando ninguém se sente responsável pelo todo.

Imagine alguém que atravessa diariamente um semáforo quebrado. No começo, hesita. Depois, acostuma-se. Um dia, quase atropela alguém — e se irrita com a pessoa, não consigo mesmo. A maldade funciona assim: ela começa como adaptação e termina como cinismo.

Ou pense na empresa que corta direitos pouco a pouco. Nada escandaloso. Um benefício aqui, um prazo ali. Quando alguém sofre, a resposta vem pronta: “é o sistema”. O sistema, essa entidade sem rosto, virou o novo deus — e o novo álibi dos ímpios.

O mais assustador no ímpio não é o que ele faz, mas o fato de não travar mais nenhuma batalha interior. Não há culpa, nem dilema, nem pausa. Ele age com fluidez. A consciência, quando aparece, é tratada como fraqueza.

Talvez o oposto do ímpio não seja o santo, mas o inquieto — aquele que ainda se pergunta: “isso que faço me diminui ou me amplia?”

O problema da maldade hoje é que ela não nos assusta. Ela se parece demais conosco. Usa as mesmas palavras, as mesmas justificativas, o mesmo cansaço. E é por isso que este ensaio não termina apontando culpados, mas espelhos.

A pergunta não é “onde estão os ímpios?”, mas:

em que momentos eu ajo como se o outro não importasse?

Talvez a verdadeira resistência à maldade não esteja em grandes gestos morais, mas em pequenos atos de interrupção: pensar antes de repetir, sentir antes de justificar, parar antes de ferir.

Num mundo que normalizou a impiedade, talvez o gesto mais radical seja simples — e profundamente filosófico: recusar a indiferença.

domingo, 24 de agosto de 2025

Sorrateiro Ostracismo

A Exclusão pelo Silêncio

Há exclusões que chegam com barulho: uma porta batida, uma ordem explícita, uma palavra cortante. Mas há outras que se instalam como poeira, devagar e sem anúncio. Não se trata de expulsar alguém do espaço comum, mas de apagar sua presença até que ela não incomode mais. É esse o ostracismo sorrateiro, tão enraizado em nosso cotidiano brasileiro que às vezes nem o percebemos — embora doa profundamente em quem o sofre.

Nas relações de trabalho, ele aparece no esquecimento calculado. O funcionário mais velho, ou o colega que pensa diferente, não é demitido, mas também não é convidado para o almoço de equipe, não é chamado para a reunião que decide os rumos do setor. Continua ali, sentado na mesma sala, mas com sua voz abafada por um muro invisível.

Na política, o ostracismo ganha a forma de indiferença coletiva. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos — todos ainda habitam o mapa, mas raramente habitam a agenda pública. São lembrados em datas específicas ou quando a tragédia explode, mas logo voltam ao silêncio estrutural. Não há proibição de fala, apenas a recusa em escutar.

Na cultura, a exclusão sorrateira aparece como uma seleção seletiva do que “vale” como arte. O samba de roda, o teatro comunitário, a poesia de periferia — tudo isso sobrevive com força, mas à margem, sem holofotes, sem financiamento. Enquanto isso, a indústria cultural escolhe o que exporta, como se só o que atravessa fronteiras fosse digno de memória.

E nas cidades? Basta andar pelas ruas para notar o pacto social tácito: pessoas em situação de rua não são oficialmente invisíveis, mas passamos diante delas como se fossem parte da paisagem. O silêncio dos passantes constrói uma barreira mais eficaz do que qualquer muro. É exclusão sem decreto, mas não menos cruel.

No espaço digital, o ostracismo sorrateiro encontra uma forma nova: o “vácuo”. Não há bloqueio, não há briga aberta, mas a ausência de resposta, a não-curtida, o comentário ignorado. A exclusão acontece pelo nada — e talvez por isso doa mais, porque a ausência é um buraco difícil de nomear.

O filósofo brasileiro Paulo Freire nos lembra que “calar a palavra do outro” é uma das formas mais profundas de opressão, pois nega ao sujeito o direito de existir no diálogo. E é justamente isso que o ostracismo sorrateiro opera: uma pedagogia silenciosa que corrói, não pelo choque, mas pelo esvaziamento.

Reconhecer esse mecanismo talvez seja o primeiro passo para enfrentá-lo. Pois resistir, aqui, não significa apenas gritar contra quem exclui, mas também romper o pacto do silêncio: olhar de volta, escutar de verdade, reincluir na roda quem foi deixado de fora. No fundo, o ostracismo sorrateiro só triunfa porque muitos aceitam calar junto.

E se há algo que a filosofia nos ensina é que a vida comum se sustenta no reconhecimento mútuo. Sem ele, restamos como sombras num palco iluminado — presentes, mas invisíveis.


segunda-feira, 21 de abril de 2025

Falsa Indiferença

Um ensaio filosófico com pegada de conversa sincera

Outro dia, vi uma cena no metrô que ficou martelando na minha cabeça. Um casal discutia baixinho, mas com aquele olhar de quem diz tudo mesmo quando não diz nada. Um deles soltou um “tanto faz” no final. Mas o “tanto faz” vinha envenenado, não era daqueles verdadeiros, de quem realmente não liga. Era o “tanto faz” que queria dizer: “se você não entende, não vou explicar, mas deveria entender”. Falsa indiferença. Essa arte de parecer que não se importa, quando por dentro tudo arde.

A falsa indiferença é um fenômeno curioso, quase uma performance cotidiana. É um mecanismo de defesa, claro, mas também um jogo de poder. No trabalho, alguém finge que não ligou para a crítica do chefe — mas passa o dia remoendo. Na amizade, o silêncio proposital vira uma punição disfarçada. E no amor, então? É território fértil: mensagens visualizadas e não respondidas, convites ignorados com sorrisos neutros, o clássico “vou ver e te aviso” que nunca se concretiza.

Nietzsche, se tivesse Instagram, talvez dissesse que a falsa indiferença é uma forma de ressentimento elegante. Não temos coragem de dizer o que sentimos — por medo de rejeição, por orgulho, ou por cansaço — então escolhemos parecer acima da situação. Só que essa atitude cobra seu preço: o distanciamento que cultivamos como escudo vira prisão. Como escreve Clarice Lispector, “perigo é não amar”. Mas perigo também é amar e fingir que não.

A falsa indiferença é irmã da vaidade e prima da insegurança. É uma forma de dizer: “se eu mostrar o quanto me importo, perco o controle”. Só que ninguém realmente está no controle. A vida, com seus acasos e espantos, escapa da nossa tentativa de blindagem emocional. Fingir que não sentimos não anula o sentimento — apenas o empurra para um porão interno, onde ele fermenta.

Tem gente que aprendeu a sobreviver sendo indiferente. Cresceu num lar onde demonstrar emoção era sinal de fraqueza. Conviveu com gente que só respeitava quem parecia “frio e calculista”. Mas sobreviver assim é bem diferente de viver. A indiferença, quando é verdadeira, é uma escolha consciente, às vezes até saudável. Mas quando é falsa, nos aprisiona no teatro do “tô nem aí” — e perdemos a chance do encontro real.

O filósofo francês Emmanuel Levinas pode nos ajudar aqui. Para ele, a ética começa no rosto do outro. Ou seja, não somos indiferentes por natureza: somos convocados à responsabilidade pelo simples fato de estar diante do outro. Fingir indiferença, nesse sentido, é uma recusa ética. Um jeito de calar a voz interior que nos chama à empatia.

No fim, a falsa indiferença é um pedido de socorro disfarçado. É o “me veja” que vem camuflado no “não me importo”. É o abraço engolido, a lágrima engessada, a palavra retida na garganta. Se queremos relações mais honestas — com os outros e conosco — talvez o primeiro passo seja admitir que sim, nos importamos. E que tudo bem se o outro souber disso.

Afinal, a verdade também precisa de coragem. E, às vezes, a maior revolução íntima é deixar cair a máscara da indiferença e dizer, com a voz trêmula mas firme: “isso me tocou, sim. E eu estou aqui.”