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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Eros contra Tânatos

Tem dias em que a gente acorda com vontade de fazer tudo dar certo — organizar a vida, responder mensagens, começar algo novo. E tem dias em que dá uma preguiça estranha, uma vontade de largar tudo e deixar o mundo correr sem a gente. Como se existissem duas forças puxando em direções opostas dentro de nós.

O curioso é que isso não é só impressão. Lá atrás, Sigmund Freud já falava dessa disputa interna: de um lado, Eros, o impulso de vida, de criação, de ligação. Do outro, Tânatos, o impulso de desgaste, de ruptura, de desligamento.

E o mais intrigante é perceber que essa batalha não acontece em grandes momentos dramáticos — ela está nas pequenas escolhas do dia a dia, quase invisível, mas constante.

“Eros contra Tânatos” parece nome de luta épica, mas acontece todo dia — às vezes no intervalo entre levantar da cama e decidir se você vai responder aquela mensagem ou simplesmente ignorar.

A ideia vem de Sigmund Freud, que propôs duas forças fundamentais dentro da gente. Eros, o impulso de vida: aquilo que conecta, cria, constrói, aproxima. Tânatos, o impulso de morte: aquilo que rompe, desgasta, destrói, afasta. Não no sentido literal de querer morrer o tempo todo, mas naquela tendência sutil de sabotar, desistir, deixar as coisas ruírem.

O curioso é que essas duas forças não vivem separadas. Elas coexistem — quase como dois sócios que não se suportam, mas precisam tocar a mesma empresa: você.

No cotidiano, isso aparece assim:

Você começa um projeto novo, cheio de energia. Eros puro. Ideias, planos, entusiasmo. Mas no terceiro dia vem aquela vontade de largar, de dizer “não vai dar certo mesmo”. Tânatos dá um tapinha no ombro e cochicha: “pra que insistir?”.

Ou então num relacionamento. Eros aparece no cuidado, no interesse, no desejo de entender o outro. Mas Tânatos surge quando você prefere o orgulho ao diálogo, o silêncio à resolução, a distância ao esforço. Não é um vilão claro — é mais como uma preguiça emocional que vai corroendo aos poucos.

Até nas pequenas coisas:

arrumar a casa vs. deixar acumular

cuidar do corpo vs. Negligenciar

falar o que precisa ser dito vs. evitar e deixar azedar

É sempre essa disputa silenciosa.

O ponto mais interessante

Freud não dizia que Tânatos é “mal” e Eros é “bom”. Isso simplificaria demais. Tânatos também tem sua função: ele encerra ciclos, dissolve o que já não serve, traz um tipo de descanso. O problema é quando ele assume o volante sem você perceber.

Porque aí a vida começa a ficar meio… desbotada. Não necessariamente trágica — só sem vitalidade.

Um jeito mais humano de olhar isso

Pensemos assim: Eros é aquilo que faz você querer participar da vida. Tânatos é aquilo que te puxa para fora dela.

E talvez o jogo não seja eliminar Tânatos (o que seria impossível), mas reconhecer quando ele está tomando decisões por você.

Às vezes, escolher Eros é uma coisa quase banal:

– responder a mensagem em vez de sumir

– terminar o que começou

– pedir desculpa

– sair para caminhar mesmo sem vontade

Não são grandes gestos heroicos. São pequenas insistências na vida.

No fim, “Eros contra Tânatos” não é uma guerra com vencedor final. É mais como uma negociação diária. E a pergunta que fica, meio incômoda, é simples:

quem você anda deixando decidir por você ultimamente?


sexta-feira, 12 de julho de 2024

Eros em Solidão

 

Sábado à tarde, sentado na cafeteria, observo o movimento ao redor. Pessoas vêm e vão, conversas se entrelaçam, risos e olhares se cruzam. Em meio a esse cenário, reflito sobre a solidão e o amor — mais especificamente, sobre Eros em solidão.

Eros, o deus grego do amor e do desejo, é frequentemente retratado como uma força que une, que liga indivíduos em busca de intimidade e conexão. Porém, e quando Eros se encontra sozinho? Como ele lida com a ausência daquilo que deveria buscar incessantemente?

A solidão, muitas vezes, é vista como a antítese do amor. Mas, paradoxalmente, é na solidão que muitos encontram o verdadeiro sentido de Eros. A busca pelo amor começa dentro de nós, no espaço silencioso e introspectivo da solidão. É nesse estado que entendemos nossos desejos, anseios e o que realmente procuramos no outro.

Penso na frase de Rainer Maria Rilke: "O amor consiste em que duas solidões se protejam, se toquem e se saúdem." Rilke sugere que a verdadeira conexão amorosa nasce quando duas pessoas, conscientes de suas próprias solidões, se encontram e respeitam essa individualidade. Assim, Eros em solidão não é um estado de desespero, mas um momento de preparação e autoconhecimento.

A solidão não precisa ser temida. Ela pode ser um período frutífero para o desenvolvimento pessoal e para a compreensão do que significa amar e ser amado. É na solidão que aprendemos a apreciar a nossa própria companhia, a valorizar quem somos sem a necessidade constante da validação externa.

Penso em meus próprios momentos de solidão. Às vezes, eles surgem no meio de uma multidão, outras vezes em casa, num silêncio quase palpável. E é nesses momentos que percebo a força de Eros dentro de mim, não como um desejo desesperado por conexão, mas como uma chama tranquila que ilumina meu caminho interno.

Aristóteles dizia que "o homem é um animal social". No entanto, para que nossas interações sociais sejam significativas, precisamos primeiro entender e aceitar nossa solidão. Eros em solidão nos ensina a apreciar a nós mesmos, a cultivar uma relação saudável com quem somos, para que, quando finalmente encontrarmos o outro, possamos oferecer uma versão completa e autêntica de nós mesmos.

Enquanto tomo meu café e observo as pessoas ao redor, percebo que cada um carrega sua própria solidão, seus próprios anseios e desejos. Eros caminha entre nós, ora sozinho, ora em busca de união, sempre nos lembrando da importância de abraçar nossa própria companhia antes de nos lançarmos aos braços de outro.

A solidão não é o fim de Eros, mas o começo de uma jornada mais profunda e significativa. É um convite para mergulharmos em nós mesmos, para descobrirmos quem somos e o que realmente desejamos, para que possamos, um dia, encontrar e abraçar o outro com verdade e plenitude.

E você, já encontrou seu Eros em solidão?