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domingo, 13 de setembro de 2026

Presenças


Para variar começo sem cerimônia, mas com delicadeza: você já entrou em um lugar e sentiu que algo ali o reconhecia? Não apenas você percebendo o espaço — mas o espaço, de algum modo, percebendo você. Não é medo. Não é certeza. É um sussurro. Chamo isso de presença.

Quando temos a presença de amigos que deixaram sua presença na literatura invocamos sua presença nos diálogos que travamos seja através de pensamentos, seja através de algo que escrevemos materializando a presença de alguma forma como a que virá a seguir.

“Presença não é um objeto entre objetos”, parece nos dizer uma voz antiga, como a de Heidegger, atravessando o pensamento — “é o próprio desvelar do ser no instante em que ele se mostra.” E, de repente, o que parecia apenas sensação ganha uma gravidade silenciosa: estamos diante de algo que não cabe nas coisas.

Presença não é apenas o que está. É o que acontece quando algo se torna vivo dentro de nós sem pedir explicação. Não ocupa apenas o espaço — ocupa o sentir. Ela não se mede em metros, mas em intensidade. Há presenças densas como pedra e outras leves como um pensamento que mal chegou e já transformou tudo.

Merleau-Ponty sussurra, quase ao ouvido: “não percebemos o mundo — nós o habitamos.” E nesse habitar, a presença não é externa nem interna, mas uma interseção. Um entrelaçamento onde o eu e o mundo deixam de ser separados e passam a ser acontecimento.

A filosofia tentou, com suas ferramentas afiadas, capturar o ser. Mas a presença escapa pelas frestas do conceito. Porque ela não é apenas ser — é revelação. É o instante em que o invisível decide tocar o visível sem se mostrar por completo. É o quase. O entre. O limiar onde o mundo deixa de ser apenas objeto e passa a ser encontro.

“Há algo que nos olha naquilo que vemos”, ecoa uma voz que lembra Rilke, suave e inquietante. E talvez seja isso que nos desarma: a sensação de que não somos apenas observadores, mas também observados por uma dimensão que não sabemos nomear.

No campo do espírito, a presença é ainda mais íntima. Não como algo distante ou sobrenatural, mas como uma proximidade silenciosa que atravessa o cotidiano. Há quem a chame de energia, outros de consciência, outros ainda de divino. Mas talvez todos estejam tentando nomear o mesmo sopro: uma companhia que não invade, apenas permanece.

“Deus está mais próximo de mim do que eu de mim mesmo”, murmura Agostinho, não como dogma, mas como experiência. E isso desloca tudo: a presença não é algo que se busca longe — é algo que se reconhece perto demais.

E se essa presença não estivesse “fora”, mas também emergisse de dentro? Porque há momentos em que nos tornamos mais do que nós mesmos — quando olhamos alguém com verdade, quando escutamos sem pressa, quando existimos sem defesa. Nesses instantes, somos presença. Não personagem, não função — mas presença.

Buber atravessa o texto como um encontro: “toda vida verdadeira é encontro.” E então compreendemos que presença não é isolamento espiritual, mas relação viva. É o instante em que o “eu” deixa de ser fechado e se abre ao “tu”.

Ser presença para alguém é um gesto profundamente humano e, ao mesmo tempo, sagrado. É estar sem fugir. É sustentar o instante sem querer dominá-lo. É oferecer silêncio quando o mundo grita. É permitir que o outro exista sem ser reduzido a uma ideia.

Simone Weil, com sua lucidez quase dolorosa, parece acrescentar: “atenção é a forma mais rara e pura de generosidade.” E atenção, aqui, é presença em estado puro — sem distração, sem apropriação.

Talvez seja por isso que a presença se aproxima do amor — não o amor que exige, mas o que testemunha. Amar, nesse sentido, é permanecer. É não se retirar do encontro, mesmo quando ele é sutil, frágil ou incompreensível.

Há, então, uma possibilidade que atravessa o pensamento como um fio invisível: e se o universo não for feito de coisas, mas de presenças? Presenças que se tocam, se atravessam, se reconhecem em diferentes níveis de silêncio. Nada estaria realmente vazio — apenas mais ou menos desperto.

Spinoza, sereno, talvez diria: “tudo o que é, é em Deus.” E, nesse horizonte, presença deixa de ser exceção — torna-se a própria textura do real.

O poeta diria que a presença é o modo como o mistério se deixa entrever. O filósofo diria que é o ser em sua forma mais imediata. O místico, talvez, fecharia os olhos — não para recusar a resposta, mas porque ali, no escuro interior, a presença se torna mais nítida.

E nós, onde estamos nisso tudo?

Talvez a verdadeira ausência não seja não estar — mas não sentir. Não perceber. Não permitir que o mundo nos atravesse.

“Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro desperta”, sopra uma última voz, como Jung atravessando o silêncio.

Presença, então, não é chegar a algum lugar.

É lembrar que nunca estivemos sozinhos.

E, por um instante raro, sustentar essa lembrança com todo o corpo — como se o invisível, enfim, respirasse em nós.

Agora para finalizar sem finalizar, mas para refletir pense em uma cena simples: uma cozinha no fim da tarde. A luz entra inclinada pela janela, o cheiro de café ainda paira no ar, e há uma cadeira vazia à mesa. Ninguém está ali — e, no entanto, algo permanece. Talvez a memória de uma conversa, o riso que ainda vibra nas paredes, o afeto que não se dissipou com a ausência do corpo. Você se senta e sente, sem precisar explicar, que aquele espaço está habitado por algo mais do que objetos. Não é fantasia: é presença. Como se cada gesto vivido ali tivesse deixado um rastro invisível, uma espécie de continuidade do ser que não se encerra no instante. E então você percebe que o cotidiano está cheio desses pequenos templos silenciosos, onde o invisível não apenas existe — ele insiste em ficar.

Mergulhando mais fundo, talvez o mais sutil ensinamento dessa sensação de falta seja um chamado silencioso ao agora: àquele que ainda está à mesa, à voz que ainda pode ser ouvida, ao olhar que ainda pode ser encontrado. Porque, tantas vezes, só percebemos a densidade de uma presença quando ela se torna ausência — e, nesse atraso do sentir, perdemos o instante em que o amor poderia ter sido mais inteiro. Há uma espécie de esquecimento cotidiano que nos distancia de quem está perto: respondemos sem escutar, olhamos sem ver, convivemos sem realmente encontrar. No entanto, a presença viva — aquela que respira diante de nós — pede apenas reconhecimento. Não grandioso, não perfeito, mas atento. Como se cada pessoa amada fosse, em si, um acontecimento irrepetível do universo. E talvez seja. Valorizar quem está próximo é, então, um gesto espiritual concreto: é acordar dentro do encontro antes que ele se torne apenas memória. É permanecer, enquanto ainda há tempo, no milagre discreto de não estarmos sozinhos — aqui, agora, juntos.


segunda-feira, 26 de maio de 2025

Origem Inquieta

De onde vem o mundo?

Estava outro dia na fila do pão, dessas que misturam cheiro de fermento com conversa fiada, quando ouvi uma senhora dizer ao neto: “Tudo isso foi Deus que fez, meu filho.” O menino respondeu: “Mas e antes de Deus?” Eu sorri com o canto da boca. Ali, entre o pão francês e o troco contado, surgiu de novo a pergunta mais antiga e mais angustiante: de onde vem o mundo?

Não se trata apenas de uma curiosidade cósmica. Essa questão tem unhas que arranham nossa paz, principalmente nas madrugadas insones ou nas tardes em que o sentido escorre como areia entre os dedos. Recordo de momentos de admiração ao olhar as ondas do mar beijando a areia branca, o pensamento naquele embalinho instigaram a me fazer a pergunta angustiante: De onde vem o mundo? O que havia antes do tempo, antes do espaço, antes da primeira ideia? Havia algo ou havia o nada? E, se havia o nada, como é que o nada virou alguma coisa?

A origem: entre mitos e equações

Desde os antigos, inventamos narrativas para acalmar esse abismo. Os gregos criaram o Caos, uma espécie de mistura primitiva sem forma, da qual emergiram os deuses e o mundo. Já os hindus falam de um ciclo eterno de criação, conservação e destruição — o universo como um respirar cósmico, sem começo fixo. A Bíblia começa com “No princípio”, mas nunca explica de onde veio o “princípio”. Os cientistas modernos trocam os deuses por o Big Bang, mas também tropeçam: de onde veio a singularidade inicial?

É curioso que, mesmo com telescópios que captam luz de bilhões de anos atrás, a pergunta permanece tão inquietante quanto nas cavernas. O mistério não diminuiu. Apenas sofisticamos o vocabulário da dúvida.

A metafísica do espanto

O filósofo alemão Martin Heidegger formulou a questão de forma ainda mais radical: “Por que há o ente e não antes o nada?” O que ele quer dizer é: a existência em si é um espanto. O fato de que algo, qualquer coisa — uma pedra, uma formiga, um pensamento — exista, já é mais difícil de explicar do que qualquer fórmula sobre a origem.

Porque, veja: o nada seria mais simples. O nada não precisa de explicação. Mas o mundo está aqui, insistente. Então, por que algo existe?

Alguns tentaram resolver isso dizendo que o mundo “sempre existiu”. Outros apelam a um criador eterno. Há os que dizem que é tudo ilusão — como os budistas, que falam de Maya, a aparência das coisas. Mas todas essas respostas, quando examinadas com calma, escorregam da mão como sabão molhado. Talvez o erro seja esse: querer que o mundo se explique como um enigma com solução única.

Você ainda está aí lendo este ensaio? Angustiado em saber as respostas?

Uma proposta inusitada: o mundo como erro fecundo

E se, em vez de um plano divino ou de uma sequência causal lógica, o mundo fosse fruto de um erro criativo? Como uma frase dita sem querer que muda o rumo da conversa. Como aquele gole de café que cai da mão e, ao pingar, revela a forma de um rosto no chão. Talvez o mundo tenha surgido como um acidente cósmico fecundo, um tropeço que gerou a dança.

O pensador brasileiro Rubem Alves dizia que talvez Deus tenha criado o mundo como quem escreve um poema, sem saber exatamente o final — apenas impelido por uma necessidade de beleza. Nesse sentido, o mundo não veio de um lugar, mas de um desejo. Não nasceu de uma origem definida, mas de uma ânsia de manifestação. Como um grito no escuro, como um riso sem motivo.

O mundo como pergunta, não como resposta

No fim das contas, talvez o mundo não tenha vindo de algum lugar porque ele é o próprio vir-a-ser. Ele não tem um ponto de partida fixo, mas é um fluxo, uma pergunta encarnada. A cada manhã que nasce, o mundo está se originando de novo. Cada olhar que se espanta é uma nova criação.

Talvez devêssemos parar de perguntar “de onde vem o mundo?” e começar a viver como se o mundo fosse um convite a criar sentidos. Um convite feito sem explicação, mas com infinita abertura.

Afinal, como dizia o poeta Rilke, “Viver as perguntas” talvez seja mais sábio do que querer todas as respostas.

E a pergunta ecoa de novo — talvez no fundo da xícara de café, talvez no silêncio entre dois olhares:

De onde vem o mundo?

Talvez ele venha exatamente daqui — do lugar onde essa pergunta pulsa.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Eros em Solidão

 

Sábado à tarde, sentado na cafeteria, observo o movimento ao redor. Pessoas vêm e vão, conversas se entrelaçam, risos e olhares se cruzam. Em meio a esse cenário, reflito sobre a solidão e o amor — mais especificamente, sobre Eros em solidão.

Eros, o deus grego do amor e do desejo, é frequentemente retratado como uma força que une, que liga indivíduos em busca de intimidade e conexão. Porém, e quando Eros se encontra sozinho? Como ele lida com a ausência daquilo que deveria buscar incessantemente?

A solidão, muitas vezes, é vista como a antítese do amor. Mas, paradoxalmente, é na solidão que muitos encontram o verdadeiro sentido de Eros. A busca pelo amor começa dentro de nós, no espaço silencioso e introspectivo da solidão. É nesse estado que entendemos nossos desejos, anseios e o que realmente procuramos no outro.

Penso na frase de Rainer Maria Rilke: "O amor consiste em que duas solidões se protejam, se toquem e se saúdem." Rilke sugere que a verdadeira conexão amorosa nasce quando duas pessoas, conscientes de suas próprias solidões, se encontram e respeitam essa individualidade. Assim, Eros em solidão não é um estado de desespero, mas um momento de preparação e autoconhecimento.

A solidão não precisa ser temida. Ela pode ser um período frutífero para o desenvolvimento pessoal e para a compreensão do que significa amar e ser amado. É na solidão que aprendemos a apreciar a nossa própria companhia, a valorizar quem somos sem a necessidade constante da validação externa.

Penso em meus próprios momentos de solidão. Às vezes, eles surgem no meio de uma multidão, outras vezes em casa, num silêncio quase palpável. E é nesses momentos que percebo a força de Eros dentro de mim, não como um desejo desesperado por conexão, mas como uma chama tranquila que ilumina meu caminho interno.

Aristóteles dizia que "o homem é um animal social". No entanto, para que nossas interações sociais sejam significativas, precisamos primeiro entender e aceitar nossa solidão. Eros em solidão nos ensina a apreciar a nós mesmos, a cultivar uma relação saudável com quem somos, para que, quando finalmente encontrarmos o outro, possamos oferecer uma versão completa e autêntica de nós mesmos.

Enquanto tomo meu café e observo as pessoas ao redor, percebo que cada um carrega sua própria solidão, seus próprios anseios e desejos. Eros caminha entre nós, ora sozinho, ora em busca de união, sempre nos lembrando da importância de abraçar nossa própria companhia antes de nos lançarmos aos braços de outro.

A solidão não é o fim de Eros, mas o começo de uma jornada mais profunda e significativa. É um convite para mergulharmos em nós mesmos, para descobrirmos quem somos e o que realmente desejamos, para que possamos, um dia, encontrar e abraçar o outro com verdade e plenitude.

E você, já encontrou seu Eros em solidão?