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domingo, 21 de dezembro de 2025

Espanto e Reverência


Como quem pensa alto, penso que há dias em que nada acontece — e, ainda assim, alguma coisa nos atravessa. Não é alegria, nem tristeza. É um silêncio com peso. A gente abre a janela, vê o céu fazendo o que sempre fez, e sente um leve desconforto: como isso continua existindo sem pedir explicação? É nesse intervalo estranho, entre o banal e o inexplicável, que moram o espanto e a reverência. Não como sentimentos raros, mas como modos de estar no mundo que desaprendemos a usar.

Vivemos treinados para reagir, não para nos espantar. Para dominar, não para reverenciar. O ensaio que segue é um convite a desacelerar o gesto automático e reaprender dois movimentos antigos do espírito: o espanto que abre, e a reverência que sustenta.

Desde Aristóteles sabemos — quase de cor, mas pouco de corpo — que a filosofia nasce do thaumázein, do espanto. Mas o que raramente se diz é que o espanto não nasce do extraordinário: ele nasce quando o ordinário falha em se explicar sozinho.

O espanto é uma fratura no hábito. É quando algo, sem fazer barulho, desarma nossas categorias.

No cotidiano, ele aparece de forma discreta:

  • quando uma criança faz uma pergunta óbvia demais (“por que as pessoas envelhecem?”) e nenhuma resposta funciona;
  • quando um pai percebe, de repente, que a voz do filho mudou;
  • quando alguém, no ônibus lotado, olha um rosto desconhecido e se dá conta de que ali há uma vida inteira inacessível.

O espanto não é ignorância; é lucidez súbita. Ele nos mostra que sabemos menos do que fingimos — e isso, paradoxalmente, nos torna mais atentos.

Mas o espanto, sozinho, é instável. Ele pode virar curiosidade superficial, consumo de novidade, ansiedade por mais estímulos. Para não se perder, ele precisa de um segundo gesto: a reverência.

A palavra reverência costuma causar desconforto moderno. Parece coisa de religião antiga, hierarquia rígida, obediência cega. Mas filosoficamente, reverenciar não é se diminuir — é reconhecer a medida do que não nos pertence.

Reverência é aceitar que nem tudo está à disposição da nossa vontade.

No dia a dia, ela se manifesta de modos quase invisíveis:

  • no cuidado ao entrar em um hospital, falando mais baixo sem que ninguém peça;
  • no respeito espontâneo diante de um idoso que não conhecemos;
  • no silêncio que se impõe quando alguém conta uma dor real.

Reverenciar é saber quando não transformar tudo em opinião, piada ou postagem. É conter o impulso de explicação total. Onde o espanto pergunta “o que é isso?”, a reverência responde: “talvez não seja tudo para mim”.

Aqui, espanto e reverência se encontram: o primeiro abre o mundo; a segunda impede que o fechemos rápido demais.

Nossa época sofre menos por falta de respostas e mais por saturação delas. Tudo é comentado, analisado, ranqueado. O mistério virou falha técnica; o silêncio, constrangimento.

O resultado é um mundo sem espanto e, portanto, sem reverência.

Se nada nos espanta, nada nos exige cuidado.

Isso aparece:

  • no consumo apressado de tragédias como se fossem notícias equivalentes;
  • na ironia constante diante de qualquer grandeza;
  • na incapacidade de permanecer diante de algo sem transformá-lo em conteúdo.

Sem espanto, perdemos a pergunta.

Sem reverência, perdemos o limite.

E sem ambos, a experiência empobrece: tudo é vivido, mas pouco é realmente encontrado.

Recuperar o espanto e a reverência não exige mudar de vida, mas mudar de ritmo. É uma ética do olhar lento.

Ela se ensaia em gestos simples:

  • olhar alguém falando sem antecipar a resposta;
  • aceitar que certos acontecimentos não “servem para nada”;
  • suportar a estranheza de não entender imediatamente.

Nesse sentido, o espanto não nos tira do mundo — ele nos devolve a ele. E a reverência não nos cala — ela nos ensina quando falar seria uma violência.

Talvez maturidade não seja acumular certezas, mas aprender onde colocá-las com delicadeza.

Espanto e reverência não são estados elevados reservados a místicos ou filósofos. São disposições esquecidas, sufocadas pela pressa e pela necessidade de controle.

Espantar-se é permitir que o mundo nos desinstale.

Reverenciar é não correr para se reinstalar no comando.

Entre um e outro, surge uma forma mais densa de presença: menos ansiosa por sentido, mais disponível para recebê-lo.

E talvez — só talvez — seja aí que a vida, sem fazer anúncio, volte a falar.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Sabedoria Instantânea

Reflexões Filosóficas sobre o Tempo e a Pressa no Mundo Contemporâneo

Este é mais um de meus momentos dezembrino de reflexão, este mês de dezembro carrega com ele toda sua energia de finalização e recomeço, o ano está chegando ao fim e sinto que o ano que finaliza avançou com tudo muito rápido, tudo muito instantâneo.

A ideia de sabedoria instantânea soa quase como um paradoxo em minha mente. Percebi que vivemos em uma época em que tudo é rápido: notícias, comida, relações, decisões. Tudo precisa ser resolvido agora. "Instantâneo" se tornou uma palavra que define não apenas a tecnologia, mas também o modo como buscamos respostas e soluções para a vida cotidiana. Então, o que significa ser "sábio" em um mundo onde a pressa parece ser a regra?

Eu estava pensando nisso outro dia enquanto observava o movimento frenético das pessoas ao meu redor. Alguém, com pressa de sair de casa, mal teve tempo de se despedir dos filhos, já estava no carro e, no minuto seguinte, mandando uma mensagem urgente. A vida não para, e nesse turbilhão, a ideia de sabedoria instantânea vai ganhando força. Mas será que, ao buscar sabedoria de forma tão rápida, não estamos perdendo o que é essencial: o tempo para refletir, para parar e simplesmente ser?

O que é Sabedoria?

A sabedoria não se resume apenas ao conhecimento. Para Aristóteles, por exemplo, ela era uma virtude intelectual, algo que se alcança com prática e experiência. Sabedoria é mais do que ter informações; ela envolve um tipo de discernimento profundo sobre o que realmente importa e como reagir de maneira equilibrada e justa aos desafios da vida. A sabedoria, então, é uma qualidade que requer tempo. E aqui mora o dilema: como podemos ser sábios em um contexto que nos exige decisões rápidas, onde a reflexão profunda parece ser um luxo que não podemos nos dar?

A Sabedoria Instantânea nas Pequenas Coisas

É interessante como o cotidiano moderno reflete essa busca por sabedoria instantânea. Um exemplo clássico é quando estamos navegando pela internet, buscando uma resposta para uma pergunta. Em questão de segundos, encontramos milhares de respostas, fóruns, vídeos explicativos. Essa rapidez nos dá a sensação de que conseguimos resolver tudo de forma eficiente, mas será que a "sabedoria" que obtemos dessa forma é verdadeira? Será que, ao procurar uma solução rápida, não estamos negligenciando a complexidade da questão?

Outro exemplo pode ser visto nas interações sociais. Você já reparou como, em uma conversa, muitas pessoas estão mais focadas em responder rapidamente do que realmente ouvir o outro? Esse comportamento, muitas vezes impulsionado pela urgência de encontrar uma resposta ou uma solução, faz com que, em vez de construir uma troca profunda de ideias, criemos um ciclo de respostas superficiais. A verdadeira sabedoria, talvez, não resida em sempre ter uma resposta pronta, mas em saber escutar, em entender o outro sem pressa.

Filosofia e a Pressa do Mundo

O filósofo francês Henri Bergson, que refletiu sobre o tempo, nos traz uma perspectiva interessante. Para ele, o tempo não é algo que possa ser medido apenas em segundos ou minutos, mas sim vivido de forma qualitativa. Em um mundo onde tudo é pressa, a verdadeira sabedoria talvez esteja em desacelerar e perceber o "tempo vivido" – aquele que não pode ser apressado, mas que se revela lentamente, no presente, nas experiências do dia a dia.

Imaginemos, então, uma pessoa que está esperando numa fila, com o olhar impaciente, checando o celular, descontente com a "perda de tempo". Se ela se permitisse, no entanto, observar o que está ao seu redor – as conversas das outras pessoas, os detalhes do ambiente, o movimento das coisas – ela poderia descobrir, de forma quase inesperada, um momento de sabedoria. Aquele tempo "perdido" pode se transformar em algo significativo, um pequeno instante de percepção mais profunda sobre o que realmente importa.

A Sabedoria como Transformação, não Resposta Rápida

Ao invés de buscar por respostas rápidas, talvez a sabedoria esteja em permitir-se ser transformado pelas experiências, sem a pressa de precisar de uma conclusão imediata. Não se trata de ter a resposta instantânea, mas de permitir que o processo de questionamento e reflexão nos leve a uma compreensão mais rica, mais profunda e, acima de tudo, mais humana.

Portanto, a sabedoria instantânea, como um conceito, não parece se encaixar muito bem na filosofia clássica ou mesmo na maneira como a vida realmente funciona. O que encontramos em nossas interações rápidas e decisões precipitadas muitas vezes é apenas uma ilusão de controle. No entanto, ao desacelerar, ao buscar compreender o tempo e as experiências com mais profundidade, podemos descobrir uma sabedoria mais rica – a sabedoria de estar plenamente presente e consciente no fluxo da vida.

Quem sabe, no final das contas, a verdadeira sabedoria não seja algo que possamos conquistar de forma instantânea, mas sim algo que se revela a partir da paciência, da escuta e da reflexão cuidadosa sobre o que realmente importa, sem pressa. As festas de final de ano estão logo ali, hoje pensamos nos preparativos para que tudo seja feito com o melhor, aproveitemos esta distancia no tempo para desacelerar e reduzir a velocidade do caminhar, do olhar, do ouvir, procurando sentir mais e dar-nos tempo de processar a energia que desde já está impregnando nossa atenção.

Penso que esse ensaio reflete a nossa busca incessante por respostas rápidas e soluções prontas. O que você acha disso? Já teve momentos em que sentiu que a sabedoria veio de um instante simples do dia a dia?


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Contemplação Catártica

Reflexões sobre ver, reconhecer e se libertar

Em meio ao barulho cotidiano, há um gesto antigo e revolucionário: contemplar. Mas nem toda contemplação é passiva. Existe uma forma de olhar que purifica, que destrava o que está entalado no peito — chamemo-la de contemplação catártica. É quando ver se torna uma experiência de libertação.

Diferente da mera observação estética ou da apreciação descomprometida do belo, a contemplação catártica é intensa, quase incômoda. Não se limita a quadros, paisagens ou sinfonias. Pode acontecer diante do rosto de alguém adormecido, de uma casa em ruínas ou de um silêncio que pesa. Nesse olhar, algo se move dentro de nós. E o que antes era represado se dissolve.

Aristóteles, na Poética, descreve a catarse como o processo pelo qual o espectador da tragédia se liberta das paixões por meio do medo e da piedade. Mas podemos ir além do palco. Em nossa vida ordinária, também assistimos a dramas reais. E há momentos em que ver — verdadeiramente ver — nos limpa por dentro. A contemplação catártica ocorre quando reconhecemos a dor do outro, a finitude das coisas, ou até mesmo nossa insignificância diante do tempo, e isso nos transforma. Sentimos tristeza, mas não ficamos presos nela; sentimos espanto, mas não fugimos. Saímos modificados.

Nas relações humanas, a contemplação catártica se manifesta no momento raro em que olhamos alguém sem o filtro do julgamento, do interesse ou da distração. É o instante em que enxergamos o outro como um ser ferido, complexo e igualmente vulnerável. Às vezes, basta ver um amigo chorar em silêncio ou notar a hesitação na fala de um parente para que algo em nós ceda. Contemplar, nesse caso, é acolher a presença do outro sem tentar consertá-lo, é permitir-se ser tocado pela verdade alheia. E isso nos liberta de papéis, máscaras e defesas, criando um espaço de conexão onde, por um segundo, somos profundamente humanos juntos.

O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, em A Salvação do Belo, aponta que na sociedade atual a estética foi domesticada e anestesiada. O belo perdeu sua capacidade de ferir, de comover, de exigir algo de nós. A contemplação virou consumo rápido. No entanto, Han também sugere que o verdadeiro belo ainda pode nos desestabilizar. A contemplação catártica resgata esse poder: ver algo com tal profundidade que nos obriga a sair de nós mesmos — e, assim, nos reencontrar.

Não se trata de procurar grandes espetáculos. A catarse pode nascer ao assistir a queda de uma folha, ao ouvir alguém contar sua história sem interromper. Trata-se de sustentar o olhar, deixar-se afetar, deixar cair as defesas. Nesse sentido, contemplar é um ato de coragem e de abertura ao que excede o eu.

Em tempos de aceleração e distração, a contemplação catártica é uma forma de resistência. É quando não nos contentamos com o que salta aos olhos, mas permitimos que o mundo nos toque de maneira profunda — e, por isso mesmo, nos purifique. Ela não nos salva do sofrimento, mas nos devolve à inteireza de quem sente, compreende e atravessa.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Essencialismo

 

Estava aqui pensando: ainda somos o que nascemos para ser?

A gente costuma ouvir desde pequeno que certas pessoas "nasceram para aquilo". Tem gente que "já nasceu líder", "tem o dom do cuidado", ou "é artista desde o berço". E o curioso é que, às vezes, a própria pessoa acredita nisso também. Mas será mesmo que existe algo em nós que já vem pronto, desde sempre? Algo essencial que define quem somos, o que queremos, e como devemos viver? Foi pensando em uma conversa sobre profissões que não combinam com a pessoa, sobre jeitos de ser que "não têm nada a ver com ela", que o tema do essencialismo me voltou à cabeça.

Na filosofia, o essencialismo é essa ideia de que as coisas — inclusive as pessoas — têm uma essência fixa e imutável. Que há algo dentro de nós, anterior a qualquer escolha, que determina o que somos de verdade. É uma noção antiga, com raízes em Platão e Aristóteles. Para Platão, existiria um mundo das ideias perfeitas, e tudo que vemos é uma cópia imperfeita daquilo. Para Aristóteles, cada ser tem uma essência que define seu propósito: a semente tem a essência da árvore, o cavalo tem a essência de correr, o ser humano, a de pensar.

Mas o essencialismo não ficou lá na Grécia Antiga. Ele atravessa os séculos e se esconde nas frases que repetimos no dia a dia: "mulher que é mulher cuida da casa", "homem que é homem não chora", "você não nasceu pra isso". Ou seja, usamos a ideia de essência pra justificar o que as pessoas podem ou não podem ser. E isso pode ser bem limitador.

O essencialismo também aparece com força nos debates sobre cultura, imigração e emigração. Quando se diz, por exemplo, que “o brasileiro é naturalmente caloroso” ou que “o europeu é frio por essência”, estamos usando uma lente essencialista para descrever comportamentos que, na verdade, são históricos, sociais e aprendidos. Esse tipo de visão pode ser perigoso, pois congela culturas em estereótipos e dificulta o acolhimento de quem migra. Um imigrante é, muitas vezes, visto como alguém que “não pertence”, como se fosse impossível ele se adaptar sem “trair sua essência”. Já quem emigra pode sofrer cobranças para “não esquecer suas raízes”, como se fosse errado mudar. O essencialismo cultural alimenta fronteiras invisíveis, mesmo quando os passaportes dizem que a viagem foi feita. Entender que identidades culturais são flexíveis e híbridas permite que pessoas vivam o que são hoje, sem serem prisioneiras do que se espera que sejam.

As questões de gênero também são fortemente atravessadas pelo pensamento essencialista. Quando se diz que homens são naturalmente racionais e mulheres, naturalmente emocionais, está se ignorando o papel das construções sociais e das expectativas culturais. Crianças são criadas com brinquedos, roupas e ideias diferentes desde o berço, e depois essas diferenças são lidas como “naturais”. Pior: pessoas trans ou não-binárias muitas vezes são vistas como “contra a natureza” simplesmente porque não se encaixam nos padrões fixos do que se supõe ser um homem ou uma mulher. Mas o gênero, como tantas outras dimensões da vida humana, pode ser visto como uma experiência vivida, múltipla e fluida, e não como algo pré-definido por um manual biológico. Questionar o essencialismo de gênero é abrir espaço para mais liberdade, mais respeito e mais possibilidades de ser.

O existencialismo, especialmente com Jean-Paul Sartre, vai criticar essa visão. Para ele, a existência vem antes da essência. Ou seja, nós não temos uma essência pronta — nós a construímos com nossas escolhas. Não há um “ser mulher” ou “ser homem” dado por natureza, mas um tornar-se. Simone de Beauvoir diria: “Não se nasce mulher: torna-se mulher”. Aqui, a liberdade entra em cena. Somos responsáveis pelo que fazemos com o que fizeram de nós.

No cotidiano, pensar fora do essencialismo significa permitir que uma menina queira ser mecânica e que um menino possa gostar de balé sem que ninguém diga que “isso não combina com ele”. É aceitar que alguém pode mudar de carreira aos 50 anos, ou que uma pessoa tímida pode se tornar uma excelente oradora. O perigo do essencialismo é que ele parece inocente, mas acaba sustentando preconceitos, desigualdades e até violências.

O filósofo contemporâneo brasileiro Vladimir Safatle chama atenção para como o essencialismo serve muitas vezes para conservar estruturas de poder:

“Toda vez que alguém disser que algo é da ‘natureza humana’, é bom desconfiar — essa frase costuma ser o fim da conversa e o início da dominação.”

Nas redes sociais, o essencialismo ganha uma vitrine global e um microfone potente — ali, traços individuais ou culturais são frequentemente reduzidos a rótulos rápidos e julgamentos prontos: “isso é típico de mulher”, “isso é coisa de latino”, “fulano tem alma de artista”, como se um vídeo curto ou uma frase de efeito revelasse a essência profunda de alguém. Nesse palco planetário, onde bilhões se observam em tempo real, o essencialismo é reforçado pelos algoritmos que preferem identidades fixas e previsíveis, fáceis de segmentar e vender. O perigo é que, sob o pretexto da autenticidade, muitos acabam encenando versões de si mesmos que se encaixem nas expectativas do público — virando personagens de uma essência construída para ser consumida.

Desconfiar do essencialismo não significa negar que temos traços, preferências, temperamentos. Mas significa entender que isso tudo é matéria viva, que muda com o tempo, com os encontros, com as experiências. Talvez não sejamos aquilo que nascemos para ser — talvez sejamos aquilo que ousamos construir em nós mesmos.

E isso é tão mais libertador, não?

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Silogismos

Quando a Lógica Quer Brincar de Filosofia...então, nas filas do cotidiano há uma fartura de situações interessantes, eis mais uma.

Outro dia, na fila do mercado, ouvi um rapaz dizer com convicção: “Todo mundo que come chocolate fica feliz. Eu comi chocolate. Logo, estou feliz.” E deu algumas risadas! Na hora, achei engraçado. Mas depois, pensando melhor, percebi que ali havia um silogismo meio torto, uma tentativa involuntária de organizar o mundo com lógica. E não é exatamente isso que fazemos o tempo todo? Tentamos entender a vida encaixando coisas em pequenas fórmulas, como se fossem peças de LEGO. Só que nem sempre o castelo que montamos se sustenta.

O silogismo, do modo clássico, é uma forma de raciocínio dedutivo. Aristóteles o formalizou: uma premissa maior, uma premissa menor e uma conclusão. Por exemplo:

  • Todo homem é mortal.
  • Sócrates é homem.
  • Logo, Sócrates é mortal.

Simples, elegante, racional. Mas a questão é: a vida cabe nesse tipo de raciocínio? Ou melhor, quantos erros profundos de julgamento nascem justamente de silogismos bem montados, porém com premissas equivocadas?

Todo sucesso é fruto de esforço. João se esforçou. Logo, João terá sucesso.
Essa conclusão, apesar de parecer justa, muitas vezes falha. E é aí que começa a nossa provocação.

Quando a razão tropeça no próprio salto

O filósofo Theodor Adorno dizia que a razão instrumental — aquela que organiza, mede e calcula — pode se transformar em uma armadilha. O silogismo, ferramenta pura da razão, às vezes ignora a textura da realidade. Ele presume uma verdade universal na primeira premissa, e esse é o ponto cego.

Todo político mente. Fulano é político. Logo, Fulano mente.

Essa forma de pensar fecha a porta para a singularidade, para a exceção, para o imprevisto. Vira um jogo lógico com ares de sentença moral.

O perigo da lógica em série

Vivemos tempos em que os silogismos correm soltos nas redes sociais. Há sempre alguém dizendo:
Se você discorda de mim, é porque está mal informado. Você discorda de mim. Logo, está mal informado.

É um tipo de lógica travestida de arrogância. Ela não convida à conversa; ela elimina o outro com uma estrutura que parece racional, mas é emocionalmente autoritária. O silogismo virou meme, virou julgamento sumário, virou algoritmo mental.

A beleza de quebrar o formato

Mas e se usássemos o silogismo para algo mais criativo? Algo mais filosófico? O pensador francês Gaston Bachelard dizia que o conhecimento não avança por continuidade, mas por rupturas. Então, por que não imaginar silogismos paradoxais?

  • Toda certeza cansa.
  • Os sábios são cheios de dúvidas.
  • Logo, os sábios descansam.

Ou este:

  • Quem ama, escuta o silêncio.
  • O silêncio não se explica.
  • Logo, o amor não se explica.

Esses silogismos não são “corretos” no sentido lógico, mas abrem caminhos de reflexão, como se a lógica tivesse aprendido a dançar. Eles nos fazem pensar para além da rigidez da forma, tocando um saber que não cabe em fórmulas: a sabedoria.

O silogismo é um convite à ordem, à clareza. Mas o mundo não é claro nem ordenado. Se por um lado ele nos ajuda a organizar ideias, por outro, pode nos cegar para aquilo que escapa às regras — o poético, o ambíguo, o contraditório.

No fim das contas, talvez o melhor silogismo seja este:

  • Toda lógica tem limites.
  • A vida está além dos limites.
  • Logo, a vida está além da lógica.

E se isso não for lógico, talvez seja exatamente por isso que vale a pena pensar sobre.

terça-feira, 20 de maio de 2025

O Terceiro Homem

Quando a lógica escorrega no próprio sapato...

Recordo que numa aula de lógica, um colega perguntou: "Se tudo o que participa de uma ideia é semelhante a ela, então por que precisamos de mais uma ideia para explicar essa semelhança?". A turma parou. O professor coçou a cabeça. E eu me lembrei de Aristóteles, que já tinha feito essa pergunta dois mil e tantos anos atrás — com um toque de ironia e muita precisão. Era o famoso problema do terceiro homem.

E não, não tem nada a ver com filmes de espionagem nem com identidades secretas. Tem a ver com lógica pura. Ou melhor, com o limite da lógica quando ela tenta explicar o mundo com ideias demais.

A ideia da ideia da ideia...

Vamos supor que você está tentando entender o que é o conceito de "homem". Platão diria: existe um mundo das Formas, onde está a Forma perfeita do Homem. Tudo o que é humano participa dessa Forma. Até aí, beleza.

Mas Aristóteles levanta uma sobrancelha: “Se Sócrates, Platão e Aristóteles são todos homens porque participam da Forma 'Homem', e essa Forma também é semelhante a eles (afinal, é um Homem), então ela também participa de outra Forma superior. E assim por diante.”

Resultado? Para explicar o que é um homem, precisaríamos de uma infinita escadaria de Formas de Homens. Um labirinto lógico. E o conceito de "Homem" nunca chega a lugar nenhum. A lógica implode em si mesma.

Forma x Substância: onde mora a realidade?

Aqui entra a diferença fundamental entre Platão e Aristóteles. Platão acreditava que a realidade verdadeira estava nas Formas, essas ideias puras, perfeitas, imutáveis — que vivem num tipo de “céu” metafísico. As coisas que vemos aqui são apenas sombras imperfeitas dessas ideias eternas.

Já Aristóteles dava um passo diferente: ele dizia que o que existe de verdade é o que está aqui, composto de matéria e forma. E que não precisamos de uma Forma separada para entender o que uma coisa é — a forma está na própria coisa, como a receita está no próprio bolo, não numa padaria celestial.

Portanto, para Platão, buscamos a explicação do "Homem" em outra dimensão, no mundo das ideias. Para Aristóteles, olhamos para o ser humano real e vemos ali a substância: corpo (matéria) e alma (forma) juntos, inseparáveis.

A crítica do Terceiro Homem é, no fundo, uma defesa aristotélica de que as explicações não devem se afastar demais do mundo que pisamos.

O Terceiro no cotidiano: quando a explicação vira vício

Essa ideia pode parecer distante, mas ela aparece o tempo todo no dia a dia. Já viu alguém que precisa sempre de mais uma justificativa para tudo? Você diz: "Isso é errado". A pessoa pergunta: "Por quê?" Você responde: "Porque prejudica os outros". E ela: "E por que isso é ruim?" — e assim vai, como uma criança que sempre pergunta "por quê" até a paciência acabar.

A busca infinita por uma explicação superior pode levar ao mesmo paradoxo do Terceiro Homem: você nunca chega a uma conclusão sólida, porque está sempre querendo fundamentar o fundamento.

O risco de confiar demais em modelos ideais

O argumento do terceiro homem é uma crítica à obsessão platônica por ideias perfeitas. Aristóteles está dizendo: cuidado com essa mania de criar Formas para explicar tudo. Às vezes, a própria realidade, com suas imperfeições, explica mais do que o ideal.

Na prática? Esperar por um “amor ideal” pode impedir alguém de enxergar a beleza de um afeto real. Procurar a “amizade perfeita” pode cegar para companheiros leais que não cabem na teoria. O terceiro homem é aquele ideal inatingível que aparece toda vez que recusamos aceitar o mundo como ele é.

As vezes o segundo basta

O argumento do terceiro homem mostra que a lógica, se não for bem calibrada, entra em loop. E que talvez seja melhor ficar com o segundo homem mesmo — aquele que está aqui, de carne e osso, sem precisar de uma essência metafísica para existir.

Aristóteles nos lembra que buscar a essência pode ser nobre, mas que a realidade concreta tem sua própria dignidade. Às vezes, é mais sábio parar de criar ideias sobre ideias e simplesmente viver com aquilo que já faz sentido.

Como diria um velho professor de lógica: o problema do terceiro homem começa quando a gente tem vergonha do segundo.

sábado, 15 de março de 2025

Poder da Abstração

Entre o Vago e o Essencial

Abstrair é um pouco como fazer uma mala para uma viagem: nem tudo cabe, nem tudo é necessário. A arte de selecionar o que importa e deixar de lado o excesso é um movimento que define não apenas nosso pensamento, mas a própria maneira como nos relacionamos com o mundo.

Imagine um pintor que deseja capturar a essência de uma paisagem. Ele não pinta cada folha, cada grão de areia ou cada reflexo d'água. Ele reduz formas, sintetiza cores, sugere detalhes. Esse processo, que parece tão intuitivo, é na verdade um dos fundamentos mais sofisticados do pensamento humano: a abstração.

O Caminho da Abstração: Do Concreto ao Universal

Desde criança aprendemos por abstração. Quando reconhecemos um cachorro, mesmo que cada cachorro seja diferente, já abstraímos sua "cachorridade". Esse processo ocorre também na linguagem, na matemática, na arte e na filosofia. Mas abstrair não significa apenas simplificar, e sim capturar padrões, conectar ideias, ver além da aparência imediata das coisas.

Os antigos gregos já sabiam disso. Platão, por exemplo, propôs que o mundo sensível é uma sombra imperfeita do mundo das ideias, onde está o verdadeiro conhecimento. Aristóteles, por outro lado, defendia que a abstração surge da experiência: conhecemos a partir do que observamos, e extraímos conceitos universais do particular.

Abstração e Realidade: O Perigo do Distanciamento

Se a abstração é uma ferramenta poderosa para entender o mundo, também pode se tornar um labirinto. Quando nos afastamos demais do concreto, corremos o risco de perder o contato com a realidade. Conceitos excessivamente abstratos podem tornar-se vazios, desconectados da prática, como acontece em certas teorias acadêmicas que poucos conseguem aplicar na vida real.

Em nossa era digital, a abstração tomou uma nova dimensão. Mapas não são territórios, e algoritmos moldam nosso cotidiano sem que possamos enxergar suas engrenagens. O mundo virtual é uma abstração extrema, onde relações sociais são mediadas por signos e avatares. O problema surge quando esquecemos que a vida não é apenas código, dados e representações.

Abstrair para Compreender, Mas Nunca Para Esquecer

A abstração é uma forma de ver além, mas também exige equilíbrio. Não podemos nos perder em conceitos puros e esquecer a concretude do mundo. Se um bom artista sabe o que omitir para ressaltar o essencial, um bom pensador deve saber até onde pode abstrair sem se desconectar da realidade.

No fim das contas, a vida também é uma grande abstração. Cada um de nós faz recortes, escolhe o que lembrar, o que ignorar, o que valorizar. E talvez a grande sabedoria esteja exatamente nisso: saber o que deixar de fora para que o que resta brilhe com mais intensidade.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Celular nas Escolas

O dilema sobre o uso de celulares nas escolas é mais profundo do que parece. À primeira vista, pode ser reduzido a uma questão de ordem prática: proibir ou liberar? No entanto, ele toca em questões filosóficas fundamentais sobre o papel da tecnologia, a educação e a formação do ser humano. Ao discutir o tema, devemos perguntar não apenas “o que é mais eficiente?”, mas também “o que é mais humano?”.

O Celular como Ferramenta ou Distração

O filósofo Martin Heidegger nos alerta que a tecnologia não é apenas um conjunto de ferramentas, mas uma forma de revelar o mundo. Um celular na mão de um estudante não é apenas um aparelho; é uma janela para o mundo digital, um espaço que compete diretamente com o ambiente físico da sala de aula. Enquanto o professor explica um conceito, o celular pode sussurrar convites mais sedutores: vídeos, mensagens, memes.

Libertar o uso do celular sem critérios pode transformar a sala de aula em um espaço de dispersão. Contudo, proibi-lo completamente pode ser uma negação da realidade contemporânea. Como equilibrar? Talvez a resposta resida naquilo que Paulo Freire chamaria de educação dialógica: não impor regras de cima para baixo, mas envolver os estudantes em uma discussão sobre o uso ético e responsável da tecnologia.

O Paradoxo da Liberdade

Liberar o uso do celular é um gesto de confiança e autonomia, mas será que os jovens estão preparados para exercer essa liberdade? Isaiah Berlin nos lembra que existem duas concepções de liberdade: a positiva (autonomia para tomar decisões conscientes) e a negativa (ausência de restrições externas). Liberar o celular sem ensinar o estudante a usá-lo conscientemente é cair na armadilha da liberdade negativa: o aparelho deixa de ser um meio para se tornar um fim.

A liberdade verdadeira, nesse contexto, exige educação. Os jovens precisam entender que o celular é tanto um potencializador do aprendizado quanto uma armadilha para a distração. Ensinar isso, entretanto, é um desafio que recai sobre os professores, que já enfrentam sobrecargas em suas funções.

A Educação e o Tempo

Outro aspecto fundamental é a relação entre o uso do celular e o tempo. O filósofo Byung-Chul Han critica nossa era pela fragmentação da atenção e pela constante aceleração. O celular, com suas notificações incessantes, insere os jovens em um ritmo que pode ser antagônico à essência da educação, que requer paciência, reflexão e atenção plena.

Proibir o celular na sala de aula pode ser uma tentativa de proteger os estudantes desse tempo fragmentado. Por outro lado, integrar o celular como ferramenta pedagógica — aplicativos de aprendizado, pesquisas guiadas, aulas interativas — pode ensinar os jovens a reconciliar tecnologia e atenção, formando cidadãos mais conscientes do uso do tempo.

O Caminho do Meio

A solução para o dilema talvez esteja em um equilíbrio entre proibição e liberdade. Inspirando-se na ética aristotélica, podemos buscar a virtude do meio-termo: não o uso irrestrito, nem a proibição total, mas um uso mediado pela reflexão e pelo contexto. O celular poderia ser permitido em momentos específicos, sob regras claras e com objetivos pedagógicos bem definidos.

Além disso, é essencial promover o diálogo entre professores, estudantes e famílias. A criação de contratos sociais sobre o uso do celular — como acordos para desligá-lo em momentos cruciais ou limitar as notificações — pode reforçar a responsabilidade coletiva.

O debate sobre celulares nas escolas não deve ser visto apenas como uma questão prática, mas como um convite para refletirmos sobre os valores que desejamos cultivar na educação. Ao decidir se liberamos ou não o celular, estamos, na verdade, decidindo que tipo de seres humanos queremos formar: consumidores passivos da tecnologia ou cidadãos críticos e autônomos?

A resposta, portanto, não está em uma proibição ou liberação simplista, mas em um projeto educacional que integre tecnologia, ética e reflexão. Afinal, como diria Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”. Que o celular, então, seja uma possibilidade, e não um obstáculo.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Critério da Vida

O que significa viver bem? Mais ainda, como podemos determinar se estamos, de fato, vivendo ou apenas passando pela vida? A ideia de um "critério da vida" nos leva a questionar quais parâmetros utilizamos, consciente ou inconscientemente, para avaliar a qualidade e a autenticidade de nossa existência.

O Critério da Vida como Prática

Aristóteles, em sua busca pela eudaimonia (felicidade ou realização plena), propôs que a vida boa está enraizada na atividade conforme a virtude. Para ele, a prática de virtudes como coragem, temperança e justiça seria o norte para uma vida significativa. No entanto, essa visão exige um esforço constante: viver bem é um projeto diário, uma prática contínua, e não uma conquista estática.

Por outro lado, Friedrich Nietzsche desafiou as noções tradicionais de virtude ao propor o conceito do Übermensch (além-do-homem), um ideal de existência que transcende os valores herdados e estabelece seus próprios critérios de significado. Nietzsche nos pergunta: somos capazes de criar valores que ressoem profundamente com a nossa individualidade, ou estamos apenas imitando normas externas?

Vida ou Sobrevivência?

Uma inovação no debate sobre o critério da vida surge quando contrastamos viver com sobreviver. Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, nos alerta para as armadilhas de uma vida que se reduz à repetição de papéis e rotinas, muitas vezes impostos pela sociedade. A sobrevivência, nesse contexto, é apenas um estar no mundo, enquanto a vida autêntica exige escolhas conscientes que rompam com a passividade.

Nesse sentido, viver é um ato de resistência. A filósofa brasileira Marilena Chaui destaca como o cotidiano pode ser colonizado por ideologias que nos alienam de nossas próprias potências criativas. Para Chaui, libertar-se dessas amarras é um critério indispensável para uma existência genuína.

O Tempo como Critério

Outra dimensão inovadora ao pensar o critério da vida é considerar o papel do tempo. O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han aponta, em Asfixia do Tempo, que vivemos em uma era marcada pela aceleração e pela produtividade incessante. O critério moderno da vida muitas vezes se resume a "fazer mais", enquanto a verdadeira vida poderia ser medida pela profundidade de nossas experiências.

Retomando essa ideia, podemos dizer que o critério da vida não é apenas o quantum de ações realizadas, mas a qualidade do tempo vivido. Isso nos remete a Henri Bergson, que distinguiu o tempo mensurável do relógio (temps) da duração vivida (durée), sugerindo que a intensidade das experiências pode valer mais do que sua quantidade.

O Critério da Vida é Mutável

Um ponto crucial é entender que o critério da vida não é universal nem fixo. Ele varia entre culturas, épocas e, acima de tudo, indivíduos. Para N. Sri Ram, em suas reflexões teosóficas, a vida verdadeira é aquela que reflete o alinhamento entre o ser interno e o externo. Quando vivemos em harmonia com o que ele chama de "impulso essencial da alma", encontramos um critério que não é imposto, mas descoberto.

Por outro lado, Zygmunt Bauman, em sua teoria da modernidade líquida, nos alerta sobre o perigo de uma vida sem âncoras, onde os critérios se dissolvem na constante mudança de expectativas e valores. Talvez a vida autêntica exija, paradoxalmente, um equilíbrio entre fluidez e permanência.

Um Critério Vivo

O critério da vida, portanto, não é um conceito fixo, mas um organismo vivo, sujeito a mudanças e reinterpretações. Ele pode incluir virtude, criação de valores, resistência ao conformismo, profundidade do tempo vivido e alinhamento com o eu interior. Mais importante, ele deve ser pessoal e flexível, permitindo que cada indivíduo responda à sua própria pergunta: o que significa viver bem, para mim, neste momento?

Ao buscar responder essa pergunta, não apenas vivemos — criamos a vida.


sábado, 12 de outubro de 2024

Eternos Sofismas

Em tempos de eleição, os sofismas ganham uma força especial nas campanhas políticas. Com a urgência de conquistar votos, os candidatos recorrem a argumentos que, embora pareçam sólidos, muitas vezes ocultam falácias. Propagandas políticas são terreno fértil para o uso de sofismas, pois apelam às emoções, simplificam questões complexas e criam falsas dicotomias. Frases como “se você não votar em mim, o país vai piorar” ou “somos a única solução para os problemas” exemplificam essas falácias. Em vez de um debate honesto sobre as nuances das propostas, vemos uma distorção da verdade, onde o objetivo é manipular o eleitor e não informá-lo.

Nesse cenário, entender os sofismas é mais do que uma questão de lógica; é uma ferramenta essencial para não se deixar enganar por discursos que, embora persuasivos, estão longe da realidade. Afinal, em um período onde a escolha do eleitor define o futuro do país, distinguir entre argumentos válidos e falácias disfarçadas de promessas é crucial para uma decisão consciente.

Vivemos rodeados de argumentos que, à primeira vista, parecem verdadeiros, mas que, com um olhar mais atento, revelam sua natureza ilusória: os sofismas. A todo momento, encontramos justificativas que se encaixam perfeitamente em nossas crenças ou que parecem fazer sentido, mas que, no fundo, distorcem a realidade. Eles são como truques mentais, mecanismos engenhosos que escondem a fragilidade da lógica sob uma camada de verossimilhança.

No cotidiano, é comum nos depararmos com o sofisma disfarçado de argumento legítimo. Pense em uma situação comum, como uma campanha publicitária que promete “a felicidade” em forma de produto. "Compre isso, e você será feliz", nos dizem. O sofisma aqui é simples: associar a felicidade a um bem material é uma falácia, mas, ao mesmo tempo, a ideia ressoa tão bem com nossos desejos e esperanças que acabamos acreditando. Esse é o poder do sofisma: ele se apoia naquilo que queremos ouvir, naquilo que já estamos predispostos a aceitar.

Há algo de eternamente presente nos sofismas. Eles se repetem, se reformulam, mas nunca desaparecem completamente. É como se fossem uma parte intrínseca da comunicação humana, um atalho que muitas vezes tomamos para simplificar a complexidade do mundo. Em debates políticos, por exemplo, o uso de sofismas é uma ferramenta constante. Quantas vezes não ouvimos promessas que, embora lógicas na superfície, se desfazem diante de uma análise mais profunda? Frases como “se você não está comigo, está contra mim” são exemplos de sofismas clássicos, onde se cria uma falsa dicotomia, eliminando qualquer nuance ou complexidade.

O filósofo grego Aristóteles já alertava para o perigo dos sofismas em sua obra Refutação dos Sofismas. Segundo ele, esses argumentos falaciosos possuem o poder de enganar, mas não necessariamente de convencer permanentemente. A questão é que, muitas vezes, nos deixamos seduzir pela facilidade do raciocínio simplista, em vez de confrontarmos a realidade de frente, com todas as suas ambiguidades e incertezas. Somos eternamente vulneráveis ao conforto que um bom sofisma oferece.

Nosso dia a dia está cheio de exemplos sutis. Quando justificamos uma atitude irresponsável com a famosa frase “todo mundo faz isso”, estamos usando o sofisma do apelo à maioria. Se todos fazem, então deve ser aceitável — ou será? Esse tipo de raciocínio evita a reflexão crítica e, ao mesmo tempo, cria uma falsa sensação de segurança, como se estar em grupo significasse estar certo.

Os sofismas também se infiltram nas nossas relações pessoais. Pense em discussões cotidianas onde alguém argumenta: “se você realmente se importasse, faria isso”. Essa é uma falácia emocional, pois coloca a responsabilidade da ação em uma falsa correlação com o sentimento, criando um impasse difícil de quebrar. Nesse caso, o sofisma se mistura com a manipulação, tornando-se uma armadilha perigosa.

Mas por que somos tão suscetíveis a esses enganos? Talvez porque, em algum nível, os sofismas falam diretamente ao nosso desejo de evitar a complexidade. O mundo real é complicado, cheio de nuances, e os sofismas oferecem uma saída fácil, um caminho mais curto para as conclusões. Em vez de questionarmos profundamente, preferimos a comodidade de um raciocínio que se ajusta perfeitamente àquilo que já acreditamos.

No entanto, o grande perigo dos sofismas está exatamente aí: ao aceitarmos essas falsas lógicas, nos afastamos da verdade e, por conseguinte, da possibilidade de uma compreensão mais autêntica do mundo e de nós mesmos. Sofismas não são apenas truques retóricos — eles são também obstáculos ao nosso crescimento intelectual e emocional.

O desafio que se coloca, então, é como escapar desse ciclo de enganos perpétuos. Talvez a resposta esteja na prática constante da dúvida, da investigação, do confronto com a realidade em sua plenitude. É preciso estar alerta, questionar até mesmo aquilo que nos parece inquestionável, e não ceder à tentação das explicações fáceis. Só assim podemos nos libertar dos eternos sofismas que nos cercam e caminhar em direção a uma visão mais clara e honesta do mundo.

Como diria o filósofo e crítico brasileiro Olavo de Carvalho, os sofismas são uma espécie de doença intelectual, pois deformam o entendimento. Ao distorcer a verdade, limitam nossa capacidade de discernir e compreender. Assim, para evitar cair em seus laços, precisamos não apenas de conhecimento, mas de uma disposição vigilante para a reflexão crítica e a autocrítica.


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Dilemas de Lealdade

Estava lendo o livro Justiça, do Michael Sandel, quando me peguei pensando em uma daquelas questões que a gente acaba enfrentando na vida, mesmo sem querer. No livro, Sandel faz várias perguntas que mexem com nossa noção de moralidade, e uma delas é sobre a lealdade. Fiquei com isso na cabeça: será que ser leal é sempre uma virtude, ou tem momentos em que essa lealdade pode nos colocar em situações complicadas, até contra nossos próprios princípios? Foi aí que me bateu a ideia de explorar os dilemas de lealdade, essas encruzilhadas da vida onde ficamos entre o dever com os outros e a responsabilidade com nós mesmos. Afinal, como saber se estamos sendo justos ou apenas seguindo cegamente uma obrigação?

A lealdade é uma dessas virtudes que carregam um peso quase mítico. Pode ser ao time de futebol, a uma amizade de infância ou à empresa onde você trabalha há anos. Mas e quando a lealdade, aquela que deveria ser uma qualidade sólida e inquestionável, começa a gerar dilemas? Sabe aquele momento em que a vida te empurra para uma encruzilhada, e você precisa escolher entre manter-se leal a algo ou alguém, ou ser leal a si mesmo? Esses dilemas de lealdade não são incomuns, mas são sempre desconfortáveis.

Imagine o seguinte cenário: um amigo seu, de longa data, começa a se comportar de maneira tóxica. Ele está sempre reclamando, se afundando em negatividade e, em vez de ouvir conselhos, afasta quem tenta ajudar. Você, como bom amigo, tenta ser leal. Mas até quando? Até que ponto o compromisso de ser leal justifica aceitar comportamentos que fazem mal à sua própria saúde emocional? Ficar ao lado de alguém em todas as situações, até as mais destrutivas, é de fato lealdade ou uma forma de autossabotagem? Nem sempre estamos dispostos a suportar a conversa negativa dos depressivos crônicos.

Aristóteles pode nos ajudar a entender essa questão. Em sua Ética a Nicômaco, ele propõe que a virtude é sempre o meio-termo entre dois extremos: o excesso e a falta. Aplicando isso à lealdade, podemos pensar que o extremo oposto da lealdade seria a traição, enquanto o excesso seria a servidão. Para Aristóteles, a virtude da lealdade se encontraria no equilíbrio, na capacidade de ser leal sem deixar de ser justo consigo mesmo.

Outro dilema clássico de lealdade acontece no ambiente de trabalho. Suponha que você tenha dedicado anos à mesma empresa. Criou laços, construiu uma carreira, e se orgulha da sua contribuição. Mas chega um momento em que as coisas mudam — talvez uma nova gestão entre em cena, e a cultura da empresa deixe de refletir seus valores. Continuar leal à empresa é uma atitude honrável, mas será que vale sacrificar sua própria ética e bem-estar?

Hannah Arendt, filósofa alemã, fala muito sobre a importância de pensarmos por nós mesmos, mesmo dentro de estruturas que nos pedem lealdade inquestionável. Em seu conceito de “banalidade do mal”, ela argumenta que muitas pessoas cometem atos ruins, não por maldade, mas porque seguem ordens ou se mantêm leais a instituições ou pessoas, sem questionar a moralidade dessas ações. Então, talvez o maior dilema de lealdade seja saber quando questionar, quando a lealdade cega começa a obscurecer a linha entre o certo e o errado.

O fato é que lealdade, embora nobre, não pode ser uma armadilha. Ela precisa ser um compromisso consciente, renovado sempre que necessário. A lealdade a pessoas e instituições é válida, mas nunca deve vir ao custo da lealdade a si mesmo. 

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Intrínseco Versus Aparente

A Gentileza Está Nos Olhos Ou Nas Ações? Imagine que você está em uma fila de supermercado. Uma senhora idosa está na sua frente, tentando alcançar um produto na prateleira. Uma jovem, sem pensar duas vezes, interrompe sua própria tarefa e ajuda a senhora, com um sorriso sincero. Nesse momento, você pensa: "Essa pessoa é gentil." Mas será que é tão simples assim?

Na correria do dia a dia, tendemos a julgar as pessoas com base em suas ações visíveis. Se alguém cede seu lugar no ônibus, segura a porta para quem vem atrás, ou ajuda um colega de trabalho sem esperar algo em troca, logo o rotulamos como uma pessoa gentil. E por outro lado, se alguém passa direto, alheio ao que acontece ao redor, talvez o consideremos insensível ou indiferente. Mas será que é justo reduzir a gentileza a esses gestos exteriores?

O Intrínseco Versus o Aparente

A gentileza, como outras qualidades, parece ser algo que se revela nas interações. Afinal, como saber se alguém é gentil se não observamos como age com os outros? No entanto, há quem diga que a verdadeira gentileza é intrínseca, algo que não depende de circunstâncias externas para existir.

Pense naquele amigo que você conhece há anos. Talvez você tenha notado que ele sempre parece ter uma aura de calma e serenidade, mesmo em momentos de tensão. Você sente, quase intuitivamente, que ele é uma pessoa bondosa, sem precisar que ele demonstre isso o tempo todo. É como se a gentileza fosse algo que se manifesta na maneira como ele ocupa o espaço, no olhar, na postura, até mesmo no tom de voz.

Por outro lado, há pessoas que, embora façam atos de gentileza, podem não transmitir essa essência. Talvez seus gestos sejam mecânicos, feitos por obrigação ou para manter uma imagem. Isso nos leva a questionar: a gentileza genuína é algo que transborda da pessoa, perceptível mesmo sem grandes gestos, ou é necessário ver para crer?

O Olhar De Aristóteles

Aristóteles, um dos grandes filósofos da antiguidade, acreditava que a virtude estava no hábito, no caráter moldado pelas ações repetidas. Para ele, alguém se torna verdadeiramente virtuoso, ou gentil, ao praticar atos de gentileza consistentemente. Dessa forma, não seria tanto uma questão de essência invisível, mas de um comportamento cultivado ao longo do tempo.

No entanto, Aristóteles também reconhecia que certas disposições naturais poderiam facilitar a prática de virtudes. Uma pessoa naturalmente inclinada a simpatizar com o sofrimento alheio teria mais facilidade em ser gentil. Mas essa inclinação precisaria ser alimentada por ações concretas para se transformar em uma verdadeira virtude.

Voltando à pergunta inicial, talvez a resposta não seja tão clara. A gentileza pode sim ser observada nas relações que as pessoas mantêm com os outros, mas também pode ser uma qualidade intrínseca, perceptível em pequenos detalhes e na maneira como alguém se porta. No fim das contas, talvez o que realmente importa não seja se conseguimos perceber a gentileza de imediato, mas sim se estamos dispostos a praticá-la, tornando-a parte de quem somos, não apenas do que fazemos. Afinal, como diria Aristóteles, a virtude se encontra na prática constante, até que ela se torne parte inalienável de nossa essência.


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Ontologia e Predicação

Sabe aquelas conversas que a gente tem sobre o que as coisas realmente são? Como, por exemplo, quando você olha para uma cadeira e se pergunta: "O que faz dela uma cadeira de verdade?" Ou quando você descreve alguém como "simpático" e fica pensando se isso é só uma impressão momentânea ou se faz parte de quem a pessoa é de fato. Essas questões, que parecem simples à primeira vista, na verdade nos levam a um campo filosófico fascinante, onde a ontologia e a predicação entram em cena. Vamos dar uma olhada em como esses conceitos aparecem no nosso dia a dia, mesmo sem a gente perceber.

A ontologia, que trata do ser e da natureza da existência, e a predicação, que diz respeito a como atribuímos propriedades ou características a objetos, são dois conceitos filosóficos que se entrelaçam em nossa compreensão do mundo. Vamos analisar essa intersecção e como ela se manifesta em nossas interações cotidianas.

Imagine que você está em uma cafeteria, observando os detalhes à sua volta. Quando você olha para uma xícara de café sobre a mesa, sua mente não apenas a reconhece como uma "xícara", mas também pode atribuir a ela predicados como "branca", "quente" ou "cerâmica". A ontologia está na base dessa percepção: o que é essa xícara em sua essência? É apenas um objeto físico? Ou sua existência vai além, talvez englobando o uso que você faz dela ou até mesmo as memórias associadas a esse simples ato de tomar café?

A predicação, por outro lado, é o processo pelo qual você atribui essas características à xícara. Quando dizemos "a xícara é branca", estamos atribuindo à xícara a propriedade de "brancura". Mas essa atribuição não é simples. Filósofos como Aristóteles se perguntaram se as propriedades existem independentemente dos objetos ou se são inseparáveis deles. Ou seja, a "brancura" da xícara existe por si só ou só faz sentido em relação à xícara?

No cotidiano, muitas vezes não nos damos conta da complexidade desse processo. Quando você diz que uma pessoa é "gentil", você está fazendo uma predicação, atribuindo a qualidade da gentileza a essa pessoa. Mas será que a gentileza é uma propriedade intrínseca dessa pessoa, ou é uma característica que emerge das interações dela com os outros? Essa pergunta, que pode parecer abstrata, tem implicações práticas, pois influencia como percebemos e julgamos as ações das pessoas ao nosso redor.

A ontologia e a predicação se entrelaçam em nossa maneira de entender o mundo. Ao atribuir características a objetos ou pessoas, estamos não apenas descrevendo o que vemos ou sentimos, mas também assumindo uma posição sobre a natureza do que esses objetos ou pessoas realmente são. E essa posição molda nossas interações e decisões cotidianas.

No fundo, ao considerar a ontologia e a predicação, estamos refletindo sobre como construímos a realidade à nossa volta, como definimos o ser e como damos sentido às coisas através das palavras que escolhemos. Esse processo é constante e está presente em cada pequena observação ou julgamento que fazemos ao longo do dia.

Essa reflexão pode parecer distante da prática, mas é exatamente o contrário. Ela está na base de cada "bom dia" que dizemos, de cada escolha que fazemos e de como entendemos o mundo em que vivemos. Afinal, tudo começa com o ser e como o percebemos.

Sugestão de Leitura:

Marcondes, Danilo. Textos Básicos de Linguagem: de Platão a Foucault.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.