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terça-feira, 26 de agosto de 2025

Comportamentos Obsessivos

Entre a Ordem e o Abismo

Há quem tenha mania de conferir a porta várias vezes antes de sair de casa, outros não conseguem descansar até alinhar as canetas na mesa ou revisar a mesma mensagem repetidas vezes antes de enviá-la. À primeira vista, são pequenos hábitos, até engraçados; mas, no fundo, escondem algo maior: a necessidade quase desesperada de controle sobre um mundo que insiste em ser desordenado. O comportamento obsessivo surge como um ponto de atrito entre o desejo humano de organizar a vida e a impossibilidade de dominá-la por completo.

O curioso é que, em alguma medida, todos carregamos esse impulso. Ele aparece quando sentimos que o caos pode nos engolir: o estudante que só consegue estudar se o caderno estiver impecável, o trabalhador que revisa planilhas em excesso, o apaixonado que precisa confirmar a todo instante se é amado. Em cada um desses gestos se revela o paradoxo de nossa condição: buscamos segurança no detalhe, mas acabamos prisioneiros dele.

O filósofo Søren Kierkegaard, ao refletir sobre a angústia, escreveu que ela não é um defeito, mas uma espécie de “vertigem da liberdade”. Nessa chave, os comportamentos obsessivos podem ser entendidos como tentativas de domesticar essa vertigem. Ao criar rituais repetitivos, o sujeito acredita reduzir a angústia que nasce da abertura infinita do existir. No entanto, o que deveria trazer liberdade acaba enrijecendo: a pessoa se sente cada vez mais amarrada ao gesto, como se sua própria identidade estivesse dependente da repetição.

O aspecto inovador é perceber que a obsessão não é apenas patologia ou exagero individual, mas também um reflexo cultural. Vivemos em uma sociedade que valoriza o desempenho, a perfeição e a vigilância. As redes sociais amplificam esse quadro: quantas curtidas? quantos seguidores? quantos segundos até a próxima notificação? Somos estimulados a verificar, repetir e confirmar o tempo todo. A obsessão, antes íntima, tornou-se estilo coletivo de vida.

Nesse sentido, talvez devêssemos pensar a obsessão não só como doença, mas como metáfora: ela revela o medo humano de deixar o mundo ser mundo. A saída não estaria em eliminar totalmente o gesto obsessivo, mas em reconciliar-se com a imperfeição, aceitando que o caos não é inimigo, mas parte do tecido da vida. Como diria Kierkegaard, “a angústia é o educador supremo”: ela nos ensina que o excesso de controle não é caminho para a liberdade, e sim para a prisão.

Assim, ao observarmos nossos próprios pequenos rituais obsessivos, podemos usá-los não como correntes, mas como espelhos: eles nos mostram o quanto ainda resistimos a lidar com a incerteza. E talvez seja justamente aí que a filosofia começa — no momento em que reconhecemos que o mundo não se curva aos nossos alinhamentos perfeitos.