Entre a Ordem e o Abismo
Há
quem tenha mania de conferir a porta várias vezes antes de sair de casa, outros
não conseguem descansar até alinhar as canetas na mesa ou revisar a mesma
mensagem repetidas vezes antes de enviá-la. À primeira vista, são pequenos
hábitos, até engraçados; mas, no fundo, escondem algo maior: a necessidade
quase desesperada de controle sobre um mundo que insiste em ser desordenado. O
comportamento obsessivo surge como um ponto de atrito entre o desejo humano de
organizar a vida e a impossibilidade de dominá-la por completo.
O
curioso é que, em alguma medida, todos carregamos esse impulso. Ele aparece
quando sentimos que o caos pode nos engolir: o estudante que só consegue
estudar se o caderno estiver impecável, o trabalhador que revisa planilhas em
excesso, o apaixonado que precisa confirmar a todo instante se é amado. Em cada
um desses gestos se revela o paradoxo de nossa condição: buscamos segurança no
detalhe, mas acabamos prisioneiros dele.
O
filósofo Søren Kierkegaard, ao refletir sobre a angústia, escreveu que
ela não é um defeito, mas uma espécie de “vertigem da liberdade”. Nessa chave,
os comportamentos obsessivos podem ser entendidos como tentativas de domesticar
essa vertigem. Ao criar rituais repetitivos, o sujeito acredita reduzir a
angústia que nasce da abertura infinita do existir. No entanto, o que deveria
trazer liberdade acaba enrijecendo: a pessoa se sente cada vez mais amarrada ao
gesto, como se sua própria identidade estivesse dependente da repetição.
O
aspecto inovador é perceber que a obsessão não é apenas patologia ou exagero
individual, mas também um reflexo cultural. Vivemos em uma sociedade que
valoriza o desempenho, a perfeição e a vigilância. As redes sociais amplificam
esse quadro: quantas curtidas? quantos seguidores? quantos segundos até a
próxima notificação? Somos estimulados a verificar, repetir e confirmar o tempo
todo. A obsessão, antes íntima, tornou-se estilo coletivo de vida.
Nesse
sentido, talvez devêssemos pensar a obsessão não só como doença, mas como
metáfora: ela revela o medo humano de deixar o mundo ser mundo. A saída não
estaria em eliminar totalmente o gesto obsessivo, mas em reconciliar-se com
a imperfeição, aceitando que o caos não é inimigo, mas parte do tecido da
vida. Como diria Kierkegaard, “a angústia é o educador supremo”: ela nos ensina
que o excesso de controle não é caminho para a liberdade, e sim para a prisão.
Assim,
ao observarmos nossos próprios pequenos rituais obsessivos, podemos usá-los não
como correntes, mas como espelhos: eles nos mostram o quanto ainda resistimos a
lidar com a incerteza. E talvez seja justamente aí que a filosofia começa — no
momento em que reconhecemos que o mundo não se curva aos nossos alinhamentos
perfeitos.