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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Mais Formação


O Paradoxo do Conhecimento sem Consciência

Vamos direto ao ponto: estudar mais não nos torna automaticamente melhores. Se assim fosse, bastaria encher o mundo de diplomas para eliminar corrupção, violência e injustiça. Mas a realidade insiste em contrariar essa esperança confortável. Há pessoas altamente escolarizadas envolvidas em escândalos, fraudes e decisões cruéis. Então, o que está faltando?

A crença de que “mais formação” resolve problemas morais revela uma confusão profunda entre conhecimento e caráter. Saber não é o mesmo que ser.

Desde Sócrates, existe a ideia de que o conhecimento conduz à virtude. Para ele, ninguém faria o mal conscientemente — o erro seria fruto da ignorância. No entanto, essa visão otimista encontra limites evidentes no mundo contemporâneo. Hoje sabemos que pessoas instruídas podem agir contra o que sabem ser correto. O problema, portanto, não é apenas ignorância.

Hannah Arendt oferece uma chave perturbadora ao analisar a “banalidade do mal”. Em seu estudo sobre Adolf Eichmann, ela mostra que grandes atrocidades podem ser cometidas não por monstros irracionais, mas por indivíduos comuns, capazes de raciocínio técnico, porém incapazes de reflexão ética profunda. O mal, nesse sentido, não nasce da falta de inteligência, mas da ausência de pensamento crítico sobre as próprias ações.

Essa lógica não está distante do presente. No Brasil contemporâneo, escândalos envolvendo corrupção administrativa em diferentes esferas do poder público mostram que formação acadêmica elevada não impede condutas antiéticas. Operações de investigação envolvendo políticos, gestores e empresários frequentemente revelam perfis altamente escolarizados, com MBAs, doutorados e carreiras técnicas sofisticadas, mas ainda assim envolvidos em esquemas de desvio de recursos, superfaturamento e favorecimento ilícito. O problema não é ausência de conhecimento técnico — é o uso estratégico dele sem compromisso ético.

Já Immanuel Kant propõe que a moralidade não depende do conhecimento acumulado, mas da capacidade de agir por dever, segundo princípios universais. Uma pessoa pode ser extremamente instruída e, ainda assim, escolher agir por interesse próprio. A formação intelectual, isoladamente, não garante compromisso moral.

No campo da sociologia, Zygmunt Bauman alerta que a modernidade produziu sistemas altamente racionais que, paradoxalmente, facilitaram práticas desumanas. A eficiência técnica pode coexistir com a indiferença moral. Em outras palavras, quanto mais sofisticada a organização social, maior o risco de que responsabilidades sejam diluídas — e com elas, a consciência.

No Brasil, isso aparece também em dinâmicas institucionais cotidianas. Em sistemas burocráticos complexos — como saúde, educação e assistência social — decisões são frequentemente tomadas com base em metas, indicadores e protocolos que podem desumanizar o atendimento. Profissionais bem formados, pressionados por produtividade e cortes orçamentários, acabam operando estruturas que excluem silenciosamente quem mais precisa de cuidado. A crueldade, aqui, não é necessariamente intenção individual, mas resultado de sistemas que substituem responsabilidade por procedimento.

Jessé Souza amplia essa leitura ao argumentar que a elite instruída muitas vezes utiliza seu capital cultural não para promover justiça, mas para justificar privilégios. No contexto brasileiro, isso aparece quando discursos técnicos são usados para legitimar desigualdades — por exemplo, ao atribuir pobreza exclusivamente a “falta de mérito” ou “baixa qualificação”, ignorando desigualdades históricas e estruturais.

Outro exemplo contemporâneo é o debate sobre segurança pública. Em muitos casos, políticas são formuladas por especialistas altamente qualificados, mas focadas quase exclusivamente em repressão, sem atacar causas estruturais como desigualdade urbana, racismo e falta de oportunidades. O resultado é uma formação técnica sofisticada aplicada a soluções incompletas ou ineficazes.

Isso nos leva a uma provocação inevitável: formação para quê?

Se a educação for apenas técnica — voltada ao desempenho, à produtividade e ao acúmulo de informações — ela pode, inclusive, reforçar desigualdades e legitimar comportamentos antiéticos. Uma mente treinada para competir, mas não para refletir, pode ser eficiente, porém perigosa.

Por outro lado, Paulo Freire propõe uma educação voltada à consciência crítica. Para ele, formar não é apenas transmitir conteúdos, mas desenvolver a capacidade de ler o mundo, questioná-lo e transformá-lo. Aqui, a formação deixa de ser acúmulo e passa a ser despertar.

O problema, então, não é a formação em si, mas o tipo de formação que valorizamos.

Uma educação que ignora ética, empatia e responsabilidade social pode produzir indivíduos altamente capacitados — e profundamente desconectados das consequências de seus atos. Por outro lado, uma formação que integra conhecimento e consciência pode não eliminar o mal, mas ao menos cria condições para reconhecê-lo e resistir a ele.

No fim, talvez seja necessário abandonar a ilusão de que mais educação, por si só, nos salvará. O desafio não é formar mais, mas formar melhor — ou, mais radicalmente, formar humanos capazes de pensar sobre o que fazem.

Porque, no fundo, não é a quantidade de conhecimento que define quem somos, mas o uso que fazemos dele.

E isso, nenhuma formação garante automaticamente.