Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Homem Profano


Ele acorda com o som do despertador. O despertador não soa como chamado — soa como comando. Levanta, escova os dentes, olha o celular antes mesmo de olhar o céu. O dia começa não como mistério, mas como tarefa.

É assim que vive o “homem profano” descrito por Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano.

Quando se fala nisso, não é preciso imaginar povos antigos ou templos esquecidos. Basta observá-lo no ônibus, respondendo mensagens, calculando prazos, vivendo como se o mundo fosse apenas um conjunto de funções.

O tempo que não inaugura nada

Para o homem religioso tradicional, o tempo podia ser ruptura e renovação. O Ano Novo não era simples troca de calendário — era reinício simbólico.

Para ele, o tempo é agenda.

Segunda-feira não inaugura nada. É repetição. Sexta-feira não é libertação ontológica — é pausa estratégica.

Vive num tempo homogêneo. Cada dia substitui o outro. Não há centro. Não há hierarquia sagrada. Apenas sequência.

O domingo muitas vezes já nasce contaminado pela ansiedade da segunda.

O espaço que não fala

Ele entra no escritório. É apenas um espaço funcional: mesas, computadores, café automático. Não é lugar consagrado — é infraestrutura.

O homem profano não enxerga montanhas como morada do divino nem casa como microcosmo simbólico. Enxerga localização, metragem, custo-benefício.

Muda de endereço sem sentir que desloca o eixo do mundo. É logística, não travessia existencial.

O espaço torna-se neutro.

E, no entanto, algo insiste

Apesar disso, há momentos em que a neutralidade falha:

  • Uma música antiga suspende o tempo.
  • Uma igreja vazia impõe um silêncio diferente.
  • Um olhar amado não pode ser reduzido a função.

Nesses instantes, o mundo deixa de ser plano.

Mircea Eliade sugeria que o homem moderno tenta viver exclusivamente no profano, mas nunca consegue totalmente. Vestígios do sagrado sobrevivem — em ritos sociais, em datas comemorativas, em gestos simbólicos que ele mesmo talvez não compreenda.

Se escutasse Leonardo Boff, ouviria que o problema não é abandonar rituais religiosos formais, mas perder a capacidade de reverência.

Quando tudo se torna recurso — o tempo, a natureza, as pessoas — a vida se empobrece. A eficiência cresce, mas a interioridade seca.

O homem profano é funcional.

Mas pode tornar-se árido.

A pergunta que o acompanha

Talvez a questão não seja religião institucional.

Talvez seja profundidade.

Se tudo pode ser trocado, acelerado, monetizado, então o mundo se fecha sobre si mesmo.

Mas se ele ainda preserva algo que não se reduz a função — amor, silêncio, dignidade, contemplação — então carrega um pequeno altar invisível.

E talvez seja ali, nesse interior que resiste à lógica da utilidade, que começa a superação do homem profano.

terça-feira, 3 de junho de 2025

Niilismo e Experiência do Vazio


 Ensaio Filosófico sobre o livro "Religião e o Nada" de Keiji Nishitani

"Religião e o Nada" (Shūkyō to wa nanika, no original japonês) é um livro escrito por Keiji Nishitani, publicado pela primeira vez em 1945. Trata-se de sua obra principal, reconhecida como uma das mais importantes produções da Escola de Quioto, que busca dialogar a filosofia ocidental com o pensamento budista, especialmente o zen e o Mahayana.

Breve resumo: Religião e o Nada, de Keiji Nishitani, é uma obra fundamental da Escola de Quioto que propõe uma reflexão profunda sobre o niilismo e a crise espiritual do homem moderno. Influenciado por Nietzsche, Heidegger e o budismo Mahayana, especialmente a noção de śūnyatā (vazio), Nishitani argumenta que o niilismo não deve ser evitado, mas vivido como caminho para um despertar espiritual, onde a religião não é um sistema de crenças, mas uma experiência existencial que nos conduz ao “nada do fundo do ser”. Esse “nada”, diferente da aniquilação, é uma abertura radical para uma realidade além do ser e do não-ser, na qual o ego é superado e o sentido da existência se revela. Ao fundir filosofia ocidental com sabedoria oriental, Nishitani apresenta uma nova forma de religiosidade que se realiza no coração do vazio — não como ausência, mas como plenitude.

Keiji Nishitani, um dos principais pensadores da Escola de Quioto, aborda em "Religião e o Nada" um tema central da condição humana: a relação entre a religião, o niilismo e o significado existencial. Neste ensaio, explorarei as ideias-chave da obra, ligando-as às experiências cotidianas e ao contexto contemporâneo, em que a busca pelo sentido da vida se torna cada vez mais urgente.

O Niilismo e a Experiência do Vazio

Nishitani inicia sua reflexão reconhecendo a crise espiritual que marca o mundo moderno, especialmente no Ocidente. O niilismo — caracterizado pela perda de valores e pela sensação de vazio existencial — é um sintoma de um afastamento profundo entre o homem e sua própria existência. Para ele, essa condição não é apenas um obstáculo a ser superado, mas também uma oportunidade. O vazio, ou "nada", pode ser compreendido não como um estado de destruição, mas como um solo fértil para um novo tipo de compreensão do ser.

Na experiência cotidiana, o vazio se manifesta de maneiras diversas: o sentimento de alienação no trabalho, a superficialidade das relações ou a busca incessante por prazeres efêmeros que não preenchem verdadeiramente. Nishitani propõe que encaremos o vazio de frente, sem medo, como uma possibilidade de transcender nossa perspectiva limitada e fragmentária do mundo.

O Nada como Campo de Possibilidades

Um dos conceitos mais profundos de Nishitani é o "nada" entendido como "vacuidade" (šūnyatā, no budismo). Diferente da ideia ocidental de vazio como ausência absoluta, a vacuidade é um estado dinâmico de interconexão. Quando nos libertamos do apego à ideia de um "eu" separado e fixo, podemos perceber que o nada é o espaço onde tudo se manifesta.

Um exemplo prático pode ser encontrado em uma conversa profunda com um amigo. Em momentos assim, quando não estamos presos à preocupação com nossa própria imagem ou ao desejo de impressionar, emerge uma conexão genuína. Esse "nada" — a ausência de egoísmo e expectativas — cria o espaço para que a relação floresça.

Religião como Realização Existencial

Para Nishitani, a religião é mais do que um sistema de crenças; é uma experiência existencial que nos coloca em contato com a dimensão mais profunda do ser. Ele desafia a distinção tradicional entre o sagrado e o profano, argumentando que a iluminação ocorre precisamente no âmbito da vida cotidiana. A verdadeira religião, segundo Nishitani, não nos afasta do mundo, mas nos reconcilia com ele, revelando que o "eu" e o "mundo" são inseparáveis.

Esse ponto é especialmente relevante em um mundo onde a espiritualidade é frequentemente tratada como algo à parte da "vida real". Por exemplo, ao lavar a louça, podemos considerar a tarefa como uma obrigação mundana ou como uma oportunidade para estar plenamente presentes no momento. Nishitani sugere que, ao enxergarmos a sacralidade em tais momentos simples, descobrimos a verdadeira dimensão da religião.

A Resposta ao Niilismo

A solução de Nishitani para o niilismo não está em rejeitá-lo, mas em atravessá-lo. Ele propõe um movimento para "além do niilismo", onde o vazio é transformado em plenitude. Esse processo requer um desapego radical — não apenas dos bens materiais, mas também das nossas ideias preconcebidas e do desejo de controle.

Imagine uma situação em que um plano cuidadosamente elaborado fracassa. Inicialmente, o sentimento de frustração e inutilidade pode parecer avassalador. No entanto, ao abandonar a fixação no resultado e abrir-se à experiência, pode-se descobrir uma nova perspectiva ou oportunidade. Para Nishitani, essa capacidade de abraçar o inesperado é o que transforma o niilismo em um caminho para a sabedoria.

"Religião e o Nada" nos desafia a repensar nossa relação com o vazio e com o mundo. Nishitani não oferece respostas fáceis ou soluções rápidas, mas convida a uma jornada de autodescoberta que envolve tanto a aceitação do nada quanto a superação do niilismo. Em um momento histórico em que a humanidade busca sentido em meio à fragmentação e à incerteza, sua filosofia se torna mais relevante do que nunca.

Ao nos reconectarmos com a dimensão profunda do ser — no ato de lavar a louça, em uma conversa significativa ou em qualquer outro momento do cotidiano — podemos transformar o nada em uma fonte inesgotável de significado e liberdade.