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domingo, 19 de abril de 2026

Dilema de Eutifron


Tem perguntas que parecem simples… até você tentar responder sem tropeçar. O chamado dilema de Eutífron é exatamente assim: direto, curto — e profundamente desconcertante.

Ele aparece num diálogo de Platão, onde Sócrates conversa com Eutífron sobre algo aparentemente básico: o que é o “piedoso”, o “bom”, o “justo”?

E aí Sócrates solta a pergunta que muda tudo:

O que é bom é bom porque os deuses querem… ou os deuses querem porque é bom?


Parece um jogo de palavras, mas é uma bifurcação sem saída fácil.

Vamos dividir:

Primeira opção: algo é bom porque Deus (ou os deuses) quer.

Isso torna o bem dependente da vontade divina. O problema? A moral vira arbitrária. Se Deus quisesse o contrário, o contrário seria “bom”. Não há um padrão — só vontade.

Segunda opção: Deus quer algo porque aquilo é bom.

Aqui, o bem existe independentemente de Deus. Ele reconhece o que é bom, mas não o cria. O problema? Deus deixa de ser a fonte última da moral.


Esse é o dilema: ou a moral é arbitrária, ou não depende de Deus.

E não dá para ficar com as duas coisas ao mesmo tempo.


No cotidiano, isso aparece de formas menos filosóficas, mas igualmente tensas.

Quando alguém diz “isso é certo porque está na religião”, está mais próximo da primeira opção. A autoridade define o valor.

Quando alguém diz “isso é certo porque faz sentido, porque é justo”, está mais próximo da segunda. O valor parece existir por si.

Mas raramente percebemos que essas duas posturas carregam pressupostos diferentes — e incompatíveis.


O que Sócrates faz aqui não é dar uma resposta pronta. Ele faz algo mais incômodo: ele mostra que uma resposta simples talvez não exista.

E, ao fazer isso, desloca a discussão.

A questão deixa de ser apenas “o que é o bem?” e passa a ser “de onde vem a autoridade do bem?”


Ao longo da história, muita gente tentou escapar do dilema.

Alguns disseram que Deus é o próprio bem — não decide nem segue, mas é. Outros tentaram reformular a ideia de vontade divina, dizendo que ela não é arbitrária, mas essencialmente racional.

E há quem abandone completamente a referência divina e busque fundamentos éticos em outras bases: razão, empatia, convivência.

Nenhuma dessas soluções elimina totalmente a tensão — apenas a reorganiza.


O mais interessante é que o dilema de Eutífron não é só sobre religião. Ele é sobre autoridade.

Sempre que alguém define o que é certo, a pergunta volta, disfarçada:

Isso é certo porque foi dito… ou foi dito porque é certo?


Pensando bem, essa pergunta não destrói a moral. Mas tira dela a aparência de evidência imediata.

Ela nos obriga a sair do automático, a justificar, a pensar.

E talvez seja esse o ponto.

Platão, através de Sócrates, não queria apenas respostas corretas — queria inquietação bem orientada.

Porque, no fundo, o dilema não exige que você escolha um lado imediatamente.

Ele exige algo mais difícil:

que você não aceite nenhuma resposta… sem perceber o preço que ela cobra.

sábado, 18 de abril de 2026

Causa Primeira


Tem ideias que aparecem quando a gente menos espera — não no meio de um livro, mas no meio da vida mesmo. Tipo quando você pergunta “por que isso aconteceu?”… e a resposta puxa outra pergunta… e outra… e outra. De repente, você está numa escada infinita de causas, sem saber onde colocar o pé.

É nesse momento que nasce a intuição da “causa primeira”.


A noção é antiga, mas ganhou forma clássica com Aristóteles. Ele percebeu algo simples e perturbador: tudo o que acontece parece depender de algo anterior. Uma bola se move porque foi empurrada, que foi empurrada por alguém, que agiu por algum motivo… e assim por diante.

Mas essa cadeia não pode regredir ao infinito — pelo menos, pensava ele. Porque, se tudo depende de algo anterior, e nunca há um ponto de partida, então nada realmente começaria. Seria como uma fileira de dominós sem o primeiro toque.

Daí surge a ideia de um “motor imóvel”: algo que causa movimento sem ser causado.


Séculos depois, Tomás de Aquino retoma essa intuição e a organiza de forma mais teológica. Na famosa “segunda via”, ele argumenta que:

  • Existem causas no mundo;
  • Nada pode ser causa de si mesmo;
  • Não é possível uma regressão infinita de causas;
  • Logo, deve existir uma causa primeira não causada.

E ele identifica essa causa com Deus.

Mas, curiosamente, o argumento não depende imediatamente de religião. Ele começa com uma inquietação lógica: se tudo precisa de uma causa… o que causa o começo de tudo?


No cotidiano, a gente convive com versões simplificadas disso o tempo todo.

Você perde um compromisso e pensa: “foi porque acordei tarde”. Acordou tarde por quê? Dormiu mal. Dormiu mal por quê? Ansiedade. Ansiedade por quê? E assim vai.

Em algum momento, você para — não porque chegou na causa última, mas porque cansou. A vida prática exige um ponto de parada, mesmo que ele seja arbitrário.

A filosofia, por outro lado, não se contenta com esse “deixa assim”.


A ideia de causa primeira tenta fazer exatamente isso: encontrar um ponto que não precise de explicação externa. Um fundamento.

Mas aí surge um problema quase inevitável: se tudo precisa de causa, por que a causa primeira não precisa?

Essa é a objeção clássica. E ela não é trivial.

Alguns dizem que a causa primeira não “precisa” de causa porque é de uma natureza diferente — necessária, não contingente. Outros dizem que estamos aplicando regras do mundo (onde tudo parece depender de algo) a algo que, por definição, está fora desse sistema.

E há quem rejeite tudo isso e aceite o desconforto de uma regressão infinita — ou até a ideia de que o universo simplesmente “é”, sem um porquê último.


No fundo, a questão da causa primeira revela algo curioso sobre nós: nossa dificuldade em aceitar o sem-fundamento.

A gente quer um início, uma origem, um ponto firme. Talvez porque isso dê uma sensação de ordem, de sentido. Um mundo sem causa primeira é um mundo que não se explica completamente — e isso incomoda.

Mas talvez o incômodo seja revelador.


Pensando bem, a causa primeira funciona quase como um limite do pensamento. Um lugar onde a razão chega e diz: “daqui pra frente, ou eu salto… ou eu paro”.

Aristóteles saltou para o motor imóvel. Tomás de Aquino saltou para Deus. Outros preferiram não saltar — e ficaram ali, olhando o abismo da explicação sem fim.

E a gente, no dia a dia, faz algo parecido — só que em escala menor. A gente escolhe onde parar de perguntar.

Talvez a causa primeira não seja apenas uma resposta sobre o universo.

Talvez seja, antes de tudo, um espelho da nossa necessidade de que as coisas… comecem em algum lugar.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Homem Profano


Ele acorda com o som do despertador. O despertador não soa como chamado — soa como comando. Levanta, escova os dentes, olha o celular antes mesmo de olhar o céu. O dia começa não como mistério, mas como tarefa.

É assim que vive o “homem profano” descrito por Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano.

Quando se fala nisso, não é preciso imaginar povos antigos ou templos esquecidos. Basta observá-lo no ônibus, respondendo mensagens, calculando prazos, vivendo como se o mundo fosse apenas um conjunto de funções.

O tempo que não inaugura nada

Para o homem religioso tradicional, o tempo podia ser ruptura e renovação. O Ano Novo não era simples troca de calendário — era reinício simbólico.

Para ele, o tempo é agenda.

Segunda-feira não inaugura nada. É repetição. Sexta-feira não é libertação ontológica — é pausa estratégica.

Vive num tempo homogêneo. Cada dia substitui o outro. Não há centro. Não há hierarquia sagrada. Apenas sequência.

O domingo muitas vezes já nasce contaminado pela ansiedade da segunda.

O espaço que não fala

Ele entra no escritório. É apenas um espaço funcional: mesas, computadores, café automático. Não é lugar consagrado — é infraestrutura.

O homem profano não enxerga montanhas como morada do divino nem casa como microcosmo simbólico. Enxerga localização, metragem, custo-benefício.

Muda de endereço sem sentir que desloca o eixo do mundo. É logística, não travessia existencial.

O espaço torna-se neutro.

E, no entanto, algo insiste

Apesar disso, há momentos em que a neutralidade falha:

  • Uma música antiga suspende o tempo.
  • Uma igreja vazia impõe um silêncio diferente.
  • Um olhar amado não pode ser reduzido a função.

Nesses instantes, o mundo deixa de ser plano.

Mircea Eliade sugeria que o homem moderno tenta viver exclusivamente no profano, mas nunca consegue totalmente. Vestígios do sagrado sobrevivem — em ritos sociais, em datas comemorativas, em gestos simbólicos que ele mesmo talvez não compreenda.

Se escutasse Leonardo Boff, ouviria que o problema não é abandonar rituais religiosos formais, mas perder a capacidade de reverência.

Quando tudo se torna recurso — o tempo, a natureza, as pessoas — a vida se empobrece. A eficiência cresce, mas a interioridade seca.

O homem profano é funcional.

Mas pode tornar-se árido.

A pergunta que o acompanha

Talvez a questão não seja religião institucional.

Talvez seja profundidade.

Se tudo pode ser trocado, acelerado, monetizado, então o mundo se fecha sobre si mesmo.

Mas se ele ainda preserva algo que não se reduz a função — amor, silêncio, dignidade, contemplação — então carrega um pequeno altar invisível.

E talvez seja ali, nesse interior que resiste à lógica da utilidade, que começa a superação do homem profano.

terça-feira, 3 de junho de 2025

Niilismo e Experiência do Vazio


 Ensaio Filosófico sobre o livro "Religião e o Nada" de Keiji Nishitani

"Religião e o Nada" (Shūkyō to wa nanika, no original japonês) é um livro escrito por Keiji Nishitani, publicado pela primeira vez em 1945. Trata-se de sua obra principal, reconhecida como uma das mais importantes produções da Escola de Quioto, que busca dialogar a filosofia ocidental com o pensamento budista, especialmente o zen e o Mahayana.

Breve resumo: Religião e o Nada, de Keiji Nishitani, é uma obra fundamental da Escola de Quioto que propõe uma reflexão profunda sobre o niilismo e a crise espiritual do homem moderno. Influenciado por Nietzsche, Heidegger e o budismo Mahayana, especialmente a noção de śūnyatā (vazio), Nishitani argumenta que o niilismo não deve ser evitado, mas vivido como caminho para um despertar espiritual, onde a religião não é um sistema de crenças, mas uma experiência existencial que nos conduz ao “nada do fundo do ser”. Esse “nada”, diferente da aniquilação, é uma abertura radical para uma realidade além do ser e do não-ser, na qual o ego é superado e o sentido da existência se revela. Ao fundir filosofia ocidental com sabedoria oriental, Nishitani apresenta uma nova forma de religiosidade que se realiza no coração do vazio — não como ausência, mas como plenitude.

Keiji Nishitani, um dos principais pensadores da Escola de Quioto, aborda em "Religião e o Nada" um tema central da condição humana: a relação entre a religião, o niilismo e o significado existencial. Neste ensaio, explorarei as ideias-chave da obra, ligando-as às experiências cotidianas e ao contexto contemporâneo, em que a busca pelo sentido da vida se torna cada vez mais urgente.

O Niilismo e a Experiência do Vazio

Nishitani inicia sua reflexão reconhecendo a crise espiritual que marca o mundo moderno, especialmente no Ocidente. O niilismo — caracterizado pela perda de valores e pela sensação de vazio existencial — é um sintoma de um afastamento profundo entre o homem e sua própria existência. Para ele, essa condição não é apenas um obstáculo a ser superado, mas também uma oportunidade. O vazio, ou "nada", pode ser compreendido não como um estado de destruição, mas como um solo fértil para um novo tipo de compreensão do ser.

Na experiência cotidiana, o vazio se manifesta de maneiras diversas: o sentimento de alienação no trabalho, a superficialidade das relações ou a busca incessante por prazeres efêmeros que não preenchem verdadeiramente. Nishitani propõe que encaremos o vazio de frente, sem medo, como uma possibilidade de transcender nossa perspectiva limitada e fragmentária do mundo.

O Nada como Campo de Possibilidades

Um dos conceitos mais profundos de Nishitani é o "nada" entendido como "vacuidade" (šūnyatā, no budismo). Diferente da ideia ocidental de vazio como ausência absoluta, a vacuidade é um estado dinâmico de interconexão. Quando nos libertamos do apego à ideia de um "eu" separado e fixo, podemos perceber que o nada é o espaço onde tudo se manifesta.

Um exemplo prático pode ser encontrado em uma conversa profunda com um amigo. Em momentos assim, quando não estamos presos à preocupação com nossa própria imagem ou ao desejo de impressionar, emerge uma conexão genuína. Esse "nada" — a ausência de egoísmo e expectativas — cria o espaço para que a relação floresça.

Religião como Realização Existencial

Para Nishitani, a religião é mais do que um sistema de crenças; é uma experiência existencial que nos coloca em contato com a dimensão mais profunda do ser. Ele desafia a distinção tradicional entre o sagrado e o profano, argumentando que a iluminação ocorre precisamente no âmbito da vida cotidiana. A verdadeira religião, segundo Nishitani, não nos afasta do mundo, mas nos reconcilia com ele, revelando que o "eu" e o "mundo" são inseparáveis.

Esse ponto é especialmente relevante em um mundo onde a espiritualidade é frequentemente tratada como algo à parte da "vida real". Por exemplo, ao lavar a louça, podemos considerar a tarefa como uma obrigação mundana ou como uma oportunidade para estar plenamente presentes no momento. Nishitani sugere que, ao enxergarmos a sacralidade em tais momentos simples, descobrimos a verdadeira dimensão da religião.

A Resposta ao Niilismo

A solução de Nishitani para o niilismo não está em rejeitá-lo, mas em atravessá-lo. Ele propõe um movimento para "além do niilismo", onde o vazio é transformado em plenitude. Esse processo requer um desapego radical — não apenas dos bens materiais, mas também das nossas ideias preconcebidas e do desejo de controle.

Imagine uma situação em que um plano cuidadosamente elaborado fracassa. Inicialmente, o sentimento de frustração e inutilidade pode parecer avassalador. No entanto, ao abandonar a fixação no resultado e abrir-se à experiência, pode-se descobrir uma nova perspectiva ou oportunidade. Para Nishitani, essa capacidade de abraçar o inesperado é o que transforma o niilismo em um caminho para a sabedoria.

"Religião e o Nada" nos desafia a repensar nossa relação com o vazio e com o mundo. Nishitani não oferece respostas fáceis ou soluções rápidas, mas convida a uma jornada de autodescoberta que envolve tanto a aceitação do nada quanto a superação do niilismo. Em um momento histórico em que a humanidade busca sentido em meio à fragmentação e à incerteza, sua filosofia se torna mais relevante do que nunca.

Ao nos reconectarmos com a dimensão profunda do ser — no ato de lavar a louça, em uma conversa significativa ou em qualquer outro momento do cotidiano — podemos transformar o nada em uma fonte inesgotável de significado e liberdade.