Ele
acorda com o som do despertador. O despertador não soa como chamado — soa como
comando. Levanta, escova os dentes, olha o celular antes mesmo de olhar o céu.
O dia começa não como mistério, mas como tarefa.
É
assim que vive o “homem profano” descrito por Mircea Eliade em O Sagrado
e o Profano.
Quando
se fala nisso, não é preciso imaginar povos antigos ou templos esquecidos.
Basta observá-lo no ônibus, respondendo mensagens, calculando prazos, vivendo
como se o mundo fosse apenas um conjunto de funções.
O
tempo que não inaugura nada
Para
o homem religioso tradicional, o tempo podia ser ruptura e renovação. O Ano
Novo não era simples troca de calendário — era reinício simbólico.
Para
ele, o tempo é agenda.
Segunda-feira
não inaugura nada. É repetição. Sexta-feira não é libertação ontológica — é
pausa estratégica.
Vive
num tempo homogêneo. Cada dia substitui o outro. Não há centro. Não há
hierarquia sagrada. Apenas sequência.
O
domingo muitas vezes já nasce contaminado pela ansiedade da segunda.
O
espaço que não fala
Ele
entra no escritório. É apenas um espaço funcional: mesas, computadores, café
automático. Não é lugar consagrado — é infraestrutura.
O
homem profano não enxerga montanhas como morada do divino nem casa como
microcosmo simbólico. Enxerga localização, metragem, custo-benefício.
Muda
de endereço sem sentir que desloca o eixo do mundo. É logística, não travessia
existencial.
O
espaço torna-se neutro.
E,
no entanto, algo insiste
Apesar
disso, há momentos em que a neutralidade falha:
- Uma música antiga suspende o tempo.
- Uma igreja vazia impõe um silêncio
diferente.
- Um olhar amado não pode ser reduzido
a função.
Nesses
instantes, o mundo deixa de ser plano.
Mircea
Eliade sugeria que o homem moderno tenta viver exclusivamente no profano, mas
nunca consegue totalmente. Vestígios do sagrado sobrevivem — em ritos sociais,
em datas comemorativas, em gestos simbólicos que ele mesmo talvez não
compreenda.
Se
escutasse Leonardo Boff, ouviria que o problema não é abandonar rituais
religiosos formais, mas perder a capacidade de reverência.
Quando
tudo se torna recurso — o tempo, a natureza, as pessoas — a vida se empobrece.
A eficiência cresce, mas a interioridade seca.
O
homem profano é funcional.
Mas
pode tornar-se árido.
A
pergunta que o acompanha
Talvez
a questão não seja religião institucional.
Talvez
seja profundidade.
Se
tudo pode ser trocado, acelerado, monetizado, então o mundo se fecha sobre si
mesmo.
Mas
se ele ainda preserva algo que não se reduz a função — amor, silêncio,
dignidade, contemplação — então carrega um pequeno altar invisível.
E
talvez seja ali, nesse interior que resiste à lógica da utilidade, que começa a
superação do homem profano.
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