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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Terra Gêmea

Imagine acordar um dia e descobrir que existe uma segunda Terra. Não um planeta qualquer, mas um mundo idêntico ao nosso, espelhando continentes, cidades e até pessoas. Uma Terra Gêmea. Essa ideia, que poderia ser encontrada tanto na ficção científica quanto em devaneios filosóficos, levanta questões profundas sobre identidade, destino e a própria noção do real.

Se houvesse uma cópia exata de nós mesmos vivendo nessa outra Terra, seríamos a mesma pessoa? Se cada decisão nossa tivesse um reflexo no outro mundo, o livre-arbítrio ainda faria sentido? E se a outra Terra tivesse tomado um rumo diferente—uma história sem guerras mundiais, sem crises climáticas, sem as mesmas falhas que acumulamos—ela seria um paraíso ou apenas um erro corrigido?

Na filosofia, questões como essa nos remetem a Platão e sua teoria das ideias, onde o mundo sensível não passa de uma cópia imperfeita do mundo ideal. A Terra Gêmea poderia ser, então, um modelo mais puro da nossa realidade ou uma versão degradada dela? Leibniz, ao falar do melhor dos mundos possíveis, talvez argumentasse que o nosso planeta é o único viável dentro das leis da lógica e da necessidade. Mas e se houvesse dois mundos igualmente possíveis? Quem determinaria qual deles é o melhor?

A identidade, um dos temas mais recorrentes da filosofia, também entra em jogo. Se houvesse um outro "eu" vivendo na Terra Gêmea, o que nos diferenciaria? Seria apenas a consciência individual, ou nossa história pessoal—com todas as suas singularidades e contingências—seria o que realmente nos define? Sartre, com sua ideia de que "a existência precede a essência", talvez sugerisse que nossos "eus" em cada Terra poderiam tomar rumos diferentes, moldando-se segundo suas escolhas e contextos.

Hilary Putnam, em seu famoso experimento mental da Terra Gêmea, nos leva a uma reflexão sobre linguagem e significado. Em sua hipótese, imaginamos um planeta idêntico ao nosso, exceto por uma única diferença: a composição química da água. Em nosso mundo, a água é H₂O, mas na Terra Gêmea, ela é composta por outra substância, XYZ. Ainda assim, os habitantes da Terra Gêmea a chamariam de "água". Isso levanta a questão: as palavras significam apenas aquilo que pensamos sobre elas, ou são determinadas por fatores externos? A existência de uma Terra Gêmea nos forçaria a reconsiderar o que de fato constitui a realidade e como atribuímos sentido ao mundo ao nosso redor.

Outra perspectiva intrigante vem da física e da cosmologia. A hipótese do multiverso sugere que realidades paralelas podem existir, cada uma com suas variações. No entanto, se a Terra Gêmea fosse exatamente igual, não estaríamos falando de um multiverso caótico, mas de um espelho perfeito, um desdobramento preciso da mesma equação cósmica. Isso faria de nós peças replicáveis, reféns de um determinismo absoluto?

Talvez a questão mais perturbadora seja ética. Se soubéssemos da existência da Terra Gêmea, isso mudaria a forma como lidamos com o nosso próprio mundo? Seríamos mais responsáveis, sabendo que cada ato pode ter seu eco em outro lugar? Ou nos tornaríamos indiferentes, relativizando nossas ações por saber que há uma cópia nossa passando pelas mesmas dificuldades e conquistas?

A ideia de uma Terra Gêmea nos obriga a encarar nossa própria condição com um olhar renovado. No fundo, talvez ela não passe de uma metáfora poderosa: e se, em vez de procurar um outro mundo, olhássemos para o nosso como algo ainda a ser descoberto, ainda a ser moldado? Pois, se há uma Terra Gêmea, há também a possibilidade de fazer desta Terra algo que valha a pena duplicar.


terça-feira, 13 de julho de 2021

Resenha do Livro O Homem Duplicado de José Saramago

 


O tema do homem duplicado é imensamente explorado, desde a antiga Grécia, o mito grego Castor e Pólux, conhecidos também pelo nome de Dióscoros, são dois jovens heróis da mitologia grega, os "Gémeos Celestes, portanto desde muito tempo atrás o tema é fascinante, a questão do duplo vem ao longo do tempo adquirindo novas interpretações, tal como alucinações, dupla personalidade, crises existenciais, temos diversas obras que se debruçaram sobre o tema, tais como em Dostoievski (O duplo), O Médico e O Monstro (R.L.Stevenson), Edgar Allan Poe (William Wilson), e Saramago não ficou atrás, nem ficou a dever, ele também explorou o tema do homem duplicado, explorou com grande habilidade e inteligência a crise de identidade.

Vamos falar um pouco a respeito do autor, José Saramago (1922-2010), ele foi um importante escritor português, destacou-se como romancista, teatrólogo, poeta e contista, recebeu vários prêmios como o Prêmio Nobel de Literatura, o Prêmio Camões, entre outros. José Saramago nasceu em Azinhaga de Ribatejo, no concelho de Golegã, distrito de Santarém em Portugal, tem muitos livros de sucesso publicados, tais como: A Caverna, Caim, Objecto Quase, Memorial do Convento e etc.

O livro é incrível do início ao fim, o final também é muito legal, o estilo do Saramago, peculiar, sempre irônico conversando com o leitor. Ele mais uma vez trouxe para literatura seu modo de singular oralidade e leitura, usando apenas a vírgula e o ponto, sinais de pausa, para o leitor de Saramago ele já está familiarizado com este estilo e já coordena bem a respiração nos longos parágrafos.

O livro trata da estória de um professor de história chamado Tertuliano Máximo Afonso, ele é um cara depressivo e solitário, numa conversa entre ele e seu colega de professor de matemática percebendo a falta de entusiasmo de Tertuliano, como forma de proporcionar alguma alegria e lhe fazer sentir melhor sugere que assista um filme de comedia, nosso protagonista atende a sugestão e aluga um filme na locadora, ele assiste e conclui que não gostou, ele decide dormir para no outro dia devolver o filme, porem o professor pouco tempo depois acorda sobressaltado, acorda repentinamente, acorda com algo que o havia perturbado, ele percebe que era algo no filme que não havia percebido a primeira vista, ele resolve assistir ao filme novamente e se depara com algo surpreende e assustador, ele percebe um dos personagens secundários ser uma verdadeira cópia dele, idêntico, sua cópia escarrada, um duplicado.

A partir daí sua rotina entediante fica imensamente abalada, se inicia neste instante uma curiosidade do protagonista em saber quem é esta pessoa idêntica a ele. Descobrir é algo muito difícil, pois o filme era ambientado nos anos 90, e muito provavelmente não era tão simples descobrir o nome e o paradeiro deste individuo idêntico a ele, a investigação se torna uma obsessão, os seus atos para chegar neste objetivo terão muitas consequências inesperadas, é uma trilha de investigação que o leva a duvidar de sua própria identidade.

O outro idêntico não é irmão gêmeo dele, a coisa vai muito mais além em todos os sentidos, eles têm os mesmos desejos, machucados, cicatrizes, manias, a dúvida dele é saber que é o original, será ele ou o outro, a idade de ambos é a mesma, as profissões é que são diferentes, Tertuliano é professor de História e seu duplicado Antônio Claro é ator.

Este livro aborda alguns pontos importantes e bem explorados, individualidade e aceitação, temas tão atuais que se lermos seguidamente ele permanecerá atual e interessante.

A sensação de perder sua individualidade o assombra diariamente sua existência no mundo ficariam em questão, tornando-se um dilema.

Os contatos com a mãe, os encontros com a espécie de namorada Maria da Paz passam a ser cheios de segredos. Como esperar que um ente querido reaja ao fato de existir dois de você?

Tertuliano conta com a ajuda do seu Senso Comum, uma espécie de amigo imaginário, veja a ironia, é realmente um duplo no interior do protagonista, ele usa deste artificio como muitos que não tem ou não confiam em alguém para conversar.

 

Infelizmente, o senso comum nem sempre aparece quando é necessário, não sendo poucas as vezes em que de uma ausência momentânea resultaram os maiores dramas e as catástrofes mais aterradoras. José Saramago, O Homem Duplicado

A dificuldade de aceitar o outro sempre foi um problema sério na sociedade, principalmente quando este outro lhe ameaça sua sanidade, sua vida, e também a forma como nos vemos ao nos olharmos num espelho.

Se fosse duplicado e conversasse com meu duplo idêntico e lhe fizesse uma analise como eu o vejo, provavelmente eu diria que o outro seria muito diferente, pois falaria aquilo que penso que não sou, talvez o meu duplo não concordasse comigo e me dissesse que somos exatamente iguais, porque a maneira como nós nos vemos ou pensamos ver tem a ver com o ser, provavelmente não seja como somos vistos pelo outro, o duplo, porquê? Porque não nos conhecemos direito e porquê o que os outros veem e sabem a nosso respeito é àquilo que exteriorizamos, é somente aquilo que deixamos sair, nós estamos lá atrás dos olhos, sentindo e vendo, controlando nossos gestos, atos e palavras, representamos diferentes papeis, seja como colega de aula, o colega de trabalho, o irmão, o amigo, o pai, o filho, a mãe, o político, enfim, estamos dentro de uma imensa peça teatral chamada vida, somos vários num só.

 

“Toda a gente sabe que nenhum homem pode ser exatamente igual ao outro num mundo em que se fabricam máquinas para acordar.” José Saramago, O Homem Duplicado

Certamente uma conversa com o duplo se possível fosse seria interessante e perturbadora. Podem ser iguaizinhos, mas cada um é um, é igual na aparência, mas único, pois a caminhada de vida de cada um até se conhecerem, foi pessoal e singular, as experiências até o momento em que se conheceram fizeram haver diferenças, os dois então são originais, por esta razão conviver com um igual só é difícil por haver distorção na maneira como aprendemos a respeitar o outro e a respeitar a nós mesmos pelas diferenças, haverá competição? Se sim disputando o quê?

Tem várias sutilezas que Saramago explora ao máximo e ao limite nesta questão dilema do homem duplicado, isto se percebe porque a riqueza dos detalhes é imensa, é um livro minucioso e bem planejado, inclusive na profissão do idêntico é um ator, a profissão e representar personagens que toca na questão da identidade.

O Homem Duplicado virou filme, um filme de suspense psicológico dirigido por Denis Villeneuve, é um longa que tem como ator principal Jake Gyllenhaal, ele foi exibido pela primeira vez na sessão Apresentação Especial do Festival Internacional de Cinema de Toronto em 8 de setembro de 2013. A estreia em Portugal e no Brasil ocorreu no dia 19 de junho de 2014. É um filme para assistir mais de uma vez, ele tem uma carga simbólica muito grande.

A clonagem também seria uma possibilidade, atualmente já existe técnica criada em laboratório para produzir indivíduos idênticos, no caso de nosso protagonista se ele fosse um indivíduo clonado seria o clímax do abalo da sua sanidade, provavelmente para a sanidade de qualquer um seria imaginar que existe alguém por ai idêntico, igualzinho, quem seria o tal original e quem seriam suas cópias no mundo, realmente é algo bastante desnorteante, isto certamente levanta assunto delicado para se discutir na filosofia. No entanto, se admitida a possibilidade de uma clonagem, ainda precisaria explicar as muitas coincidências de idênticos  machucados e cicatrizes que ambos possuem, talvez a sincronicidade junguiana possa explicar tais "coincidências", e quica a física quântica seja convidada a prestar esclarecimentos.

O Homem Duplicado é um livro repleto de simbolismos, permitindo a cada leitor ter, por si, a própria interpretação sobre os acontecimentos e fatos narrados. Nesse contexto, com uma boa história e personagens marcantes (mas não tão amáveis), tem-se uma ótima leitura ao fim das páginas.

O final também foi escrito no capricho, pensamos que não vai acontecer nada, que a história acabou e está tudo acomodado, mas tem reviravolta, a reviravolta nos deixa com uma pulga atrás da orelha, o desfecho é impressionante. Com certeza este livro que reli, vai continuar na lista para reler outras várias vezes, a cada leitura captamos mais detalhes, é uma obra prima, recomendo a leitura.

Fonte: Saramago, José. O Homem Duplicado. São Paulo/SP. Companhia das Letras, 2008