O
tema do homem duplicado é imensamente explorado, desde a antiga Grécia, o mito
grego Castor e Pólux, conhecidos
também pelo nome de Dióscoros, são dois jovens heróis da mitologia grega, os
"Gémeos Celestes, portanto desde muito tempo atrás o tema é fascinante,
a questão do duplo vem ao longo do tempo adquirindo novas interpretações, tal
como alucinações, dupla personalidade, crises existenciais, temos diversas
obras que se debruçaram sobre o tema, tais como em Dostoievski (O duplo), O
Médico e O Monstro (R.L.Stevenson), Edgar Allan Poe (William Wilson), e Saramago
não ficou atrás, nem ficou a dever, ele também explorou o tema do homem
duplicado, explorou com grande habilidade e inteligência a crise de identidade.
Vamos falar um pouco a
respeito do autor, José Saramago (1922-2010), ele foi um importante escritor português,
destacou-se como romancista, teatrólogo, poeta e contista, recebeu vários
prêmios como o Prêmio Nobel de Literatura, o Prêmio Camões, entre outros. José Saramago
nasceu em Azinhaga de Ribatejo, no concelho de Golegã, distrito de Santarém em
Portugal, tem muitos livros de sucesso publicados, tais como: A Caverna, Caim,
Objecto Quase, Memorial do Convento e etc.
O livro é incrível do início ao fim, o
final também é muito legal, o estilo do Saramago, peculiar, sempre irônico
conversando com o leitor. Ele mais uma vez trouxe para literatura seu modo de singular
oralidade e leitura, usando apenas a vírgula e o ponto,
sinais de pausa, para o leitor de Saramago ele já está familiarizado com este
estilo e já coordena bem a respiração nos longos parágrafos.
O livro trata da estória de um professor
de história chamado Tertuliano Máximo Afonso, ele é um cara depressivo e
solitário, numa conversa entre ele e seu colega de professor de matemática
percebendo a falta de entusiasmo de Tertuliano, como forma de proporcionar
alguma alegria e lhe fazer sentir melhor sugere que assista um filme de
comedia, nosso protagonista atende a sugestão e aluga um filme na locadora, ele
assiste e conclui que não gostou, ele decide dormir para no outro dia devolver
o filme, porem o professor pouco tempo depois acorda sobressaltado, acorda
repentinamente, acorda com algo que o havia perturbado, ele percebe que era
algo no filme que não havia percebido a primeira vista, ele resolve assistir ao
filme novamente e se depara com algo surpreende e assustador, ele percebe um
dos personagens secundários ser uma verdadeira cópia dele, idêntico, sua cópia
escarrada, um duplicado.
A partir daí sua rotina entediante fica imensamente
abalada, se inicia neste instante uma curiosidade do protagonista em saber quem
é esta pessoa idêntica a ele. Descobrir é algo muito difícil, pois o filme era
ambientado nos anos 90, e muito provavelmente não era tão simples descobrir o
nome e o paradeiro deste individuo idêntico a ele, a investigação se torna uma
obsessão, os seus atos para chegar neste objetivo terão muitas consequências
inesperadas, é uma trilha de investigação que o leva a duvidar de sua própria
identidade.
O outro idêntico não é irmão gêmeo dele, a
coisa vai muito mais além em todos os sentidos, eles têm os mesmos desejos,
machucados, cicatrizes, manias, a dúvida dele é saber que é o original, será
ele ou o outro, a idade de ambos é a mesma, as profissões é que são diferentes,
Tertuliano é professor de História e seu duplicado Antônio Claro é ator.
Este livro aborda alguns pontos
importantes e bem explorados, individualidade e aceitação, temas tão atuais que
se lermos seguidamente ele permanecerá atual e interessante.
A sensação de perder sua individualidade o
assombra diariamente sua existência no mundo ficariam em questão, tornando-se
um dilema.
Os contatos com a mãe, os encontros com a
espécie de namorada Maria da Paz passam a ser cheios de segredos. Como esperar
que um ente querido reaja ao fato de existir dois de você?
Tertuliano conta com a ajuda do seu Senso
Comum, uma espécie de amigo imaginário, veja a ironia, é realmente um duplo no
interior do protagonista, ele usa deste artificio como muitos que não tem ou
não confiam em alguém para conversar.
Infelizmente, o senso comum nem sempre aparece
quando é necessário, não sendo poucas as vezes em que de uma ausência
momentânea resultaram os maiores dramas e as catástrofes mais aterradoras. José Saramago, O Homem Duplicado
A dificuldade de aceitar o outro sempre
foi um problema sério na sociedade, principalmente quando este outro lhe ameaça
sua sanidade, sua vida, e também a forma como nos vemos ao nos olharmos num
espelho.
Se fosse duplicado e conversasse com meu
duplo idêntico e lhe fizesse uma analise como eu o vejo, provavelmente eu diria
que o outro seria muito diferente, pois falaria aquilo que penso que não sou,
talvez o meu duplo não concordasse comigo e me dissesse que somos exatamente
iguais, porque a maneira como nós nos vemos ou pensamos ver tem a ver com o ser,
provavelmente não seja como somos vistos pelo outro, o duplo, porquê? Porque
não nos conhecemos direito e porquê o que os outros veem e sabem a nosso
respeito é àquilo que exteriorizamos, é somente aquilo que deixamos sair, nós
estamos lá atrás dos olhos, sentindo e vendo, controlando nossos gestos, atos e
palavras, representamos diferentes papeis, seja como colega de aula, o colega
de trabalho, o irmão, o amigo, o pai, o filho, a mãe, o político, enfim,
estamos dentro de uma imensa peça teatral chamada vida, somos vários num só.
“Toda a gente sabe que nenhum homem pode ser
exatamente igual ao outro num mundo em que se fabricam máquinas para acordar.” José Saramago, O Homem Duplicado
Certamente uma conversa com o duplo se
possível fosse seria interessante e perturbadora. Podem ser iguaizinhos, mas
cada um é um, é igual na aparência, mas único, pois a caminhada de vida de
cada um até se conhecerem, foi pessoal e singular, as experiências até o
momento em que se conheceram fizeram haver diferenças, os dois então são
originais, por esta razão conviver com um igual só é difícil por haver
distorção na maneira como aprendemos a respeitar o outro e a respeitar a nós
mesmos pelas diferenças, haverá competição? Se sim disputando o quê?
Tem várias sutilezas que Saramago explora
ao máximo e ao limite nesta questão dilema do homem duplicado, isto se percebe
porque a riqueza dos detalhes é imensa, é um livro minucioso e bem planejado,
inclusive na profissão do idêntico é um ator, a profissão e representar
personagens que toca na questão da identidade.
O Homem Duplicado virou filme, um filme de suspense psicológico
dirigido por Denis Villeneuve, é um longa que tem como ator principal Jake
Gyllenhaal, ele foi exibido pela primeira vez na sessão Apresentação
Especial do Festival Internacional de Cinema de Toronto em 8 de setembro de
2013. A estreia em Portugal e no Brasil ocorreu no dia 19 de junho de 2014.
É um filme para assistir mais de uma vez, ele tem uma carga simbólica
muito grande.
A clonagem também seria uma possibilidade, atualmente já existe técnica criada em laboratório para produzir indivíduos idênticos, no caso de nosso protagonista se ele fosse um indivíduo clonado seria o clímax do abalo da sua sanidade, provavelmente para a sanidade de qualquer um seria imaginar que existe alguém por ai idêntico, igualzinho, quem seria o tal original e quem seriam suas cópias no mundo, realmente é algo bastante desnorteante, isto certamente levanta assunto delicado para se discutir na filosofia. No entanto, se admitida a possibilidade de uma clonagem, ainda precisaria explicar as muitas coincidências de idênticos machucados e cicatrizes que ambos possuem, talvez a sincronicidade junguiana possa explicar tais "coincidências", e quica a física quântica seja convidada a prestar esclarecimentos.
O Homem Duplicado é um
livro repleto de simbolismos, permitindo a cada leitor ter, por si, a própria
interpretação sobre os acontecimentos e fatos narrados. Nesse contexto, com uma
boa história e personagens marcantes (mas não tão amáveis), tem-se uma ótima
leitura ao fim das páginas.
O final também foi escrito no capricho, pensamos
que não vai acontecer nada, que a história acabou e está tudo acomodado, mas
tem reviravolta, a reviravolta nos deixa com uma pulga atrás da orelha, o
desfecho é impressionante. Com certeza este livro que reli, vai continuar na
lista para reler outras várias vezes, a cada leitura captamos mais detalhes, é
uma obra prima, recomendo a leitura.
Fonte:
Saramago, José. O Homem Duplicado. São Paulo/SP. Companhia das Letras, 2008