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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Olho de Hórus

Ver é mais do que enxergar

Outro dia me peguei olhando aquele símbolo antigo — o Olho de Hórus — estampado numa camiseta, pendurado num colar, tatuado no braço de alguém. A gente vê, acha bonito, talvez “místico”, e segue a vida. Mas fiquei pensando: o que significa, de fato, carregar um olho no peito?

Não é curioso que a humanidade tenha escolhido um olho — e não uma espada, uma coroa ou um punho fechado — como símbolo de poder e proteção?

O Olho de Hórus, ou Wedjat, na mitologia egípcia, é o olho que foi arrancado na luta entre Hórus e Seth, e depois restaurado. Não é apenas visão. É visão ferida. É percepção que passou pela perda e voltou inteira.

Talvez seja aí que o símbolo comece a nos olhar de volta.

O olho que perdeu para poder ver

Na narrativa egípcia, Hórus perde o olho no confronto com Seth. O olho é posteriormente curado e restaurado. O símbolo passa então a representar proteção, cura, recomposição.

Mas pense bem: por que o olho precisa ser ferido para se tornar sagrado?

Aqui entra Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Para Hegel, a consciência não nasce pronta. Ela se constrói no conflito. A dialética não é harmonia inicial; é ruptura, negação, enfrentamento. A consciência só se reconhece quando encontra oposição.

O Olho de Hórus é quase uma imagem mitológica da dialética:

  • Há luta.
  • Há perda.
  • Há reconstrução.
  • Surge um nível mais alto de integridade.

O que vê depois da dor não vê como antes.

Ver é um ato ético

Costumamos associar visão a conhecimento. Mas ver é também responsabilidade.

Emmanuel Levinas dizia que o rosto do outro nos convoca eticamente. Não é apenas uma imagem; é uma exigência. Ao ver o outro, sou chamado à responsabilidade.

O Olho de Hórus pode ser reinterpretado como esse ponto de vigilância interior:
não apenas “ser visto”, mas ver com responsabilidade.

Quantas vezes fechamos os olhos no cotidiano?

  • No trabalho, quando sabemos que algo é injusto, mas fingimos não perceber.
  • Na família, quando evitamos um conflito necessário.
  • Na sociedade, quando escolhemos ignorar o sofrimento alheio.

Talvez o olho simbólico nos lembre que não ver é também uma escolha moral.

O olho interior

O símbolo também remete à ideia de visão ampliada, quase espiritual. Não por acaso, muitas culturas associaram o olho à consciência desperta.

Carl Gustav Jung falava do processo de individuação como a integração das partes fragmentadas da psique. O olho restaurado de Hórus parece uma metáfora arquetípica desse processo: o que estava dividido é reunido.

Talvez o Olho de Hórus não seja um amuleto externo, mas um lembrete interno:
a integridade não é ausência de fratura — é fratura assimilada.

A sociedade da vigilância e o olho invertido

Mas há um outro lado.

Vivemos na era das câmeras, dos algoritmos, da exposição constante. Aqui, o olho já não é símbolo de consciência, mas de controle.

Michel Foucault analisou o panoptismo como estrutura de poder: somos disciplinados pela possibilidade de sermos observados. O olhar torna-se instrumento de dominação.

Nesse contexto, o Olho de Hórus ganha uma ambiguidade moderna:

  • É proteção?
  • Ou é vigilância?
  • É consciência?
  • Ou é controle?

Talvez a pergunta mais radical seja: quem está vendo quem?

O olho como metáfora da consciência brasileira

Se quisermos trazer para nossa sensibilidade latino-americana, podemos lembrar Paulo Freire. Ele falava da conscientização: o despertar crítico diante da realidade.

O Olho de Hórus poderia ser lido como símbolo da consciência que se recusa a permanecer alienada. Não é apenas um olho que vê o mundo; é um olho que aprende a interpretar o mundo.

Freire diria que ver não basta — é preciso ler o mundo.

Uma hipótese inovadora: o olho como símbolo da visão que se transforma

Proponho uma leitura menos mística e mais existencial:

O Olho de Hórus não representa um olhar sobrenatural.

Representa a capacidade humana de transformar a perda em lucidez.

Quando perdemos algo — um amor, uma certeza, um projeto — algo em nós se parte. Se permanecemos no ressentimento, o olho continua arrancado. Mas se integramos a experiência, o olhar volta diferente.

Mais profundo.

Mais humilde.

Mais real.

Talvez o símbolo sobreviva há milênios porque ele fala daquilo que todo ser humano inevitavelmente atravessa: a ferida que ensina a ver.

Distinção / Diferenças Simbólicas entre os “olhos”

O chamado Olho de Hórus (Wedjat) refere-se tradicionalmente ao olho esquerdo de Hórus e está associado à lua, à cura e à restauração — pois, segundo o mito, foi arrancado por Seth e depois recomposto, tornando-se símbolo de proteção e recomposição após a perda; já o chamado Olho de Rá, ligado ao olho direito e ao deus solar Rá, representa o sol, o poder ativo, a autoridade e a força punitiva, expressando uma energia expansiva e dominadora. Em síntese, enquanto o Olho de Hórus simboliza a consciência que se cura e se integra, o Olho de Rá simboliza a consciência que ilumina e exerce poder.

Carregar um olho é carregar uma tarefa

No fim das contas, o Olho de Hórus não é um amuleto de proteção mágica. É um lembrete exigente.

Ele parece sussurrar:

  • Veja o que você evita ver.
  • Reconstrua o que foi quebrado.
  • Assuma responsabilidade pelo que seus olhos alcançam.
  • Não tema a ferida que amplia sua percepção.

Talvez a verdadeira proteção não venha de forças externas, mas da coragem de olhar.

E, no fundo, o símbolo talvez não represente um deus que tudo vê —
mas o ser humano que aprende, lentamente, a abrir os próprios olhos.