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terça-feira, 14 de outubro de 2025

Reflexões de Banheiro



Tem lugares onde a gente pensa sem querer pensar. O banheiro é um deles. Basta fechar a porta, escutar o som da água ou sentir o piso frio no pé descalço, que as ideias começam a escorrer junto com o sabonete. Pensamentos aleatórios aparecem no meio da escovação dos dentes, teorias de vida surgem entre uma descarga e outra, dilemas existenciais brotam no vapor do chuveiro. É quase um portal secreto para o nosso lado mais sincero — sem roupa, sem pose, sem plateia. Então por que não mergulhar nesse espaço improvável de filosofia cotidiana, onde o banal vira profundo e o papel higiênico pode, sim, ter um sentido metafísico.

O Santuário Íntimo

Entre as paredes frias da cerâmica e o eco suave da água correndo, o banheiro se revela um espaço paradoxal: íntimo e, ao mesmo tempo, exposto. Ali, nus não apenas em corpo, mas em pensamento, entramos em contato com nossa vulnerabilidade e com a pulsão primária de limpeza — física e existencial.

O Espelho e o Eu Fragmentado

Encostamo-nos ao espelho para arrancar pelos, ajeitar madeixas e, quem sabe, medir a extensão do cansaço refletido no olhar. Porém, o espelho devolve mais do que a imagem habitual: mostra-nos um “eu” multifacetado, feito de traços que mudam dia a dia. Nesse vislumbre fugidio, sentimos o eco de Heráclito: tudo flui, nada permanece. O rosto que nos contempla durante o banho é o mesmo que, logo depois, já não existe — mas continua a sustentar nossa sensação de identidade.

O Fluxo da Água e a Temporalidade

A água que cai incessante sobre nossos ombros leva embora o calor do dia e carrega partículas de passado — uma metáfora viva para a passagem do tempo. Cada gota que escorre sugere que, ao mesmo tempo em que nos banhamos, somos banhados pela própria história que deixamos escapar: memórias, angústias, expectativas. Esse rito diário aproxima-se da prática budista da atenção plena, em que a mente se ancora no presente, gota após gota, refluxo após refluxo.

A Solidão Cotidiana

Apesar de estarmos sós, a solidão do banheiro não é estranhamento. Antes, é acolhida: um breve intervalo entre “mundo de fora” e “mundo interior”. Em meio ao som da descarga ou ao chiado do chuveiro, revisitamos diálogos antigos, formulamos respostas que jamais diremos em voz alta. Esse espaço torna-se um laboratório de pensamentos, onde experimentamos versões de nós mesmos antes de reaparecermos para os outros.

A Limpeza e a Renovação

Limpar-se é simbolicamente renovar-se. Enxaguamos não só a poeira, mas as marcas de um dia intenso — e, quiçá, algumas de nossas certezas desgastadas. A lógica é quase alquímica: substâncias simples (sabonete, água) transformam o bruto em limpo, o velho em possibilidade. Em cada esfregão de esponja, ensaiamos uma pequena revolução existencial: rasgamos a fímbria do passado que teima em aderir.

Objetos Cotidianos como Ícones Filosóficos

O sabonete: efêmero em seu uso (desfaz-se em espuma), evoca a brevidade da vida.

O ralo: ponto de fuga, lembrete de que tudo o que deixamos ir é recolhido por circuitos ocultos, tal como as experiências que moldam o inconsciente.

O chuveiro: moderador de intensidade (quente, morno, frio), lembra a impermanência e a condição de autoregulação diante dos desafios.

Comentário de Mário Sérgio Cortella

Nas palavras de Cortella, “há uma enorme riqueza em percebermos as pequenas pausas do cotidiano” — justamente porque nesses momentos singulares somos convidados a pensar não o que precisamos fazer, mas quem somos. O banheiro, para ele, funciona como um “túnel de silêncio” onde a reflexão não é distração, mas um gesto de cuidado com a própria existência.

Do Banho ao Recomeço

Ao final do ritual, emergimos revigorados — fisicamente limpos e mentalmente reordenados. Carregamos conosco o exercício singular de ter parado, ainda que por minutos, para nos contemplar. E, assim, prontos para reaparecer no mundo, experimentamos, no espelho da última gota, a coragem de continuar a nos reinventar.

Talvez o banheiro seja o único lugar do mundo onde todo mundo vira filósofo sem diploma. Ali, sentados no trono da humanidade, entre azulejos e reflexões, questionamos o sentido da vida, o porquê das segundas-feiras e até o motivo de nunca conseguirmos lembrar se já passamos o condicionador. É nesse cubículo sagrado que grandes decisões são tomadas: relacionamentos terminam, ideias de negócios geniais nascem (e morrem logo após a descarga), e até planos para salvar o mundo são esboçados — geralmente com o cotovelo apoiado no joelho e o olhar perdido no rejunte da parede.

 - “Não é no silêncio que nos calamos, mas no eco das nossas reflexões.”

Reflexões de banheiro, onde o ordinário se transforma em extraordinário, gota a gota.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Reflexões Curtas

O grão de areia da consciência

Vivemos num tempo em que tudo precisa caber em um parágrafo, um tuíte, um reels. Parece superficial, mas talvez estejamos diante de um fenômeno mais profundo: a era das reflexões curtas. Seriam elas sintomas da pressa ou sementes da lucidez?

Um pensamento curto não é necessariamente raso. Um haicai contém mais mundo do que muitos romances. Um provérbio pode resumir gerações de sabedoria. O silêncio entre duas frases pode falar mais do que ambas. Reflexões curtas, quando verdadeiras, não são simplificações — são condenações à essência. Cortam o que é vaidade e entregam só o núcleo.

É possível que estejamos, sem perceber, tentando reencontrar uma forma antiga de pensar: a do aforismo, do koan, do lampejo súbito que nos obriga a parar. No fundo, queremos que uma frase nos freie no meio da rotação da Terra. Algo que nos diga: “Você também sente isso, não é?” E ali, naquela fagulha, acende-se a comunhão humana.

Nietzsche escreveu aos pedaços. Cioran, como quem atira estilhaços contra o céu. Simone Weil dizia que a atenção pura é uma oração — e uma frase pode ser uma oração se vier de um pensamento inteiro.

Talvez o problema não esteja na brevidade da reflexão, mas na falta de intervalo para que ela ressoe. Um bom pensamento precisa de eco. Não é preciso escrever longo, mas é preciso demorar-se. O perigo não está nas reflexões curtas, mas na vida sem pausa para refletir.

Pensar, afinal, não é construir castelos. Às vezes, é só perceber que há vento. E isso basta.