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sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Atribulações da Existência


Um ensaio filosófico informal sob a ótica budista

 

Tem dia que tudo parece pesar mais: o despertador toca cedo demais, o café derrama na roupa limpa, a fila anda devagar, e os pensamentos aceleram. Em meio ao barulho do mundo, somos levados como folhas ao vento, tentando equilibrar mil coisas enquanto uma voz interna sussurra: “tem algo errado”. Mas e se o erro não estiver nas circunstâncias, e sim na forma como nos relacionamos com elas?

As atribulações da existência não são novidade. Mas o que muda é como olhamos para elas. No Ocidente, muitas vezes as vemos como obstáculos a serem vencidos — inimigos externos a serem combatidos com força, garra ou produtividade. Já o olhar budista propõe algo radicalmente diferente: e se as atribulações forem professoras? E se o sofrimento não for um desvio, mas um espelho?

Segundo os ensinamentos budistas, o sofrimento (ou dukkha) não surge apenas de eventos trágicos ou grandes perdas. Ele brota na raiz da existência, justamente por resistirmos ao fluxo natural da vida. Sofremos porque queremos que as coisas sejam permanentes quando tudo muda. Sofremos porque desejamos prazer contínuo num mundo onde tudo é transitório. E principalmente: sofremos porque acreditamos que existe um “eu” fixo que merece controle absoluto sobre tudo — e que se frustra quando isso não acontece.

O mestre budista vietnamita Thich Nhat Hanh nos convida a cultivar a presença plena como antídoto para esse ciclo de atribulações. Ele diz:

“As pessoas costumam considerar caminhar sobre as águas ou no ar um milagre. Mas eu acho que o verdadeiro milagre é caminhar sobre a Terra.”

Estar presente é, paradoxalmente, a forma mais profunda de desapego. Não é se tornar indiferente, mas deixar de agarrar-se a tudo como se tudo fosse durar para sempre. O desapego no budismo não é desinteresse — é liberdade. É o reconhecimento de que nenhuma emoção, nenhum bem, nenhuma relação, nem mesmo o nosso corpo, nos pertence. Tudo é emprestado.

Muitos pensam que paz espiritual é viver longe do caos. Mas o budismo ensina que a verdadeira paz é conseguir manter o centro mesmo no olho da tempestade. E é aqui que entra a meditação — não como fuga, mas como método.

Sentar-se em silêncio, prestar atenção à respiração, observar os pensamentos que surgem e desaparecem como nuvens no céu — tudo isso treina a mente para perceber que não somos nossos pensamentos. A ansiedade, a raiva, a tristeza — tudo passa, e a meditação nos ajuda a não nos confundir com o que passa. Como diz um antigo ensinamento zen: "Deixe os pensamentos entrarem. Apenas não sirva chá para eles."

A prática constante da meditação vai desmontando, aos poucos, o apego que temos às ideias fixas sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre como o mundo deveria ser. Isso nos permite habitar a vida com mais leveza, como quem sabe que tudo é impermanente — e por isso mesmo precioso.

O pensador japonês D. T. Suzuki, responsável por apresentar o Zen ao Ocidente, afirmou certa vez:

“O sofrimento existe porque o homem se esqueceu da sua natureza essencial.”

Suzuki defendia que as atribulações não são resolvidas com fuga ou combate, mas com despertar. Quando redescobrimos que a mente é como um espelho — que reflete mas não se apega ao que vê —, então os eventos deixam de ser armadilhas e se tornam passagens. Não é sobre eliminar o sofrimento, mas vê-lo pelo que ele é: um lembrete de que ainda estamos apegados a algo ilusório.

Assim, o olhar budista sobre as atribulações da existência não é de pessimismo, mas de profunda lucidez. Sofrer faz parte, mas o sofrimento pode ser visto com olhos mais brandos. Não como castigo, mas como convite. A prática, a atenção, o silêncio interior — tudo isso nos ajuda a transformar cada pedra no caminho em degrau.

Meditar é olhar para dentro sem medo. Desapegar é abrir mão do controle e permitir que a vida se desdobre como uma flor — pétala por pétala. Talvez da próxima vez que a fila estiver enorme, ou a dor parecer insuportável, possamos lembrar: é só um instante. Respira. É só vida acontecendo.