Um
ensaio filosófico informal sob a ótica budista
Tem
dia que tudo parece pesar mais: o despertador toca cedo demais, o café derrama
na roupa limpa, a fila anda devagar, e os pensamentos aceleram. Em meio ao
barulho do mundo, somos levados como folhas ao vento, tentando equilibrar mil
coisas enquanto uma voz interna sussurra: “tem algo errado”. Mas e se o
erro não estiver nas circunstâncias, e sim na forma como nos relacionamos com
elas?
As
atribulações da existência não são novidade. Mas o que muda é como olhamos para
elas. No Ocidente, muitas vezes as vemos como obstáculos a serem vencidos —
inimigos externos a serem combatidos com força, garra ou produtividade. Já o
olhar budista propõe algo radicalmente diferente: e se as atribulações forem
professoras? E se o sofrimento não for um desvio, mas um espelho?
Segundo
os ensinamentos budistas, o sofrimento (ou dukkha) não surge apenas de
eventos trágicos ou grandes perdas. Ele brota na raiz da existência, justamente
por resistirmos ao fluxo natural da vida. Sofremos porque queremos que as
coisas sejam permanentes quando tudo muda. Sofremos porque desejamos prazer contínuo
num mundo onde tudo é transitório. E principalmente: sofremos porque
acreditamos que existe um “eu” fixo que merece controle absoluto sobre tudo — e
que se frustra quando isso não acontece.
O
mestre budista vietnamita Thich Nhat Hanh nos convida a cultivar a
presença plena como antídoto para esse ciclo de atribulações. Ele diz:
“As
pessoas costumam considerar caminhar sobre as águas ou no ar um milagre. Mas eu
acho que o verdadeiro milagre é caminhar sobre a Terra.”
Estar
presente é, paradoxalmente, a forma mais profunda de desapego. Não é se tornar
indiferente, mas deixar de agarrar-se a tudo como se tudo fosse durar para
sempre. O desapego no budismo não é desinteresse — é liberdade. É o
reconhecimento de que nenhuma emoção, nenhum bem, nenhuma relação, nem mesmo o
nosso corpo, nos pertence. Tudo é emprestado.
Muitos
pensam que paz espiritual é viver longe do caos. Mas o budismo ensina que a
verdadeira paz é conseguir manter o centro mesmo no olho da tempestade. E é
aqui que entra a meditação — não como fuga, mas como método.
Sentar-se
em silêncio, prestar atenção à respiração, observar os pensamentos que surgem e
desaparecem como nuvens no céu — tudo isso treina a mente para perceber que não
somos nossos pensamentos. A ansiedade, a raiva, a tristeza — tudo passa, e a
meditação nos ajuda a não nos confundir com o que passa. Como diz um antigo
ensinamento zen: "Deixe os pensamentos entrarem. Apenas não sirva chá
para eles."
A
prática constante da meditação vai desmontando, aos poucos, o apego que temos
às ideias fixas sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre como o mundo deveria
ser. Isso nos permite habitar a vida com mais leveza, como quem sabe que tudo é
impermanente — e por isso mesmo precioso.
O
pensador japonês D. T. Suzuki, responsável por apresentar o Zen ao
Ocidente, afirmou certa vez:
“O
sofrimento existe porque o homem se esqueceu da sua natureza essencial.”
Suzuki
defendia que as atribulações não são resolvidas com fuga ou combate, mas com despertar.
Quando redescobrimos que a mente é como um espelho — que reflete mas não se
apega ao que vê —, então os eventos deixam de ser armadilhas e se tornam
passagens. Não é sobre eliminar o sofrimento, mas vê-lo pelo que ele é: um
lembrete de que ainda estamos apegados a algo ilusório.
Assim,
o olhar budista sobre as atribulações da existência não é de pessimismo, mas de
profunda lucidez. Sofrer faz parte, mas o sofrimento pode ser visto com olhos
mais brandos. Não como castigo, mas como convite. A prática, a atenção, o
silêncio interior — tudo isso nos ajuda a transformar cada pedra no caminho em
degrau.
Meditar
é olhar para dentro sem medo. Desapegar é abrir mão do controle e permitir que
a vida se desdobre como uma flor — pétala por pétala. Talvez da próxima vez que
a fila estiver enorme, ou a dor parecer insuportável, possamos lembrar: é só um
instante. Respira. É só vida acontecendo.



