Um
Antropólogo em Marte (em inglês: An Anthropologist on Mars) é um livro escrito em 1995 pelo
neurologista anglo-americano Oliver Sacks, com grande habilidade ele narra distúrbios
neurológicos complexos, fazendo cada leitor ser completamente absorvido pelas incríveis
histórias de vida de seus pacientes, as histórias foram baseadas em sete
estudos de caso do autor sobre indivíduos com condições neurológicas
consideradas paradoxais para com suas atividades, e como essas condições podem
levar a um estado de desenvolvimento pessoal e/ou profissional.
"Um
antropólogo em Marte", título do livro, é a descrição do encontro entre
Sacks e Temple Grandin, uma mulher autista renomada internacionalmente por seus
estudos na criação de gado e professora universitária. "Um antropólogo em
Marte" é a descrição que Grandin usou para representar sua dificuldade em
interações sociais.
Este
livro vale a pena ser lido mais de uma vez, é uma oportunidade de ingressar num
mundo especial e fantástico a partir da experiência narrada de seres humanos
que pressionados por situações-limite tiveram de desenvolver habilidades para
se adaptarem de maneira criativa a conviver com doenças neurológicas
devastadoras, o que para a maioria das pessoas é difícil compreender como poderiam
superar limitações tão difíceis.
Por outro lado, os estudos de caso
apresentados por Sacks são de extrema sensibilidade que nos levam a pensar o
que poderia ser uma pessoa “normal”, afinal nossos olhares de estranheza em
relação a estes indivíduos especiais são também refletidos na estranheza deles
em relação aos ditos normais, afinal não podemos esquecer que somos de alguma
forma diferentes uns dos outros, cada um de nós vai vivendo conforme condições
orgânicas individuais. Antes de mais nada, esta é também uma oportunidade que
pode nos ajudar a compreender melhor o que somos.
Os sete estudos de caso:
· "O
caso de pintor daltônico" discute as realizações
de um pintor que sofre um acidente de carro e é acometido por uma Acromatopsia
cerebral, a incapacidade de perceber cores devido a algum acidente. No dia
seguinte ao acidente, ao ir trabalhar em seu ateliê, antes repleto de pinturas
coloridas e luminosas, depara-se com um mundo feito de cinza, branco e preto.
As coisas passam a ter uma aparência desagradável, "suja". As pessoas
viraram "estátuas cinzentas animadas" e o pintor passa a não suportar
sua própria aparência no espelho. Até os alimentos que ele ingeria
"pareciam-lhe repulsivos devido a seu aspecto cinzento, morto, e ele tinha
que fechar os olhos para comer". Para o pintor, o mundo passou a ser algo
parecido com um filme em preto-e-branco, tridimensional, com a diferença que os
filmes são representações do mundo, enquanto a vida dele era real. O pintor
voltou a pintar inspirado pela visão de um nascer do sol (em preto e branco).
"O sol nasceu como uma bomba, como uma enorme explosão nuclear", ele
contou à Sacks. Suas pinturas continuaram existindo, mas todas passaram a ser
em preto-e-branco. "Senti que se não pudesse continuar pintando, também
não ia querer continuar vivendo", ele desabafou com seu médico. Pg.
18
·
"O
último hippie" descreve o caso de um homem que sofre de
um grande tumor cerebral, e por causa desta, amnésia anterógrada, que
impossibilita o paciente de se lembrar de qualquer fato acontecido após a
década de 60. Este estudo de caso foi inspiração para o filme “A música nunca
parou”
Trecho
pg.63: “Não obstante, se
Greg, agora incapaz de transformar suas percepções ou memórias imediatas em
permanentes, permanecia paralisado nos anos 60, quando sua capacidade de
aprender novas informações entrou em colapso, ele se ajustou de alguma forma e
absorveu parte do que estava a sua volta, ainda que muito devagar e de maneira
incompleta”
·
"Uma
vida de cirurgião" conta a interação de Sacks com o
cirurgião e piloto amador Dr. Carl Bennett, que possui Síndrome de Tourette. Os
tiques podem se manifestar em qualquer parte ou conjunto de partes do corpo
(barriga, nádegas, pernas, braços etc.), mas, tipicamente, ocorrem no rosto e
na cabeça -- no rosto, como caretas repetidas, e na cabeça como um todo, como
movimentos bruscos, repetidos, de lado a lado, e se conhece pelos estranhos
grunhidos, crispações, caretas, gestos, e xingamentos involuntários emitidos
pelas pessoas que dela sofrem. Dr. Bennett, é morador da cidade estadunidense
de Branford, ele é muito querido por seus clientes e respeitado pelos seus
colegas de profissão, no pronto-socorro e no hospital local. Bennett, além de
operar com perfeição, sem nunca ter cometido um equívoco, dirige carro e pilota
um pequeno avião particular. Sua "esquisitisse" lhe conferiu uma
identidade e personalidade muito particulares, capazes de se manifestarem
absolutamente convencionais durante as atividades profissionais. Os gestos
bruscos, os tiques convulsivos, a mímica involuntária, as expressões
compulsivas de xingamentos são inteiramente controladas na sala de cirurgia,
por exemplo, manifestando-se livremente nos momentos de descontração.
Trecho
pg.90: “Bennett às vezes
chama a síndrome de Tourette de “uma doença de desinibição”. Diz que há
pensamentos, nada excepcionais em si mesmos, que todo mundo pode ter
incidentalmente, mas que são normalmente inibidos. No caso dele, esses
pensamentos persistem obsessivamente no fundo de sua cabeça e eclodem de
repente, sem seu consentimento ou intenção. Assim, por exemplo, ele pode querer
sair, ficar ao sol e se bronzear, quando o tempo está bom. Esse pensamento fica
no fundo de sua cabeça enquanto atende seus pacientes no hospital, e acaba
emergindo numa declaração súbita e involuntária”.
·
"Ver
e não ver" é a história de Shirl Jennings, um homem
cego desde a infância, graças à luta de sua noiva para conseguir que lhe
fizessem uma cirurgia a moça conseguiu o impossível, conseguiu que aos 50 anos
de idade lhe proporcionasse o dom da visão, ele foi capaz de recuperar a visão
após uma cirurgia.
Sua história
permite uma profunda reflexão sobre a diferença entre "enxergar" e o
"ver". Quando Virgil abriu os olhos, depois de ter sido cego por
tantos anos, não havia memória visual em que apoiar sua percepção e nem mundo
algum de experiência e sentido esperando-o. Ele viu, mas o que viu não tinha
coerência, seu cérebro não conseguia lhe dar sentido. "Nós que nascemos
com a visão", diz o autor, "jamais poderemos imaginar tal
confusão". Sacks caminha por toda a trajetória de sofrimento de Virgil na
experiência de ver e não ver e nas frustrações de sua mulher Amy e conclui:
"viu-se entre dois mundos, exilado em ambos — um tormento ao qual não
parecia ser possível escapar. Mas aí veio a libertação, na forma de uma segunda
e derradeira cegueira — uma cegueira que ele recebeu como dádiva. Assim como
outras pessoas acometidas por essa raridade, Sacks descreve a experiência do
paciente como sendo "profundamente perturbadora".
Trecho
pg. 119: “Quando
abrimos nossos olhos todas as manhãs, damos de cara com um mundo que passamos a
vida aprendendo a ver. O mundo não nos é dado: construímos nosso mundo através
da experiência, classificação, memória e reconhecimento incessantes”
·
"A
paisagem dos seus sonhos" discute a interação
entre Sacks e Franco Magnani, um homem obcecado pela sua vila natal Pontito na
Tuscania, onde ele morou até os doze anos. Apesar de não ter visto a comunidade
por muito tempo, Franco era capaz de relatar detalhes mínimos e precisos de Pontito
(Pontito é administrativamente uma frazione da comuna de Pescia, na província
de Pistoia, Toscana). Franco é denominado o "Artista da Memória", Franco
tem uma capacidade obsessiva, fotográfica e infinita de retratar sua cidade
(apenas ela), sob todos os ângulos, de forma recordatória e imaginativa.
Conforme dito por Sacks, este artista eidético, é ao mesmo tempo vítima e
possuidor de um repertório de imagens, cujo poder é difícil conceber. Ele não
está livre para ter equívocos de memória e nem para deixar de lembrar. Trata-se
de uma memória patológica, com um poder de fixação, de fossilização ou de
petrificação em plena atividade, marcada, porém por uma responsabilidade
cultural de recordar o passado e preservar seu sentido.
Trecho
pg.163: “O
estado de espírito que se anunciara em sonhos durante a noite se aprofundou e
intensificou na mente de Franco. Começou a ter “visões” de Pontito durante o
dia – visões emocionalmente avassaladoras, mas com uma qualidade minuciosa e
tridimensional que ele compara a holografia”
·
"Prodígios"
descreve a relação de Sacks com Stephen Wiltshire, um autista savântico,
nascido em Londres, descrito como "a melhor criança artista do Reino
Unido". É um garoto com prodigiosa capacidade de desenhar paisagens, ruas,
edifícios, igrejas, castelos etc. Falando dos idiots savants o autor
menciona que não se trata apenas de um sábio, mas de um prodígio. Depois de
diagnosticado seu autismo, teve a felicidade de encontrar a compreensão de um
professor e vários incentivadores que souberam valorizar mais seu talento que
suas deficiências. E assim conseguiu se projetar, ter suas obras premiadas,
suas capacidades estimuladas e ser hoje reconhecido como gênio. Desenvolveu
também profundas habilidades musicais. Depois de acompanhar os passos, as
reações, as vivências do talento no paradoxo das deficiências de Stephen,
Oliver concluiu: "suas limitações, paradoxalmente podem servir como forças
também. Sua visão é valiosa, ao que me parece, precisamente por transmitir um
ponto de vista maravilhosamente direto e não conceitualizado do mundo. Stephen
pode ser limitado, esquisito, idiossincrático, autista; mas lhe foi permitido
alcançar o que poucos de nós conseguimos, uma significante representação e
investigação do mundo" (pg.245). Precisamos pensar que a inclusão social
não é apenas colocar alguém especial junto aos demais alunos ditos “normais”,
há uma necessidade do professor ter conhecimento e treinamento adequados para
fazer a diferença na vida deste ser humano, e principalmente ter a
sensibilidade de encontrar a abertura de como ingressar neste universos tão
peculiar!
Trecho
Pg.243: “Ele constrói o
universo de uma maneira diferente – e seu modo de cognição, sua identidade e
seus dons artísticos se combinam.
·
O último conto do livro é “Um antropólogo em Marte”, é sobre
uma autista, Ph.D. em ciência animal, professora da Colorado State University.
Apesar das adversidades, ela tornou-se uma importante autoridade mundial em sua
área de atuação profissional. Curiosamente, a linguagem técnica era muito mais
acessível a essa pesquisadora do que a linguagem social, o que permitiu que ela
se adaptasse à vida fazendo ciência. A ciência a medicou, ao mesmo tempo em que
se tornou seu refúgio. Durante toda sua vida, ela dizia-se se sentir como um
"antropólogo em Marte". Provavelmente, essa deve ser uma sensação
compartilhada por muitas outras pessoas com distúrbios neurológicos.
Trecho Pg.260: “Tinha
dificuldade em manter sua própria vida simples, ela disse, e de deixar tudo
bastante claro e explicito. Construíra uma extensa biblioteca de experiências ao
longo dos anos, ela prosseguia. Era como uma biblioteca de fitas de vídeo, que
ela podia passar em sua cabeça e consultar a qualquer hora – “vídeos” de como
as pessoas se comportavam em diferentes circunstâncias”
Este livro foi fonte de inspiração para um filme de
muita sensibilidade, quem ler o livro e assistir ao filme com certeza ao final
não será mais o mesmo, em tempo de confinamento podemos aproveitar nosso tempo
para sairmos do noticiário que em geral só nos trazem cenas de violência, morte
e corrupção, vamos partir para algo que nos faça reanimar e iluminar nosso espírito, vamos criar
no presente uma linha de pensamento que irá guiar nosso melhor comportamento, é
através da reflexão e do questionamento sobre o modo como
entendemos as coisas e o valor que damos a isto que farão a diferença no hoje e no amanhã.
"Um Antropólogo em Marte" é aclamado por muitos leitores e críticos por sua capacidade de proporcionar insights profundos sobre a natureza da mente humana e a diversidade de experiências neurológicas. Ele aborda questões fundamentais sobre a identidade, a empatia e a percepção da realidade.
Como se trata de uma obra literária, a recepção do livro pode variar de pessoa para pessoa. Alguns podem encontrar as histórias cativantes e comoventes, enquanto outros podem não se envolver tanto com o estilo de escrita ou o conteúdo. A melhor maneira de formar uma opinião sobre o livro é lê-lo e avaliar como ele ressoa com você pessoalmente.
Filme:
O longa “A música nunca parou” de Jim
Kohlberg foi baseado no estudo de caso de Sacks “O último Hippie”, estrelado
por Julia Ormond, J.K. Simmons e Lou Taylor Pucci. Em cena, um pai, Henry
Sawyer (J.K. Simmons), que luta para se conectar com o filho Gabriel (Lou
Taylor Pucci), que descobre um tumor no cérebro que o impede de produzir novas
memórias. Os dois tentam superar uma distância emocional e acabam encontrando
uma forma de se relacionarem por meio da música.
Não por acaso a trilha sonora do
longa é recheada de pérolas: Bing Crosby, Peggy Lee, Johann Sebastian Bach,
Beatles, The Grateful Dead, Bob Dylan, Cyndi Lauper, The Rolling Stones e
Buffalo Springfield.
Engenheiro (durão) de classe média,
Henry não se dava bem com o filho Gabriel, um jovem hippie como qualquer outro
do fim dos anos 1960. Os dois vivem discutindo até que o rapaz sai de casa. Nos
anos 1980, a família volta a se reunir enquanto o jovem (já adulto) se recupera
da cirurgia para retirada de um tumor no cérebro.
O problema é que Gabriel não se lembra de nada do que ocorreu depois de
Woodstock. Imbuído do desejo de finalmente se aproximar do filho, o pai troca
seus discos pelos da banda predileta de filho, Grateful Dead. O resultado é
surpreendente. A música pode tanto ajudar o rapaz como reaproximar a família.
Assista ao trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=18PVNfNnKzI
Fontes:
Sacks, Oliver. Um antropólogo em Marte: sete histórias
paradoxais: tradução Bernanrdo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras,
2006.
https://www.comciencia.br/dossies-1-72/resenhas/epilepsia/sacks.htm
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81231996000100157
https://pt.wikipedia.org/wiki/Um_Antrop%C3%B3logo_em_Marte
https://www.uai.com.br/app/noticia/cinema/2014/03/21/noticias-cinema,152771/filme-baseado-em-ensaio-de-oliver-sacks-a-musica-nunca-parou-chega.shtml
https://www.eurooscar.com/artig/cerebro5.htm