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domingo, 11 de janeiro de 2026

Tempo Segue


Vamos ficando velhos, vamos ficando, outros vão indo embora, vamos ficando mais sozinhos do que antes. A vida continua para os que ficam — não por coragem, mas por necessidade. O despertador toca, o ônibus passa no mesmo horário, o trabalho cobra presença, o mercado pede escolhas banais como arroz ou macarrão. A gente aprende a sorrir em reuniões, a reclamar do calor, a responder “tudo bem” mesmo quando não está. Aprende a regar plantas, pagar contas, planejar pequenos futuros. E, no meio dessas tarefas simples, descobre que continuar vivendo não é trair quem se foi — é, de algum modo, honrar a parte da história que ainda nos cabe escrever.

Sentimentos e emoções dos que ficam

Quem fica aprende um idioma estranho: o da ausência. Não é exatamente silêncio — é um som baixo, contínuo, como geladeira de madrugada. A casa continua de pé, as ruas continuam passando ônibus, o café continua esfriando na xícara. Mas alguma coisa não continua.

Os que ficam carregam uma mistura impossível de sentimentos: saudade, culpa, raiva, ternura, alívio envergonhado, esperança tímida. Tudo ao mesmo tempo, sem ordem. A gente ri e logo depois se pergunta se tinha direito de rir. A gente lembra e dói; tenta esquecer e dói de outro jeito.

No cotidiano isso aparece em gestos pequenos:

— no lugar vazio à mesa;

— na mensagem que quase enviamos;

— na música que não dá para ouvir até o fim;

— no aniversário que vira um parêntese no calendário.

Os que ficam também sentem um tipo curioso de solidão acompanhada. Estamos cercados de pessoas, mas a falta é específica demais para ser substituída. É como perder uma palavra que só aquela pessoa sabia pronunciar do jeito certo.

Rubem Alves dizia que “saudade é a alma dizendo para onde quer voltar.” E talvez seja isso: os que ficam vivem com a alma em trânsito, indo e voltando entre o que foi e o que ainda precisa aprender a ser.

Com o tempo, a dor muda de forma. Não some — amadurece. Vira memória com bordas menos cortantes. Vira gratidão misturada com melancolia. Vira uma presença invisível que nos ensina a amar melhor os que ainda estão aqui.

Os que ficam não são apenas sobreviventes. São guardiões. Guardam histórias, risadas, defeitos, manias, frases mal acabadas. E, sem perceber, continuam o outro dentro de si.

Porque, no fundo, ficar não é só permanecer.

É aprender a carregar. E transformar ausência em uma forma diferente de companhia.

Mais velhos, mais solitários até que chegue minha vez de partir, outra vida me aguarda, assim espero!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Tempo Habitável

Entre o tempo que passa e o ser que permanece

O último dia do ano não pede barulho. Ele acontece melhor quando a casa já está meio arrumada, o celular esquecido na mesa e o relógio andando como sempre andou. Não há nada de espetacular no tempo virando. O espetáculo é termos atravessado mais uma vez.

O tempo não é um inimigo a ser vencido nem um aliado confiável. Ele é um meio — como o rio que não pergunta quem somos, mas nos leva mesmo assim. Ao longo do ano, fomos levados. Perdemos coisas, ganhamos outras, cansamos, insistimos. E, no meio disso tudo, algo em nós permaneceu silenciosamente igual.

Essa é talvez a primeira intuição espiritual do fim do ano: nem tudo muda quando o tempo muda.

O ser que não se mede em datas

Costumamos tratar o ano como um recipiente: nele colocamos metas, expectativas, promessas. Mas o ser não cabe nisso. A vida interior amadurece fora do calendário. Enquanto o mundo exigia velocidade, algo em nós pedia apenas permanência.

Quantas vezes seguimos vivendo sem entender direito o sentido, apenas sustentando o dia? Trabalhar, responder mensagens, preparar a comida, atravessar a rua, dormir cansado. Não houve epifania, não houve revelação — e, ainda assim, houve fidelidade. Há uma espiritualidade profunda em continuar.

O ser não se afirma nos grandes gestos, mas no modo como se permanece humano quando ninguém está olhando.

O silêncio como lugar de verdade

O fim do ano nos devolve ao silêncio — mesmo quando tentamos preenchê-lo com festas, música e contagens regressivas. Porque o silêncio não é ausência de som, é ausência de distração. E quando ele chega, a pergunta aparece: quem fui eu neste tempo?

Nem sempre há resposta. E isso não é falha espiritual. Algumas perguntas não foram feitas para serem respondidas, mas para nos habitar. Houve momentos em que o sentido não veio, em que Deus — ou o significado — pareceu calado. O silêncio, porém, não foi vazio. Ele sustentou.

Talvez a maior maturidade espiritual seja aceitar que o silêncio também é linguagem.

O cotidiano como espaço sagrado

O ano não aconteceu nos grandes eventos. Ele aconteceu nas pequenas repetições: no café tomado às pressas, no cansaço do fim da tarde, nas conversas interrompidas, nos gestos automáticos. O cotidiano não é o que sobra da vida espiritual; ele é o seu campo principal.

Lavar a louça quando não se quer. Cumprir o dever sem aplauso. Cuidar de quem não reconhece. Há algo de sagrado nisso — não porque seja bonito, mas porque é real. O espírito não se revela apenas na elevação, mas na aceitação do chão.

O tempo como revelador, não como juiz

O ano não nos avaliou. Ele apenas mostrou. Mostrou o que era entusiasmo e o que era caráter. O que era desejo passageiro e o que era necessidade profunda. Algumas coisas se perderam porque não tinham raiz. Outras ficaram porque eram parte do nosso centro.

Não saímos melhores. Talvez saímos mais conscientes. Menos iludidos. Um pouco mais cansados — e, paradoxalmente, mais verdadeiros.

Fechar o ano não é fechar a alma

O novo ano não será um recomeço mágico. Ele será continuidade. A mesma vida, em outro capítulo. O mesmo ser, atravessado por mais tempo. Não precisamos prometer nada. Basta estar.

No fundo, o gesto espiritual mais honesto deste último dia é simples: reconhecer que fomos atravessados e seguimos de pé. Com falhas, com silêncios, com pequenas fidelidades.

O tempo passa.

O ser permanece.

O silêncio sustenta.

E o cotidiano, discreto, continua sendo o lugar onde tudo realmente acontece.

— E isso basta, por agora.

Feliz Ano Novo!

Feliz 2026!


domingo, 2 de novembro de 2025

Tempo Produtivo

Vivemos a era da pressa. O tempo virou mercadoria, e a ociosidade, pecado. Mas há uma diferença enorme entre usar o tempo e ser usado por ele.

Fazer muito não é o mesmo que viver bem. O tempo produtivo é aquele que produz sentido — e isso nem sempre cabe em planilhas. Às vezes, uma tarde de silêncio rende mais do que uma semana de correria.

Tempo produtivo nem sempre é aquele cheio de tarefas riscadas na agenda, mas o que realmente nos nutre. Outro dia, desliguei o celular por uma hora e fui caminhar sem rumo, apenas observando o movimento da rua, o cheiro do pão saindo da padaria, o sol se inclinando devagar. No início, me senti culpado por “não estar fazendo nada”, mas logo percebi que aquele intervalo me devolvia clareza e ânimo — coisas que nenhuma planilha teria oferecido. Percebi que produtividade não é empilhar ações, e sim dar sentido ao tempo. Às vezes, o momento mais produtivo do dia é justamente aquele em que paramos para respirar.

Sêneca, em Da Brevidade da Vida, escreveu: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas o perdemos demais.” E ele estava certo. O problema não é o tempo que temos, é o quanto deixamos de estar presentes nele.

No fim, o tempo não precisa render. Precisa apenas valer.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Tempo de Despertar

O Despertar que Desnuda o Tempo: Ensaio Filosófico sobre Tempo de Despertar, de Oliver Sacks

Resumo introdutório:

Em Tempo de Despertar (1973), o neurologista britânico Oliver Sacks narra a extraordinária experiência clínica com pacientes vítimas da encefalite letárgica, uma misteriosa epidemia que os mergulhou, durante décadas, num estado catatônico sem saída. O advento do medicamento L-DOPA, no fim dos anos 1960, trouxe um aparente milagre: o retorno súbito desses indivíduos à consciência, à linguagem, ao movimento. Mas o que prometia ser redenção revelou-se, muitas vezes, tragédia: o despertar foi também um encontro cruel com o tempo perdido, com um mundo irreconhecível e com a fragilidade do próprio "eu".

O livro é mais que um relato médico: é uma meditação viva sobre o enigma da existência, do tempo, da identidade — uma obra que ultrapassa a neurologia e toca a metafísica.

Ensaio filosófico:

I. Despertar não é acordar: é nascer de novo num mundo estranho.

Sacks nos convida a uma ideia incômoda: o despertar radical não é retorno, é estranhamento. Quem desperta após quarenta anos de ausência não reencontra seu mundo: encontra outro mundo — outro corpo, outro tempo, outra história. O "milagre" é, em parte, uma violência.

Aqui, o despertar se aproxima do conceito de unheimlich (estranho-familiar) de Freud: algo que deveria ser íntimo — meu corpo, meu tempo — torna-se irreconhecível. Os pacientes de Sacks não voltam à vida que conheciam; despertam num mundo que os traiu com o envelhecimento, com a morte dos entes queridos, com o progresso tecnológico que os excluiu. A continuidade do eu foi quebrada. Quem são eles agora?

II. O tempo não passa — ele devora.

O livro desmascara um dos grandes consensos do senso comum: o de que o tempo "passa" suavemente, de forma linear. Não: o tempo rói, consome, altera os contornos do real e do imaginário. Quando os pacientes voltam à consciência, não o fazem no tempo em que adormeceram: o relógio do mundo não esperou.

Henri Bergson já advertia: o tempo vivido (durée) não se mede em números, mas em fluxo de consciência. Os pacientes de Sacks perderam sua durée pessoal; suas consciências congelaram enquanto o mundo externo seguiu outro ritmo. O abismo entre esses dois tempos produziu monstros existenciais: corpos envelhecidos com almas jovens, espíritos perdidos num presente que não reconhecem.

III. A identidade não é um dado — é uma narrativa que o tempo costura.

O maior escândalo filosófico de Tempo de Despertar é este: não existe "eu" fora da história que tece um sentido para o tempo vivido. Os pacientes acordaram sem narrativa — suas biografias tinham um buraco negro de décadas. Como se reconstruir sem lembrança, sem continuidade? A ruptura é tamanha que a própria noção de "pessoa" se desfaz.

Paul Ricoeur escreveu que "somos o tempo contado, narrado". O sujeito que desperta sem história é um estranho para si mesmo — é um corpo presente sem enredo passado. A L-DOPA reanimou músculos e sinapses, mas não devolveu a ponte do sentido. Por isso muitos adoeceram de angústia e desespero: não sabiam mais quem eram.

IV. O milagre moderno é o fracasso metafísico.

A medicina realizou o milagre técnico: devolveu o movimento e a fala. Mas a metafísica do sentido — esse campo onde a alma encontra seu lugar no tempo e no mundo — falhou. O preço do despertar foi o colapso do sentido.

Este paradoxo é um alerta para toda utopia tecnológica: não basta restaurar a função biológica; é preciso restaurar o enraizamento no mundo, o pertencimento simbólico. Sacks, sábio humanista, percebeu isso: seu livro não celebra uma vitória da ciência — lamenta uma derrota da alma.

V. O verdadeiro despertar é filosófico, não neurológico.

A lição secreta de Tempo de Despertar é que todos nós corremos o risco de viver letargicamente — mesmo saudáveis. Quem segue hábitos mecânicos, quem repete papéis vazios, quem não interroga seu lugar no tempo... está adormecido no existir.

O despertar real, diz Sacks sem dizê-lo, é o despertar filosófico: o instante em que o sujeito vê a estranheza da própria vida, percebe o enigma do tempo e ousa perguntar: "Quem sou eu agora? Para onde fui nos anos que passaram?". Esse despertar pode ser doloroso — mas é o começo de uma vida consciente.

Aí vai uma sugestão de leitura complementar: Um Antropólogo em Marte

Para aprofundar essa jornada entre neurologia e existência, vale a leitura do também brilhante Um Antropólogo em Marte (1995), onde Sacks retrata sete histórias clínicas que desafiam a ideia de normalidade.

Em vez de tragédias, muitos dos relatos de Um Antropólogo em Marte são adaptações criativas à diferença: um pintor que perde a capacidade de ver cores e reinventa seu mundo em tons de cinza; um cirurgião com síndrome de Tourette que encontra na medicina uma forma de domar seus impulsos; um autista que interpreta a vida como se fosse, de fato, um observador de outro planeta.

Se Tempo de Despertar mostra o drama do retorno à vida sem enredo, Um Antropólogo em Marte apresenta a beleza de construir novas narrativas a partir da diferença. Ambos os livros são espelhos distorcidos da condição humana — e, juntos, nos fazem perguntar não "o que é normal?", mas "o que é ser humano diante da falha, da adaptação e da consciência?"

Concluindo: O drama de ser tempo

Tempo de Despertar revela uma verdade incômoda: não somos senhores do tempo — somos feitos de tempo. Ele nos atravessa, nos molda, nos perde e nos reencontra. Não há cura médica para isso. Mas há uma vigilância filosófica possível: aquela que aceita o tempo como abismo e ainda assim inventa sentido.

Como disse o pensador brasileiro Vilém Flusser:

"Viver é buscar sentido no sem-sentido do tempo."

Os pacientes de Sacks pagaram o preço extremo dessa busca. E nós, que lemos sua história, somos também convidados a acordar.


sexta-feira, 30 de maio de 2025

Tempo e Ser

 

Já reparou como, às vezes, o tempo parece escorrer por entre os dedos — como areia molhada? Você acorda, toma café, vai ao trabalho, responde e-mails, olha o relógio, almoça apressado, volta... e, quando vê, é noite. Você viveu, mas passou por você?

Heidegger, já mais velho, também pensava nisso. E decidiu voltar à pergunta que nunca o abandonou: o que é o ser? Mas agora com outra lente: o tempo não é só um pano de fundo — ele é o próprio caminho por onde o ser se mostra.

 

1. Uma inversão: não somos nós que controlamos o tempo

A primeira mudança de chave em Tempo e Ser é essa: não somos nós que temos o tempo — é o tempo que nos tem.

Parece estranho? Pensa naquela reunião que você achou que ia durar 15 minutos e virou 2 horas. Ou naquele feriado que voou. O tempo não se mede só no relógio. Ele é vivido — e, por isso, pode expandir ou encolher. Heidegger chama isso de tempo próprio, tempo apropriador (Ereignis).

 

2. Do ser como presença ao ser como doação

Lá em Ser e Tempo, Heidegger ainda tratava o ser como algo que se manifestava dentro do tempo. Agora, em Tempo e Ser, ele diz que o tempo é a condição do ser se mostrar. O ser não está “lá” o tempo todo — ele se doa, se revela, se retira.

É como as pessoas na nossa vida: tem amigos que aparecem quando a gente menos espera — e outros que, mesmo presentes, estão ausentes. O ser também é assim — se dá no tempo certo, e só no tempo certo.

 

3. O Ereignis: o momento em que o ser acontece

Heidegger inventa uma palavra complexa: Ereignis. Traduzem como “acontecimento apropriador” ou “evento de apropriação”. Mas pense nisso como aquele instante em que tudo se encaixa, mesmo que por um segundo.

Tipo quando você está andando na rua, distraído, e sente que está no lugar certo, na hora certa. Ou quando escuta uma música antiga e algo em você se revela — uma lembrança, uma emoção esquecida.

Não é você quem provoca isso — é o tempo que te entrega.

 

4. O tempo como clareira (Lichtung)

Heidegger fala que o ser precisa de uma clareira para aparecer — como uma luz que atravessa a floresta. Essa luz é o tempo.

Na prática? É como quando você finalmente tem um domingo livre. Silêncio em casa. Você senta, olha pela janela e pensa em tudo que não pensa durante a semana. A vida parece abrir espaço para você pensar no que está fazendo com ela.
Esse instante de clareira é um presente do tempo. E o ser, tímido, aparece ali — se você estiver atento.

 

5. Nem cronômetro, nem relógio — tempo como relação

Heidegger nos convida a abandonar a ideia de tempo como algo linear e medido em minutos. Ele quer que a gente perceba o tempo como relação com o ser.
Você já teve um almoço com alguém que parecia durar cinco minutos, mas mudou o seu mês? Ou já ficou olhando para o teto por três horas sem conseguir respirar de tanta angústia? O tempo que vale não é o dos ponteiros, mas o da experiência.

 

Viver é acolher o tempo que nos escolhe

Em Tempo e Ser, Heidegger não está oferecendo uma receita de como aproveitar melhor o tempo, como os gurus da produtividade. Ele está dizendo:

“Pare de correr. Escute o tempo. Ele não é seu inimigo. Ele é o próprio lugar onde o ser se mostra.”

Na prática? Talvez seja deixar o celular de lado por meia hora. Sentar em silêncio. Ouvir um amigo com atenção. Aceitar que nem tudo está no nosso controle — e que o que realmente importa acontece quando você permite que o tempo aconteça em você.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Tempo e Observador

A relação entre tempo e observador é uma das questões mais intrigantes e complexas da filosofia e da física. Desde as antigas reflexões sobre a natureza do tempo, passando pelas teorias de Einstein, até as discussões contemporâneas sobre a percepção do tempo, este tema nos leva a ponderar sobre como experimentamos e interpretamos a passagem do tempo.

O Tempo como Fenômeno Relativo

No contexto da física, a teoria da relatividade de Einstein revolucionou nossa compreensão do tempo. Ele nos mostrou que o tempo não é um fluxo absoluto, mas sim relativo ao movimento do observador. Isso significa que duas pessoas, observando o mesmo evento, podem experimentar o tempo de maneiras diferentes, dependendo de sua velocidade e posição no espaço. Essa relatividade desafia nossa intuição e nos leva a questionar se o tempo, tal como o conhecemos, é uma construção social ou uma realidade física.

A Experiência Subjetiva do Tempo

Na vida cotidiana, o tempo é percebido de maneira subjetiva. Por exemplo, enquanto uma criança pode sentir que um dia de escola se arrasta, um adulto pode perceber o mesmo dia como um piscar de olhos. Essa discrepância leva a refletir sobre como nossas experiências moldam nossa percepção do tempo. Filósofos como Henri Bergson argumentaram que há uma distinção entre o tempo medido, cronológico, e o tempo vivido, que é fluido e pessoal. Para Bergson, o tempo vivido é um fenômeno psicológico que não pode ser reduzido a meras unidades de medida.

O Observador como Criador de Significado

O observador, nesse contexto, não é apenas um receptor passivo de eventos temporais, mas um criador de significados. A forma como interpretamos nossas experiências no tempo influencia a maneira como vivemos. Momentos significativos, como um casamento ou o nascimento de um filho, podem parecer durar uma eternidade, enquanto experiências monótonas podem se esvanecer rapidamente na memória. Essa ideia ecoa em muitos pensadores, incluindo Martin Heidegger, que enfatizou a importância do ser humano como um ente que projeta sentido em sua existência temporal.

O Tempo e a Conexão com o Presente

Na filosofia budista, o tempo é frequentemente visto como um fluxo contínuo, onde o passado e o futuro se entrelaçam no momento presente. Essa perspectiva nos convida a refletir sobre como a nossa conexão com o presente pode afetar nossa percepção do tempo. Quando estamos totalmente imersos em uma atividade, por exemplo, o tempo pode parecer passar mais rapidamente. Por outro lado, momentos de reflexão e contemplação podem nos fazer sentir que o tempo se expande. A prática da atenção plena (mindfulness) se torna uma ferramenta valiosa nesse contexto, permitindo que apreciemos a riqueza do momento presente.

Uma Dança entre Tempo e Observador

A relação entre tempo e observador é uma dança complexa e multifacetada. O tempo não é apenas uma entidade física; é também uma experiência vivida que varia de pessoa para pessoa. Ao reconhecer essa dinâmica, somos levados a uma compreensão mais profunda de como moldamos nossas vidas e nossas experiências no tempo. Assim, ao refletirmos sobre o tempo e o papel do observador, somos convidados a explorar não apenas a natureza do tempo em si, mas também como podemos viver de forma mais plena e consciente, aproveitando cada momento que nos é dado.


sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Tempo Perdido

Não era mais o mesmo. Quem nunca sentiu isso? Em algum momento, a gente se pega refletindo sobre quem éramos e quem nos tornamos, como se houvesse uma quebra entre o antes e o agora. Parece que certas experiências, decisões ou até mesmo os dias comuns moldaram algo fundamental dentro de nós. Talvez seja a maturidade que chegou, ou quem sabe, apenas o peso da rotina. O que é certo é que, de alguma forma, nos tornamos estranhos a nós mesmos. Me flagrei pensando sobre isto enquanto ouvia a música “Tempo Perdido”, da banda Legião Urbana, Renato Russo fala sobre a passagem do tempo e como, ao longo dos anos, as pessoas mudam e evoluem, refletindo o sentimento de não ser mais o mesmo. A canção lida com as inevitáveis transformações da vida e a percepção de que o tempo nos molda, trazendo essa noção de que estamos em constante mudança.

Link da música no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=tI9kSZgMLsc

Vamos pensar em algo bem cotidiano. Lembra daquela época em que você não conseguia sair de casa sem arrumar cada detalhe do visual, ou fazia questão de ter a última palavra em uma discussão? E hoje, você se pega saindo de chinelo para ir ao mercado, sem se importar com o que os outros pensam, ou simplesmente deixa o outro falar, percebendo que não vale a pena discutir. Não era mais o mesmo.

Esse sentimento de mudança, de deslocamento interno, é uma sensação que muitos filósofos já discutiram. Heráclito, por exemplo, nos lembra que "ninguém se banha duas vezes no mesmo rio." Isso porque, assim como o rio, nós estamos em constante movimento. O rio flui, muda, e mesmo que tentemos entrar nas mesmas águas, elas já não são as mesmas. Da mesma forma, a pessoa que fomos ontem já não é a mesma hoje. Nossas experiências, emoções, pensamentos – tudo isso é dinâmico.

É curioso observar como pequenos detalhes do dia a dia mostram essas mudanças. Sabe aquela amizade que você cultivou por anos e que, de repente, não parece mais fazer tanto sentido? Ou aquele trabalho que antes te desafiava e agora parece apenas uma sequência de tarefas automáticas? Nesses momentos, percebemos que crescemos, mudamos e que talvez o mundo ao nosso redor não acompanhou esse ritmo. Ou quem sabe, fomos nós que tomamos um caminho diferente.

Schopenhauer, com seu pessimismo filosófico, diria que essa transformação é parte do sofrimento inerente à vida. Ele acreditava que, em nossa busca incessante por realização e sentido, acabamos inevitavelmente nos desapontando com as realidades do mundo. O "não ser mais o mesmo" seria, então, a constatação de que a vida não cumpre as promessas que um dia pensamos que ela faria. Mas há beleza nisso também. É nesse desencontro entre o que esperávamos e o que recebemos que crescemos, nos tornamos mais resilientes, mais complexos.

E, se a gente for um pouco mais longe, dá para pensar em Nietzsche. Ele acreditava que as mudanças em nós não deveriam ser vistas com melancolia, mas como parte da nossa potencialidade. Ele fala sobre o conceito de "eterno retorno" – a ideia de que a vida é cíclica, e que devemos abraçar cada mudança e cada versão de nós mesmos como algo necessário para a nossa evolução. Ou seja, não era mais o mesmo, e isso é bom! Faz parte do processo de se reinventar.

Então, quando perceber que não é mais o mesmo – seja ao tomar decisões diferentes, rever antigas paixões, ou até na maneira de encarar o mundo – talvez seja hora de celebrar. Afinal, é um sinal de que a vida está em movimento, que você está crescendo. Como Heráclito disse, não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, e ainda bem que não podemos.


sábado, 6 de agosto de 2011

Tempo Certo de Cada Um


“...Aquele que semeia saiu a semear; e, enquanto semeava, uma parte da semente caiu ao longo do caminho...”
“...Mas aquele que recebe a semente numa boa terra é aquele que escuta a palavra, que lhe presta atenção e que dá fruto, e rende cento, ou sessenta, ou trinta por um.” 
(Parte da Parábola do semeador)

              A palavra é como semente dita (jogada) e ouvida (colhida), aproveitada (dão frutos), palavras que nem sempre parecem conselhos, mas no fundo são, ouvimos e se não estivermos refratários a escutamos, só recusamos seu sentido se ainda não estivermos prontos, isto porque o individuo ainda não desenvolveu suas possibilidades e habilidades existenciais.
              Na vida não existe antecipação nem adiamento, mas somente o tempo propicio de cada um, somos iguais em tempos diferentes, sem comparações de um para com o outro, seguimos individualmente amando nossa existência e juntos amando o outro como a um igual diferente segundo sua natureza e seu próprio ritmo. A impaciência com o outro é devido a nossa imaturidade e pressa para que o outro cresça e evolua, mas será que é sempre assim? Pendo que não, ainda há a possibilidade de que precisemos crescer e evoluir, a resposta para esta questão é encontrada nas palavras de Jesus, sua idéia em compreender a imensa multiformidade evolucional dos homens, exemplificou nessa parábola a “dissemelhança” das criaturas, comparando-as aos diversos terrenos nos quais as sementes da Vida foram semeadas
.              A liberdade da convivência em grupo é regida por regras e normas, a inexistência de tais regramentos levaria o individuo ao desrespeito á individualidade do outro, são regras para convivência na sociedade, necessárias devido a impermeabilidade e refratariedade mental e espiritual que vivemos neste século voltado para idealização de futilidade e consumo. A diferença esta em poder e não poder consumir, que sementes foram estas que fizeram brotar este arvoredo tão denso que interfere no grau de raciocínio que não ultrapassa os níveis permitidos pela sua própria comunidade?
              A estética atual vem formando valores a partir das formas externas, as consciências estão abertas somente para o belo do exterior, o conteúdo do real que também esta na existência interior está cada vez mais distante, no entanto esta lá, ainda pulsante, semear a palavra mesmo sem ter intenção de aconselhar é sempre importante, requer mais paciência e determinação, mas brotara somente onde houver semeadura.
              Sabem do que estou a falar?