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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Tempo Desperdiçado

A vida que escorre entre os dedos

Há dias em que a gente percebe que não está cansado de trabalhar — está cansado de desperdiçar. É diferente. Não é o esforço que pesa, é a sensação de que o tempo foi gasto com coisas que, no fundo, não sustentam nada dentro de nós.

Quando li “Sobre a Brevidade da Vida”, tive essa impressão incômoda: não é a vida que é curta, somos nós que a tornamos curta ao espalhá-la em mil distrações. Sêneca escreve como quem nos sacode pelos ombros — e, convenhamos, a gente precisa disso de vez em quando.

Porque, se formos honestos, quanto tempo já foi perdido em brigas inúteis? Discussões que, horas depois, já não fazem o menor sentido. Ou então paixões que nos consumiram como incêndio — não por amor verdadeiro, mas por apego, vaidade, carência. E aquele credor que ocupa nossa mente mais do que deveria, ou o cliente que exige mais do que vale. Sem falar nas doenças que plantamos com nossas próprias mãos: excesso, ansiedade, descuido.

A pergunta de Sêneca ecoa como um eco incômodo: quanto tempo foi realmente vivido consigo mesmo?

A falsa operosidade

Vivemos ocupados. Isso ninguém nega. Mas estar ocupado não é o mesmo que estar vivendo bem. Existe uma forma de ocupação que é apenas fuga — uma espécie de anestesia elegante.

A falsa operosidade é aquela agenda cheia que evita o essencial. É responder mensagens sem parar, resolver pequenos incêndios, correr atrás de demandas que nunca acabam… e, no fim do dia, não ter se encontrado nem por cinco minutos.

É como se disséssemos: “não tenho tempo para mim”, quando, na verdade, estamos evitando esse encontro.

Sêneca diria que essas pessoas não vivem — são arrastadas.

A agitação fútil

Existe também a agitação que não constrói nada. Um movimento constante, mas vazio. Como alguém que caminha em círculos e chama isso de progresso.

Essa agitação pode parecer produtiva por fora, mas por dentro ela é dispersão. E a dispersão é uma forma silenciosa de desperdício de vida.

A gente vê isso no cotidiano:

  • A discussão que continua só por orgulho
  • O relacionamento que se mantém por medo da solidão
  • O trabalho que se prolonga além do necessário só para evitar o silêncio

No fundo, é sempre a mesma coisa: medo de parar.

Vivemos como se fôssemos eternos

Talvez o ponto mais duro seja esse: vivemos como se houvesse sempre um depois.

Depois eu descanso.

Depois eu penso na minha vida.

Depois eu cuido de mim.

Mas o “depois” é uma promessa que ninguém assinou.

Sêneca é direto: tratamos o tempo como algo abundante, quando ele é o único recurso realmente escasso.

Sugestões para bem viver consigo mesmo

Não se trata de virar um eremita ou abandonar responsabilidades. A questão é outra: como habitar a própria vida enquanto ela acontece.

Algumas ideias simples, mas exigentes:

1.      Criar pequenos territórios de silêncio

Nem que sejam 10 minutos por dia. Sem celular, sem tarefa, sem distração. No começo, pode dar desconforto. Isso já diz muito.

2.      Reduzir conflitos desnecessários

Nem toda batalha precisa ser lutada. Às vezes, ceder é economizar vida.

3.      Examinar os próprios impulsos

Antes de reagir, perguntar: isso vale meu tempo? Vale minha energia? Vale minha paz?

4.      Trabalhar com intenção, não por inércia

Nem toda ocupação é digna do seu tempo. Aprender a dizer “não” é uma forma de autocuidado filosófico.

5.      Reaproximar-se de si mesmo

Pode ser através da leitura, da escrita, de uma caminhada, de um café em silêncio — quase como aquele ritual íntimo que transforma uma cafeteria em refúgio. O importante é voltar a ser companhia de si.

6.      Lembrar da finitude sem desespero

Não como algo mórbido, mas como um critério: se o tempo é limitado, ele merece ser bem usado.

No fim, Sêneca não está propondo uma vida austera no sentido triste. Ele propõe uma vida lúcida.

Porque desperdiçar tempo não é apenas perder horas — é perder a chance de se tornar alguém mais inteiro.

E talvez o maior luxo hoje não seja ter tempo livre…

mas ter tempo que realmente nos pertence.


domingo, 11 de janeiro de 2026

Tempo Segue


Vamos ficando velhos, vamos ficando, outros vão indo embora, vamos ficando mais sozinhos do que antes. A vida continua para os que ficam — não por coragem, mas por necessidade. O despertador toca, o ônibus passa no mesmo horário, o trabalho cobra presença, o mercado pede escolhas banais como arroz ou macarrão. A gente aprende a sorrir em reuniões, a reclamar do calor, a responder “tudo bem” mesmo quando não está. Aprende a regar plantas, pagar contas, planejar pequenos futuros. E, no meio dessas tarefas simples, descobre que continuar vivendo não é trair quem se foi — é, de algum modo, honrar a parte da história que ainda nos cabe escrever.

Sentimentos e emoções dos que ficam

Quem fica aprende um idioma estranho: o da ausência. Não é exatamente silêncio — é um som baixo, contínuo, como geladeira de madrugada. A casa continua de pé, as ruas continuam passando ônibus, o café continua esfriando na xícara. Mas alguma coisa não continua.

Os que ficam carregam uma mistura impossível de sentimentos: saudade, culpa, raiva, ternura, alívio envergonhado, esperança tímida. Tudo ao mesmo tempo, sem ordem. A gente ri e logo depois se pergunta se tinha direito de rir. A gente lembra e dói; tenta esquecer e dói de outro jeito.

No cotidiano isso aparece em gestos pequenos:

— no lugar vazio à mesa;

— na mensagem que quase enviamos;

— na música que não dá para ouvir até o fim;

— no aniversário que vira um parêntese no calendário.

Os que ficam também sentem um tipo curioso de solidão acompanhada. Estamos cercados de pessoas, mas a falta é específica demais para ser substituída. É como perder uma palavra que só aquela pessoa sabia pronunciar do jeito certo.

Rubem Alves dizia que “saudade é a alma dizendo para onde quer voltar.” E talvez seja isso: os que ficam vivem com a alma em trânsito, indo e voltando entre o que foi e o que ainda precisa aprender a ser.

Com o tempo, a dor muda de forma. Não some — amadurece. Vira memória com bordas menos cortantes. Vira gratidão misturada com melancolia. Vira uma presença invisível que nos ensina a amar melhor os que ainda estão aqui.

Os que ficam não são apenas sobreviventes. São guardiões. Guardam histórias, risadas, defeitos, manias, frases mal acabadas. E, sem perceber, continuam o outro dentro de si.

Porque, no fundo, ficar não é só permanecer.

É aprender a carregar. E transformar ausência em uma forma diferente de companhia.

Mais velhos, mais solitários até que chegue minha vez de partir, outra vida me aguarda, assim espero!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Tempo Habitável

Entre o tempo que passa e o ser que permanece

O último dia do ano não pede barulho. Ele acontece melhor quando a casa já está meio arrumada, o celular esquecido na mesa e o relógio andando como sempre andou. Não há nada de espetacular no tempo virando. O espetáculo é termos atravessado mais uma vez.

O tempo não é um inimigo a ser vencido nem um aliado confiável. Ele é um meio — como o rio que não pergunta quem somos, mas nos leva mesmo assim. Ao longo do ano, fomos levados. Perdemos coisas, ganhamos outras, cansamos, insistimos. E, no meio disso tudo, algo em nós permaneceu silenciosamente igual.

Essa é talvez a primeira intuição espiritual do fim do ano: nem tudo muda quando o tempo muda.

O ser que não se mede em datas

Costumamos tratar o ano como um recipiente: nele colocamos metas, expectativas, promessas. Mas o ser não cabe nisso. A vida interior amadurece fora do calendário. Enquanto o mundo exigia velocidade, algo em nós pedia apenas permanência.

Quantas vezes seguimos vivendo sem entender direito o sentido, apenas sustentando o dia? Trabalhar, responder mensagens, preparar a comida, atravessar a rua, dormir cansado. Não houve epifania, não houve revelação — e, ainda assim, houve fidelidade. Há uma espiritualidade profunda em continuar.

O ser não se afirma nos grandes gestos, mas no modo como se permanece humano quando ninguém está olhando.

O silêncio como lugar de verdade

O fim do ano nos devolve ao silêncio — mesmo quando tentamos preenchê-lo com festas, música e contagens regressivas. Porque o silêncio não é ausência de som, é ausência de distração. E quando ele chega, a pergunta aparece: quem fui eu neste tempo?

Nem sempre há resposta. E isso não é falha espiritual. Algumas perguntas não foram feitas para serem respondidas, mas para nos habitar. Houve momentos em que o sentido não veio, em que Deus — ou o significado — pareceu calado. O silêncio, porém, não foi vazio. Ele sustentou.

Talvez a maior maturidade espiritual seja aceitar que o silêncio também é linguagem.

O cotidiano como espaço sagrado

O ano não aconteceu nos grandes eventos. Ele aconteceu nas pequenas repetições: no café tomado às pressas, no cansaço do fim da tarde, nas conversas interrompidas, nos gestos automáticos. O cotidiano não é o que sobra da vida espiritual; ele é o seu campo principal.

Lavar a louça quando não se quer. Cumprir o dever sem aplauso. Cuidar de quem não reconhece. Há algo de sagrado nisso — não porque seja bonito, mas porque é real. O espírito não se revela apenas na elevação, mas na aceitação do chão.

O tempo como revelador, não como juiz

O ano não nos avaliou. Ele apenas mostrou. Mostrou o que era entusiasmo e o que era caráter. O que era desejo passageiro e o que era necessidade profunda. Algumas coisas se perderam porque não tinham raiz. Outras ficaram porque eram parte do nosso centro.

Não saímos melhores. Talvez saímos mais conscientes. Menos iludidos. Um pouco mais cansados — e, paradoxalmente, mais verdadeiros.

Fechar o ano não é fechar a alma

O novo ano não será um recomeço mágico. Ele será continuidade. A mesma vida, em outro capítulo. O mesmo ser, atravessado por mais tempo. Não precisamos prometer nada. Basta estar.

No fundo, o gesto espiritual mais honesto deste último dia é simples: reconhecer que fomos atravessados e seguimos de pé. Com falhas, com silêncios, com pequenas fidelidades.

O tempo passa.

O ser permanece.

O silêncio sustenta.

E o cotidiano, discreto, continua sendo o lugar onde tudo realmente acontece.

— E isso basta, por agora.

Feliz Ano Novo!

Feliz 2026!


domingo, 2 de novembro de 2025

Tempo Produtivo

Vivemos a era da pressa. O tempo virou mercadoria, e a ociosidade, pecado. Mas há uma diferença enorme entre usar o tempo e ser usado por ele.

Fazer muito não é o mesmo que viver bem. O tempo produtivo é aquele que produz sentido — e isso nem sempre cabe em planilhas. Às vezes, uma tarde de silêncio rende mais do que uma semana de correria.

Tempo produtivo nem sempre é aquele cheio de tarefas riscadas na agenda, mas o que realmente nos nutre. Outro dia, desliguei o celular por uma hora e fui caminhar sem rumo, apenas observando o movimento da rua, o cheiro do pão saindo da padaria, o sol se inclinando devagar. No início, me senti culpado por “não estar fazendo nada”, mas logo percebi que aquele intervalo me devolvia clareza e ânimo — coisas que nenhuma planilha teria oferecido. Percebi que produtividade não é empilhar ações, e sim dar sentido ao tempo. Às vezes, o momento mais produtivo do dia é justamente aquele em que paramos para respirar.

Sêneca, em Da Brevidade da Vida, escreveu: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas o perdemos demais.” E ele estava certo. O problema não é o tempo que temos, é o quanto deixamos de estar presentes nele.

No fim, o tempo não precisa render. Precisa apenas valer.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Tempo de Despertar

O Despertar que Desnuda o Tempo: Ensaio Filosófico sobre Tempo de Despertar, de Oliver Sacks

Resumo introdutório:

Em Tempo de Despertar (1973), o neurologista britânico Oliver Sacks narra a extraordinária experiência clínica com pacientes vítimas da encefalite letárgica, uma misteriosa epidemia que os mergulhou, durante décadas, num estado catatônico sem saída. O advento do medicamento L-DOPA, no fim dos anos 1960, trouxe um aparente milagre: o retorno súbito desses indivíduos à consciência, à linguagem, ao movimento. Mas o que prometia ser redenção revelou-se, muitas vezes, tragédia: o despertar foi também um encontro cruel com o tempo perdido, com um mundo irreconhecível e com a fragilidade do próprio "eu".

O livro é mais que um relato médico: é uma meditação viva sobre o enigma da existência, do tempo, da identidade — uma obra que ultrapassa a neurologia e toca a metafísica.

Ensaio filosófico:

I. Despertar não é acordar: é nascer de novo num mundo estranho.

Sacks nos convida a uma ideia incômoda: o despertar radical não é retorno, é estranhamento. Quem desperta após quarenta anos de ausência não reencontra seu mundo: encontra outro mundo — outro corpo, outro tempo, outra história. O "milagre" é, em parte, uma violência.

Aqui, o despertar se aproxima do conceito de unheimlich (estranho-familiar) de Freud: algo que deveria ser íntimo — meu corpo, meu tempo — torna-se irreconhecível. Os pacientes de Sacks não voltam à vida que conheciam; despertam num mundo que os traiu com o envelhecimento, com a morte dos entes queridos, com o progresso tecnológico que os excluiu. A continuidade do eu foi quebrada. Quem são eles agora?

II. O tempo não passa — ele devora.

O livro desmascara um dos grandes consensos do senso comum: o de que o tempo "passa" suavemente, de forma linear. Não: o tempo rói, consome, altera os contornos do real e do imaginário. Quando os pacientes voltam à consciência, não o fazem no tempo em que adormeceram: o relógio do mundo não esperou.

Henri Bergson já advertia: o tempo vivido (durée) não se mede em números, mas em fluxo de consciência. Os pacientes de Sacks perderam sua durée pessoal; suas consciências congelaram enquanto o mundo externo seguiu outro ritmo. O abismo entre esses dois tempos produziu monstros existenciais: corpos envelhecidos com almas jovens, espíritos perdidos num presente que não reconhecem.

III. A identidade não é um dado — é uma narrativa que o tempo costura.

O maior escândalo filosófico de Tempo de Despertar é este: não existe "eu" fora da história que tece um sentido para o tempo vivido. Os pacientes acordaram sem narrativa — suas biografias tinham um buraco negro de décadas. Como se reconstruir sem lembrança, sem continuidade? A ruptura é tamanha que a própria noção de "pessoa" se desfaz.

Paul Ricoeur escreveu que "somos o tempo contado, narrado". O sujeito que desperta sem história é um estranho para si mesmo — é um corpo presente sem enredo passado. A L-DOPA reanimou músculos e sinapses, mas não devolveu a ponte do sentido. Por isso muitos adoeceram de angústia e desespero: não sabiam mais quem eram.

IV. O milagre moderno é o fracasso metafísico.

A medicina realizou o milagre técnico: devolveu o movimento e a fala. Mas a metafísica do sentido — esse campo onde a alma encontra seu lugar no tempo e no mundo — falhou. O preço do despertar foi o colapso do sentido.

Este paradoxo é um alerta para toda utopia tecnológica: não basta restaurar a função biológica; é preciso restaurar o enraizamento no mundo, o pertencimento simbólico. Sacks, sábio humanista, percebeu isso: seu livro não celebra uma vitória da ciência — lamenta uma derrota da alma.

V. O verdadeiro despertar é filosófico, não neurológico.

A lição secreta de Tempo de Despertar é que todos nós corremos o risco de viver letargicamente — mesmo saudáveis. Quem segue hábitos mecânicos, quem repete papéis vazios, quem não interroga seu lugar no tempo... está adormecido no existir.

O despertar real, diz Sacks sem dizê-lo, é o despertar filosófico: o instante em que o sujeito vê a estranheza da própria vida, percebe o enigma do tempo e ousa perguntar: "Quem sou eu agora? Para onde fui nos anos que passaram?". Esse despertar pode ser doloroso — mas é o começo de uma vida consciente.

Aí vai uma sugestão de leitura complementar: Um Antropólogo em Marte

Para aprofundar essa jornada entre neurologia e existência, vale a leitura do também brilhante Um Antropólogo em Marte (1995), onde Sacks retrata sete histórias clínicas que desafiam a ideia de normalidade.

Em vez de tragédias, muitos dos relatos de Um Antropólogo em Marte são adaptações criativas à diferença: um pintor que perde a capacidade de ver cores e reinventa seu mundo em tons de cinza; um cirurgião com síndrome de Tourette que encontra na medicina uma forma de domar seus impulsos; um autista que interpreta a vida como se fosse, de fato, um observador de outro planeta.

Se Tempo de Despertar mostra o drama do retorno à vida sem enredo, Um Antropólogo em Marte apresenta a beleza de construir novas narrativas a partir da diferença. Ambos os livros são espelhos distorcidos da condição humana — e, juntos, nos fazem perguntar não "o que é normal?", mas "o que é ser humano diante da falha, da adaptação e da consciência?"

Concluindo: O drama de ser tempo

Tempo de Despertar revela uma verdade incômoda: não somos senhores do tempo — somos feitos de tempo. Ele nos atravessa, nos molda, nos perde e nos reencontra. Não há cura médica para isso. Mas há uma vigilância filosófica possível: aquela que aceita o tempo como abismo e ainda assim inventa sentido.

Como disse o pensador brasileiro Vilém Flusser:

"Viver é buscar sentido no sem-sentido do tempo."

Os pacientes de Sacks pagaram o preço extremo dessa busca. E nós, que lemos sua história, somos também convidados a acordar.


sexta-feira, 30 de maio de 2025

Tempo e Ser

 

Já reparou como, às vezes, o tempo parece escorrer por entre os dedos — como areia molhada? Você acorda, toma café, vai ao trabalho, responde e-mails, olha o relógio, almoça apressado, volta... e, quando vê, é noite. Você viveu, mas passou por você?

Heidegger, já mais velho, também pensava nisso. E decidiu voltar à pergunta que nunca o abandonou: o que é o ser? Mas agora com outra lente: o tempo não é só um pano de fundo — ele é o próprio caminho por onde o ser se mostra.

 

1. Uma inversão: não somos nós que controlamos o tempo

A primeira mudança de chave em Tempo e Ser é essa: não somos nós que temos o tempo — é o tempo que nos tem.

Parece estranho? Pensa naquela reunião que você achou que ia durar 15 minutos e virou 2 horas. Ou naquele feriado que voou. O tempo não se mede só no relógio. Ele é vivido — e, por isso, pode expandir ou encolher. Heidegger chama isso de tempo próprio, tempo apropriador (Ereignis).

 

2. Do ser como presença ao ser como doação

Lá em Ser e Tempo, Heidegger ainda tratava o ser como algo que se manifestava dentro do tempo. Agora, em Tempo e Ser, ele diz que o tempo é a condição do ser se mostrar. O ser não está “lá” o tempo todo — ele se doa, se revela, se retira.

É como as pessoas na nossa vida: tem amigos que aparecem quando a gente menos espera — e outros que, mesmo presentes, estão ausentes. O ser também é assim — se dá no tempo certo, e só no tempo certo.

 

3. O Ereignis: o momento em que o ser acontece

Heidegger inventa uma palavra complexa: Ereignis. Traduzem como “acontecimento apropriador” ou “evento de apropriação”. Mas pense nisso como aquele instante em que tudo se encaixa, mesmo que por um segundo.

Tipo quando você está andando na rua, distraído, e sente que está no lugar certo, na hora certa. Ou quando escuta uma música antiga e algo em você se revela — uma lembrança, uma emoção esquecida.

Não é você quem provoca isso — é o tempo que te entrega.

 

4. O tempo como clareira (Lichtung)

Heidegger fala que o ser precisa de uma clareira para aparecer — como uma luz que atravessa a floresta. Essa luz é o tempo.

Na prática? É como quando você finalmente tem um domingo livre. Silêncio em casa. Você senta, olha pela janela e pensa em tudo que não pensa durante a semana. A vida parece abrir espaço para você pensar no que está fazendo com ela.
Esse instante de clareira é um presente do tempo. E o ser, tímido, aparece ali — se você estiver atento.

 

5. Nem cronômetro, nem relógio — tempo como relação

Heidegger nos convida a abandonar a ideia de tempo como algo linear e medido em minutos. Ele quer que a gente perceba o tempo como relação com o ser.
Você já teve um almoço com alguém que parecia durar cinco minutos, mas mudou o seu mês? Ou já ficou olhando para o teto por três horas sem conseguir respirar de tanta angústia? O tempo que vale não é o dos ponteiros, mas o da experiência.

 

Viver é acolher o tempo que nos escolhe

Em Tempo e Ser, Heidegger não está oferecendo uma receita de como aproveitar melhor o tempo, como os gurus da produtividade. Ele está dizendo:

“Pare de correr. Escute o tempo. Ele não é seu inimigo. Ele é o próprio lugar onde o ser se mostra.”

Na prática? Talvez seja deixar o celular de lado por meia hora. Sentar em silêncio. Ouvir um amigo com atenção. Aceitar que nem tudo está no nosso controle — e que o que realmente importa acontece quando você permite que o tempo aconteça em você.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Tempo e Observador

A relação entre tempo e observador é uma das questões mais intrigantes e complexas da filosofia e da física. Desde as antigas reflexões sobre a natureza do tempo, passando pelas teorias de Einstein, até as discussões contemporâneas sobre a percepção do tempo, este tema nos leva a ponderar sobre como experimentamos e interpretamos a passagem do tempo.

O Tempo como Fenômeno Relativo

No contexto da física, a teoria da relatividade de Einstein revolucionou nossa compreensão do tempo. Ele nos mostrou que o tempo não é um fluxo absoluto, mas sim relativo ao movimento do observador. Isso significa que duas pessoas, observando o mesmo evento, podem experimentar o tempo de maneiras diferentes, dependendo de sua velocidade e posição no espaço. Essa relatividade desafia nossa intuição e nos leva a questionar se o tempo, tal como o conhecemos, é uma construção social ou uma realidade física.

A Experiência Subjetiva do Tempo

Na vida cotidiana, o tempo é percebido de maneira subjetiva. Por exemplo, enquanto uma criança pode sentir que um dia de escola se arrasta, um adulto pode perceber o mesmo dia como um piscar de olhos. Essa discrepância leva a refletir sobre como nossas experiências moldam nossa percepção do tempo. Filósofos como Henri Bergson argumentaram que há uma distinção entre o tempo medido, cronológico, e o tempo vivido, que é fluido e pessoal. Para Bergson, o tempo vivido é um fenômeno psicológico que não pode ser reduzido a meras unidades de medida.

O Observador como Criador de Significado

O observador, nesse contexto, não é apenas um receptor passivo de eventos temporais, mas um criador de significados. A forma como interpretamos nossas experiências no tempo influencia a maneira como vivemos. Momentos significativos, como um casamento ou o nascimento de um filho, podem parecer durar uma eternidade, enquanto experiências monótonas podem se esvanecer rapidamente na memória. Essa ideia ecoa em muitos pensadores, incluindo Martin Heidegger, que enfatizou a importância do ser humano como um ente que projeta sentido em sua existência temporal.

O Tempo e a Conexão com o Presente

Na filosofia budista, o tempo é frequentemente visto como um fluxo contínuo, onde o passado e o futuro se entrelaçam no momento presente. Essa perspectiva nos convida a refletir sobre como a nossa conexão com o presente pode afetar nossa percepção do tempo. Quando estamos totalmente imersos em uma atividade, por exemplo, o tempo pode parecer passar mais rapidamente. Por outro lado, momentos de reflexão e contemplação podem nos fazer sentir que o tempo se expande. A prática da atenção plena (mindfulness) se torna uma ferramenta valiosa nesse contexto, permitindo que apreciemos a riqueza do momento presente.

Uma Dança entre Tempo e Observador

A relação entre tempo e observador é uma dança complexa e multifacetada. O tempo não é apenas uma entidade física; é também uma experiência vivida que varia de pessoa para pessoa. Ao reconhecer essa dinâmica, somos levados a uma compreensão mais profunda de como moldamos nossas vidas e nossas experiências no tempo. Assim, ao refletirmos sobre o tempo e o papel do observador, somos convidados a explorar não apenas a natureza do tempo em si, mas também como podemos viver de forma mais plena e consciente, aproveitando cada momento que nos é dado.


sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Tempo Perdido

Não era mais o mesmo. Quem nunca sentiu isso? Em algum momento, a gente se pega refletindo sobre quem éramos e quem nos tornamos, como se houvesse uma quebra entre o antes e o agora. Parece que certas experiências, decisões ou até mesmo os dias comuns moldaram algo fundamental dentro de nós. Talvez seja a maturidade que chegou, ou quem sabe, apenas o peso da rotina. O que é certo é que, de alguma forma, nos tornamos estranhos a nós mesmos. Me flagrei pensando sobre isto enquanto ouvia a música “Tempo Perdido”, da banda Legião Urbana, Renato Russo fala sobre a passagem do tempo e como, ao longo dos anos, as pessoas mudam e evoluem, refletindo o sentimento de não ser mais o mesmo. A canção lida com as inevitáveis transformações da vida e a percepção de que o tempo nos molda, trazendo essa noção de que estamos em constante mudança.

Link da música no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=tI9kSZgMLsc

Vamos pensar em algo bem cotidiano. Lembra daquela época em que você não conseguia sair de casa sem arrumar cada detalhe do visual, ou fazia questão de ter a última palavra em uma discussão? E hoje, você se pega saindo de chinelo para ir ao mercado, sem se importar com o que os outros pensam, ou simplesmente deixa o outro falar, percebendo que não vale a pena discutir. Não era mais o mesmo.

Esse sentimento de mudança, de deslocamento interno, é uma sensação que muitos filósofos já discutiram. Heráclito, por exemplo, nos lembra que "ninguém se banha duas vezes no mesmo rio." Isso porque, assim como o rio, nós estamos em constante movimento. O rio flui, muda, e mesmo que tentemos entrar nas mesmas águas, elas já não são as mesmas. Da mesma forma, a pessoa que fomos ontem já não é a mesma hoje. Nossas experiências, emoções, pensamentos – tudo isso é dinâmico.

É curioso observar como pequenos detalhes do dia a dia mostram essas mudanças. Sabe aquela amizade que você cultivou por anos e que, de repente, não parece mais fazer tanto sentido? Ou aquele trabalho que antes te desafiava e agora parece apenas uma sequência de tarefas automáticas? Nesses momentos, percebemos que crescemos, mudamos e que talvez o mundo ao nosso redor não acompanhou esse ritmo. Ou quem sabe, fomos nós que tomamos um caminho diferente.

Schopenhauer, com seu pessimismo filosófico, diria que essa transformação é parte do sofrimento inerente à vida. Ele acreditava que, em nossa busca incessante por realização e sentido, acabamos inevitavelmente nos desapontando com as realidades do mundo. O "não ser mais o mesmo" seria, então, a constatação de que a vida não cumpre as promessas que um dia pensamos que ela faria. Mas há beleza nisso também. É nesse desencontro entre o que esperávamos e o que recebemos que crescemos, nos tornamos mais resilientes, mais complexos.

E, se a gente for um pouco mais longe, dá para pensar em Nietzsche. Ele acreditava que as mudanças em nós não deveriam ser vistas com melancolia, mas como parte da nossa potencialidade. Ele fala sobre o conceito de "eterno retorno" – a ideia de que a vida é cíclica, e que devemos abraçar cada mudança e cada versão de nós mesmos como algo necessário para a nossa evolução. Ou seja, não era mais o mesmo, e isso é bom! Faz parte do processo de se reinventar.

Então, quando perceber que não é mais o mesmo – seja ao tomar decisões diferentes, rever antigas paixões, ou até na maneira de encarar o mundo – talvez seja hora de celebrar. Afinal, é um sinal de que a vida está em movimento, que você está crescendo. Como Heráclito disse, não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, e ainda bem que não podemos.


domingo, 11 de setembro de 2011

O TEMPO NÃO METEOROLÓGICO

O TEMPO NÃO METEOROLÓGICO

Tempo (meteorológico) são condições atmosféricas de um determinado lugar em um dado momento. Clima: é a sucessão habitual dos tipos de tempo num determinado lugar da superfície terrestre.

Mas não é deste tempo que quero falar.

Depois de assistir ao filme O Feitiço do Tempo, no Philocine de ontem (10/09/2011), exibido por iniciativa dos alunos do Curso de Filosofia do IPA, fiquei em minha mente ruminando outra questão, entendo que seja uma das mais importantes na mensagem do filme, é a questão do tempo, que diga-se é questão fundamental para nossa existência.

Perguntinha fácil para o senso comum e difícil para quem gosta de pensar com profundidade: 

O que é o Tempo? 


Quando nos propomos a falar sobre o tema, de imediato o senso comum se mostra perplexo diante de tal pergunta, e passa a responder: ora, o tempo é o tempo, que é passado, presente e futuro, com esta resposta aqueles que pensam com mais profundidade entende que esta visão é externa e desprovida de conceito, apenas um amontoado de palavras que apenas sugerem alguma coisa, alimentada apenas pelos sentidos, como em geral é o limite do senso comum.
Por definição, o passado é o que não é mais, o futuro, o que ainda não é, e o presente é o que é. Mas o instante presente, quando percebido, já passou. Como compreender a relação entre passado, presente e futuro? O que é o tempo?
Esta pergunta já foi motivo de muita reflexão desde tempos remotos, temos pensadores brilhantes que pensaram a respeito e nos legaram ampla bibliografia, que ora então trago para este registro uma pequena parcela de alguns pensamentos para em seguida refletirmos:

            PLATÃO (427-347 a.C.):
Platão argumenta que o tempo (chrónos) “é a imagem móvel da eternidade (aión) movida segundo o número” (Timeu, 37d).  Partindo do dualismo entre mundo inteligível e mundo sensível, Platão concebe o tempo como uma aparência mutável e perecível de uma essência imutável e imperecível - eternidade. Enquanto que o tempo (chrónos) é a esfera tangível móbil, a eternidade (aión) é a esfera intangível imóbil. Sendo uma ordem mensurável em movimento, o tempo está em permanente alteridade. O seu domínio é caracterizado pelo devir contínuo dos fenômenos em ininterrupta mudança.
Posto que o tempo (chrónos) é uma imagem, ele não passa de uma imitação (mímesis) da eternidade (aión). Ou seja, o tempo é uma cópia imperfeita de um modelo perfeito – eternidade. Isso significa que o tempo é uma mera sombra da eternidade. Considerando que somente a região imaterial das formas puras existe em si e por si, podemos dizer que o tempo platônico é uma ilusão. Ele é real apenas na medida em que participa do ser da eternidade.

ARISTÓTELES (384-322 a.C.):
Segundo Aristóteles, o tempo é “o número de um movimento segundo o antes e o depois” (Física 219 b1-2). Embora o tempo não seja o movimento, ele afirma que o tempo “é o movimento enquanto possui um número” (Física 219 b3). Como número, o tempo é o número numerado e não o número numerante. Enquanto que o número numerante é o número abstrato, o número numerado é o número concreto. Enquanto que o número numerante é aquele que conta, o número numerado é aquele que é contado. Enquanto que o número numerante designa apenas a quantidade (dez); o número numerado designa a quantidade e a natureza dos entes numerados (dez cavalos). Assim, o tempo é o número numerado porque é o número (quantidade) do movimento (natureza).
Tendo em vista que o tempo é o movimento numerado segundo o anterior-posterior, Aristóteles afirma que o tempo é o número do movimento considerado absolutamente e não especificamente. Neste caso, o tempo é o número do movimento absoluto. Ou seja, o tempo enquanto movimento numerado compreende todos os diversos movimentos que ocorrem segundo categorias determinadas: substância (geração e corrupção), quantidade (crescimento), qualidade (alteração) e lugar (movimento local).
Partindo do pressuposto que o tempo é o anterior-posterior numerado de um movimento, Aristóteles afirma que o anterior-posterior é a causa do número que é o tempo. Ou seja, o anterior-posterior é o principio do tempo – o fundamento que possibilita que um movimento seja atribuído ao número. Para Aristóteles, o anterior-posterior é expresso no âmbito temporal através de dois agoras – um agora anterior e um agora posterior. Na dimensão temporal, o anterior-posterior só podem ser concebidos segundo a distância em relação ao agora. No passado, o anterior é o mais distante do agora e o posterior é o mais próximo. No futuro, o anterior é o mais próximo do agora e o posterior é o mais distante.
Por conseguinte, Aristóteles demonstra que o agora é a referência temporal que vincula o anterior e o posterior. Ele funciona como intermédio cronológico entre os extremos opostos – anterior e posterior. Situado entre o anterior e o posterior, o agora é o intervalo de tempo que delimita o anterior-posterior. Sendo o limite que conecta incessantemente o anterior e o posterior, o agora permite a determinação dos dois agoras (anterior e posterior) em uma série numérica. Ou seja, a ordenação numérica do anterior-posterior no movimento depende da mediação do agora definido por Aristóteles como “o anterior-posterior enquanto numerável” (Física 219 b25).

SANTO AGOSTINHO DE HIPONA (354-430):
Inicialmente admitimos que a questão do “tempo” parece, ser extremamente simples e conhecida de todos, o próprio filósofo Agostinho de Hipona  reconhece isso quando afirma: (vide livro XI O Homem e o Tempo)
Que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam.
Apenas como recurso didático e para comprovação das palavras de Agostinho, citaremos um texto canônico muito conhecido que versa sobre o tempo:
Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derribar e tempo de edificar, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de saltar de alegria, tempo de espalhar pedras e tempo de juntar pedras, tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar, tempo de buscar e tempo de perder, tempo de guardar e tempo de deitar fora, tempo de rasgar e tempo de coser, tempo de estar calado e tempo de falar, tempo de amar e tempo de aborrecer, tempo de guerra e tempo de paz.
Agostinho, respondeu de maneira clara e objetiva, mas quando a pergunta é feita: O que é o Tempo? Ele responde:
Se não me perguntarem, eu sei o que é. Se tiver de explicar para alguém, não sei. O problema é que o passado não está mais aqui, o futuro ainda não chegou e o presente voa tão rápido que parece não ter extensão alguma. Aliás, se o presente só surge para virar passado, não daria pra dizer que o tempo é uma caminhada rumo à não-existência? Santo Agostinho, foi Bispo no século 5. Famoso por ter adaptado o pensamento da grécia antiga ao cristianismo, em especial o pensamento de Platão.

JOHN WHEELER (1911-2008) :
É o jeito que a natureza deu para não deixar que tudo acontecesse de uma vez só. Um dos maiores físicos do século 20. Também é conhecido por cunhar o nome popular para o fenômeno espacial das estrelas colapsadas gravitacionalmente, a expressão buraco negro.

 ALBERT EINSTEIN (1879-1955):

Uma ilusão. A distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão.

BRIAN GREENE (1963):
Não há fluxo. Os eventos, independentemente de quando ocorram, simplesmente existem. Todos existem. Eles ocupam para sempre o seu ponto particular no espaço-tempo. Se você estava se divertindo a valer no réveillon, você ainda está lá, pois esta é uma das localizações imutáveis do espaço-tempo. Brian Greene, Físico americano da universidade de Colúmbia e autor best seller de divulgação científica.

POVO MAIA (1000 a.C. a 1697 d.C.): - TEMPO DO NÃO TEMPO
SEGUNDO O CALENDÁRIO MAIA (criado aproximadamente no período pré-clássico 1000 a.C – 317 d.C.), O TEMPO DO NÃO TEMPO VAI DO ANO DE 1992 AO ANO DE 2012.
O que significa o tempo do não tempo?
Significa um período de mudanças profundas nos sistemas socias, economicos, financeiros e relacionamentos, existentes no planeta terra em toda a sua ordem e, a partir do setimo ano após 1999 no ano de 2006 as sete profecias maias, que marcam as mudanças dos tempos estariam em curso, apesar de que algumas delas já estavam sendo iniciadas em alguns níveis desde o ano de 1992, e apenas ficariam mais claras a partir do ano de 2006.

RAINER SOUZA (graduado em História – Equipe Brasil Escola), escreveu o seguinte

               TEMPO CRONOLÓGICO E TEMPO HISTÓRICO. O tempo é uma questão fundamental para a nossa existência. Inicialmente, os primeiros homens a habitarem a terra determinaram a contagem desse item por meio da constante observação dos fenômenos naturais. Dessa forma, as primeiras referências de contagem do tempo estipulavam que o dia e a noite, as fases da lua, a posição de outros astros, a variação das marés ou o crescimento das colheitas pudessem metrificar “o quanto de tempo” se passou. Na verdade, os critérios para essa operação são diversos.
Não sendo apenas baseada em uma percepção da realidade material, a forma com a qual o homem conta o tempo também pode ser visivelmente influenciada pela maneira com que a vida é compreendida. Em algumas civilizações, a ideia de que houve um início em que o mundo e o tempo se conceberam juntamente vem seguida pela terrível expectativa de que, algum dia, esses dois itens alcancem seu fim. Já outros povos entendem que o início e o fim dos tempos se repetem através de uma compreensão cíclica da existência.
Apesar de ser um referencial de suma importância para que o homem se situe, a contagem do tempo não é o principal foco de interesse da História. Em outras palavras, isso quer dizer que os historiadores não têm interesse pelo tempo cronológico, contado nos calendários, pois sua passagem não determina as mudanças e acontecimentos (os tais fatos históricos) que tanto chamam a atenção desse tipo de estudioso. Dessa maneira, se esse não é o tipo de tempo trabalhado pela História, que tempo tal ciência utiliza?
O tempo empregado pelos historiadores é o chamado “tempo histórico”, que possui uma importante diferença do tempo cronológico. Enquanto os calendários trabalham com constantes e medidas exatas e proporcionais de tempo, a organização feita pela ciência histórica leva em consideração os eventos de curta e longa duração. Dessa forma, o historiador se utiliza das formas de se organizar a sociedade para dizer que um determinado tempo se diferencia do outro.
Seguindo essa lógica de pensamento, o tempo histórico pode considerar que a Idade Média dure praticamente um milênio, enquanto a Idade Moderna se estenda por apenas quatro séculos. O referencial empregado pelo historiador trabalha com as modificações que as sociedades promovem na sua organização, no desenvolvimento das relações políticas, no comportamento das práticas econômicas e em outras ações e gestos que marcam a história de um povo.
Além disso, o historiador pode ainda admitir que a passagem de certo período histórico para outro ainda seja marcado por permanências que apontam certos hábitos do passado, no presente de uma sociedade. Com isso, podemos ver que a História não admite uma compreensão rígida do tempo, onde a Idade Moderna, por exemplo, seja radicalmente diferente da Idade Média. Nessa ciência, as mudanças nunca conseguem varrer definitivamente as marcas oferecidas pelo passado.

Mesmo parecendo que tempo histórico e tempo cronológico sejam cercados por várias diferenças, o historiador utiliza a cronologia do tempo para organizar as narrativas que constrói. Ao mesmo tempo, se o tempo cronológico pode ser organizado por referenciais variados, o tempo histórico também pode variar de acordo com a sociedade e os critérios que sejam relevantes para o estudioso do passado. Sendo assim, ambos têm grande importância para que o homem organize sua existência.

Existem correntes de pensadores que falam acerca do tema tempo, uma corrente tradicionalmente a dos realistas defendem a existência do tempo separadamente da mente humana. Outra corrente os anti-realistas, principalmente os idealistas negam, duvidam ou problematizam tal existência separada.

KANT (1724–1804):

Um filósofo idealista, nega a realidade do tempo. Para ele, o tempo é uma noção a priori que não designa nada alem de determinada característica do nosso modo humano de receber informações através dos sentidos.

McTAGGART (1866–1925): Talvez o mais famoso argumento contra a realidade do tempo seja a dele. Diz que podemos distinguir duas "séries" ou características do tempo, a série-A e a série-B, que chamaremos de características-A e características-B. As noções de passado, presente e futuro são as características-A, e as noções de antes e depois, ou anterior e posterior, são as características-B.
Segundo McTaggart, as características-B são redutíveis às características-A, e as características-A nos levam ao regresso ao infinito. Tome como exemplo um evento presente, a leitura deste artigo da Wikipédia. Esse evento é presente, foi futuro e será passado. Ser presente é ser presente no presente, ter sido futuro no passado e vir a ser passado no futuro. Ser presente no presente é ser presente no presente no presente, ter sido futuro no passado no presente, vir a ser passado no futuro no presente etc. Resumindo, por levarem ao regresso ao infinito as características-A não podem ser atribuídas ao tempo. Como, após a redução das características-B às características-A, não há outras características do tempo, McTaggart conclui que o tempo não tem característica alguma por ser irreal. Em suma, ele diz que o tempo não existe, embora tenhamos a ilusão do tempo.

HENRI BERGSON (1859-1941):

Bergson considera que o tempo não é um vazio homogêneo no qual os acontecimentos se sucederiam semelhante à idéia do espaço vazio no qual os objetos estariam colocados simultaneamente. Ao dizer que o tempo é o tecido do real, Bergson estabelece que o tempo compreendido como sucessão, continuidade, mudança, memória e criação não pode ser separado dos acontecimentos, sejam eles psicológicos ou físicos. Nesse sentido, o tempo é único, ou seja, essa é a natureza da infinidade de fluxos ou durações temporais contemporâneas. Esse tempo ao qual Bergson atribui uma realidade objetiva é percebido subjetivamente. Dentre os seres existentes, alguns têm o privilégio de perceber conscientemente o tempo, de apreender-se enquanto sujeitos temporais, de perceber imediatamente a duração interior e a partir daí atribuir temporalidade aos acontecimentos externos, contar o tempo das coisas. Consideremos alguns desses aspectos envolvidos em nossa percepção do tempo.

Temos outros filósofos e pensadores das mais diversas áreas do conhecimento que trabalharam a questão do tempo que são Husserl, Merleau-Ponty e Wittgenstein, e muito outros, porem o caminho é longo, vamos ter de abreviar.
Ficou evidente como demonstrado acima que grandes pensadores, nas mais variadas áreas do conhecimento e em épocas diferentes se sentiram obrigados a abordar a questão, De todos autores farei uma breve manifestação acerca do pensamento de Santo Agostinho, lembro que Edmund Husserl afirmou que o pensamento de Agostinho de Hipona não ficou cristalizado em sua época.
Todas as épocas que o sucederam e quiseram  abordar o problema do tempo, tiveram que ler a obra agostiniana, ainda que para discordar. O cerne de sua teoria do tempo tem sido ratificada contemporaneamente por Henri Bérgson, eficiente opositor do positivismo. Segundo ele, o positivismo não se manteve fiel à sua promessa de retratar a verdade, primordialmente, no que tange ao problema do tempo. O tempo especializado, cronológico, não é o tempo de nossas consciências, que é o tempo real, o tempo concreto. Esta denúncia é feita sob as bases da teoria agostiniana do tempo, evidentemente acrescida de novas descobertas. E com Bergson, concluo:
             Toda consciência é memória-conservação, acumulação do passado no presente e antecipação do futuro.
Duração pura, duração vivida, duração real, duração qualidade, duração completa, todas são qualidades próprias dos estados psíquicos que se sucedem sem justaposição.
Sim, eu creio que nossa vida passada está aí conservada nos mínimos detalhes, e tudo o que nós percebemos, passamos, desejamos desde o primeiro despertar da nossa consciência, persiste infinitamente.

Uma ótima semana a todos!