Reflexão sobre a Ausência em Si
Às
vezes a gente está presente — mas falta. Não fisicamente, que isso a cadeira
confirma. Falta de outro jeito, mais fundo. Fica uma espécie de sombra, uma
presença que não se reconhece, como se o próprio ser tivesse faltado ao
chamado. Você responde “presente” na chamada da vida, mas alguma coisa em você
parece não ter vindo. É sobre esse tipo de ausência que se fala aqui: o absenteísmo
metafísico.
Esse
termo poderia soar estranho, mas descreve um fenômeno cotidiano: viver sem se
sentir dentro da própria existência. Há quem trabalhe, ande, converse, e até
ame — tudo isso com uma espécie de “piloto automático ontológico”. O ser se
desconecta de si, como se estivesse terceirizando sua presença ao mundo. É como
morar numa casa onde as luzes estão acesas, mas ninguém parece estar em casa.
O
filósofo Martin Heidegger ajuda a iluminar esse vazio com sua ideia de inautenticidade
— um modo de ser em que o indivíduo vive de forma impessoal, guiado pelas
convenções do "se": “se faz assim”, “se pensa assim”, “se
espera isso”. Nesse estado, o sujeito não está propriamente ausente do mundo,
mas ausente de si mesmo — e talvez isso seja ainda mais radical.
O
absenteísmo metafísico é essa espécie de não comparecimento do ser à própria
vida. Não é depressão, nem alienação no sentido estrito — é mais como um
deslocamento sutil do eu, uma falta de gravidade interior. Você está aqui, mas
a essência não encostou os pés no chão.
A
consequência disso é viver por procuração, por reflexo dos outros, por espelhos
rachados. E quando finalmente se percebe essa ausência, o susto é grande: como
posso estar vivo, e mesmo assim não estar? A resposta não vem fácil. Mas talvez
comece quando, em vez de tentar voltar para si, você se pergunta com
honestidade: “mas quem, afinal, sou eu que deveria estar aqui?”
Heidegger
dizia que só no confronto com a finitude é que nos tornamos autênticos. Talvez
o antídoto para o absenteísmo metafísico seja esse: reconhecer que nossa
presença é sempre uma escolha. Escolher estar — não só no corpo, mas no
espírito, na palavra, no gesto. E que, às vezes, só o silêncio mais honesto
pode trazer o ser de volta do exílio.
