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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ser e Não Ser


Outro dia, parado na fila do café, num insight percebi que meu corpo estava ali — carteira no bolso, celular na mão — mas minha mente vagava em outro lugar. Eu era e, ao mesmo tempo, não era. Aquela cena banal, quase ridícula, me lembrou da velha pergunta que atravessa séculos: ser ou não ser? Só que, fora dos palcos de Shakespeare, essa questão não aparece em forma de drama grandioso; ela se infiltra na vida miúda, nos instantes em que existimos pela metade.

Este ensaio nasce dessa estranheza cotidiana: como podemos estar tão presentes e tão ausentes ao mesmo tempo? E o que isso diz sobre o que chamamos de “ser”?

O Ser como presença viva

Na filosofia clássica, ser costuma significar aquilo que existe de modo pleno, estável, afirmado. Mas, numa leitura espiritualista, o ser não é um objeto fixo — é uma presença consciente. Ser é estar inteiro no que se vive.

Pense numa conversa sincera, daquelas raras, em que alguém nos fala algo importante e nós realmente escutamos, sem ensaiar respostas, sem olhar o relógio. Nesse instante, há uma espécie de alinhamento: corpo, atenção e sentido. Ali, somos. Não porque fazemos algo extraordinário, mas porque estamos inteiros.

Espiritualmente, o ser não se define pelo papel social, pelo nome ou pela função. Ele se manifesta quando há coerência entre o que sentimos, pensamos e fazemos. O ser é um acontecimento, não um rótulo.

O Não Ser como ausência disfarçada

Já o não ser raramente se apresenta como vazio absoluto. Ele costuma vestir fantasias respeitáveis: rotina, produtividade, adaptação. Não ser é viver no automático.

No cotidiano, isso aparece quando:

  • dizemos “tudo bem” sem sequer consultar o que sentimos;
  • cumprimos tarefas o dia inteiro e, à noite, temos a sensação de não ter vivido nada;
  • repetimos opiniões que não são nossas, apenas para evitar atrito.

O não ser, nesse sentido, não é inexistência, mas desconexão. É estar fisicamente presente e espiritualmente ausente. Uma espécie de vida em modo economia de energia.

A tensão criadora entre Ser e Não Ser

O ponto inovador talvez esteja aqui: ser e não ser não são inimigos absolutos. Eles formam uma tensão criadora. O não ser revela onde estamos fragmentados; o ser aponta a possibilidade de integração.

Há dias em que o cansaço nos domina e tudo o que conseguimos fazer é funcionar. Isso não nos condena. O problema surge quando esse estado vira regra, quando esquecemos que há algo em nós que pede mais do que sobreviver.

Espiritualmente, o não ser pode funcionar como um chamado silencioso. Ele incomoda, esvazia, gera aquela pergunta incômoda: “é só isso?” E essa pergunta já é um primeiro gesto de ser.

Pequenas cenas de escolha

A vida não nos pergunta “ser ou não ser?” em tom trágico. Ela pergunta em detalhes:

  • Responder ou reagir?
  • Escutar ou apenas esperar a vez de falar?
  • Viver para parecer ou parecer para viver?

Cada escolha dessas, por menor que seja, desloca-nos um pouco mais para o ser ou para o não ser. Não se trata de pureza espiritual, mas de grau de presença.

Um olhar espiritualista final

Do ponto de vista espiritual, o ser não se conquista de uma vez por todas. Ele se relembra. Há algo em nós que sabe quando estamos sendo verdadeiros e quando estamos apenas representando.

Ser é lembrar-se de si mesmo no meio do mundo.

Não ser é esquecer-se, ainda que temporariamente.

Talvez a sabedoria não esteja em eliminar o não ser, mas em reconhecê-lo rapidamente — como quem percebe que se distraiu durante uma caminhada e, sem culpa, retorna ao caminho.

Concluindo...(quase um sussurro)

Ser e não ser não são estados fixos, mas movimentos. Oscilamos entre eles todos os dias. A espiritualidade, longe de prometer uma resposta definitiva, nos oferece algo mais simples e mais difícil: atenção.

Onde há atenção, o ser começa a respirar.

Onde ela falta, o não ser se instala.

E talvez viver seja isso: aprender, mil vezes, a voltar.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Quietude para Florescer

Sem solenidade, por favor

Não foi numa montanha, nem num retiro espiritual. Foi numa fila. Dessas de mercado, em que ninguém olha para ninguém e todo mundo olha para o celular. De repente, o sistema caiu. Silêncio forçado. Um constrangimento quase físico. E ali ficou claro: não sabemos mais ficar quietos. A quietude virou falha técnica, não condição humana. Mas talvez seja justamente aí, nesse espaço que tentamos eliminar, que algo essencial tenta nascer.

Este ensaio é sobre isso: a quietude não como fuga do mundo, mas como condição para florescer dentro dele.

A confusão entre movimento e vida

Vivemos sob a crença silenciosa de que estar em movimento é estar vivo. Agenda cheia, notificações piscando, respostas imediatas. A quietude, ao contrário, soa como improdutividade, atraso, suspeita. Se alguém está quieto demais, “tem algo errado”.

Mas a filosofia sempre desconfiou dessa pressa. Aristóteles já distinguia o movimento que transforma do movimento que apenas desloca. Muito do que fazemos hoje apenas nos desloca: de tarefa em tarefa, de opinião em opinião, de estímulo em estímulo. Mudamos de lugar, mas não de estado interior.

A quietude, nesse sentido, não é ausência de ação, mas suspensão do ruído que impede a ação verdadeira. É quando o lago para de ser agitado e finalmente reflete algo.

Quietude não é isolamento

Há um erro comum: imaginar a quietude como solidão, fuga ou fechamento. Mas quietude não é desligar-se do mundo — é ajustar o volume. É como abaixar a música para ouvir melhor a conversa.

No cotidiano, isso aparece de formas simples:

  • Alguém que escuta sem preparar a resposta.
  • Um pai ou mãe que senta no chão para observar a criança brincar, sem intervir.
  • Um profissional que pensa antes de responder um e-mail atravessado, e não depois.

Nesses momentos, a quietude não empobrece a relação — ela a aprofunda. É no intervalo entre estímulo e reação que a liberdade aparece. Viktor Frankl falava disso, mas qualquer pessoa que já evitou uma discussão desnecessária conhece essa verdade na prática.

O florescimento é silencioso

Nada floresce fazendo barulho. A semente não anuncia seu trabalho. A raiz não posta atualizações. O crescimento acontece longe dos holofotes.

O mesmo vale para processos humanos:

  • A maturidade não chega em forma de epifania ruidosa.
  • O luto se elabora mais no silêncio do que nos discursos.
  • Uma ideia realmente boa costuma surgir depois que o excesso de ideias se cala.

O problema é que queremos colher sem enraizar. Queremos resultados visíveis sem passar pelo invisível. A quietude é esse subterrâneo do espírito onde nada parece acontecer — mas tudo está sendo preparado.

O cotidiano como campo de treino

Não é preciso mudar de vida para cultivar quietude. Basta mudar o modo de estar nela.

Alguns exemplos quase banais, mas decisivos:

  • Caminhar sem fones por alguns minutos.
  • Comer sem assistir nada.
  • Permanecer um pouco mais numa pergunta antes de correr para a resposta.
  • Aceitar o tédio como passagem, não como inimigo.

Esses gestos não são técnicas de produtividade disfarçadas de espiritualidade. São atos de resistência. Num mundo que exige performance constante, a quietude é uma forma discreta de rebeldia.

Florescer não é expandir, é alinhar

Talvez florescer não signifique “ser mais”, mas ser mais coerente. Menos disperso. Menos fragmentado. A quietude não nos torna maiores — nos torna inteiros.

Quando cessamos o ruído, percebemos melhor o que nos falta e o que nos sobra. E isso é desconfortável. Por isso evitamos. Mas também é libertador. Porque só cresce de verdade aquilo que encontra seu próprio ritmo.

Quase um sussurro

A quietude não resolve a vida. Ela a revela. E talvez isso seja suficiente. Num mundo que grita soluções, florescer pode ser aprender a escutar. Não o barulho de fora, mas aquele silêncio interno que, quando finalmente aparece, não pede pressa. Pede espaço.

E espaço, hoje, é um dos gestos mais raros de cuidado consigo mesmo.

sábado, 12 de abril de 2025

Amanhã Como Ontem

Um ensaio sobre a fidelidade ao tempo antigo em tempos de ditadura do novo, sabem como é, coisas da nostalgia...

Tem gente que acorda todos os dias querendo o mesmo café, no mesmo copo, na mesma cadeira da cozinha, com o mesmo silêncio das sete e meia da manhã. E não é por preguiça, tampouco por falta de criatividade. É por devoção. Por fidelidade. Por acreditar que aquilo que foi bom não precisa ser enterrado só porque alguém inventou um aplicativo novo.

Vivemos na era da “ditadura do progresso” — um regime disfarçado de inovação, que impõe a constante necessidade de mudar, atualizar, melhorar, superar. As palavras “antigo”, “velho” e “repetido” tornaram-se quase palavrões no vocabulário moderno. E, no entanto, há quem resista. Há quem sustente que o amanhã pode — e deve — ser como o ontem. Que a repetição não é atraso, mas ritual. Que manter algo como está não é preguiça de pensar, mas uma forma sofisticada de pensar com o coração.

Contra o culto do novo

A modernidade vende uma ideia perigosa: a de que tudo o que é novo é melhor. Como se o simples fato de algo ter vindo depois já o tornasse superior. Mas o que é esse novo que todos perseguem com tanto fervor? Muitas vezes, nada mais que uma variação cosmética do que já existe. Um amanhã ansioso, que não tem tempo de amadurecer porque já quer ser substituído por um próximo amanhã ainda mais “eficiente”.

Quem resiste a isso, quem deseja um amanhã com o cheiro do pão de ontem, é visto como anacrônico. Mas talvez seja apenas alguém que não se ilude. Alguém que, ao invés de correr atrás do tempo como quem persegue um trem desgovernado, escolhe caminhar lado a lado com ele, com passo firme e memória viva.

O valor do eterno retorno

Nietzsche falava do “eterno retorno”, não como uma maldição, mas como um teste de força interior. Seria você capaz de viver a mesma vida, com as mesmas dores e as mesmas alegrias, repetidamente? Muitos recuam diante da ideia. Mas há um tipo de alma — talvez mais sábia, talvez mais amorosa — que responde: sim, eu viveria. Porque o que me aconteceu não foi pouco, não foi banal. Foi verdadeiro.

Para essas pessoas, repetir não é estar preso: é estar em aliança com o que importa. É confiar que certos gestos, mesmo que repetidos mil vezes, não perdem valor. O beijo na testa do filho. A oração da avó. O mesmo caminho até o trabalho com o sol nas costas. Esses momentos não envelhecem — eles se consolidam.

No bairro os domingos são quase imóveis. Cheiro de churrasco, rádio FM no fundo. Ali, ninguém corre. Ninguém quer mudar nada. E quando alguém novo chega, querendo agitar, alguém sempre diz: “Calma. Aqui o tempo é outro.” Não é atraso — é escolha. O amanhã ali já tem dono: é o mesmo de ontem, e ninguém quer despejá-lo.

A fidelidade ao que já foi

Há uma beleza teimosa em manter certas coisas como estão. Cuidar da casa da infância. Usar o mesmo perfume do primeiro encontro. Contar histórias antigas com as mesmas palavras. Trata-se de uma fidelidade rara: não à novidade, mas ao que já mostrou ser digno de permanecer. É quase um ato político — dizer não ao descarte fácil, ao modismo, à velocidade que esmaga o significado.

Como bem dizia o filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva, a verdadeira tradição não é repetir por repetir, mas manter viva uma centelha que merece atravessar os tempos. O amanhã como ontem não é nostalgia, é compromisso. Não é regressão, é continuidade.

Finalizando com um toque de silêncio

O progresso grita, mas há quem escute o sussurro do tempo com reverência. Que o amanhã seja como o ontem — não por medo de mudar, mas por amor ao que já foi verdadeiro. E talvez essa escolha, tão silenciosa quanto radical, seja a única forma de resistir a um mundo que confunde velocidade com sentido.