A Exclusão pelo Silêncio
Há
exclusões que chegam com barulho: uma porta batida, uma ordem explícita, uma
palavra cortante. Mas há outras que se instalam como poeira, devagar e sem
anúncio. Não se trata de expulsar alguém do espaço comum, mas de apagar sua
presença até que ela não incomode mais. É esse o ostracismo sorrateiro, tão
enraizado em nosso cotidiano brasileiro que às vezes nem o percebemos — embora
doa profundamente em quem o sofre.
Nas
relações de trabalho, ele aparece no esquecimento calculado. O funcionário mais
velho, ou o colega que pensa diferente, não é demitido, mas também não é
convidado para o almoço de equipe, não é chamado para a reunião que decide os
rumos do setor. Continua ali, sentado na mesma sala, mas com sua voz abafada
por um muro invisível.
Na
política, o ostracismo ganha a forma de indiferença coletiva. Povos indígenas,
quilombolas, ribeirinhos — todos ainda habitam o mapa, mas raramente habitam a
agenda pública. São lembrados em datas específicas ou quando a tragédia
explode, mas logo voltam ao silêncio estrutural. Não há proibição de fala,
apenas a recusa em escutar.
Na
cultura, a exclusão sorrateira aparece como uma seleção seletiva do que “vale”
como arte. O samba de roda, o teatro comunitário, a poesia de periferia — tudo
isso sobrevive com força, mas à margem, sem holofotes, sem financiamento.
Enquanto isso, a indústria cultural escolhe o que exporta, como se só o que
atravessa fronteiras fosse digno de memória.
E
nas cidades? Basta andar pelas ruas para notar o pacto social tácito: pessoas
em situação de rua não são oficialmente invisíveis, mas passamos diante delas
como se fossem parte da paisagem. O silêncio dos passantes constrói uma
barreira mais eficaz do que qualquer muro. É exclusão sem decreto, mas não
menos cruel.
No
espaço digital, o ostracismo sorrateiro encontra uma forma nova: o “vácuo”. Não
há bloqueio, não há briga aberta, mas a ausência de resposta, a não-curtida, o
comentário ignorado. A exclusão acontece pelo nada — e talvez por isso doa
mais, porque a ausência é um buraco difícil de nomear.
O
filósofo brasileiro Paulo Freire nos lembra que “calar a palavra do outro” é
uma das formas mais profundas de opressão, pois nega ao sujeito o direito de
existir no diálogo. E é justamente isso que o ostracismo sorrateiro opera: uma
pedagogia silenciosa que corrói, não pelo choque, mas pelo esvaziamento.
Reconhecer
esse mecanismo talvez seja o primeiro passo para enfrentá-lo. Pois resistir,
aqui, não significa apenas gritar contra quem exclui, mas também romper o pacto
do silêncio: olhar de volta, escutar de verdade, reincluir na roda quem foi
deixado de fora. No fundo, o ostracismo sorrateiro só triunfa porque muitos
aceitam calar junto.
E
se há algo que a filosofia nos ensina é que a vida comum se sustenta no
reconhecimento mútuo. Sem ele, restamos como sombras num palco iluminado —
presentes, mas invisíveis.
Nenhum comentário:
Postar um comentário