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sexta-feira, 24 de abril de 2026

As Coisas

Lidamos com Coisas Carregadas de Sentido

Tem um momento curioso no cotidiano que quase sempre passa despercebido: você pega uma xícara, toma um café, coloca de volta na mesa — e pronto, acabou. A xícara foi só um meio. Mas, se algo quebra — a alça se solta, o café derrama — de repente aquela coisa banal “aparece”. Ela deixa de ser invisível. É aí que começa o tipo de pergunta que interessava a Edmund Husserl: o que são, afinal, as coisas, antes de virarem apenas instrumentos ou distrações?

Husserl não queria saber das coisas como a ciência descreve — peso, composição química, medidas. Isso já é um tipo de olhar treinado. Ele queria voltar a um nível mais básico: como as coisas aparecem para nós.

E isso muda tudo.

Porque, no fundo, nós não lidamos com “objetos neutros”. Lidamos com coisas carregadas de sentido. A mesma xícara não é a mesma para todo mundo:

  • para um, é rotina;
  • para outro, lembrança de alguém;
  • para outro ainda, apenas um objeto qualquer.

Então, o que é a coisa? A matéria? A forma? Ou o modo como ela se mostra?

Edmund Husserl foi um filósofo que quis ir direto ao ponto mais básico da experiência humana: como o mundo aparece para nós antes de qualquer teoria ou explicação. Em vez de começar pela ciência ou por ideias prontas, ele propôs a fenomenologia, um método que tenta “voltar às coisas mesmas”, ou seja, observar com atenção como percebemos, sentimos e entendemos o que está à nossa frente. Para Husserl, não existe uma consciência vazia nem um mundo totalmente separado de nós — toda consciência é sempre consciência de algo, numa relação viva entre quem percebe e aquilo que é percebido. Com isso, ele abriu caminho para repensar não só a filosofia, mas também a psicologia e outras áreas, mostrando que o sentido das coisas nasce justamente na experiência que temos delas no dia a dia.

Husserl propõe um gesto radical, quase estranho no começo: suspender o que achamos que sabemos sobre o mundo. Ele chama isso de epoché. Não é negar a realidade, mas colocar entre parênteses nossas certezas automáticas para ver o fenômeno como ele se dá.

Parece complicado, mas é mais simples do que parece.

Imagine que você está olhando uma árvore. Normalmente, você diria: “é uma árvore”, e seguiria em frente. Mas, se fizer o movimento husserliano, você começa a perceber:

  • ela nunca aparece inteira de uma vez (você vê lados, ângulos)
  • ela muda conforme a luz, a distância, o seu humor
  • ainda assim, você a reconhece como “a mesma árvore”

Então, a coisa não é apenas o que está “lá fora”. Ela é também uma unidade construída na experiência.

Isso não quer dizer que tudo é inventado. Quer dizer que o mundo que vivemos é sempre um mundo vivido, não apenas medido.

No cotidiano, isso aparece o tempo todo, mas a gente não nota.

Você entra num lugar e sente um clima estranho sem saber explicar.

Você pega um objeto antigo e ele parece “carregado”.

Você olha alguém e, antes de qualquer palavra, já percebe algo.

Essas não são ilusões descartáveis. São modos de aparecer das coisas.

Husserl chama atenção para algo essencial: toda consciência é consciência de alguma coisa. Isso é a famosa ideia de intencionalidade. Não existe um “eu” isolado nem um mundo completamente separado. Há sempre essa relação viva entre quem percebe e aquilo que aparece.

As coisas, então, não são mudas. Elas são dadas — oferecidas à experiência, sempre por perfis, nunca completamente.

E talvez seja por isso que a vida moderna nos deixa meio anestesiados: a gente para de ver as coisas e passa apenas a usá-las. Tudo vira função. Tudo vira meio. O mundo se empobrece.

O ensaio de Husserl, se a gente traduz para o cotidiano, é quase um convite silencioso:

voltar a ver.

Ver uma cadeira não apenas como “algo para sentar”, mas como algo que se apresenta, que ocupa espaço, que tem presença.

Ver uma rua não só como caminho, mas como um campo de aparições — sons, luzes, rostos, ritmos.

Ver uma pessoa não só como papel (colega, atendente, estranho), mas como alguém que também percebe o mundo.

Isso não resolve problemas práticos. Não paga contas. Não organiza a agenda.

Mas muda o modo como o mundo existe para você.

Porque, no fim, “as coisas” de Husserl não são apenas objetos.

São aquilo que aparece antes de ser reduzido a utilidade.

E talvez a pergunta mais simples — e mais difícil — que fica seja:

há quanto tempo você não olha para algo sem já saber o que aquilo “serve”?

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Idiota da Aldeia



Dia destes estava lendo uma postagem no Instagram de uma palestra de Umberto Eco e me ocorreu escrever sobre o tema, vou deixar o link para lerem a publicação:

https://www.instagram.com/explore/tags/aldeia/

Antigamente o idiota da aldeia ficava restrito ao seu círculo de vinte ou trinta conhecidos. Falava besteiras na taberna, confundia datas na praça, contava histórias tortas para as crianças, e todos sabiam que aquilo era parte do folclore local — uma figura inofensiva ou, no máximo, irritante. Mas Umberto Eco, em uma célebre palestra na Universidade de Turim em 2015, ao receber o título de doutor honoris causa, alertou:

“As redes sociais deram o direito de fala a legiões de imbecis que antes só falavam no bar e depois de um copo de vinho, sem prejudicar a coletividade. Eles eram rapidamente calados, enquanto agora têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel.”

O drama moderno, segundo Eco, é que esse idiota ganhou um microfone global — e ninguém mais distingue sua fala da voz da razão. As redes sociais, ironicamente chamadas de “plataformas”, deram a ele um púlpito.

Mas antes de julgá-lo, precisamos reconhecer um segredo incômodo: o idiota da aldeia também existe em nós.

A ideia de "idiota" não é apenas um personagem exterior, grotesco e reconhecível. Ele é também aquela voz interna que opina sem saber, compartilha sem ler, acredita no que deseja e não no que é. Por vezes, é o idiota da aldeia quem responde nos grupos de WhatsApp da família, quem comenta com raiva em fóruns, quem dá conselhos não solicitados no elevador. O empoderamento desse idiota não é um acidente tecnológico; é o sintoma de uma velha condição humana: o amor à própria ignorância.

O que Eco parece sugerir (mas poucos ousam explorar) é que o problema não é a ignorância em si — afinal, somos todos ignorantes em quase tudo — mas a soberania concedida à ignorância opinativa. Antigamente o idiota da aldeia não era ouvido; agora ele acredita ser a própria aldeia.

O Novo Teatro da Verdade

Platão, no século IV a.C., advertia sobre a fragilidade da opinião sem conhecimento, a famosa doxa que se veste de sabedoria, mas é espuma vazia. Mas nem ele previu o Instagram.

Hoje, não é preciso aprender: basta parecer saber. O empoderamento do idiota não é apenas o direito de falar, mas o direito de soar importante, de ter seguidores, de ser citado, de fazer barulho. Mais: é o direito de cancelar quem sabe mais, de ofender sem custo, de confundir sem responsabilidade. O idiota da aldeia virou curador de museu, crítico literário, filósofo instantâneo, cientista do próprio umbigo.

E nós — os supostos lúcidos — não escapamos ilesos. Pois ao combatê-lo, ao zombar dele, ao denunciá-lo sem parar, damos a ele o alimento que deseja: atenção.

Segundo Nelson Rodrigues (1912 – 1980): “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”

O Idiota também é uma Função

Mas há uma ideia mais profunda e desconcertante aqui: o idiota da aldeia é necessário. Ele cumpre uma função social que talvez tenhamos esquecido. Ele é o espelho deformante que nos lembra o que não queremos ser — ou o que já somos sem perceber.

O idiota é o fermento do ceticismo coletivo. Sua fala desvairada obriga a reflexão dos atentos, o cuidado dos mestres, a paciência dos sábios. Sem ele, a inteligência dorme. Como dizia o filósofo Paul Valéry: "A estupidez não se improvisa; é uma obra de arte." O idiota nos obriga à vigilância.

Talvez seja este o paradoxo mais incômodo: o empoderamento do idiota é também o empoderamento da crítica. Ele não cala o pensamento — obriga-o a se justificar.

A Aldeia Somos Nós

Há uma solução elegante e trágica para o dilema de Eco: reconhecer que a aldeia digital não tem mais centro nem periferia. O idiota já não é uma exceção; ele é uma probabilidade distribuída entre todos. Não há um "ele" e um "nós". A internet tornou a aldeia um espelho de mil faces, e cada um de nós já foi — ou será — o idiota da vez.

Por isso, o verdadeiro risco não é o idiota que fala demais — é o sábio que se cala por cansaço.

O empoderamento do idiota da aldeia, afinal, não é uma crise da estupidez — é uma crise da escuta. Quem ainda escuta com cuidado? Quem ainda separa o ruído da música? Quem ainda suspeita de si mesmo antes de opinar? Eco nos alertou para o barulho, mas talvez o problema mais grave seja o silêncio dos que poderiam dizer algo real e útil — e se retraem.

Talvez o maior idiota da aldeia seja aquele que desistiu de pensar. Hoje percebemos que ele não estava tão errado assim. Ou estava?