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sábado, 10 de janeiro de 2026

Real ou Figurado

Entre a Pedra e o Sinal

Há um momento curioso em toda conversa humana: aquele instante em que precisamos decidir se a frase deve ser acreditada ou interpretada. Quando alguém diz “estou no fundo do poço”, ninguém oferece uma corda literal. Ainda assim, algo ali é profundamente real. Esse pequeno desvio revela um dos jogos mais antigos da linguagem: o vaivém entre o real e o figurado. Após uma conversa com um colega fiquei a pensar sobre isto, ele bastante ansioso em busca de alternativas para enfrentar os problemas naquele momento delicado, o que ele falou me fez refletir a respeito do tanto que falamos com linguagem profunda carregada de sentido emocional.

O sentido real tranquiliza. Ele fixa o mundo, dá contornos, permite medir, pesar, provar. Uma pedra é uma pedra. Um corpo ocupa espaço. O dia começa e termina. Mas o ser humano nunca se contentou com isso. A realidade literal é insuficiente para dar conta da experiência. Sofrimento, desejo, esperança e tempo não cabem inteiros em palavras literais. É aí que o figurado entra como contrabando existencial: ilegal, mas necessário.

Curiosamente, chamamos de “figurado” aquilo que mais se aproxima do vivido. Ninguém sente a dor como um dado técnico; sente como um peso, um vazio, um nó. A linguagem figurada não embeleza a realidade — ela a torna suportável. Talvez por isso as sociedades que tentam expulsar a metáfora acabem empobrecendo o pensamento. Onde tudo precisa ser exato, quase nada é compreendido.

O real, isolado, é mudo. Uma lágrima, em si, é apenas sal e água. Ela só fala quando dizemos que carrega um mundo. O figurado, então, não é fuga do real, mas sua tradução. É a tentativa de dar forma comunicável ao que, de outro modo, permaneceria preso ao silêncio interno.

Mas há um risco: quando esquecemos que o figurado aponta para algo, e não é o algo. Quando metáforas viram dogmas, quando símbolos se solidificam, nasce a confusão. Passamos a defender imagens como se fossem fatos e a negar fatos porque ferem nossas imagens. Nesse ponto, o figurado deixa de iluminar o real e passa a substituí-lo — e toda substituição excessiva gera cegueira.

Talvez viver seja aprender a alternar. Saber quando a pedra é apenas pedra e quando ela pesa como o mundo. Saber quando alguém pede um copo d’água e quando pede, sem saber, um gesto de cuidado. A sabedoria não está em escolher entre o real e o figurado, mas em reconhecer o momento exato de cada um.

No fim, o humano é esse ser que anda com um pé no chão e outro no símbolo. Demasiado real, torna-se bruto. Demasiado figurado, perde-se em névoa. Entre a pedra e o sinal, entre o fato e a imagem, seguimos tentando dizer o indizível — e chamamos isso, modestamente, de linguagem.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Além do Bem...

Outro dia, enquanto esperava meu almoço, ouvi um casal na mesa ao lado discutir sobre certo e errado como se a vida fosse um tribunal moral. "Isso é um absurdo!", dizia um. "Não, é justiça!", respondia o outro. Fiquei pensando: será que realmente conseguimos enquadrar tudo nesses polos? Friedrich Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, já avisava que essa tentativa de reduzir a realidade a dicotomias morais empobrece nosso pensamento.

O Julgamento Moral e Sua Prisão

A ideia de que o mundo se divide em “bom” e “mau” é uma estrutura herdada de tradições religiosas e filosóficas antigas. Platão, por exemplo, separava o mundo sensível (imperfeito) do inteligível (perfeito). O cristianismo levou isso adiante com sua concepção de pecado e salvação. O problema, segundo Nietzsche, é que essas distinções não são naturais: são construções culturais que serviram para domesticar o instinto humano.

Quando vivemos sob essa moral binária, limitamos nossa capacidade de interpretar as nuances da vida. O que é “bom” em uma cultura pode ser “mau” em outra. O que é “certo” para uma época pode ser “errado” para outra. Esse maniqueísmo nos impede de enxergar as forças vitais que movem o ser humano – o desejo de poder, a vontade de se superar, a coragem de afirmar a própria existência sem amarras morais artificiais.

A Moral dos Senhores e a Moral dos Escravos

Nietzsche propõe uma inversão de valores ao criticar a moral tradicional. Ele distingue duas formas de moralidade:

Moral dos senhores: Criada pelos fortes, pelos que afirmam a vida, valorizando coragem, criatividade e potência.

Moral dos escravos: Surgida dos ressentidos, dos que, por não conseguirem impor sua força, passam a demonizar aqueles que conseguem. Aqui nasce o ideal do “bom” como algo passivo, submisso, que exalta a humildade e o sofrimento.

Nos dias de hoje, ainda vivemos essa tensão. Em muitos espaços, o sucesso é visto com desconfiança, e a mediocridade se esconde sob discursos moralistas. Quem se arrisca a ser autêntico muitas vezes é atacado, não porque está errado, mas porque ameaça a segurança dos que preferem a conformidade.

O Pensamento Além do Bem e do Mal

Então, como pensar além do bem e do mal? Significa abrir mão de todo juízo moral? Não exatamente. O que Nietzsche propõe é um novo olhar, onde cada ação e valor sejam analisados não pela régua do dever, mas pela perspectiva da vida. Perguntar não se algo é “bom” ou “mau”, mas se fortalece ou enfraquece a existência.

Imagine alguém que abandona uma carreira tradicional para seguir um caminho incerto, mas alinhado com sua essência. Aos olhos da moral comum, pode parecer irresponsabilidade. Mas e se for, na verdade, um ato de afirmação da própria vontade? Se for um passo para uma vida mais autêntica?

O pensamento nietzschiano nos convida a repensar nossos próprios valores, a questionar os dogmas herdados e a criar novos significados para a existência. Afinal, como ele mesmo escreveu, “tudo é permitido, mas nem tudo fortalece”.

Talvez aquele casal no restaurante não chegasse a um acordo sobre justiça ou absurdo, mas o problema não estava na falta de respostas – e sim na pergunta limitada. Além do bem e do mal, há um horizonte de possibilidades. O desafio é ter coragem para explorá-lo.