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sábado, 9 de maio de 2026

Narrativas e Memórias

Há famílias que deixam heranças materiais; outras, mais discretas, legam um patrimônio invisível — histórias. Venho de uma dessas. Na minha casa, minha mãe não apenas cuidava da educação no sentido formal, como quem acompanha boletins e tarefas escolares; ela costurava o mundo com palavras. Suas “estorinhas” eram mais do que entretenimento: eram uma espécie de pedagogia afetiva, um modo de formar o espírito antes mesmo de formar o currículo.

Com o tempo, comecei a perceber que aquilo que parecia simples tinha uma profundidade inesperada. Não era só memória sendo transmitida — era identidade sendo moldada.

Paul Ricoeur dizia que nós nos compreendemos por meio das narrativas que contamos sobre nós mesmos. Não existe um “eu” puro, isolado, fora da linguagem. Existe um “eu narrado”. E, nesse sentido, minha mãe não apenas contava histórias — ela ajudava a escrever quem eu viria a ser.

Pense nisso: quantas decisões nossas não são, na verdade, ecos de histórias que ouvimos na infância? A coragem que aprendemos com um personagem, a prudência que nasce de uma fábula, a ideia de certo e errado que se infiltra sem pedir licença. A escolarização ensina a ler o mundo; as histórias ensinam a habitá-lo.

E aqui aparece um ponto curioso. Em tempos de educação cada vez mais técnica, quase instrumental, a figura de alguém que conta histórias pode parecer secundária. Mas talvez seja justamente o contrário. O sociólogo Maurice Halbwachs defendia que a memória não é individual — ela é construída socialmente. Lembramos juntos, mesmo quando achamos que estamos lembrando sozinhos. Minha mãe, com suas narrativas, não estava apenas preservando lembranças; estava criando um pequeno universo compartilhado, um “nós” que resiste ao tempo.

Há também algo de quase artesanal nesse processo. Diferente da informação rápida, que se consome e se descarta, a narrativa exige tempo, pausa, escuta. Ela não se impõe; ela se deposita. Como quem planta algo que só vai fazer sentido anos depois — às vezes, décadas.

E então vem a surpresa: um dia, você se pega repetindo uma história. Talvez adaptada, talvez com detalhes novos. E nesse momento percebe que a memória não é estática; ela é viva, móvel, criativa. Como diria Walter Benjamin, o verdadeiro narrador não transmite apenas fatos, mas experiências transformadas — algo que pode ser recontado e, ao mesmo tempo, reinventado.

É aí que a educação da minha mãe revela sua estratégia silenciosa. Ao apostar na escolarização, ela garantia ferramentas. Ao insistir nas histórias, ela garantia sentido. Porque de nada adianta saber ler, se não souber o que fazer com aquilo que se lê. E, talvez mais importante ainda: de nada adianta viver, se não souber narrar a própria vida.

No cotidiano, isso aparece de forma quase banal. Quando interpretamos um conflito no trabalho, quando recontamos um acontecimento para um amigo, quando tentamos entender por que algo nos marcou tanto — estamos narrando. Estamos organizando o caos da experiência em algo que faça sentido.

E talvez seja essa a grande herança: não apenas lembrar, mas saber dar forma ao que foi vivido.

No fim das contas, percebo que aquelas “estorinhas” nunca foram pequenas. Elas eram exercícios de humanidade. Uma forma de dizer, sem precisar explicar: o mundo é complexo, mas pode ser compreendido — se você aprender a escutá-lo como uma história.

E, de algum modo, ainda hoje, cada vez que tento entender quem sou, é como se eu estivesse continuando uma conversa antiga. Uma conversa que começou muito antes de eu ter palavras suficientes para respondê-la.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Além do Bem...

Outro dia, enquanto esperava meu almoço, ouvi um casal na mesa ao lado discutir sobre certo e errado como se a vida fosse um tribunal moral. "Isso é um absurdo!", dizia um. "Não, é justiça!", respondia o outro. Fiquei pensando: será que realmente conseguimos enquadrar tudo nesses polos? Friedrich Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, já avisava que essa tentativa de reduzir a realidade a dicotomias morais empobrece nosso pensamento.

O Julgamento Moral e Sua Prisão

A ideia de que o mundo se divide em “bom” e “mau” é uma estrutura herdada de tradições religiosas e filosóficas antigas. Platão, por exemplo, separava o mundo sensível (imperfeito) do inteligível (perfeito). O cristianismo levou isso adiante com sua concepção de pecado e salvação. O problema, segundo Nietzsche, é que essas distinções não são naturais: são construções culturais que serviram para domesticar o instinto humano.

Quando vivemos sob essa moral binária, limitamos nossa capacidade de interpretar as nuances da vida. O que é “bom” em uma cultura pode ser “mau” em outra. O que é “certo” para uma época pode ser “errado” para outra. Esse maniqueísmo nos impede de enxergar as forças vitais que movem o ser humano – o desejo de poder, a vontade de se superar, a coragem de afirmar a própria existência sem amarras morais artificiais.

A Moral dos Senhores e a Moral dos Escravos

Nietzsche propõe uma inversão de valores ao criticar a moral tradicional. Ele distingue duas formas de moralidade:

Moral dos senhores: Criada pelos fortes, pelos que afirmam a vida, valorizando coragem, criatividade e potência.

Moral dos escravos: Surgida dos ressentidos, dos que, por não conseguirem impor sua força, passam a demonizar aqueles que conseguem. Aqui nasce o ideal do “bom” como algo passivo, submisso, que exalta a humildade e o sofrimento.

Nos dias de hoje, ainda vivemos essa tensão. Em muitos espaços, o sucesso é visto com desconfiança, e a mediocridade se esconde sob discursos moralistas. Quem se arrisca a ser autêntico muitas vezes é atacado, não porque está errado, mas porque ameaça a segurança dos que preferem a conformidade.

O Pensamento Além do Bem e do Mal

Então, como pensar além do bem e do mal? Significa abrir mão de todo juízo moral? Não exatamente. O que Nietzsche propõe é um novo olhar, onde cada ação e valor sejam analisados não pela régua do dever, mas pela perspectiva da vida. Perguntar não se algo é “bom” ou “mau”, mas se fortalece ou enfraquece a existência.

Imagine alguém que abandona uma carreira tradicional para seguir um caminho incerto, mas alinhado com sua essência. Aos olhos da moral comum, pode parecer irresponsabilidade. Mas e se for, na verdade, um ato de afirmação da própria vontade? Se for um passo para uma vida mais autêntica?

O pensamento nietzschiano nos convida a repensar nossos próprios valores, a questionar os dogmas herdados e a criar novos significados para a existência. Afinal, como ele mesmo escreveu, “tudo é permitido, mas nem tudo fortalece”.

Talvez aquele casal no restaurante não chegasse a um acordo sobre justiça ou absurdo, mas o problema não estava na falta de respostas – e sim na pergunta limitada. Além do bem e do mal, há um horizonte de possibilidades. O desafio é ter coragem para explorá-lo.


sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Lealdade Gaúcha

A lealdade gaúcha é uma virtude que corre como as águas de um arroio pela tradição do Sul. É uma qualidade que, mais do que uma escolha, parece um compromisso ancestral, entrelaçado com a paisagem, os costumes e o caráter de um povo acostumado a resistir às intempéries da vida, assim como o vento minuano que esculpe as coxilhas. É uma lealdade marcada pela profundidade, pela firmeza do olhar e pela presença silenciosa ao lado dos seus — mesmo quando as palavras faltam, mas o sentimento se impõe.

Na tradição gaúcha, a lealdade é uma palavra forte, como o mate que se compartilha nas rodas de chimarrão. É um valor aprendido desde cedo, na convivência com a família, no convívio com os amigos e nos momentos de introspecção ao redor do fogo de chão. Estar ao lado do outro, seja amigo, seja família, é quase um voto de permanência, como se o ato de ser leal fosse parte do DNA cultural que forma o caráter do gaúcho.

Link música “Céu, Sol, Sul e Cor com Leonardo:

https://www.youtube.com/watch?v=urxh-MzcG44

Sob uma ótica filosófica, essa lealdade se aproxima de um conceito de virtude aristotélica, aquela ideia de excelência moral e de compromisso com um ideal elevado. O filósofo grego Aristóteles falava da “philia,” que poderia ser traduzida como amizade ou amor fraternal, algo muito próximo da lealdade que o gaúcho expressa. É um laço que envolve afinidade, cumplicidade e confiança — a essência da vida comunitária. Quando um gaúcho é leal, ele não o faz por esperar algo em troca, mas porque compreende que o valor maior está em ser fiel àquilo que ele considera justo e verdadeiro.

Para o gaúcho, lealdade é também uma questão de respeito às tradições e ao modo de vida dos antepassados. É um resgate constante dos valores herdados, como o respeito à palavra dada e a força de um aperto de mão. O gaúcho honra a sua história com orgulho, e ser leal é a maneira como ele se mantém fiel à sua própria identidade, que foi lapidada entre a pampa e o horizonte infinito.

Link música “Querência Amada” com Teixeirinha:

https://www.youtube.com/watch?v=-XnMRZnr2RI

Um autor brasileiro que contribui para essa discussão é o pensador Mário Ferreira dos Santos. Em suas reflexões sobre a ética e o caráter, ele fala sobre a importância de vivermos de acordo com uma verdade interna que ressoe com o mundo à nossa volta. É um chamado para que a autenticidade prevaleça sobre a conveniência. Essa verdade interna, no caso do gaúcho, está ancorada na lealdade a si mesmo e aos seus, como uma força que o impele a honrar tanto a si quanto a história de sua terra.

Ao mesmo tempo, a lealdade gaúcha tem um sentido coletivo: não é apenas individual, mas social, parte de uma ética de cuidado com o outro. Esse vínculo é mais do que uma postura moral — é uma vivência cotidiana que pode ser vista na solidariedade, nas lides campeiras, no auxílio aos vizinhos e na honra do compromisso com a palavra dada. É um comportamento que define o que significa ser parte de uma comunidade que valoriza a integridade e o senso de pertencimento.

Talvez a lealdade gaúcha seja, no fundo, uma resistência à modernidade líquida, onde tudo parece passageiro e descartável, como descrito por Zygmunt Bauman. Ela é uma espécie de âncora que mantém o gaúcho fiel a seus valores e laços, como se fosse um grito de permanência num mundo onde tudo é efêmero. É o compromisso com uma “firmeza” que vem do campo e da natureza, que resiste ao tempo e às pressões de uma sociedade que incentiva o individualismo e o distanciamento.

Link da musica “Do Fundo da Grota” com Baitaca:

https://www.youtube.com/watch?v=EtTbS-KdcrE

A lealdade gaúcha é um modo de existir, uma ética e uma herança cultural que transcende o tempo e as mudanças. Ela é uma forma de ser que representa a continuidade de um compromisso com a terra, com o povo e com a própria história. Essa lealdade não apenas define o caráter gaúcho, mas também oferece ao mundo um exemplo raro de fidelidade e respeito às raízes. Somos um povo que enfrenta até enchentes catastróficas unidos superando os perrengues do destino.