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segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Ouvindo Pouco

Quando todo mundo fala ao mesmo tempo!

Cada novo dia uma experiência, uma observação, ou pelo menos algo que se repete e agora salta aos ouvidos. Numa roda de amigos, percebi algo curioso: todos estavam falando ao mesmo tempo — e ninguém estava escutando. Um falava sobre política, o outro sobre um problema no trabalho, outro contava uma piada velha. Parecia um coral sem maestro, cada voz num tom, numa velocidade, cada um tentando dizer “escute a minha dor, a minha graça, o meu ponto”. E aí me veio um pensamento: talvez estejamos ouvindo cada vez menos, não por falta de ouvidos, mas por excesso de vozes.

Vivemos numa época em que se valoriza muito o dizer. As redes sociais são vitrines de opiniões, desabafos, conselhos e indignações. O espaço de fala virou moeda simbólica de valor. Quem fala mais, quem é mais eloquente, quem viraliza — parece ganhar. Mas no meio desse falatório todo, quem escuta?

Nietzsche certa vez afirmou que “o caminho mais difícil para o homem é escutar”. Porque escutar exige silenciar o ego, suspender o julgamento, abandonar — ainda que por um instante — o desejo de resposta. Escutar de verdade é um ato ético, quase subversivo, num mundo viciado em expressar-se.

Nos ambientes de trabalho, por exemplo, as reuniões são cheias de gente falando ao mesmo tempo. Poucos escutam o que está sendo dito. A comunicação se torna uma performance de presença — “eu também estou aqui”, “eu tenho algo a dizer” — mais do que um real encontro de ideias. O resultado? Decisões ruins, mal-entendidos e um ruído constante.

Em casa, algo parecido: pais falando, filhos com fones de ouvido, cada um em sua bolha sonora. Até os afetos precisam ser traduzidos em frases prontas, memes ou emojis. E quando alguém desabafa algo sério, já vem a resposta automática: “isso acontece com todo mundo”. Escutamos com pressa, como quem ouve o micro-ondas apitando.

A filosofia de Martin Buber pode nos ajudar aqui. Para ele, existem duas formas de se relacionar: a relação “Eu-Isso”, que é utilitária, e a “Eu-Tu”, que é verdadeira e vivencial. Só na relação “Eu-Tu” existe escuta real, porque o outro deixa de ser um objeto a ser interpretado ou corrigido, e passa a ser um sujeito, alguém com quem estou presente. O problema é que, para viver relações “Eu-Tu”, precisamos calar nosso barulho interno.

Estamos, talvez, presos numa cacofonia de individualidades. Cada um grita para garantir sua existência. Mas quanto mais gritamos, menos escutamos — e mais sozinhos ficamos. Escutar pode ser, então, o novo modo de resistência: contra a ansiedade de responder, contra o impulso de ter sempre uma opinião, contra o medo do silêncio.

No fim, talvez a sabedoria consista não em saber o que dizer, mas em aprender a ouvir, mesmo quando tudo à volta grita. Escutar é, paradoxalmente, a forma mais profunda de falar com o mundo. Um mundo onde, finalmente, alguém escutou.