Quando todo mundo fala ao mesmo tempo!
Cada
novo dia uma experiência, uma observação, ou pelo menos algo que se repete e
agora salta aos ouvidos. Numa roda de amigos, percebi algo curioso: todos
estavam falando ao mesmo tempo — e ninguém estava escutando. Um falava sobre
política, o outro sobre um problema no trabalho, outro contava uma piada velha.
Parecia um coral sem maestro, cada voz num tom, numa velocidade, cada um
tentando dizer “escute a minha dor, a minha graça, o meu ponto”. E aí me veio
um pensamento: talvez estejamos ouvindo cada vez menos, não por falta de
ouvidos, mas por excesso de vozes.
Vivemos
numa época em que se valoriza muito o dizer. As redes sociais são vitrines de
opiniões, desabafos, conselhos e indignações. O espaço de fala virou moeda
simbólica de valor. Quem fala mais, quem é mais eloquente, quem viraliza —
parece ganhar. Mas no meio desse falatório todo, quem escuta?
Nietzsche
certa vez afirmou que “o caminho mais difícil para o homem é escutar”. Porque
escutar exige silenciar o ego, suspender o julgamento, abandonar — ainda que
por um instante — o desejo de resposta. Escutar de verdade é um ato ético,
quase subversivo, num mundo viciado em expressar-se.
Nos
ambientes de trabalho, por exemplo, as reuniões são cheias de gente falando ao
mesmo tempo. Poucos escutam o que está sendo dito. A comunicação se torna uma
performance de presença — “eu também estou aqui”, “eu tenho algo a dizer” —
mais do que um real encontro de ideias. O resultado? Decisões ruins,
mal-entendidos e um ruído constante.
Em
casa, algo parecido: pais falando, filhos com fones de ouvido, cada um em sua
bolha sonora. Até os afetos precisam ser traduzidos em frases prontas, memes ou
emojis. E quando alguém desabafa algo sério, já vem a resposta automática:
“isso acontece com todo mundo”. Escutamos com pressa, como quem ouve o
micro-ondas apitando.
A
filosofia de Martin Buber pode nos ajudar aqui. Para ele, existem duas
formas de se relacionar: a relação “Eu-Isso”, que é utilitária, e a “Eu-Tu”,
que é verdadeira e vivencial. Só na relação “Eu-Tu” existe escuta real, porque
o outro deixa de ser um objeto a ser interpretado ou corrigido, e passa a ser
um sujeito, alguém com quem estou presente. O problema é que, para viver
relações “Eu-Tu”, precisamos calar nosso barulho interno.
Estamos, talvez, presos numa cacofonia de individualidades. Cada um grita para garantir sua existência. Mas quanto mais gritamos, menos escutamos — e mais sozinhos ficamos. Escutar pode ser, então, o novo modo de resistência: contra a ansiedade de responder, contra o impulso de ter sempre uma opinião, contra o medo do silêncio.
No fim, talvez a sabedoria consista não em saber o que dizer, mas em aprender a ouvir, mesmo quando tudo à volta grita. Escutar é, paradoxalmente, a forma mais profunda de falar com o mundo. Um mundo onde, finalmente, alguém escutou.
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