Sabe
quando a gente sente que o mundo virou um conjunto de peças soltas, como se
cada pessoa vivesse num quebra-cabeça diferente, e ninguém mais soubesse qual
imagem está tentando montar? Pois é — talvez o grande mal-estar contemporâneo
seja esse: a fragmentação. O “eu” se separou do “nós”, o coletivo se
dissolveu no individual, e o resultado é uma solidão social travestida de
liberdade. É nesse ponto que o integralismo social reaparece como
provocação: e se estivéssemos errando o caminho ao confundir autonomia com
isolamento?
Historicamente,
o termo “integralismo” evocou correntes políticas e filosóficas que buscavam
reintegrar o homem à sociedade e à totalidade do ser. No Brasil, ficou marcado
pelo movimento de Plínio Salgado, de caráter nacionalista e autoritário.
No entanto, o que aqui chamamos de integralismo social não carrega essa
herança política; trata-se de uma releitura ética e filosófica, uma
tentativa de pensar a totalidade humana dentro da sociedade contemporânea — uma
totalidade não de uniformidade, mas de integração das diferenças.
Ser
“integral” não é ser igual. É reconhecer que a pluralidade é o tecido da vida
social. Durkheim, em Da Divisão do Trabalho Social, chamou isso
de solidariedade orgânica: quanto mais complexa a sociedade, mais
interdependentes se tornam os indivíduos. E, no entanto, vivemos um paradoxo —
quanto mais conectados, mais fragmentados nos sentimos. A tecnologia prometeu
unir, mas apenas multiplicou as ilhas. O integralismo social, nesse sentido, é
um convite a reaprender a viver com o outro sem medo de perder o próprio eu.
O
filósofo N. Sri Ram, ao refletir sobre a unidade da vida, dizia que “a
verdadeira fraternidade nasce da consciência da mesma vida em todos os seres”.
Essa visão ecoa o espírito do integralismo social: o reconhecimento de que o
humano não se realiza sozinho. Ser integral é não negar o outro dentro de si.
A
filósofa Marilena Chaui, em sua crítica ao autoritarismo e à sociedade
hierárquica brasileira, também oferece chaves importantes para pensar essa
integração. Em O que é Ideologia e Convite à Filosofia, Chaui
argumenta que o pensamento autoritário brasileiro constrói uma falsa harmonia —
uma unidade imposta de cima para baixo, que silencia o conflito e domestica a
diferença. Para ela, a verdadeira sociedade democrática não é a que elimina o
conflito, mas a que o reconhece e o transforma em diálogo. Assim, o
integralismo social só pode ser autêntico se for horizontal, se nascer
do reconhecimento recíproco, e não da imposição. É uma integração que se
constrói no debate, não na obediência.
Política
e Educação: os espaços da reintegração
Aplicado
à política, o integralismo social exigiria uma democracia participativa real,
em que o cidadão não fosse apenas um eleitor passivo, mas um coautor do bem
comum. Uma política integral não busca apenas eficiência técnica, mas coesão
ética — a percepção de que as decisões públicas tocam a totalidade da vida
social. Isso implica uma nova cultura política, baseada em diálogo,
solidariedade e corresponsabilidade.
Na
educação, o integralismo social se traduziria numa pedagogia da
inteireza. O aprendizado não se limitaria à acumulação de informações, mas se
orientaria para a formação integral do ser — razão, emoção, corpo e
convivência. Paulo Freire já dizia que “educar é um ato de amor”, e amar, nesse
contexto, é integrar: integrar saberes, culturas, gerações e, sobretudo,
pessoas.
Um
novo sentido de inteireza
No
cotidiano, essa reintegração começa em gestos simples: ouvir sem interromper,
cooperar sem competir, reconhecer no outro não um obstáculo, mas uma extensão
de si. O integralismo social, assim, não é uma doutrina fechada, mas uma atitude
diante da vida, um modo de costurar as partes esgarçadas do tecido humano.
Como
lembrava Martin Buber, na relação “Eu-Tu” o outro deixa de ser um
instrumento e se torna presença. Talvez o desafio do nosso tempo seja
justamente esse: voltar a nos relacionar como presenças, e não como funções.
Ser integral, afinal, é ser plenamente humano — e isso só é possível em
relação.
O
Integralismo Social como horizonte ético do século XXI
O
pensador francês Edgar Morin, ao propor o pensamento da complexidade,
afirma que não há compreensão possível do mundo se não unirmos o que foi
separado pelo pensamento simplificador: sujeito e objeto, natureza e cultura,
razão e emoção. O integralismo social é, nesse sentido, um desdobramento ético
dessa mesma visão: compreender que a sociedade só será verdadeiramente humana
quando aprender a pensar e viver de forma complexa, ou seja, integrada.
Morin
nos convida a “ligar os saberes” — e o integralismo social amplia esse convite
para o campo das relações humanas: ligar as pessoas. Não se trata de
apagar as diferenças, mas de reconhecê-las como parte do todo. O século XXI,
marcado por crises ecológicas, tecnológicas e identitárias, exige mais do que
soluções técnicas; exige inteireza moral e espiritual, a consciência de
que cada ato, por menor que seja, toca a totalidade do real.
Portanto,
o integralismo social não é nostalgia nem utopia — é um horizonte ético,
um esforço contínuo de reconciliação entre o indivíduo e o mundo. Ele nos
lembra que ser inteiro não é ser perfeito, mas estar presente — inteiro na
relação, inteiro na ação, inteiro na vida.



