Ele entra numa sala e encontra opiniões opostas. Em casa, cada filho tem um temperamento diferente. No trabalho, a equipe pensa em velocidades distintas. No mundo, culturas, crenças e visões de realidade colidem diariamente.
E,
ainda assim, a vida insiste numa pergunta antiga:
como
pode haver unidade sem apagar a diversidade?
A
ideia de “unidade na diversidade” não é slogan moderno. Ela atravessa
filosofia, espiritualidade e política. Não se trata de uniformizar, mas de
integrar.
A
tentação da uniformidade
O
homem moderno, muitas vezes, resolve o problema da diversidade tentando
eliminá-la. Quer que todos pensem igual para evitar conflito. Confunde paz com
homogeneidade.
Mas
uniformidade não é unidade — é empobrecimento.
Uma
orquestra não toca melhor quando todos os instrumentos soam como violinos. Ela
é harmônica justamente porque há sopros, cordas e percussão. O conflito
controlado produz beleza.
A
unidade que não sufoca
Leonardo
Boff costuma falar de uma “unidade que acolhe a diferença”. Para ele, a criação
inteira é plural, mas sustentada por uma interdependência profunda.
Não
se trata de fundir tudo numa massa indistinta, mas de reconhecer que a
diferença não é ameaça — é condição da vida.
A
natureza ensina isso melhor que qualquer tratado. Uma floresta não é uma única
árvore repetida infinitamente. Ela é equilíbrio dinâmico entre espécies
distintas.
O
drama cotidiano
No
cotidiano, a dificuldade aparece de forma simples:
- Ele discute política na família.
- Diverge do colega de trabalho.
- Não compreende completamente o modo
de ser do próprio parceiro.
A
reação imediata é tentar corrigir o outro.
Mas
talvez a maturidade esteja em perguntar:
o
que essa diferença acrescenta ao todo?
Unidade
na diversidade exige algo raro: identidade sólida.
Quem
sabe quem é não precisa apagar o outro para existir.
Um
olhar filosófico
Se
aproximarmos essa reflexão de Heráclito, encontramos a ideia de que a harmonia
nasce da tensão dos opostos. O arco e a lira produzem som porque há tensão
entre forças contrárias.
A
vida é estrutura tensionada.
Sem
contraste, não há forma.
A
verdadeira unidade
A
verdadeira unidade não está na superfície das opiniões, mas na profundidade da
condição humana:
- Todos desejam reconhecimento.
- Todos temem a perda.
- Todos buscam sentido.
Na
raiz, há comunhão.
Na
superfície, há diversidade.
Quando
ele compreende isso, para de tentar vencer e começa a tentar compreender.
Unidade
na diversidade não é eliminar diferenças — é sustentá-las dentro de um
horizonte maior.
Talvez
a pergunta não seja “como fazer todos concordarem?”, mas:
qual
é o centro que pode sustentar nossas diferenças sem destruí-las?
Quando
esse centro existe — seja chamado de verdade, dignidade, amor ou consciência —
a diversidade deixa de ser ameaça e torna-se riqueza.
E
é ali, nesse centro silencioso que acolhe sem dissolver, que a unidade deixa de
ser teoria e torna-se experiência.
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