Caminhando
na beira da praia, logo cedo, quando o vento ainda não decidiu ser forte e o
mundo parece suspenso, eu sinto que penso melhor. A areia úmida guarda as
pegadas por alguns instantes — depois o mar apaga. Fico olhando esse vai e vem
e me pergunto quantas decisões na minha vida também foram assim: nasceram
discretas, quase sem testemunhas, mas tinham a força do oceano por trás.
Foi
ali, entre o som das ondas e o horizonte aberto, que me dei conta de que as
escolhas mais importantes da minha vida não vieram de planilhas nem de
conselhos racionais demais. Vieram de uma espécie de silêncio interior. Não foi
cálculo. Foi intuição.
Esse
algo é o que chamo aqui de caminho intuitivo.
Intuição
não é impulso
Muita
gente confunde intuição com impulso. Mas impulso é ruído; intuição é síntese.
Carl
Gustav Jung dizia que a intuição é uma das funções
psíquicas fundamentais: ela percebe possibilidades, pressente direções, capta o
que ainda não se tornou evidente. Não é mágica — é percepção profunda.
É
aquela sensação estranha ao aceitar (ou recusar) um trabalho.
É
o desconforto silencioso numa conversa aparentemente cordial.
É
o “não sei explicar, mas sei” que aparece quando estamos diante de uma escolha
afetiva.
A
razão costuma chegar depois para organizar o que a intuição já havia
pressentido.
O
excesso de explicação como fuga
Vivemos
tentando explicar demais para não sentir demais.
Blaise
Pascal escreveu que “o coração tem razões que a própria
razão desconhece”. Ele não estava defendendo irracionalidade, mas lembrando que
há formas de conhecimento que não passam pelo discurso lógico.
Penso
nisso quando alguém permanece anos numa relação que já morreu por dentro, mas
continua porque “faz sentido”.
Ou
quando alguém escolhe um curso universitário porque é “seguro”, mesmo que algo
por dentro murche.
Às
vezes o argumento é apenas uma maquiagem sofisticada para silenciar o que já
sabemos.
Intuição
e coragem
O
caminho intuitivo exige coragem porque ele quase nunca vem acompanhado de
garantias.
Søren
Kierkegaard falava do salto. Não o salto
inconsequente, mas aquele momento em que nenhuma prova externa pode substituir
a decisão interior.
Quando
mudei uma direção profissional na minha vida, não havia certeza. Havia
coerência íntima. A intuição não me prometeu sucesso; apenas me prometeu
alinhamento.
E
há uma diferença enorme entre sucesso e alinhamento.
O
ruído que nos afasta
O
problema não é que perdemos a intuição. É que estamos constantemente
distraídos.
Redes
sociais.
Comparações.
Pressões.
Expectativas
familiares.
O
medo de parecer incoerente.
A
intuição fala baixo. Ela não grita. Ela sussurra no intervalo entre uma
notificação e outra.
Talvez
por isso a caminhada na beira da praia — sem fones, sem pressa — seja um
exercício espiritual. Não religioso. Humano.
Intuição
como maturidade
Com
o tempo percebo que intuição não é um dom místico. É maturidade acumulada.
Cada
erro, cada decepção, cada tentativa frustrada vai afinando algo dentro de nós.
A intuição é experiência que se tornou silenciosa.
Ela
não substitui a razão. Ela a antecede.
Não
elimina o risco. Mas aponta coerência.
Um
pequeno teste cotidiano
Antes
de uma decisão importante, experimente:
- Se ninguém fosse me julgar, eu
escolheria isso?
- Se não houvesse medo financeiro, eu
seguiria por aqui?
- Se eu estivesse completamente em paz,
essa escolha ainda faria sentido?
O
caminho intuitivo é aquele que, mesmo sem aplausos, mantém nossa respiração
tranquila — como o mar que continua indo e vindo, mesmo quando ninguém está
olhando.
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