Tem dias em que eu acordo convencido de que o mundo está estranho. Depois percebo: talvez o estranho seja o tamanho do meu próprio “eu”. Ele cresce silenciosamente. Não faz barulho como uma multidão, mas ocupa o espaço inteiro. E quando dou por mim, já não estou vivendo — estou administrando a minha própria imagem.
Chamo
isso de egoidade: essa condição em que o “eu” se torna o centro
organizador de tudo. Não é apenas vaidade. É uma lente. Tudo passa pelo filtro:
o que isso diz sobre mim?, como isso me afeta?, como eu
apareço nisso? A egoidade é sutil. Ela se disfarça de autenticidade, de
autoestima, até de autocuidado. Mas, no fundo, é uma forma de absolutizar a
própria perspectiva.
No
trânsito, por exemplo. Alguém fecha meu carro. Imediatamente penso: “Que
absurdo! Ele não me respeita.” Não considero que talvez esteja distraído,
atrasado, ou simplesmente humano. O fato vira uma agressão pessoal. O mundo se
torna palco, e eu, protagonista ofendido.
Jean-Paul
Sartre dizia que o inferno são os outros — mas talvez o
inferno comece quando só conseguimos nos enxergar como centro da cena. A
egoidade transforma qualquer relação em espelho.
Mas
há um passo além: a egocracia.
Se
egoidade é a hipertrofia do eu, egocracia é quando o eu começa a governar tudo.
Não falo apenas de política externa, mas da política íntima. Quando minhas
emoções viram leis absolutas. Se eu sinto, então é verdade. Se me incomoda,
deve ser eliminado. Se me frustra, é injusto.
Na
família isso é visível. Uma conversa vira disputa porque cada um quer que sua
versão seja soberana. Ninguém quer compreender — querem ser reconhecidos como
certos. A egocracia não negocia; ela impõe. É a tirania do “eu sinto”.
Nietzsche
já
alertava que o homem moderno corria o risco de substituir Deus por si mesmo.
Quando o eu se torna a medida de todas as coisas, deixamos de buscar algo maior
que nos transcenda. A egocracia é isso: um pequeno deus doméstico que exige
culto constante.
E
nas redes sociais? Ali a egocracia encontra trono. Cada opinião é uma
proclamação. Cada postagem, um decreto. A lógica não é dialogar, mas afirmar
existência. O silêncio virou ameaça. O contraditório, ofensa.
Mas
o curioso é que quanto mais governo minha vida com base no ego, mais frágil
fico. Porque tudo se torna pessoal. Uma crítica vira ataque. Um silêncio vira
rejeição. Um fracasso vira humilhação existencial. A egocracia promete força,
mas produz hipersensibilidade.
Talvez
a saída esteja em algo que Montaigne praticava nos seus ensaios:
observar a si mesmo com ironia. Não para se destruir, mas para relativizar. Ele
escrevia sobre suas próprias contradições com uma honestidade quase
desconcertante. Ao fazer isso, diminuía o trono do ego.
No
cotidiano, isso pode ser simples: admitir que talvez eu esteja exagerando. Que
o mundo não gira ao redor do meu humor. Que minha dor é real — mas não é o eixo
do universo. Que o outro também carrega uma narrativa tão intensa quanto a
minha.
A
egoidade é inevitável; somos seres conscientes de nós mesmos. Mas a egocracia é
opcional. Ela começa quando deixo de reconhecer que sou parte, não totalidade.
No fundo, talvez maturidade seja isso: aprender a descentralizar-se. Continuar sendo eu — mas sem precisar ser o soberano de tudo.
E quando o eu deixa de ser rei, algo curioso acontece: o mundo deixa de parecer uma ameaça constante. Ele volta a ser um lugar compartilhado.
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