Estava lendo mais uma vez o livro “O Diário de um Mago” do Paulo Coelho, acabei a leitura e comecei a pensar sobre a figura do mago neste mundo caótico no qual vivemos. Falar do Mago atual não é apontar “mestres iluminados”, mas reconhecer funções mágicas em ação, pessoas que conseguem traduzir o invisível em forma, a ideia em gesto, o sentido em prática.
Há
figuras antigas que nunca envelhecem. Elas apenas trocam de roupa. O Mago é uma
delas. Hoje ele não usa túnica nem chapéu pontudo: está com um notebook aberto,
um celular vibrando no bolso e mil abas mentais abertas ao mesmo tempo. Ele
aparece no coach, no empreendedor, no artista independente, no terapeuta
holístico do Instagram e até naquele amigo que vive dizendo: “se você soubesse
usar melhor sua energia…”. O curioso é que, mesmo cercado de tecnologia, o Mago
continua sendo o mesmo arquétipo: aquele que sabe ligar as coisas,
transformar intenção em gesto, ideia em realidade.
O
arquétipo do início
No
Tarot, O Mago é o arcano um. Não é o mais sábio, nem o mais iluminado — é o
primeiro. Ele não carrega respostas definitivas, mas carrega potencial.
Sobre a mesa estão os quatro elementos: o bastão, a espada, o cálice e o
pentáculo. Vontade, pensamento, sentimento e matéria. Nada ainda está fixo.
Tudo pode ser combinado.
Filosoficamente,
o Mago representa o momento em que a consciência percebe: eu posso agir.
Não no sentido grandioso do controle absoluto, mas na descoberta humilde de que
existe uma margem de liberdade entre o que acontece e o que fazemos com isso. É
o nascimento da responsabilidade.
Espiritualmente,
ele é o ponto de passagem entre o invisível e o visível. Uma mão aponta para o
alto, outra para a terra. A mensagem é clara: o que não passa por você não se
encarna; e o que passa, carrega sua marca.
Técnica
sem espírito, espírito sem técnica
Em
tempos atuais, o Mago vive uma crise silenciosa. Nunca tivemos tantas
ferramentas, tantos cursos, tantos métodos — e, paradoxalmente, tanta sensação
de vazio. Aqui surge a sombra do Mago: o ilusionista. Aquele que sabe parecer
sem ser. Que domina a técnica, mas perdeu o centro.
Do
ponto de vista espiritualista, isso revela um desequilíbrio antigo: quando a
ação se separa do sentido. O Mago autêntico não manipula a realidade; ele
dialoga com ela. Sua magia não é força bruta, é escuta atenta. Ele age depois
de perceber o ritmo das coisas.
Sem
espírito, a técnica vira truque. Sem técnica, o espírito vira delírio. O Mago
ensina que criar exige os dois: disciplina e silêncio interior.
A
palavra como ato criador
Há
algo profundamente filosófico no Mago: sua relação com a palavra. Antes de
agir, ele nomeia. Antes de construir, ele pensa. Aqui ecoa o velho princípio: no
princípio era o Logos. Pensar não é passividade; é já um modo de agir.
Na
vida cotidiana, isso aparece de forma simples: as histórias que contamos sobre
nós mesmos moldam nossas escolhas. Quem se diz “sempre atrasado”, “sem
talento”, “sem sorte” pratica uma magia involuntária — e nada inocente. O Mago
nos lembra que linguagem é destino em estado líquido.
Ser
Mago, hoje, talvez seja reaprender a falar com mais cuidado. Menos encantamento
vazio, mais palavra comprometida.
O
Mago interior
Espiritualmente,
O Mago não aponta para alguém especial, eleito ou superior. Ele aponta para uma
função da alma que pode despertar — ou adormecer. Todos temos momentos de Mago
e longos períodos de distração.
Quando
estamos excessivamente reativos, somos matéria bruta. Quando estamos apenas
sonhando, somos ar disperso. O Mago surge quando conseguimos alinhar intenção,
atenção e ação, mesmo em pequenos gestos: uma conversa honesta, um projeto
começado, uma decisão assumida.
Ele
não promete iluminação final. Promete algo mais raro: presença. Estar
inteiro no que se faz.
Um
símbolo para tempos confusos
Num
mundo fragmentado, O Mago não é o que sabe tudo, mas o que sabe conectar.
Ele lembra que espiritualidade não é fuga do mundo, e filosofia não é abstração
estéril. Ambas começam quando alguém pergunta: “o que posso fazer com o que
tenho, aqui e agora?”
Talvez
seja por isso que o Mago continue reaparecendo. Não como resposta pronta, mas
como convite. Um convite incômodo, porque exige autoria. E libertador, porque
devolve sentido ao gesto mais simples.
No
fundo, o Mago nos sussurra algo antigo e atual ao mesmo tempo:
não espere sinais extraordinários — torne-se o ponto onde eles se realizam.
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