Pesquisar este blog

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Determinismo


Determinismo é uma palavra que pesa. Parece coisa de laboratório ou tribunal metafísico. Mas, no fundo, ela começa numa cena banal: você reage hoje a algo que já estava sendo preparado dentro de você há muito tempo.

A decisão que tomo agora — responder com paciência ou com ironia, aceitar um convite ou recusá-lo, mudar de rumo ou permanecer — raramente nasce no instante. Ela amadureceu em silêncios antigos, em experiências acumuladas, em pequenas conclusões que fui tirando sem perceber. O “agora” é só o palco. O roteiro começou a ser escrito antes.

Spinoza diria que acreditamos ser livres porque conhecemos nossas ações, mas ignoramos as causas que nos movem. É como a pedra que, se tivesse consciência, acharia que voa por vontade própria. Essa imagem me persegue quando percebo que muitas das minhas escolhas repetem padrões familiares: a forma como discuto, o tipo de pessoa que me atrai, os medos que me travam. Tudo parece espontâneo, mas carrega raízes invisíveis.

Pense numa discussão cotidiana. Você responde de maneira desproporcional a um comentário simples. Depois se pergunta: “Por que reagi assim?” A reação foi de hoje. Mas a sensibilidade que a disparou talvez venha de uma crítica antiga, de uma insegurança cultivada, de um episódio esquecido que ainda mora em você. A decisão foi tomada agora — mas foi concebida no passado.

Nietzsche complica ainda mais a história quando fala da genealogia dos nossos valores. Aquilo que chamamos de “minha opinião” pode ser apenas herança cultural, moral introjetada, ressentimento travestido de virtude. Decidimos conforme forças que nos atravessam. Somos, muitas vezes, o campo de batalha onde o passado decide o presente.

Mas aqui entra um ponto interessante: reconhecer o determinismo já é, de certo modo, um pequeno ato de liberdade. Quando percebo que uma escolha foi gestada por antigas feridas ou condicionamentos, ganho a possibilidade de interromper o ciclo. Talvez não possamos apagar as causas, mas podemos trazê-las à luz. E o que é iluminado já não age da mesma forma.

No cotidiano, isso é quase invisível. É o momento em que você está prestes a repetir um padrão — desistir cedo demais, explodir, se calar — e algo dentro de você diz: “Eu já fiz isso antes.” Essa memória cria uma fresta. A decisão ainda carrega o passado, mas agora ele não age completamente às escondidas.

Determinismo não precisa ser prisão. Pode ser diagnóstico. O passado concebe muitas das nossas decisões, sim. Mas o presente pode ser o lugar onde começamos a conceber um futuro diferente.

Talvez a pergunta não seja “somos livres ou determinados?”, mas: quanto do que fazemos hoje estamos dispostos a investigar ontem?

Nenhum comentário:

Postar um comentário