Há dias em que a gente percebe que não está exatamente sozinho — mas também não está com ninguém. É como se existisse um espaço invisível entre nós e o mundo, um tipo de intervalo que não chega a ser ausência, mas também não é presença plena. A gente responde mensagens, participa de conversas, cumpre papéis… mas algo parece sempre alguns centímetros fora de alcance. Talvez seja isso que eu chamaria de distancismo: não o ato de se afastar, mas o hábito de nunca estar completamente próximo.
O
distancismo não é o isolamento clássico. Não exige portas fechadas nem
silêncios absolutos. Pelo contrário, ele prospera no meio do ruído, nas
interações constantes, na vida cotidiana aparentemente normal. Ele aparece
quando você escuta alguém falar e, enquanto isso, uma parte sua já está em
outro lugar. Ou quando você mesmo fala, mas sente que suas palavras não
carregam exatamente você — como se fossem versões editadas, seguras,
aceitáveis.
Nesse
sentido, o distancismo não é apenas social — é ontológico. Ele afeta o modo
como existimos. Estamos, mas em modo parcial.
Aqui,
vale trazer Ludwig Wittgenstein, que dizia que “os limites da
minha linguagem são os limites do meu mundo”. O distancismo poderia ser
visto como uma espécie de falha nesse limite: não porque não conseguimos falar,
mas porque falamos sem realmente habitar aquilo que dizemos. A linguagem
continua funcionando — talvez até melhor do que nunca —, mas perde densidade
existencial. Falamos muito, comunicamos pouco, e nos implicamos menos ainda.
Há
também um fenômeno curioso que revela esse distanciamento: a sensação de que,
ao fazer algo errado longe de casa, aquilo pesa menos — quase como se não nos
atingisse de verdade. Em outra cidade, em outro contexto, sob outros olhares,
certas ações parecem não nos pertencer completamente. Como se a distância
geográfica criasse uma espécie de suspensão moral, um intervalo onde o eu
habitual fica em segundo plano. Mas isso não passa de uma ilusão do
distancismo: não é que o ato tenha menos impacto, é que nos sentimos menos
implicados nele. A distância, nesse caso, não muda o que fizemos — apenas
altera a forma como nos percebemos dentro do que fizemos.
Pense
numa situação banal: alguém pergunta “tudo bem?”, e você responde “tudo”, quase
automaticamente. Não há mentira explícita, mas há um afastamento. A resposta
não é uma ponte — é um protocolo. O distancismo mora exatamente aí: na
substituição da experiência viva por suas versões abreviadas.
Mas
ele também pode ser mais sutil. Surge quando evitamos nos envolver
profundamente com algo — uma ideia, uma pessoa, uma decisão — porque o
envolvimento exige risco. Estar próximo implica ser afetado, e ser afetado
implica perder o controle sobre si mesmo. O distancismo, então, funciona como
uma espécie de anestesia existencial: mantém tudo sob controle, mas ao custo de
tornar tudo um pouco mais raso.
Curiosamente,
o distancismo não é necessariamente consciente. Muitas vezes, ele se instala
como uma defesa silenciosa. Num mundo em que tudo é rápido, exposto e
descartável, manter uma certa distância pode parecer prudente. O problema é
quando essa prudência vira padrão — e, de tanto evitar o impacto das coisas,
acabamos evitando também o próprio viver.
Há,
porém, uma ironia nisso tudo: quanto mais nos protegemos através da distância,
mais sentimos um tipo de vazio que só poderia ser preenchido pela proximidade
que evitamos. É como se o distancismo fosse uma solução que cria o problema que
tenta resolver.
Talvez
o desafio não seja eliminar o distancismo — ele tem sua função, afinal —, mas
perceber quando ele deixa de ser escolha e passa a ser condição. Quando não
conseguimos mais nos aproximar, mesmo querendo.
E
aí, talvez, a saída não esteja em grandes gestos, mas em pequenas quebras de
protocolo: responder “não sei se estou bem” em vez de “tudo certo”; ouvir
alguém até o fim sem ensaiar uma resposta; permitir-se ser afetado por algo sem
imediatamente neutralizar a experiência.
Porque,
no fundo, o contrário do distancismo não é a proximidade física — é a presença
real. E essa, ao contrário do que parece, não exige esforço extraordinário.
Exige apenas uma coisa rara: estar inteiro onde já estamos.