A
gente diz “escolhi” com uma facilidade suspeita. Escolhi o café, escolhi a
profissão, escolhi ficar ou ir embora. Mas, se formos honestos por cinco
minutos — aqueles cinco minutos raros em que não estamos correndo — surge um incômodo:
será que escolhemos mesmo? Ou apenas concordamos com o que já estava mais ou
menos decidido ao nosso redor? Verdadeiras escolhas não costumam ser
confortáveis. Elas não pedem aplauso, nem confirmação imediata. Pelo contrário:
quase sempre chegam acompanhadas de silêncio, perda e um certo medo de errar.
Este
ensaio é uma tentativa de pensar a escolha não como liberdade abstrata, mas
como um gesto concreto, situado, cotidiano — e, justamente por isso,
profundamente filosófico.
Desde
a filosofia clássica, escolher nunca foi apenas optar entre alternativas. Para Aristóteles,
a prohairesis (a escolha deliberada) envolvia caráter, hábito e
responsabilidade. Não escolhemos no vácuo: escolhemos a partir de quem somos —
e quem somos foi sendo moldado por escolhas anteriores.
Séculos
depois, o existencialismo radicalizou essa ideia. Para Sartre, estamos
“condenados à liberdade”. Mesmo quando dizemos que não escolhemos, já
escolhemos: escolhemos não escolher. Mas aqui surge um ponto decisivo para
falar de verdadeiras escolhas: nem toda decisão é igualmente livre.
Muitas são apenas reações automáticas a pressões invisíveis — sociais,
afetivas, econômicas.
Paulo
Freire, trazendo essa discussão para um chão mais concreto,
ajuda a dar um critério importante. Ele distingue adaptação de decisão.
Adaptar-se é ajustar-se ao mundo tal como ele se impõe. Decidir é intervir
conscientemente nesse mundo, assumindo riscos. Verdadeiras escolhas, nesse
sentido, são sempre atos de conscientização: nelas, o sujeito percebe as forças
que o empurram — e, mesmo assim, decide responder de outro modo.
Assim,
uma escolha verdadeira não se define pelo resultado, mas pela lucidez do
processo. Ela nasce quando alguém reconhece: “posso seguir o fluxo, mas não
sou apenas o fluxo.”
Exemplos
do cotidiano
No
trabalho, por exemplo. Há quem “escolha” ficar em um emprego que odeia,
repetindo para si mesmo que não há alternativa. Às vezes, de fato, não há
muitas. Mas a verdadeira escolha pode não ser sair — pode ser admitir o
conflito, nomeá-lo, deixar de romantizar a própria resignação. Há uma diferença
ética enorme entre ficar por consciência e ficar por anestesia.
Nos
relacionamentos, isso fica ainda mais claro. Permanecer com alguém por medo da
solidão não é o mesmo que escolher permanecer. A verdadeira escolha, aqui,
costuma doer: ela exige encarar a própria carência, assumir perdas simbólicas e
abandonar a narrativa confortável de vítima das circunstâncias.
Até
em coisas banais isso aparece. Escolher descansar num mundo obcecado por
produtividade pode ser uma escolha radical. Não porque descansar seja heroico,
mas porque implica dizer “não” a uma lógica que transforma valor pessoal em
desempenho. Essa escolha quase nunca é celebrada — e talvez aí esteja um sinal
de sua autenticidade.
Concluindo
minhas reflexões: Verdadeiras escolhas não são as mais visíveis, nem as mais
elogiadas. Elas costumam acontecer longe do palco, no território discreto da
consciência. Não prometem felicidade imediata, mas coerência. E talvez seja
isso que as torna tão raras: escolher de verdade é aceitar que nem toda decisão
nos salvará — algumas apenas nos tornarão mais honestos.
No
fim, talvez a pergunta mais filosófica não seja “o que você escolheu?”, mas
outra, bem mais incômoda: quanto de você estava presente quando essa escolha
foi feita?








