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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Pão e Circo


Tem algo curioso acontecendo quando a semana de jogos da Copa começa.

De repente, o vizinho que mal dá bom dia vira comentarista tático. O bar da esquina ganha vida própria. A rua se pinta de cores, e até quem diz não ligar muito acaba, no mínimo, sabendo o horário do jogo. Não é só futebol — é como se o tempo cotidiano abrisse um parêntese.

E é justamente aí que mora a ambiguidade.

O intervalo dentro da realidade

A Copa do Mundo FIFA não interrompe a realidade — ela a reorganiza. Durante alguns dias, o foco coletivo se desloca. Aquilo que parecia urgente (crises políticas, escândalos, desigualdades) não desaparece, mas perde centralidade na experiência imediata.

Aqui, a crítica clássica entra em cena: a ideia de alienação.

O pensador Karl Marx via a alienação como um afastamento do indivíduo em relação às condições reais de sua existência. Já Guy Debord, séculos depois, atualiza isso com a noção de espetáculo — não apenas distração, mas uma mediação da realidade por imagens que substituem a experiência direta.

Mas há um detalhe que costuma escapar:

nem todo afastamento é perda. Às vezes, é suspensão.

A função do desvio

Se a vida social fosse uma linha reta contínua de consciência crítica, ela provavelmente se tornaria insuportável.

O ser humano não vive apenas de lucidez — vive também de respiros.

Nesse sentido, o evento esportivo funciona como uma espécie de “válvula simbólica”. Não no sentido simplista de manipulação, mas como um mecanismo quase antropológico: comunidades sempre criaram rituais para deslocar a tensão acumulada. Festas, jogos, celebrações — tudo isso já existia muito antes de qualquer projeto político moderno.

O que muda hoje é a escala e a mediação.

Entre ritual e espetáculo

Quando milhares (ou milhões) vibram ao mesmo tempo por um gol, não estamos apenas diante de um espetáculo imposto — estamos diante de um ritual emergente.

O filósofo Émile Durkheim chamaria isso de “efervescência coletiva”: momentos em que o indivíduo se dissolve no grupo e experimenta algo maior que si mesmo. Não é alienação no sentido de perda — é fusão.

Mas aqui está a tensão central:

  • O ritual une.
  • O espetáculo pode anestesiar.

E, na Copa, os dois coexistem.

O esquecimento como sintoma

A ideia de que “o povo precisa esquecer” talvez diga mais sobre a estrutura da vida cotidiana do que sobre o evento em si.

Por que esquecer se torna necessário?

Talvez porque a realidade, em sua forma bruta, esteja saturada de frustração, impotência e repetição. Nesse contexto, o futebol não cria o esquecimento — ele o torna visível, legítimo, compartilhado.

E isso muda tudo.

Esquecer sozinho é fuga.

Esquecer junto é experiência.

Nem fuga, nem redenção

Reduzir a Copa a alienação é tão pobre quanto tratá-la como pura celebração inocente.

Ela é, na verdade, um espelho ampliado:

  • revela o desejo de pertencimento,
  • expõe a necessidade de pausa,
  • e evidencia o quanto a vida cotidiana, por si só, talvez não esteja sendo suficiente.

No fim, a pergunta não é se o futebol distrai.

A pergunta mais incômoda é outra:

o que na realidade faz com que tanta gente precise — ou queira — ser distraída ao mesmo tempo?

E talvez a resposta, se vier, não esteja no campo… mas fora dele.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Sísifo


No mito, Sísifo empurra eternamente uma rocha até o topo da montanha. Quando está quase lá, ela rola de volta. E ele recomeça.

Sempre achei que o drama estivesse no esforço físico. Hoje percebo que está na repetição.

A nova montanha não é de pedra — é de atualização

Você já reparou que nada mais termina?

Você limpa a caixa de e-mails — chegam mais.

Organiza a casa — desorganiza.

Bate a meta — surge outra.

Atualiza o currículo — o mercado muda.

A vida virou uma versão infinita de “carregando…”.

Não vivemos apenas trabalhando. Vivemos mantendo: mantendo relevância, produtividade, aparência, performance emocional. Até o descanso virou tarefa otimizada.

A pedra contemporânea tem nome: manutenção da própria existência social.

O absurdo segundo Camus — e além dele

O filósofo Albert Camus escreveu que o verdadeiro problema filosófico é o suicídio — ou seja, se a vida vale a pena diante do absurdo.

Para ele, Sísifo é o herói do absurdo.

Não porque vence a montanha.

Mas porque sabe que ela não tem fim.

A consciência transforma o castigo em revolta silenciosa.

Mas talvez hoje o drama seja outro:

não temos tempo nem de descer a montanha conscientes.

Estamos distraídos.

A distração como forma de anestesia

Enquanto empurramos a pedra, ouvimos podcast de produtividade.

Enquanto a pedra rola, abrimos redes sociais.

Enquanto recomeçamos, comparamos nossa pedra com a dos outros.

E aqui entra outro pensador fundamental: Byung-Chul Han.

Ele diz que não vivemos mais numa sociedade da repressão, mas da performance. Não há um deus nos condenando — nós mesmos nos exploramos.

Somos ao mesmo tempo Sísifo e o Olimpo.

A montanha não é imposta.

É internalizada.

Cotidiano: pequenas cenas sisifianas

  • O profissional que trabalha o dia inteiro e à noite faz cursos para “não ficar para trás”.
  • A mãe ou pai que nunca sente que fez o suficiente.
  • O jovem que mede seu valor por métricas digitais.
  • O aposentado que descobre que até o lazer precisa ser produtivo.

Nada disso é dramático isoladamente. O problema é o eterno quase.

Quase cheguei lá.

Quase estabilizei.

Quase estou satisfeito.

A pedra sempre volta alguns centímetros antes do topo.

Uma inversão inovadora: e se a pedra for nossa identidade?

Talvez o erro seja imaginar que a pedra é externa — trabalho, dinheiro, obrigações.

E se a pedra for o “eu ideal” que tentamos empurrar montanha acima?

A versão mais magra.

Mais bem-sucedida.

Mais serena.

Mais interessante.

Empurramos uma imagem de nós mesmos esperando que, no topo, ela finalmente coincida com quem somos.

Mas identidade não é topo. É travessia.

O instante secreto de Sísifo

Camus dizia que devemos imaginar Sísifo feliz.

Eu acrescentaria: talvez ele sorria não no topo, mas no meio do caminho — quando percebe que a pedra é pesada, sim, mas o passo é dele.

O mundo atual nos convence de que sentido é resultado.

Talvez sentido seja ritmo.

Empurrar a pedra pode ser alienação.

Mas pode ser também escolha lúcida.

Uma pergunta para levar da cafeteria

Se a pedra vai rolar de qualquer forma,

que tipo de pessoa você se torna enquanto a empurra?

O mundo contemporâneo talvez não seja trágico.

Talvez seja apenas repetitivo.

E a repetição, quando consciente, pode deixar de ser condenação

e virar estilo de existência.

No fundo, o mito não pergunta se a montanha tem fim.

Pergunta se você está acordado enquanto sobe.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Ideologia do Trabalho

O que nos move e o que nos esgota

Nunca saímos do momento presente! Esta frase não sai da minha mente, ela fica martelando a cabeça o tempo todo, eis que meus pensamentos me conduziram naquilo que a maioria das pessoas faz que é trabalhar, o ser humano de maneira geral adquire valor através do trabalho, pelo menos é assim que nosso mundo entende, mas nem sempre o trabalho foi visto como valor. Já foi castigo divino, obrigação de escravos, necessidade dos pobres. Hoje, ele se confunde com identidade: quem é você? “Sou dentista.” “Sou entregador.” “Sou gerente.” O verbo “ser” aparece antes mesmo de qualquer outra coisa — como se o que fazemos definisse quem somos. Na verdade, penso que estamos por enquanto, agora uma coisa e daqui a pouco outra.

Mas de onde vem essa ideia? Por que tantas pessoas se sentem culpadas quando não estão produzindo? Por que o desemprego causa vergonha, mesmo quando não é culpa de ninguém?

A resposta começa com um olhar sociológico: o trabalho é uma construção social. Ele não é natural, nem sempre teve o mesmo sentido. A forma como pensamos e sentimos o trabalho é atravessada por ideologias — sistemas de crenças que nos ensinam o que é certo, o que é bonito, o que é digno — e também por experiências psicológicas que marcam profundamente nossa relação com o mundo e conosco.

 

A maquiagem ideológica do trabalho

Na sociedade capitalista, o trabalho é exaltado como virtude. Desde pequenos, aprendemos que “quem trabalha vence” e que “o esforço traz recompensa”. Essas frases soam nobres, mas muitas vezes escondem realidades duras.

Um exemplo atual é o do entregador de aplicativo. Ele pedala o dia inteiro, sem salário fixo, sem direitos, sem proteção social. Mas as empresas o chamam de “empreendedor”. Essa ideia é uma maquiagem ideológica: transforma um trabalhador precarizado em um herói moderno da liberdade. Ao dizer que ele “é seu próprio patrão”, esconde-se que ele está preso a um sistema algorítmico, instável e impessoal.

Essa ideologia do empreendedorismo individual vende liberdade, mas entrega solidão e risco. A responsabilidade pelo sucesso ou fracasso recai apenas sobre o sujeito, nunca sobre o sistema.

 

A psicologia de quem se sente culpado por não render

A consequência disso aparece no plano psicológico. Muitos trabalhadores internalizam a ideia de que não estão se esforçando o suficiente. Mesmo exaustos, pensam que precisam “fazer mais”, “entregar mais”, “ser melhores”. O cansaço vira fracasso pessoal.

Além disso, vivemos hoje sob a promessa do “trabalho com propósito”. Não basta mais pagar as contas — o trabalho tem que ser apaixonante. Essa exigência cria angústia. Afinal, e se meu trabalho não for incrível? E se eu não amar o que faço? A culpa bate como se a vida estivesse errada.

E o desemprego, então? Ele não é só falta de renda — é quase um luto. A pessoa perde não só o salário, mas também o sentido, o pertencimento, a rotina. A ideologia do mérito ensina que “quem quer, consegue”, e o desempregado passa a se sentir um fracassado, mesmo sendo vítima de uma crise, de uma reestruturação, de algo muito maior do que ele.

Não se pode ignorar que há religiões que associam o sucesso profissional e a melhoria das condições de vida a uma espécie de reconhecimento ou bênção divina. Nesse contexto, aqueles que não conseguem progredir, obter um emprego digno ou melhorar sua situação econômica podem acabar se sentindo excluídos desse suposto favor divino. Psicologicamente, isso pode gerar um profundo sentimento de rejeição, como se o amor de Deus não os alcançasse. O resultado é uma carga emocional de frustração, derrota e desânimo — sentimentos que, longe de impulsionar a pessoa, muitas vezes a paralisam e dificultam ainda mais seu progresso.

 

A sociologia que desnaturaliza tudo

A sociologia nos convida a olhar tudo isso com outros olhos. Ela mostra que o trabalho, como o conhecemos, foi moldado por séculos de disputas, transformações e imposições culturais. A ideologia faz com que certas formas de trabalho sejam vistas como “superiores” (advogado, médico), enquanto outras, essenciais, sejam desvalorizadas (faxineiro, motorista, cuidadora).

O sociólogo Max Weber, por exemplo, analisou como a ética protestante ajudou a criar a ideia moderna do trabalho como dever moral. Já Karl Marx denunciou a alienação: o trabalhador moderno perde o controle sobre o que produz, e ainda assim é convencido de que deve se orgulhar disso. Pierre Bourdieu mostrou como o trabalho também é um capital simbólico — ele dá prestígio, status, reconhecimento, ou a falta disso.

E entre os brasileiros, José de Souza Martins nos lembra que o trabalho é, ao mesmo tempo, meio de inclusão e exclusão. Ele pode dignificar ou degradar. Pode dar sentido ou sugar a alma.

 

Entre o dever e a identidade

No fim das contas, o trabalho está no centro de uma encruzilhada. Ele é necessário, mas também pode ser opressor. Pode ser fonte de autoestima ou de adoecimento. E muitas vezes, as ideologias nos ensinam a amar o que nos explora, e a nos culpar pelo que nos falta.

Por isso, entender o trabalho não é só falar de salário, função ou carreira. É também entender como nos construímos como sujeitos — e como podemos nos libertar, aos poucos, da ideia de que o trabalho define todo o nosso valor.

Talvez seja hora de recuperar o sentido mais amplo da vida: trabalhar, sim, mas também viver, pensar, sentir, pertencer. Nem toda vocação precisa ter crachá. E nem todo sucesso se mede por produção.


Hermenêutica da Alienação

 Leituras Críticas do Sujeito Moderno


Tem dias em que a gente se olha no espelho e não se reconhece. Sabe quem está ali — lembra o nome, a rotina, as dívidas — mas parece que faltou alguma coisa no meio do caminho entre ser e estar. A sensação de estranhamento diante de si mesmo é mais comum do que parece. Não é apenas uma crise pessoal ou uma fase esquisita: é um sintoma de algo mais profundo. Vivemos cercados de vozes que nos dizem o que fazer, como agir, quem ser — e, ao mesmo tempo, perdemos o contato com a voz interna, com aquele silêncio denso onde habita o que realmente somos. É aí que entra a ideia de uma hermenêutica da alienação, uma tentativa de interpretar não só o mundo, mas esse sujeito moderno que se desencontra de si enquanto se conecta com tudo.

 

Entre o sujeito fragmentado e a linguagem que o constrói

A hermenêutica, como arte da interpretação, sempre teve como objetivo desvelar sentidos ocultos — de textos, símbolos, tradições. Mas no mundo moderno, o próprio sujeito se tornou um texto esfacelado. O “eu” já não é unidade, mas campo de disputa: entre desejo e dever, entre consumo e essência, entre o que se quer e o que se espera de nós. A alienação, nesse contexto, não é apenas econômica (como pensou Marx), mas existencial, simbólica, espiritual.

O sujeito moderno, moldado por estruturas que o ultrapassam — capitalismo, mídia, redes sociais, linguagem técnica — se vê apartado de sua potência criadora. Não pensa mais em seus próprios termos, mas dentro de narrativas oferecidas por algoritmos ou padrões de mercado. A alienação contemporânea é sutil, polida e sedutora: ela se camufla como liberdade. O “ser você mesmo” virou slogan de marca. Assim, a própria autenticidade é vendida como produto.

A hermenêutica da alienação propõe, então, um movimento contrário: interpretar os sinais de nosso afastamento. Por que repetimos ideias que não são nossas? Por que agimos contra nossos valores mais íntimos? Por que o sujeito moderno, aparentemente livre, sente-se preso em todas as direções?

Nietzsche já anunciava o problema ao falar do niilismo: quando os grandes sentidos colapsam, sobra um vazio disfarçado de pluralidade. O eu moderno se multiplica, sim, mas cada versão é mais distante da origem. A leitura crítica desse sujeito exige uma escuta ativa, quase arqueológica, das camadas que o tempo, a cultura e a linguagem depositaram sobre a existência.

 

A linguagem como prisão e possibilidade

Paul Ricoeur, ao pensar a hermenêutica do sujeito, lembra que a linguagem não apenas descreve o mundo, ela o configura. Foucault, por outro lado, nos alertou para o modo como os discursos moldam comportamentos e identidades. A alienação do sujeito moderno está também na gramática que internaliza: falamos e pensamos com estruturas que não escolhemos, muitas vezes sem saber que há alternativas. A crítica precisa ser também uma reinterpretação da linguagem.

Ler o sujeito moderno é aprender a desconfiar da normalidade — de suas escolhas “livres”, de sua produtividade exaltada, de seus amores performáticos. A hermenêutica da alienação se torna, assim, uma leitura ética: ela não busca apenas compreender, mas transformar. Não basta saber que estamos alienados — é preciso encontrar fissuras no discurso para começar a voltar.

 

A escuta como resistência

Em um mundo de excesso de informação, silenciar para ouvir a si mesmo pode ser um ato revolucionário. A hermenêutica da alienação não é só uma ferramenta acadêmica, mas um gesto cotidiano: perguntar-se “quem está falando por mim agora?”. Talvez essa seja a pergunta mais honesta do nosso tempo.

Ler criticamente o sujeito moderno é dar a ele a chance de se reescrever. A liberdade, ao fim, não está em fazer o que se quer, mas em querer o que se compreendeu. E compreender exige tempo, escuta e coragem de desenterrar o que há muito foi enterrado sob camadas de distração.

quarta-feira, 12 de março de 2025

O Dormidor

O Sono da Existência

Às vezes, vejo certas pessoas e me pergunto: será que elas estão realmente acordadas? Andam, falam, trabalham, discutem política no bar, reclamam da vida, mas há algo ausente no olhar. Como se vivessem em um estado de sonambulismo existencial, repetindo gestos automáticos sem jamais despertarem para si mesmas. Chamo essa figura de o dormidor – não aquele que apenas dorme à noite, mas aquele que faz do próprio viver um sono profundo.

O Sono da Consciência

Platão, em sua alegoria da caverna, nos apresentou prisioneiros acorrentados, vendo sombras na parede e acreditando que aquilo era toda a realidade. O dormidor é uma versão moderna desses prisioneiros, mas sem correntes visíveis. Suas algemas são feitas de rotina, distração e conformismo. Ele não questiona, não se inquieta, não percebe o absurdo da vida ou a beleza do instante. Apenas segue o fluxo, como um rio que já esqueceu que pode desaguar no oceano.

Sri Ram, em O Pensamento Vivo de Krishnamurti, sugere que há uma diferença entre ver e realmente enxergar. O dormidor olha o mundo, mas não vê. Ele lê frases motivacionais, mas nunca desperta para o real significado. Vive como um animal domesticado pelo cotidiano, onde tudo se repete sem variação significativa.

O Sonho do Dormidor

Mas o dormidor também sonha. E esse é o seu maior problema. Ele se ilude com sonhos emprestados, vendidos a ele como verdades absolutas: a carreira de sucesso, a casa perfeita, o status, a falsa segurança. Seu sonho não é uma aventura, mas um roteiro previsível. Ele corre, se cansa, e no final percebe que estava dormindo o tempo todo. O despertar, quando acontece, vem tarde demais – um vislumbre fugaz antes da noite definitiva.

Nietzsche, ao falar do eterno retorno, perguntaria ao dormidor: se tivesse que viver essa mesma vida infinitas vezes, sem mudar nada, isso lhe daria alegria ou desespero? A resposta diria muito sobre o seu grau de adormecimento.

Repetição e Alienação

John Locke pode ser conectado ao tema do dormidor através de sua teoria do conhecimento e da identidade pessoal. Ele acreditava que a mente humana nasce como uma tábula rasa – uma folha em branco que vai sendo preenchida pelas experiências sensoriais e pela reflexão.

O dormidor, nesse sentido, seria aquele que não usa sua experiência para construir um pensamento próprio, vivendo de forma passiva, sem refletir criticamente sobre o que recebe do mundo. Ele aceita tradições, normas e verdades sem questionamento, como se sua mente nunca tivesse saído da inércia do estado inicial.

Além disso, Locke defendia que a identidade pessoal se baseia na continuidade da consciência ao longo do tempo. Mas e se essa consciência está adormecida? O dormidor seria alguém cuja identidade se dissolve na repetição e na alienação, vivendo sem realmente formar uma noção própria de si.

Assim, aplicar Locke ao tema do dormidor nos leva a uma reflexão sobre a responsabilidade de despertar para a própria existência e o perigo de viver apenas como uma página escrita por outros.

O Despertar Possível

O que desperta alguém? Talvez um abalo – uma perda, um encontro, uma pergunta inesperada. Às vezes, basta um instante de silêncio, um raio de lucidez cortando a névoa, para que o dormidor perceba que sua vida não é apenas um ciclo mecânico. Ele descobre, então, que sempre houve uma porta para fora do labirinto. Apenas nunca se perguntou se deveria abrir.

O risco, claro, é que despertar pode ser assustador. De repente, tudo o que parecia certo se desfaz. E agora? Como seguir sem as muletas que sustentavam sua sonolência? Mas é só na vigília que se vive de verdade.

Talvez seja essa a escolha fundamental da existência: continuar dormindo, confortável em ilusões, ou despertar – mesmo que a luz do dia revele verdades desconfortáveis.


domingo, 13 de novembro de 2011

Aparatos de Alienação


Neste vai e vem diário, seja durante a viagem ou na caminhada em direção ao trabalho, do trabalho para universidade ou para casa, no horário do almoço quando estico as pernas e a caminhada ajuda na digestão, são nestes momentos quando observo as coisas, movimentos e as pessoas... Se você nestas idas e vindas, sem estar com algum fone de ouvidos distraído com musicas ou conectado ao outros aparatos alienantes, conseguirá perceber as coisas, as pessoas, a movimentação ao seu redor, estará com seus “outros olhos” funcionando, tal como uma parabólica captando os sinais.
Já perceberam como tem moradores de rua sob as marquises? Como tem doente mental circulando? Como tem seres humanos semelhantes a nós, maltrapilhos, sujos, murmurando sons que pareciam palavras ditas por humanos, que caminham como humanos? Como tem seres humanos que parecem muito com “nós” seres humanos, caminhando nas mesmas ruas, calçadas, respirando o mesmo ar, sob o mesmo céu, parecem até seres humanos...


Num destes dias, uma imagem me chocou mais, ao ver um menino comendo com as mãozinhas sujas, utilizando a mão em forma de colher, levava a boca a mãozinha cheia de arroz e macarrão, saboreando aquilo como o manjar dos deuses, imediatamente tal imagem me remeteu a cenas do filme “iIlha da Flores”, depois que assisti tal filme, confesso nunca mais esqueci.
Busquei uma das frases do filme Ilha das Flores que compartilho:
“Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes, que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha principalmente por duas características: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. O telencéfalo altamente desenvolvido permite aos seres humanos armazenar informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las. O polegar opositor permite aos seres humanos o movimento de pinça dos dedos o que, por sua vez, permite a manipulação de precisão.”
(Trecho extraído do filme: Ilha das Flores)


Confesso, a cena para mim é sempre chocante, o que para muitos, diria até para a maioria, a cena e tão comum e banalizada que vêem sem ver, olham para aquele ser como um animal de outra espécie.
Me pergunto: O que é um ser humano? fui até a Wikipédia buscar alguma definição, gosto bastante da Wikipédia, pois é lá onde atualmente as pessoas procuram o sentido das coisas, e assim quase utilizam a mesma linguagem, digo quase pois comunicação não é o que entendemos, mas o que o outro entende. 
Definição:
Ser Humano: Um humano, ser humano, pessoa, gente ou homem é um animal membro da espécie de primata bípede Homo sapiens ("homem sábio", em latim), pertencente ao género Homo, família Hominidae.[1][2] Os membros dessa espécie têm um cérebro altamente desenvolvido, com inúmeras capacidades como o raciocínio abstrato, a linguagem, a introspecção e a resolução de problemas. Esta capacidade mental, associada a um corpo ereto possibilitaram o uso dos braços para manipular objetos, fator que permitiu aos humanos a criação e a utilização de ferramentas para alterar o ambiente a sua volta mais do que qualquer outra espécie de ser vivo.
Pois então, diante desta definição, ficamos deslumbrados com a capacidade dos seres humanos, que aparentemente, somos todos iguais.
Digo aparentemente porque ao vermos outro ser humano buscando alimento dentro de uma lata de lixo, logo pensamos: como ele pode perder os mínimos critérios e atributos que nos diferencia dos demais animais?. A resposta, a questão é que aquele ser que busca alimento na lata de lixo, ele esta buscando sobrevivência. Dada a fragilidade do ser humano, é o alimento a exigência primária para lhe manter vivo.
Na busca constante pelo alimento, percebe-se o aniquilamento dos demais atributos. Socialmente se relaciona com os demais na mesma condição, numa disputa diária, vê-se excluído de condições sociais dignas, sua fragilidade é estampada no alheamento social, inclusive ambiental, criando um ambiente dentro de outro ambiente, este ultimo vivendo daquilo que sobra do outro.
Na Wikipédia busco mais uma vez significação para manter a mesma linguagem e assim conseguir me comunicar. A maioria dos primatas superiores, os seres humanos são sociais por natureza, sendo particularmente hábeis em utilizar sistemas de comunicação, principalmente verbal, gestual e escrita para se expressar, trocar ideias e se organizar. Os humanos criaram complexas estruturas sociais compostas de muitos grupos cooperantes e concorrentes, de famílias até nações. As interações sociais entre os humanos criaram uma variedade extremamente grande de tradições, rituais, normas sociais e éticas, leis e valores, que em conjunto formam a base da sociedade humana. A cultura humana é marcada pelo apreço pela beleza e estética o que, combinado com o desejo de expressão, levou a inovações como a arte, a escrita, a literatura e a música.

O homem é um Animal Racional e Social por natureza, mas aquela espécie que cata alimento na lixeira não parece ser racional e nem social.
Como um ser humano que divide o mesmo meio ambiente, con-vive,  e se relaciona diariamente, suportam viver e con-viver com seu semelhante sob tais condições? A questão é também se, quem olha com olhar banalizado é racional?, ou menos racional do que aquele que sobrevive com os restos do outro ser socialmente superior?


Em uma entrevista as pessoas que vivem nas ruas, foi-lhes perguntado por que viviam assim? Se tinham família? E se tinham porque não voltavam para sua casa? Algumas respostas foram impressionantes: “...não volto, porque lá em casa minha família briga muito e termino ficando louco...”. “...não volto porque meu pai bate muito em mim e na minha mãe, então sai de casa, aqui na rua tenho meus amigos, e estou livre...”. “...minha família não me quer lá, porque uso drogas e estava roubando tudo de casa para vender e comprar drogas...”
Somos do tipo de ser ou criatura que faz perguntas aos outros e a si mesmo. Penso que utilizar a palavra “ser” é forte demais para aquelas criaturas que se alimentam do lixo. Ser quer dizer existir e ser reconhecido pelo outro como igual, e o catador de alimento não é reconhecido como o igual, pois é criatura e não é “ser”.
Fico pensando se a banalização das atitudes contemporâneas seriam atos semelhantes ao utilizado no nazismo. Estava lendo o livro Bioética Fundamental, do Dr. Azevedo M. A. O, e de lá resgatei dois trechos:
“...,em julho de 1933, foi proclamada na Alemanha a lei para prevenção da progenia de defeitos hereditários, lei que permitia a esterilização compulsória em casos de defeitos mentais congênitos, esquizofrenia, psicose maníaco-depressiva, epilepsia hereditária e alcoolismo severo. Na primavera de 1937, uma decisão foi tomada para que todas as crianças de cor fossem esterilizadas. Em 1938, a eutanásia por inanição já era praticada nos hospitais psiquiátricos. Note-se que esses fatos ocorreram antes do inicio, em 1939, da Segunda Guerra Mundial com a invasão da Polônia por Hitler....”.
Não foi somente na Alemanha, ainda no mesmo livro do Dr. Azevedo: “...Nos Estados Unidos, por exemplo, juízes já haviam aceitado a esterilização de deficientes mentais, fato denunciado inclusive como argumento de defesa dos juízes nazistas durante os julgamentos ocorridos em Nuremberg. Ou seja, não era somente na Alemanha que havia tratamento desumano de doentes mentais, deficientes físicos e indivíduos de outras raças e credos”.
A banalização dos olhares e atitudes não seria o mesmo que ver nas criaturas catadoras de alimentos, uma criatura diferente, apropriada para experimentos daquela natureza?.
O “Homo sapiens, como espécie, tem como característica o desejo de entender e influenciar o ambiente à sua volta, procurando explicar e manipular os fenômenos naturais através da filosofia, artes, ciências, mitologia e da religião. Esta curiosidade natural levou ao desenvolvimento de ferramentas e habilidades avançadas. O ser humano é a única espécie conhecida capaz de criar o fogo, cozinhar seus alimentos, vestir-se, além de utilizar várias outras tecnologias. Os humanos passam suas habilidades e conhecimentos para as próximas gerações e, portanto, são considerados dependentes da cultura.”
Se o Homo sapiens é tudo isto, como entender o distanciamento entre os seres humanos, e aceitar que pessoas sobrevivam desta maneira sem se incomodar? Afinal é um ser humano ou humanóide?
Utilizamos aparatos como ferramentas de distanciamento deste mundo, buscamos um mundo, outro que não seja este, onde não precisamos estar presentes na sua integralidade, sem troca de olhares, apenas lendo palavras escritas em alguma tela de LCD, ou no Maximo no embalar de musicas de celulares. Dêem uma olhada em seu entorno contem quantas pessoas estão com celular na mão, brincando com joguinhos ou ouvindo alguma musica com seu suspeito gosto eclético.
Na verdade estamos nos transformando em aparatos que estão ligados a celulares, aumentando distanciamento do significado da palavra “ser humano”. Faço minhas as palavras de Nietzsche, entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento, e a tecnologia com seus aparatos esta nos envolvendo de tal maneira, que não vivemos sem eles e tornando-nos escravos e suas extensões biônicas.