O Chamado da Margem
Outro
dia, numa conversa qualquer, alguém soltou um comentário que me fez parar:
“Todo mundo tem um lado transgressor, mas nem todo mundo tem coragem de
usá-lo.” Fiquei ruminando essa ideia. Será que a transgressão é uma sombra que
carregamos? Um desejo reprimido de atravessar limites, questionar normas e
virar a mesa? Ou será que é simplesmente o instinto natural de quem não se
conforma com o mundo como ele é?
A
palavra transgressão carrega um peso. Parece sempre ligada a algo proibido,
perigoso, talvez até errado. Mas a história mostra que, muitas vezes, são os
transgressores que movem o mundo. São eles que desafiam o status quo,
reinventam a arte, a ciência, a política e até o conceito de humanidade.
Nietzsche via na transgressão um ato necessário para a superação do homem
comum, um salto para além da moral tradicional. Freud, por sua vez, poderia
dizer que a pulsão de transgredir é a voz do inconsciente rebelde, sufocada
pelo superego.
No
cotidiano, transgressão não é só quebrar leis ou desafiar ordens explícitas.
Ela acontece em gestos simples: no aluno que questiona o professor, no
trabalhador que resiste à exploração, no artista que rompe com o padrão
estético esperado. Até no silêncio pode haver transgressão – um olhar que
recusa obediência já carrega o embrião de um novo mundo.
Mas
nem toda transgressão é libertadora. Algumas são vazias, puro desejo de choque
sem propósito. Outras servem apenas para reforçar novas normas disfarçadas de
rebeldia. A verdadeira transgressão tem um quê de autenticidade, um compromisso
com algo maior do que a simples negação do que existe.
Talvez
nosso lado transgressor não seja uma escolha, mas um chamado. Um sussurro que
diz: “E se fosse diferente?” Cabe a cada um decidir se vai ignorá-lo ou se terá
coragem de atravessar a linha.