Às vezes me pego fazendo
algo meio automático — comer rápido demais, responder no impulso, defender meu
território invisível numa fila — e penso: isso foi o bicho em mim. Em
outros momentos, faço exatamente o oposto: espero, escuto, volto atrás, cuido
de alguém sem ganhar nada em troca. Aí penso: isso foi o humano. Entre
um gesto e outro, a vida acontece. Talvez a nossa história inteira seja esse
vai-e-vem entre animalidade e humanidade.
O animal que nunca saiu
de nós
A animalidade não é um
erro de projeto. Ela é o chão. Somos corpo antes de sermos ideia. Temos fome,
medo, desejo, instinto de sobrevivência. Darwin já tinha
desmontado a fantasia de que somos uma espécie caída do céu: somos
continuidade, não exceção. O coração acelera antes do argumento; o medo chega
antes da explicação.
No cotidiano isso é
óbvio. No trânsito, por exemplo, basta alguém “fechar” o carro e o vocabulário
evolutivo regride em segundos. No trabalho, quando sentimos ameaça, a lógica
vira disputa de território. A animalidade é rápida, eficiente e econômica: reage
para preservar.
O problema começa quando
ela governa sozinha.
O humano como interrupção
A humanidade não elimina
o animal — ela o interrompe. Ser humano é conseguir criar um intervalo entre o
impulso e a ação. É nesse intervalo que entram a linguagem, a ética, a memória
e a imaginação. Giorgio Agamben dizia que o humano nasce
justamente dessa zona de tensão: não somos só animais, mas também nunca
deixamos de sê-lo.
Humanizar não é negar o
instinto, é educá-lo. É transformar força em cuidado, desejo em projeto, medo
em prudência. No cotidiano, isso aparece quando alguém respira fundo antes de
responder uma provocação, quando escolhe não humilhar mesmo tendo poder, quando
divide em vez de acumular.
A humanidade é mais
lenta. Dá trabalho. E por isso mesmo é frágil.
Exemplos pequenos,
dilemas enormes
Penso numa cena simples:
alguém encontra uma carteira perdida. A animalidade calcula rápido — “ninguém
está vendo”. A humanidade pergunta — “e se fosse minha?”. O gesto que segue
define quem conduz o volante naquele instante.
Ou numa conversa difícil
em família: o impulso quer vencer; o humano quer compreender. O animal grita; o
humano tenta traduzir. Nenhum dos dois desaparece — eles disputam o microfone.
Não somos metade de cada
coisa
Talvez o erro seja pensar
que somos meio animais e meio humanos. Somos 100% ambos, o tempo todo. A
diferença está em quem damos autoridade. Quando a animalidade manda sozinha,
viramos reativos. Quando a humanidade assume sem reconhecer o corpo, viramos hipócritas
ou adoecidos.
Ser humano, no fundo, não
é um estado garantido — é um exercício diário. Um treino invisível, feito de
escolhas pequenas, quase banais, mas decisivas.
E talvez seja isso que
nos define: não o fato de termos instintos, mas a possibilidade — sempre
aberta, nunca assegurada — de conversar com eles antes de obedecer.