Determinismo
é uma palavra que pesa. Parece coisa de laboratório ou tribunal metafísico.
Mas, no fundo, ela começa numa cena banal: você reage hoje a algo que já estava
sendo preparado dentro de você há muito tempo.
A
decisão que tomo agora — responder com paciência ou com ironia, aceitar um
convite ou recusá-lo, mudar de rumo ou permanecer — raramente nasce no
instante. Ela amadureceu em silêncios antigos, em experiências acumuladas, em
pequenas conclusões que fui tirando sem perceber. O “agora” é só o palco. O
roteiro começou a ser escrito antes.
Spinoza
diria
que acreditamos ser livres porque conhecemos nossas ações, mas ignoramos as
causas que nos movem. É como a pedra que, se tivesse consciência, acharia que
voa por vontade própria. Essa imagem me persegue quando percebo que muitas das
minhas escolhas repetem padrões familiares: a forma como discuto, o tipo de
pessoa que me atrai, os medos que me travam. Tudo parece espontâneo, mas
carrega raízes invisíveis.
Pense
numa discussão cotidiana. Você responde de maneira desproporcional a um
comentário simples. Depois se pergunta: “Por que reagi assim?” A reação foi de
hoje. Mas a sensibilidade que a disparou talvez venha de uma crítica antiga, de
uma insegurança cultivada, de um episódio esquecido que ainda mora em você. A
decisão foi tomada agora — mas foi concebida no passado.
Nietzsche
complica
ainda mais a história quando fala da genealogia dos nossos valores. Aquilo que
chamamos de “minha opinião” pode ser apenas herança cultural, moral
introjetada, ressentimento travestido de virtude. Decidimos conforme forças que
nos atravessam. Somos, muitas vezes, o campo de batalha onde o passado decide o
presente.
Mas
aqui entra um ponto interessante: reconhecer o determinismo já é, de certo
modo, um pequeno ato de liberdade. Quando percebo que uma escolha foi gestada
por antigas feridas ou condicionamentos, ganho a possibilidade de interromper o
ciclo. Talvez não possamos apagar as causas, mas podemos trazê-las à luz. E o
que é iluminado já não age da mesma forma.
No
cotidiano, isso é quase invisível. É o momento em que você está prestes a
repetir um padrão — desistir cedo demais, explodir, se calar — e algo dentro de
você diz: “Eu já fiz isso antes.” Essa memória cria uma fresta. A decisão ainda
carrega o passado, mas agora ele não age completamente às escondidas.
Determinismo
não precisa ser prisão. Pode ser diagnóstico. O passado concebe muitas das
nossas decisões, sim. Mas o presente pode ser o lugar onde começamos a conceber
um futuro diferente.
Talvez
a pergunta não seja “somos livres ou determinados?”, mas: quanto do que fazemos
hoje estamos dispostos a investigar ontem?