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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Mediações Invisíveis

Afetos curados, silêncios programados

Começa quase sempre assim: você abre uma tela em busca de distração e encontra, sem procurar, exatamente aquilo que “queria”. Um vídeo que prolonga seu humor, uma opinião que confirma sua suspeita, uma indignação que parece justa demais para ser questionada. Nada disso é inteiramente acaso. Há uma curadoria silenciosa operando — não editorial, mas algorítmica — que aprende a modular seus afetos antes mesmo que você os reconheça como seus.

O que chamamos de mediações invisíveis não é apenas a filtragem de conteúdo, mas um regime de sensibilidade. Os algoritmos não organizam somente informações; eles organizam a experiência. Selecionam o que aparece, calculam o que provavelmente nos deterá, repetem o que produziu uma reação e silenciam, por simples ausência de circulação, aquilo que não corresponde à lógica da retenção.

A questão filosófica, portanto, desloca-se. Já não basta perguntar: “O que estamos vendo?” É preciso perguntar: “Quem — ou o quê — está organizando as condições pelas quais algo pode ser visto, sentido e desejado?”

É nesse ponto que a velha noção de mediação adquire uma dimensão nova. Tradicionalmente, reconhecíamos os mediadores: o jornalista, o professor, o editor, o crítico, o partido, a instituição religiosa, o Estado. Havia alguém ou alguma instituição identificável entre o acontecimento e sua representação. A mediação algorítmica introduz outra situação: o mediador permanece parcialmente invisível. Ele não desaparece; torna-se infraestrutural.

O algoritmo não precisa dizer “pense assim”. Basta organizar o ambiente no qual determinadas coisas aparecem com maior frequência, intensidade e proximidade. Seu poder não consiste necessariamente em proibir, mas em hierarquizar o aparecimento.

É aqui que Michel Foucault continua sendo indispensável. Sua análise do poder mostra que o poder moderno não se limita à repressão. Ele produz comportamentos, saberes, classificações e formas de subjetividade. O poder funciona também através dos dispositivos que tornam certas condutas possíveis, desejáveis ou normais.

A plataforma digital pode ser compreendida, nesse sentido, como um dispositivo contemporâneo: uma rede na qual tecnologia, economia, linguagem, dados e comportamento se articulam. O indivíduo não está simplesmente diante da máquina; está inserido em um sistema que aprende com ele enquanto o influencia.

Mas a especificidade contemporânea aparece quando aproximamos Foucault de Gilles Deleuze. Em seu célebre texto sobre as sociedades de controle, Deleuze percebe uma transformação decisiva: o poder já não depende primordialmente de espaços fechados e instituições disciplinares. Ele passa a operar por modulação contínua.

O algoritmo é uma espécie de máquina de modulação. Não precisa interromper nossa ação; acompanha-a. Não precisa determinar absolutamente nosso comportamento; calcula probabilidades. Não precisa ordenar: recomenda.

A diferença é decisiva.

O poder deixa de aparecer como uma instância exterior que diz “você deve” e passa a funcionar como uma infraestrutura que sugere “você talvez goste disso”.

É justamente nesse “talvez” que a mediação algorítmica encontra uma de suas formas mais sofisticadas.

A passagem da disciplina à sedução

É nesse ponto que Byung-Chul Han pode ser incorporado à discussão sem substituir Foucault ou Deleuze, mas radicalizando uma pergunta que ambos nos ajudam a formular: o que acontece quando o poder deixa de precisar se apresentar como poder?

Para Han, a sociedade contemporânea deslocou-se de um modelo baseado predominantemente na negatividade — proibição, repressão, limite — para um modelo de positividade. Já não somos simplesmente sujeitos que obedecem porque alguém ordena. Somos estimulados a produzir, comunicar, expor, participar e otimizar a nós mesmos.

O poder torna-se mais eficiente quando consegue transformar a liberdade em instrumento de controle.

Essa intuição é particularmente fecunda para compreender as plataformas digitais. O usuário aparentemente escolhe tudo: o vídeo que assiste, a postagem que compartilha, a pessoa que segue, a opinião que comenta, o conteúdo que rejeita. Entretanto, suas escolhas alimentam o sistema que, por sua vez, reorganiza o campo de escolhas futuras.

A liberdade, assim, torna-se circular.

Escolhemos aquilo que o sistema aprende a nos oferecer, e o sistema aprende a nos oferecer aquilo que escolhemos.

Não há aqui uma conspiração secreta nem um controlador absoluto. Há algo talvez mais inquietante: um circuito sem centro evidente.

É nesse sentido que a psicopolítica de Han ilumina a questão. O poder contemporâneo não necessita apenas controlar corpos; ele busca acessar desejos, preferências, emoções e padrões de comportamento. Os dados tornam-se uma espécie de matéria-prima para antecipar condutas.

O sujeito acredita estar se expressando livremente, enquanto sua expressão se converte em dado; o dado torna-se previsão; a previsão retorna como estímulo; e o estímulo influencia novamente sua expressão.

A subjetividade entra no circuito econômico.

A exploração do afeto

Aqui surge uma hipótese mais radical: o algoritmo não explora somente nossa atenção; ele explora nossa capacidade de ser afetados.

A atenção é apenas a superfície econômica de uma dinâmica mais profunda.

A indignação, por exemplo, possui uma qualidade particularmente rentável: interrompe. O medo captura. A surpresa retém. O conflito produz comentários. A identificação estimula compartilhamentos. A confirmação de uma crença produz satisfação. A contradição, quando suficientemente provocativa, pode produzir ainda mais engajamento.

Dessa perspectiva, a curadoria algorítmica não organiza simplesmente conteúdos. Ela organiza intensidades afetivas.

O que importa não é apenas aquilo que pensamos, mas aquilo que nos faz permanecer.

E aqui Han encontra Deleuze de maneira particularmente produtiva. Se Deleuze descreve um poder que modula continuamente os fluxos, Han permite perceber que essa modulação ocorre cada vez mais através da positividade, da participação e do desejo.

Não somos necessariamente obrigados a permanecer na plataforma.

Somos convidados a permanecer.

Essa diferença é filosoficamente enorme.

A porta da prisão foi substituída pela interface.

O paradoxo da transparência

Han também ajuda a compreender outro aspecto fundamental das mediações invisíveis: a transformação da transparência em instrumento de poder.

As plataformas solicitam que revelemos preferências, hábitos, relações, opiniões, deslocamentos, desejos e estados de ânimo. Quanto mais interagimos, mais legíveis nos tornamos para os sistemas.

Mas ocorre uma assimetria radical: nós nos tornamos transparentes para o sistema, enquanto o sistema permanece opaco para nós.

Sabemos cada vez mais sobre nós mesmos como usuários porque vemos nossas métricas, recomendações e históricos. Entretanto, não sabemos plenamente por que determinada coisa apareceu diante de nós naquele momento e outra desapareceu.

A transparência, portanto, não é distribuída igualmente.

O sujeito oferece visibilidade; o sistema conserva opacidade.

É uma assimetria que transforma a própria experiência da liberdade. Posso escolher, mas não vejo integralmente a arquitetura que organiza o campo das minhas escolhas.

A invisibilidade da mediação torna-se, assim, uma forma de poder.

O silêncio também é produzido

Talvez este seja o ponto mais importante.

Quando falamos em censura, imaginamos uma voz sendo retirada. Mas a curadoria algorítmica pode produzir algo muito mais sutil: um discurso pode permanecer disponível e, ainda assim, tornar-se socialmente inaudível.

Não é necessário apagar.

Basta não recomendar.

Não é necessário proibir.

Basta reduzir a circulação.

Não é necessário silenciar uma voz.

Basta colocá-la numa posição em que quase ninguém a encontre.

O silêncio algorítmico não é necessariamente o silêncio da ausência; é o silêncio da irrelevância produzida.

Isso modifica profundamente nossa compreensão da esfera pública. A existência de uma opinião na internet não significa que ela participe efetivamente do espaço público. Entre “estar disponível” e “ser encontrado” existe toda uma arquitetura de mediações.

A democracia digital, nesse sentido, não depende apenas do direito de falar. Depende também das condições técnicas de aparecimento da fala.

Quando o algoritmo aprende nossos afetos

Há ainda uma inversão particularmente inquietante.

O algoritmo começa observando nossos comportamentos. Depois identifica padrões. Em seguida, passa a prever nossas preferências. Finalmente, começa a oferecer estímulos capazes de reproduzir o comportamento previsto.

Nesse momento, a máquina deixa de ser apenas observadora.

Ela participa da formação daquilo que observa.

Se uma pessoa reage frequentemente a conteúdos de indignação, recebe mais indignação. Ao receber mais indignação, reage ainda mais. O sistema interpreta essa reação como confirmação de uma preferência. A preferência reforça a recomendação. A recomendação intensifica a disposição afetiva.

Forma-se um circuito:

afeto → interação → dado → previsão → recomendação → novo afeto.

A mediação torna-se então produtiva. Ela não apenas representa um sujeito que já existia; participa da fabricação de suas disposições.

É aqui que a hipótese das mediações invisíveis alcança sua consequência mais radical: o algoritmo não precisa saber exatamente quem somos para influenciar quem nos tornamos.

Basta reconhecer padrões em nossos comportamentos.

A bolha não é apenas cognitiva

Costumamos falar em “bolhas” como se fossem fenômenos essencialmente intelectuais: pessoas recebem apenas opiniões semelhantes às suas e passam a acreditar cada vez mais nelas.

Mas existe uma dimensão afetiva ainda mais profunda.

Podemos viver dentro de uma bolha emocional.

Não apenas vemos ideias semelhantes; experimentamos repetidamente atmosferas semelhantes. Se o sistema percebe que determinada indignação nos prende, ele pode nos manter dentro de uma atmosfera de indignação. Se percebe que determinado tipo de humor nos satisfaz, pode reproduzir continuamente aquela tonalidade emocional.

Assim, a personalização não personaliza apenas o conteúdo.

Ela pode personalizar o clima afetivo da existência.

É possível que duas pessoas habitem a mesma cidade, atravessem as mesmas ruas e compartilhem o mesmo acontecimento histórico, mas experimentem atmosferas digitais radicalmente diferentes.

Uma vive em permanente emergência.

Outra vive em permanente entretenimento.

Outra em permanente indignação.

Outra em permanente nostalgia.

A cidade é a mesma.

O mundo, não.

O desaparecimento do inesperado

Há algo ainda mais profundo nessa lógica.

Uma experiência humana rica não é feita apenas daquilo que desejamos encontrar. Ela também depende do encontro com aquilo que não sabíamos desejar.

A surpresa possui valor justamente porque não foi antecipada.

O outro é importante porque não coincide conosco.

A descoberta começa muitas vezes quando encontramos algo que não corresponde ao nosso perfil.

Mas a curadoria algorítmica possui uma tendência estrutural à previsibilidade. Quanto melhor consegue prever aquilo que nos prenderá, mais eficiente se torna comercialmente.

O problema é que aquilo que é eficiente para a previsão pode ser empobrecedor para a experiência.

A máquina aprende nosso gosto; o risco é começarmos a viver dentro dele.

Nesse ponto, a crítica às mediações algorítmicas não deve ser reduzida a uma nostalgia de um passado sem tecnologia. O problema não é existir mediação. Toda experiência humana é mediada. Linguagem, cultura, memória, instituições e relações sociais sempre filtraram o mundo.

O problema é uma forma de mediação que se apresenta como neutralidade técnica enquanto realiza escolhas econômicas, políticas e afetivas.

A questão política

A política do século XXI talvez precise deslocar parte de sua atenção.

Não basta perguntar quem controla os governos, os meios de comunicação ou as instituições.

É preciso perguntar:

quem controla as condições de visibilidade?

Quem decide o que aparece primeiro?

O que merece repetição?

O que será recomendado?

O que será esquecido?

Quais afetos são economicamente valiosos?

Quais comportamentos são transformados em padrões?

Quais diferenças são classificadas como ruído?

Essas perguntas indicam que o poder contemporâneo não está apenas no conteúdo das mensagens, mas na arquitetura de sua circulação.

A disputa política desloca-se, então, da propriedade da informação para a governança da atenção e da sensibilidade.

Para além da denúncia

Entretanto, seria insuficiente concluir que estamos simplesmente dominados pelos algoritmos.

A crítica filosófica não deve produzir outro fatalismo.

Foucault nos ensina que onde há poder há também possibilidades de resistência. Deleuze sugere que os dispositivos de controle nunca esgotam completamente os fluxos da vida. Han, apesar de seu diagnóstico sombrio, permite perceber que a liberdade contemporânea precisa ser repensada não apenas como ausência de coerção, mas como capacidade de interromper os circuitos que nos capturam.

A resistência às mediações invisíveis talvez comece por uma prática aparentemente simples: recuperar a capacidade de não responder imediatamente.

Não clicar.

Não compartilhar.

Não transformar toda emoção em publicação.

Não aceitar toda recomendação como descoberta.

Procurar deliberadamente aquilo que o sistema não ofereceu.

Escutar aquilo que não confirma.

Encontrar o que não foi otimizado para nós.

Talvez seja necessário recuperar o direito filosófico à desorientação.

Uma política do desvio

Se a lógica algorítmica procura prever nossos próximos movimentos, uma forma elementar de resistência consiste em produzir movimentos que não sejam facilmente previsíveis.

Não se trata de sabotagem tecnológica, mas de uma ética do desvio.

Ler contra a recomendação.

Conversar com quem pensa diferente.

Abandonar temporariamente o fluxo.

Frequentar espaços onde não existem métricas de engajamento.

Permitir que uma experiência permaneça sem ser transformada imediatamente em dado.

Recuperar o tédio.

Recuperar o silêncio.

Recuperar o tempo não produtivo.

Nesse sentido, a resistência pode começar exatamente onde Han identifica uma das patologias do presente: na recusa da obrigação permanente de produzir, comunicar e expor.

Talvez seja preciso produzir menos sinais para recuperar alguma opacidade.

Conclusão: devolver o mundo ao inesperado

As mediações invisíveis representam uma transformação profunda na relação entre tecnologia e subjetividade. O algoritmo não é apenas uma ferramenta que organiza conteúdos; ele participa da organização das condições de aparecimento do mundo.

Foucault nos permite compreender o poder como produção de subjetividades.

Deleuze nos ajuda a perceber sua passagem para a modulação contínua.

Han mostra como essa modulação pode abandonar a aparência da repressão e penetrar na subjetividade através da liberdade, da exposição, do desejo e da participação.

Juntos, esses autores permitem formular uma hipótese contemporânea:

o poder mais sofisticado talvez não seja aquele que nos impede de ver, mas aquele que faz com que desejemos ver repetidamente aquilo que ele já aprendeu a nos oferecer.

Nesse cenário, a liberdade não desaparece. Ela se torna mais ambígua.

Continuamos escolhendo — mas nossas escolhas acontecem dentro de ambientes previamente modulados.

Continuamos sentindo — mas alguns sentimentos encontram uma infraestrutura muito mais favorável à sua circulação do que outros.

Continuamos falando — mas nem toda fala recebe a mesma possibilidade de aparecer.

E continuamos acreditando que estamos simplesmente encontrando o mundo.

Talvez, entretanto, estejamos encontrando apenas uma versão do mundo que aprendeu a nos encontrar.

A tarefa filosófica do presente, portanto, não é sonhar com uma experiência sem mediações. Isso seria impossível. É tornar perceptíveis as mediações que pretendem permanecer invisíveis.

Pois talvez a liberdade contemporânea comece no instante em que conseguimos perguntar, diante daquilo que aparece em nossa tela:

por que justamente isto?

E, sobretudo:

o que não estou vendo porque aprendeu-se que eu não deveria querer vê-lo?

A primeira pergunta desconfia do algoritmo.

A segunda começa a recuperar o mundo.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Teoria dos Afetos

Outro dia me peguei observando uma cena banal: duas pessoas conversando no trabalho. Uma delas recebia elogios. A outra sorria — mas havia algo no sorriso que não encaixava. Era quase imperceptível, mas estava lá: um pequeno desvio, como uma rachadura fina na parede. E foi ali que eu pensei, quase como quem chama alguém para sentar à mesa: Espinoza explicaria isso sem drama nenhum.

Baruch Spinoza foi um dos pensadores mais radicais da modernidade, ao propor que Deus e a Natureza são a mesma realidade (Deus sive Natura), rompendo com a visão tradicional religiosa. Em sua obra principal, a Ética, ele desenvolve uma filosofia baseada na razão, onde tudo segue leis necessárias, inclusive os pensamentos e emoções humanas. Para Spinoza, o ser humano é movido pelo conatus — o esforço de perseverar na existência — e a liberdade não está em agir sem causa, mas em compreender as causas que nos determinam, especialmente nossos afetos, transformando paixões passivas em ações conscientes.

Para ele, não existe esse teatro exagerado que fazemos das emoções. Nada de “sou assim porque sinto demais” ou “não consigo evitar”. O que sentimos tem estrutura. Tem lógica. E, mais importante, tem causa.

Espinoza começa de um lugar desconcertante: tudo o que existe quer continuar existindo. Não como um desejo consciente, mas como uma espécie de impulso silencioso. Ele chama isso de conatus. É como se cada um de nós carregasse uma insistência interna — uma força que diz, o tempo todo: continue.

E aí entram os afetos.

Quando algo fortalece essa força em nós, sentimos alegria. Quando enfraquece, sentimos tristeza. Simples assim. Quase brutal na simplicidade.

Mas o mundo não é simples.

Voltando àquela cena: o incômodo diante do sucesso do outro não é “maldade”. É uma diminuição da própria potência. Algo ali — comparação, insegurança, expectativa — faz com que a pessoa se sinta menor. E o corpo percebe antes da razão. O sorriso continua, mas por dentro algo encolhe.

É aqui que Espinoza faz uma distinção que muda tudo: existem afetos que nos acontecem, e afetos que nós produzimos.

Os primeiros são as paixões. Somos atravessados por elas. Ciúme, inveja, medo — eles chegam sem pedir licença. Não porque somos fracos, mas porque somos afetados por causas externas que não compreendemos completamente.

Os segundos são os afetos ativos. Eles surgem quando entendemos o que está acontecendo em nós. Não é deixar de sentir — isso seria impossível. É sentir com lucidez.

É como se, naquele mesmo momento, a pessoa pudesse perceber: “isso que estou sentindo não é sobre o outro — é sobre mim, sobre como estou me medindo.” E, nesse instante, algo muda. Não desaparece o desconforto, mas ele deixa de comandar.

Espinoza diria que aí começa a liberdade.

E não, liberdade não é fazer o que dá vontade. Isso é só outro tipo de prisão, mais sofisticada. Liberdade, para ele, é compreender. É enxergar as engrenagens invisíveis que movem aquilo que sentimos.

Quanto mais entendemos, menos somos arrastados.

Isso não nos torna frios — ao contrário. Nos torna mais vivos. Porque deixamos de reagir como reflexos e começamos a agir como quem participa do próprio movimento.

No fundo, a teoria dos afetos de Espinoza não é sobre emoções. É sobre potência. Sobre quanto da nossa vida está realmente nas nossas mãos — e quanto ainda está sendo empurrado por forças que não paramos para observar.

Talvez por isso certas conversas fluem tão bem, quase sem esforço. Elas aumentam nossa potência. A gente sai delas mais inteiro, mais claro, mais presente. E talvez por isso outras nos drenam, mesmo sem conflito aparente.

Espinoza não pediria para evitar nenhuma delas.

Ele apenas sugeriria algo mais exigente: entender.

Porque, no fim, não é o mundo que precisa ficar mais leve.

É a forma como somos atravessados por ele.


domingo, 1 de junho de 2025

Superstição e Crença

 

Quando bater na madeira é mais do que um gesto...

Tem gente que nem acredita em nada, mas bate na madeira do mesmo jeito. Só por via das dúvidas. É como se dissesse: “vai que, né?”. No fundo, ninguém quer brincar com o destino, mesmo quando jura que o destino não existe.

No dia a dia, superstição e crença andam lado a lado, tropeçando uma na outra feito gente numa calçada estreita. Uma é aquela velha senhora que leva um galhinho de arruda atrás da orelha. A outra, um jovem de óculos de realidade aumentada que acredita em inteligência artificial como oráculo. Ambas, no fim das contas, estão tentando responder à mesma coisa: como viver num mundo que não se explica todo?

Entre o invisível e o improvável

Superstições são gestos herdados, fragmentos de um saber que não passou pelo crivo da ciência, mas que sobreviveu ao tempo. Elas não prometem verdades, mas oferecem alívio. Já a crença é mais estrutural — é como uma casa onde o sujeito se abriga. Pode ter teto de religião, parede de filosofia, ou chão de misticismo. Às vezes, é uma cabana improvisada; às vezes, uma catedral inteira.

A religião oferece um Deus, um plano, um sentido maior. O misticismo não se preocupa tanto com dogmas, mas com vibrações, energias, ciclos. A fé, por sua vez, pode existir sem nome nem endereço fixo: acreditar que vai dar certo, que existe algo além, que o amor cura — isso já é fé.

E a ciência popular? É aquele remédio de vó que funciona “porque sempre funcionou”, mesmo que nenhum estudo comprove. É o chá de boldo, a canja para gripe, o sabugo de milho para dor de ouvido. Não está nos livros, mas está na boca do povo — e na prática de quem quer sobreviver com o que tem.

A inovação está na pergunta, não na resposta

A filosofia tradicional sempre quis separar razão e crença. Mas e se a gente inovar e perguntar: e se toda crença, superstição ou ciência for apenas formas diferentes de lidar com a ignorância? E se bater na madeira, fazer um gráfico, acender uma vela ou consultar um oráculo forem variações de um mesmo gesto humano — o de procurar sentido onde o mundo parece mudo?

O filósofo Ernst Cassirer dizia que o ser humano é antes de tudo um animal simbólico — a gente não vive só de fatos, vive de significados. O que a superstição e a crença revelam não é ignorância, mas sensibilidade. É a percepção de que há uma camada do real que escapa às fórmulas, mas não escapa ao sentimento.

No fim, acreditar é um ato de imaginação. E talvez seja esse o maior poder humano: preencher com histórias, gestos, rituais e afetos aquilo que a lógica não explica por completo. Afinal, nem tudo que é real precisa ser comprovado; basta ser vivido.