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sábado, 27 de dezembro de 2025

Pensar Como Polvo


Dia destes estava vendo um post no Instagram que achei interessante, vi a filmagem e li a mensagem, logo comecei a conjecturar.

Pensar como polvo é abandonar a obsessão por uma única ideia central e aceitar que o pensamento pode se espalhar.

O polvo não pensa em linha reta. Ele pensa com o corpo inteiro. Cada tentáculo tateia o mundo por conta própria, sente, reage, aprende. Não há um “centro de comando” tirânico dizendo exatamente o que fazer a cada segundo. Há coordenação, mas também autonomia. Talvez seja isso que nos falte quando insistimos em pensar tudo apenas com a cabeça.

Pensar como polvo é aceitar que uma ideia pode nascer no desconforto, outra numa conversa banal, outra ainda num silêncio constrangedor. É permitir que partes de nós explorem caminhos diferentes ao mesmo tempo, sem exigir síntese imediata. Nem tudo precisa virar conclusão; algumas coisas só precisam ser tocadas.

No cotidiano, isso aparece quando tentamos resolver um problema complexo e ele não anda. Forçar lógica sobre lógica só endurece. O polvo faria diferente: mudaria de textura, de cor, de ângulo. Testaria. Recuaria. Avançaria por outro lado. Pensar como polvo é dar tempo ao pensamento distribuído — aquele que amadurece enquanto lavamos a louça, caminhamos sem rumo ou ouvimos alguém falar de algo que “não tem nada a ver”.

Há também uma lição ética aí. O polvo sabe quando se esconder, quando se mostrar, quando soltar a presa. Não insiste em tudo. Nós, ao contrário, nos apegamos a ideias como se fossem identidade. Pensar como polvo é saber soltar um tentáculo sem morrer por isso.

Talvez o pensamento mais vivo não seja o mais brilhante, mas o mais sensível. Menos rígido, menos vaidoso. Um pensamento que aceita explorar o mundo sem a necessidade imediata de dominá-lo.

Pensar como polvo, no fundo, é confiar que a inteligência não mora só na cabeça — ela se espalha por todo o corpo que vive.

Eis o link da postagem:

https://www.instagram.com/reel/DSAG0Tgl4xJ/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==

sábado, 6 de setembro de 2025

Segurar a Língua

O Ato de Não Dizer

Segurar a língua é mais do que um gesto físico; é um exercício de autocontrole, cálculo e, por vezes, sobrevivência. A decisão de não falar, quando se tem algo pronto na boca, pode ser tanto um sinal de sabedoria quanto um peso que corrói por dentro.

O filósofo brasileiro Rubem Alves, que via a linguagem como ponte e também como abismo, lembrava que o silêncio pode ser mais revelador que qualquer palavra. Para ele, a fala precipitada é como uma flecha lançada: impossível de recolher. Segurar a língua, então, é conter essa flecha antes que ela parta, seja para evitar ferir alguém, seja para evitar ferir a si mesmo.

No cotidiano, a prática é onipresente. No trabalho, diante de uma decisão equivocada do chefe, a língua coça, mas a prudência segura. Em uma discussão de casal, há frases prontas para incendiar a situação, mas que ficam presas entre os dentes. Na fila do banco, diante de um comentário grosseiro, a vontade é retrucar, mas o corpo inteiro decide que é melhor não.

Mas o ato não é neutro. Guardar a palavra pode proteger, mas também pode sufocar. Há quem segure a língua tantas vezes que, aos poucos, vai apagando a própria voz — transformando-se num espectador da própria vida. E há quem não segure nunca, falando como se cada instante fosse uma última chance, acumulando inimigos e desgastes.

Rubem Alves sugeriria que a sabedoria está em saber quando o silêncio é um abrigo e quando é uma prisão. Segurar a língua, nesses termos, não é calar-se por medo, mas por escolha consciente: compreender que o tempo certo da palavra não é sempre o tempo da emoção.

Talvez seja esse o paradoxo: falar exige coragem, mas calar exige uma coragem ainda maior — a de confiar que nem toda verdade precisa ser dita para ser vivida.


quinta-feira, 24 de abril de 2025

Travesseiro Conselheiro

Às vezes, tudo o que a gente precisa é de um bom travesseiro. Não um ombro amigo, nem um brainstorm, nem aquela lista de prós e contras que a gente rabisca compulsivamente na contracapa de um caderno velho. Só o travesseiro mesmo — e umas boas horas de sono.

Já aconteceu com você? Um problema cabeludo, que parecia sem saída, e no dia seguinte, depois de uma noite de sono, a solução simplesmente aparece. Como se a mente, livre da vigilância do ego, tivesse feito um trabalho silencioso durante a madrugada. É quase mágico. Mas também é ciência — e filosofia.

O cérebro que trabalha enquanto dorme

Neurocientistas já observaram que o cérebro não desliga quando dormimos; ele apenas muda de operação. Durante o sono REM (aquele dos sonhos mais vívidos), as áreas ligadas à criatividade e à memória se ativam como se estivessem em uma oficina noturna. É como se o inconsciente começasse a brincar de quebra-cabeça com tudo que a gente viveu e pensou no dia.

Tem até nome: incubação criativa. Você absorve o problema, esquece dele (conscientemente), e deixa que o inconsciente faça o serviço. Quando acorda, plim — uma nova perspectiva.

Sonhos com respostas

E quando a resposta vem em forma de sonho? Aí é ainda mais curioso. Mendeleev sonhou com a tabela periódica. Paul McCartney sonhou com a melodia de Yesterday. Até Kekulé afirmou ter descoberto a estrutura do benzeno depois de sonhar com uma cobra mordendo o próprio rabo.

Será que os sonhos são apenas devaneios, ou códigos que nossa mente usa para revelar soluções que ela já sabia, mas a gente ainda não?

Cotidiano e travesseiros milagrosos

É engraçado como isso se aplica a pequenas coisas também. Um e-mail que não conseguimos escrever de jeito nenhum — e no dia seguinte, a frase certa vem com o café. Uma discussão mal resolvida, que no sonho reaparece com um desfecho diferente, mais justo, mais pacífico. Uma decisão complicada, que acorda leve, como se a alma já soubesse a resposta.

E às vezes, sonhar com a solução não é sonhar com um plano concreto, mas com uma sensação. Uma imagem simbólica, um clima emocional. Acordamos e pensamos: agora eu sei o que fazer. Mesmo sem saber explicar exatamente como.

Um filósofo comenta

O filósofo Gaston Bachelard, que gostava de brincar com a lógica dos sonhos, escreveu:
"O sonho é uma espécie de vida subtil que nos reconcilia com a profundidade das coisas."
Ele acreditava que os sonhos podiam ser mais verdadeiros que a vigília — porque neles, a alma tem liberdade para combinar, recombinar, imaginar. E às vezes, para encontrar.

O melhor aplicativo de produtividade pode ser o travesseiro

Antes de espremer mais uma hora de raciocínio forçado na madrugada, talvez seja melhor desligar o computador, escurecer o quarto e confiar. Às vezes, dormir é o passo mais inteligente a dar. Porque enquanto você dorme, o problema pode estar se reorganizando sozinho. E o travesseiro, silencioso, se transforma em conselheiro, analista e editor criativo.

No fim das contas, sonhar é uma forma de pensar — só que com os olhos fechados. 

sábado, 19 de abril de 2025

Excessos da Racionalidade

 

Nos tempos de hoje, há uma grande obsessão por dados, cálculos e previsões. Tudo precisa ser medido, analisado e justificado com estatísticas. Até mesmo as decisões mais triviais—como escolher um filme para assistir—parecem exigir um estudo de crítica especializada, reviews no Letterboxd (rede social para cinéfilos) e um algoritmo sugerindo o que combina melhor com nosso gosto. No trabalho, nas relações e até nos momentos de lazer, somos compelidos a agir de forma lógica, eficiente e produtiva. Mas será que essa racionalidade desenfreada não nos está roubando algo essencial?

A racionalidade, sem dúvida, é uma das grandes conquistas humanas. Foi graças a ela que saímos das cavernas, dominamos o fogo, construímos civilizações e desenvolvemos a ciência. No entanto, como em qualquer virtude que se estende além de seus limites naturais, a racionalidade pode se tornar um vício. O filósofo Theodor Adorno já advertia sobre a razão instrumental, aquela que reduz tudo a cálculos e resultados, transformando até os afetos humanos em algo mensurável e controlável. Quando a razão se torna excessiva, ela não apenas elimina o erro, mas também a espontaneidade, a intuição e o mistério da existência.

O problema surge quando começamos a exigir lógica absoluta até onde a vida exige fluidez. Uma amizade não pode ser medida em números. O valor de uma conversa despretensiosa ou de um pôr do sol visto sem pressa não pode ser reduzido a métricas. Ainda assim, vivemos numa época em que até o tempo livre precisa ser otimizado—há cursos ensinando a "meditar de forma eficiente", apps que controlam quantas horas dormimos e técnicas para maximizar a criatividade em minutos cronometrados. A racionalidade excessiva nos leva ao paradoxo de uma vida hipercontrolada e, paradoxalmente, vazia de sentido.

A filosofia oriental, especialmente no pensamento de N. Sri Ram, sugere que há uma sabedoria além da lógica fria. Ele propunha que a mente, quando excessivamente estruturada pela racionalidade, perde a capacidade de captar dimensões mais profundas da realidade. A intuição e a percepção direta da vida são qualidades igualmente necessárias, mas a modernidade tende a subjugá-las em nome de um ideal técnico e mecanizado de existência.

O convite aqui não é para rejeitar a razão, mas para reconhecer seus limites. Nem tudo precisa ser útil, produtivo ou matematicamente perfeito. Às vezes, o maior insight não vem de um cálculo exato, mas de uma pausa para respirar. Talvez o que nos falte não seja mais lógica, mas a coragem de abraçar o imprevisível, de confiar no que sentimos sem precisar justificar tudo com números. Afinal, como disse o poeta Fernando Pessoa: "Sentir é estar distraído"—e talvez seja justamente essa distração que nos salve do excesso de razão.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Necessidade de Confiar

Confiança é aquela cola invisível que segura o tecido das nossas relações sociais. É algo que damos de forma natural e esperamos receber em troca. No entanto, no cotidiano, essa confiança pode ser testada, reforçada ou até mesmo quebrada.

Imagine acordar cedo para uma reunião importante no trabalho. Você confia no seu despertador para te acordar na hora certa, mas e se ele falhar? A confiança na tecnologia pode ser um jogo de altos e baixos, especialmente quando um simples alarme pode determinar o rumo do seu dia.

No trânsito, confiamos que os outros motoristas vão respeitar as regras para que todos cheguem aos seus destinos em segurança. Mas basta um motorista agir de forma imprudente para que essa confiança seja abalada, fazendo-nos repensar a fragilidade dessa convivência diária.

Nas amizades, confiamos que nossos amigos estarão lá nos momentos bons e ruins. A confiança é cultivada através de gestos de apoio, sinceridade e lealdade. Um amigo que quebra essa confiança pode deixar cicatrizes profundas, mostrando como é importante escolher com quem compartilhar nossos pensamentos e emoções.

No ambiente de trabalho, confiamos que nossos colegas cumprirão suas responsabilidades e que nossos superiores reconhecerão nosso esforço. A falta de confiança pode levar a um ambiente de desconfiança e competição desleal, prejudicando o desempenho e o bem-estar de todos.

Refletindo sobre essas situações cotidianas, percebemos que a confiança não é apenas uma conveniência social, mas uma necessidade básica para o funcionamento harmonioso da sociedade. É através dela que construímos relacionamentos significativos, realizamos colaborações eficazes e desenvolvemos um senso de comunidade.

Assim, a necessidade de confiar não é apenas sobre esperar o melhor dos outros, mas também sobre sermos dignos dessa confiança. É sobre cultivar integridade, transparência e responsabilidade em todas as nossas interações. Quando confiamos e somos confiáveis, contribuímos para um ambiente onde todos podem prosperar e se sentir seguros.

Portanto, que possamos todos valorizar a importância da confiança em nossas vidas. Que possamos ser conscientes de como nossas ações podem fortalecer ou minar essa confiança tão essencial. Porque, no final das contas, é a confiança mútua que nos permite avançar juntos, superando desafios e construindo um futuro mais seguro e sustentável para todos.