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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Ouvidos Moucos

O Silêncio que Escolhe e o Ruído que Expulsa

Há quem diga que não existe pior surdez do que a de quem não quer ouvir. Mas essa surdez voluntária — os chamados ouvidos moucos — não é apenas uma defesa contra sons indesejados; é uma estratégia seletiva de preservação, poder e até indiferença.

A filósofa brasileira Marilena Chaui, ao discutir a escuta no espaço democrático, lembra que ouvir é um ato político. Não basta que as palavras cheguem ao tímpano; é preciso que sejam acolhidas como dignas de atenção. Ouvidos moucos, portanto, não são um defeito físico, mas uma decisão: o fechamento da escuta por conveniência, preconceito ou exaustão.

No cotidiano, encontramos essa atitude em reuniões onde alguém finge anotar enquanto a fala do outro passa como vento; em conversas de família nas quais um conselho de um idoso é recebido com o olhar no celular; ou na criança que ignora o chamado dos pais porque está mergulhada num desenho animado. O som chega, mas não se instala.

O curioso é que a surdez seletiva não é exclusividade de quem detém poder. Ela também é mecanismo de autoproteção. Uma pessoa exausta pode praticar ouvidos moucos para não absorver queixas ou demandas que, naquele momento, seriam insuportáveis. É o corpo dizendo: não posso lidar com isso agora.

Mas o perigo surge quando essa recusa se torna regra e não exceção. A surdez voluntária mina vínculos, fragiliza acordos e cria a ilusão de que problemas desaparecem quando não são escutados. Como lembra Chaui, “o diálogo é a base do reconhecimento do outro” — e negar a escuta é, de certa forma, negar a existência do interlocutor.

Fazer ouvir não é gritar mais alto, mas criar as condições para que o outro queira e possa ouvir. E escutar não é apenas captar sons, mas abrir espaço interno para que o que chega não seja repelido de imediato. Talvez, no fundo, ouvidos moucos não sejam sobre o silêncio que escolhem, mas sobre o mundo que deixam de conhecer.


quinta-feira, 24 de abril de 2025

Travesseiro Conselheiro

Às vezes, tudo o que a gente precisa é de um bom travesseiro. Não um ombro amigo, nem um brainstorm, nem aquela lista de prós e contras que a gente rabisca compulsivamente na contracapa de um caderno velho. Só o travesseiro mesmo — e umas boas horas de sono.

Já aconteceu com você? Um problema cabeludo, que parecia sem saída, e no dia seguinte, depois de uma noite de sono, a solução simplesmente aparece. Como se a mente, livre da vigilância do ego, tivesse feito um trabalho silencioso durante a madrugada. É quase mágico. Mas também é ciência — e filosofia.

O cérebro que trabalha enquanto dorme

Neurocientistas já observaram que o cérebro não desliga quando dormimos; ele apenas muda de operação. Durante o sono REM (aquele dos sonhos mais vívidos), as áreas ligadas à criatividade e à memória se ativam como se estivessem em uma oficina noturna. É como se o inconsciente começasse a brincar de quebra-cabeça com tudo que a gente viveu e pensou no dia.

Tem até nome: incubação criativa. Você absorve o problema, esquece dele (conscientemente), e deixa que o inconsciente faça o serviço. Quando acorda, plim — uma nova perspectiva.

Sonhos com respostas

E quando a resposta vem em forma de sonho? Aí é ainda mais curioso. Mendeleev sonhou com a tabela periódica. Paul McCartney sonhou com a melodia de Yesterday. Até Kekulé afirmou ter descoberto a estrutura do benzeno depois de sonhar com uma cobra mordendo o próprio rabo.

Será que os sonhos são apenas devaneios, ou códigos que nossa mente usa para revelar soluções que ela já sabia, mas a gente ainda não?

Cotidiano e travesseiros milagrosos

É engraçado como isso se aplica a pequenas coisas também. Um e-mail que não conseguimos escrever de jeito nenhum — e no dia seguinte, a frase certa vem com o café. Uma discussão mal resolvida, que no sonho reaparece com um desfecho diferente, mais justo, mais pacífico. Uma decisão complicada, que acorda leve, como se a alma já soubesse a resposta.

E às vezes, sonhar com a solução não é sonhar com um plano concreto, mas com uma sensação. Uma imagem simbólica, um clima emocional. Acordamos e pensamos: agora eu sei o que fazer. Mesmo sem saber explicar exatamente como.

Um filósofo comenta

O filósofo Gaston Bachelard, que gostava de brincar com a lógica dos sonhos, escreveu:
"O sonho é uma espécie de vida subtil que nos reconcilia com a profundidade das coisas."
Ele acreditava que os sonhos podiam ser mais verdadeiros que a vigília — porque neles, a alma tem liberdade para combinar, recombinar, imaginar. E às vezes, para encontrar.

O melhor aplicativo de produtividade pode ser o travesseiro

Antes de espremer mais uma hora de raciocínio forçado na madrugada, talvez seja melhor desligar o computador, escurecer o quarto e confiar. Às vezes, dormir é o passo mais inteligente a dar. Porque enquanto você dorme, o problema pode estar se reorganizando sozinho. E o travesseiro, silencioso, se transforma em conselheiro, analista e editor criativo.

No fim das contas, sonhar é uma forma de pensar — só que com os olhos fechados. 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Dilemas Habituais


 

Outro dia, parado na fila do pão, me vi novamente diante de um dilema bobo: pego o francês cascudo, que é mais gostoso, ou o integral, que é menos gostoso mas teoricamente mais saudável? Um dilema pequeno, quase invisível, mas que habita o cotidiano como aquele mosquito que a gente finge que não vê até ele pousar na testa. Fiquei pensando: quantas decisões assim a gente toma por dia? E, mais do que isso, será que esses dilemas banais dizem algo profundo sobre quem somos?

A vida parece cheia de dilemas, mas não aqueles que exigem grandes discursos morais ou crises existenciais cinematográficas. Não. Falo dos dilemas habituais — os que nos pegam desprevenidos entre o café e o elevador, entre dizer “sim” por educação ou “não” por convicção, entre seguir o fluxo ou bancar o chato da vez. Eles são repetitivos, às vezes insignificantes à primeira vista, mas se acumulam como folhas secas no quintal da mente. E é nesse acúmulo que mora a questão filosófica.

Esses dilemas pequenos, quase automáticos, revelam uma coisa: nossa vida é feita menos de grandes escolhas e mais de microescolhas. Enquanto esperamos por momentos decisivos, vivemos sob a tirania suave do hábito. Escolher entre falar ou calar, responder a uma mensagem agora ou daqui a pouco, fingir que não viu ou encarar. Pequenas decisões que constroem, dia após dia, a arquitetura do nosso caráter.

O filósofo Søren Kierkegaard dizia que “a repetição é a realidade e a seriedade da existência”. E se for verdade que repetimos nossos dilemas, talvez devêssemos prestar mais atenção neles. Talvez o dilema de usar a escada ou o elevador não seja apenas sobre preguiça ou exercício, mas sobre como tratamos o corpo, o tempo e os nossos compromissos com nós mesmos. E quando hesitamos em dizer “não” a um convite que não queremos aceitar, talvez não estejamos apenas sendo educados — talvez estejamos ensaiando, de novo, nossa incapacidade de impor limites.

Um dilema habitual não é só uma escolha recorrente. É um espelho. Ele devolve a imagem de como decidimos o mundo sem perceber. E aqui entra um ponto inovador: esses dilemas não precisam ser resolvidos. Eles precisam ser observados. Porque a própria repetição deles pode ser sintoma de algo mais fundo — uma forma de viver em piloto automático, sem refletir que até o gesto de escolher um pão está vinculado a valores, desejos, culpa e até memórias de infância.

Os dilemas habituais são uma espécie de filosofia disfarçada de rotina. Eles nos perguntam, dia após dia, de forma sutil: quem você está sendo agora?

E talvez, quem sabe, a próxima vez que estivermos em dúvida entre duas coisas aparentemente banais, percebamos que ali, naquela hesitação doméstica, mora a chance de fazer contato com a nossa própria ética cotidiana. Não a que se escreve nos livros, mas a que se escreve com migalhas de pão na mesa do café.