Transformando Ideias em Coisas
Substantivar
é dar corpo àquilo que originalmente é fluido, abstrato ou fugidio. É quando um
verbo, uma ação, um sentimento ou até uma experiência se transforma em
substantivo, tornando-se “coisa” na linguagem. Essa operação, tão comum na fala
e na escrita, não é apenas formal: ela molda a forma como percebemos e
organizamos o mundo.
A
filósofa brasileira Marilena Chaui, ao tratar da linguagem e do
pensamento, observa que as palavras não são neutras. Substantivar algo é, de
certa forma, fixar um aspecto da realidade, conferindo-lhe estabilidade e
presença. Por isso, “amor” não é apenas o ato de amar; é a cristalização do
sentimento em conceito. “Liberdade” não é apenas o exercício de agir, mas uma
ideia que podemos discutir, medir, proteger ou violar.
No
cotidiano, as substantivações estão em toda parte. Quando alguém diz “preciso
de paciência”, transformou uma capacidade dinâmica em algo que se pode
“possuir” ou “faltar”. Quando falamos de “felicidade”, “culpa” ou “sucesso”,
estamos criando categorias que permitem comparar, julgar ou planejar ações, mas
que também limitam a experiência original, sempre mais fluida do que a palavra
que a representa.
O
problema surge quando a substanciação esmaga a experiência. Reduzir um amor a
“um relacionamento” ou uma tristeza a “uma depressão” pode facilitar a
comunicação, mas também empobrece a vivência real, como se o nome fosse a
própria coisa. Por outro lado, a habilidade de substantivar é essencial para a
reflexão, para a arte e para a ciência: é o primeiro passo para analisar,
compreender e criar significado.
Chaui
sugeriria que reconhecer o poder e o limite das substantivações nos ajuda a
viver com mais atenção. A linguagem não apenas descreve a realidade; ela também
a estrutura e a constrói. Saber que “justiça”, “medo” ou “criatividade” são
substantivações é lembrar que, por trás da palavra, sempre existe algo mais
complexo, que escapa à forma que lhe demos.
No
fim, substantivar é como esculpir o vento: criamos figuras que podem ser
admiradas e compartilhadas, mas nunca capturam completamente a força e a
fluidez do que pretendem representar. É um ato de nomear o mundo — com toda a
beleza e os limites que isso implica.


