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sábado, 17 de janeiro de 2026

Férias Agitadas

Fiquei me perguntando por que muita gente prefere frequentar as mesmas praias que estão sempre super lotadas com desconforto de restaurantes lotados, dificuldade para estacionamento, hospedagens caríssimas, e poucas são as pessoas que preferem praias mais tranquilas com beleza exuberante, com espaço amplo para circular, passear e colocar seu guarda-sol, hospedagens com preço mais justo.

Pensei: Porque, no fundo, as férias deixaram de ser só descanso — viraram também narrativa, prova social e pertencimento.

Hoje, viajar não é apenas ir a um lugar, é mostrar que se esteve lá. Lugares cheios funcionam como certificados simbólicos: “se todo mundo quer, deve valer a pena”. A multidão valida a escolha. O destino tranquilo, por outro lado, não gera a mesma sensação de reconhecimento.

Há também um fator psicológico curioso:

o silêncio obriga a gente a ficar consigo mesmo. Já o lugar lotado distrai. Em vez de escutar os próprios pensamentos, escutamos filas, música alta, conversas alheias. Para muita gente, isso é mais confortável. (ainda bem que estão proibindo caixa de som na beira da praia)

Outro ponto é o medo invisível de estar “perdendo algo”. Quando vemos milhares indo ao mesmo lugar, surge a impressão de que ali está a experiência verdadeira da vida. O tranquilo passa a parecer incompleto, como se estivesse fora do roteiro do mundo.

E há ainda a estética da experiência:

lugares cheios oferecem fotos reconhecíveis. Um fundo famoso, uma pose famosa, uma lembrança facilmente traduzível em curtidas. O lugar calmo oferece algo mais difícil de mostrar: sensação, silêncio, tempo dilatado — coisas que não cabem bem numa tela.

No fundo, não é que as pessoas rejeitem a tranquilidade.

Elas rejeitam a invisibilidade que a tranquilidade traz.

Descansar em paz não impressiona ninguém.

Mas impressionar, hoje, cansa menos do que descansar.

Talvez por isso os lugares mais cheios estejam lotados…

e os mais vazios estejam, paradoxalmente, esperando por quem ainda lembra que férias também podem ser um encontro consigo mesmo.


sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Convicções Estanques

A Prisão do Certeiro

Há pessoas que caminham pela vida com certezas de ferro. Suas opiniões não mudam, suas ideias parecem eternas, e qualquer questionamento soa como ofensa pessoal. São as chamadas convicções estanques, aquelas que não se deixam atravessar pelo tempo, nem pela experiência, nem pelo diálogo. À primeira vista, parecem força e segurança; mas, vistas mais de perto, revelam uma rigidez que se confunde com fragilidade.

No cotidiano, encontramos esse fenômeno a todo instante. O colega de trabalho que repete, há anos, as mesmas fórmulas “infalíveis”, mesmo quando o contexto mudou. O vizinho que insiste que “sempre foi assim” para justificar tradições que já não fazem sentido. Ou ainda a pessoa que, em um debate, não ouve o argumento do outro, porque não procura aprender — apenas confirmar o que já pensa. A convicção estanque é como uma parede: sólida, mas incapaz de deixar passar o ar.

A filósofa brasileira Marilena Chaui lembra que a filosofia nasce do espanto e da dúvida. Nesse sentido, convicções que não se movem são o oposto do exercício filosófico: elas fecham o horizonte em vez de abri-lo. Para ela, a democracia, por exemplo, só se fortalece quando aceitamos que nenhuma verdade é absoluta, e que todo saber precisa ser revisado à luz do diálogo e da experiência coletiva.

As convicções estanques, porém, oferecem um conforto tentador. No meio da incerteza do mundo, agarrar-se a uma crença rígida dá sensação de firmeza. É por isso que tantas pessoas preferem o dogma à reflexão, a resposta pronta à pergunta incômoda. Mas esse conforto cobra um preço: impede a transformação. Quem se tranca nas próprias certezas não vê o movimento da vida e corre o risco de se tornar estrangeiro dentro do próprio tempo.

No Brasil, vemos isso na polarização política e social. Convicções rígidas se tornam bandeiras que dividem famílias, amizades, comunidades. O diálogo é trocado por slogans; o pensamento crítico, por certezas impermeáveis. O resultado é um empobrecimento coletivo: não crescemos no encontro, mas nos enclausuramos no espelho de nós mesmos.

Talvez seja hora de recuperar a humildade filosófica: reconhecer que nossas convicções podem ser revisadas, que a mudança não é fraqueza, mas sinal de vitalidade. Afinal, a vida não é estanque; é fluxo. E convicções que não respiram acabam sufocando quem as sustenta.


sábado, 2 de agosto de 2025

Desver

O gesto de desfazer os enganos

Ver não é apenas enxergar. É interpretar, filtrar, significar. Quando olhamos o mundo, não vemos o mundo em si, mas a nossa versão dele: atravessada por crenças, feridas, desejos, esperanças. O conceito de desver, então, propõe algo radical: não é ver mais, mas ver de novo — ou melhor, ver sem os enganos.

Desver é desfazer as distorções. É quando nos damos conta de que aquilo que parecia certo era apenas conveniente; que aquilo que chamávamos de amor era apego; que o medo que chamávamos de prudência era só fuga. Desver é um ato filosófico porque exige coragem para questionar as lentes pelas quais olhamos a realidade.

O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty dizia que a percepção é sempre situada, ou seja, não existe olhar puro, neutro. Nossa experiência é encarnada, histórica, subjetiva. E, por isso mesmo, a tarefa de desver é uma pedagogia do corpo e da mente. É desaprender para ver com mais verdade — ou com menos ilusão.

No cotidiano, desver pode significar perceber que o colega de trabalho que considerávamos indiferente, na verdade, era tímido — e não rude. Ou entender que aquele sonho antigo de ser médico não era seu, mas um desejo projetado da família. Às vezes, desver é acordar de um casamento onde confundimos rotina com amor. Outras vezes, é olhar para o espelho e perceber que o corpo que rejeitamos por tanto tempo não era feio — apenas diferente do padrão.

Há também o desver político: aquele momento em que alguém percebe que sua visão de mundo vinha sendo moldada mais por medo do que por valores. Ou o desver espiritual: quando percebemos que a fé que tínhamos era medo de errar, e não confiança no mistério.

Desver é um gesto espiritual, no sentido de que implica purificação da visão. No Bhagavad Gita, há um trecho em que Krishna concede a Arjuna uma “visão divina” para que ele veja a realidade como ela é, além da forma. Esse "terceiro olho" talvez não esteja no meio da testa, mas sim na capacidade de desfazer os enganos que criamos sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Desver não é negar o que se viu, mas perceber que se viu através de véus. E que a lucidez, como uma lâmina de vento, pode retirar esses véus com delicadeza — ou com brutalidade. Às vezes, desver dói. Porque nos obriga a sair da zona de conforto e encarar que muito do que tomamos como verdade era só conveniência, medo ou costume.

No fim, talvez não vejamos mais do que antes. Mas vemos melhor.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Máscaras e Espelhos

 

Um Ensaio Sobre Representação e Expressão

Outro dia, parado no trânsito e observando as pessoas pelos retrovisores, tive um pensamento estranho: será que nos representamos mais do que nos expressamos? A moça na moto, com sua jaqueta cheia de patches, parecia carregar uma bandeira de quem ela queria ser. O rapaz no carro ao lado, ajustando o cabelo no espelho interno, talvez também estivesse ensaiando uma versão de si. E eu, ali, refletindo e me julgando filosófico... não era outra forma de representação?

Afinal, na vida cotidiana, representar e expressar se misturam o tempo todo, como se estivéssemos sempre num teatro, ora tentando ser fiéis ao que sentimos, ora ajustando o roteiro para a plateia.

Mas existe uma linha divisória entre um e outro? Ou tudo que somos diante do mundo já é, inevitavelmente, uma representação?

A máscara inevitável

Platão já nos alertava, no mito da caverna, que o que vemos e mostramos são apenas sombras da realidade. Para ele, a representação nunca captura a essência: é sempre uma cópia distante, um eco imperfeito. Mesmo quando tentamos nos expressar genuinamente, o que chega ao outro é uma sombra da nossa intenção.

Nietzsche, por outro lado, mais desconfiado da "verdade" e mais amigo da vida, sugeriria que não há nada por trás da máscara — a máscara é tudo o que temos. Na sua visão, expressar-se e representar-se não seriam opostos: seriam a mesma dança, pois o "eu verdadeiro" que desejamos expressar é, ele mesmo, uma invenção artística, construída e remodelada constantemente.

Assim, até nossa "expressão mais autêntica" seria, de certo modo, uma performance.

Quando representar é criar

Para além da denúncia platônica da ilusão e da ironia nietzschiana sobre a máscara, Gilles Deleuze nos oferece uma chave inovadora: ele propõe que a representação é uma prisão, pois tenta encaixar a multiplicidade da vida em moldes pré-existentes. Expressar, para Deleuze, seria não repetir formas, mas inventar novas possibilidades de ser.
Assim, verdadeira expressão é algo criador: não representar algo já dado, mas fazer nascer o que ainda não existe.

Pensemos no exemplo mais simples: uma criança brincando. Ela não está representando "uma criança brincando" — ela está sendo, de forma livre e inventiva, um novo modo de estar no mundo. E é justamente por isso que sua expressão é tão poderosa.

Representação: o conforto. Expressão: o risco.

No cotidiano, representar é confortável: agimos como o bom funcionário, o amigo leal, o cidadão consciente — papéis conhecidos, que nos protegem do vazio e da dúvida.
Expressar-se, no entanto, é perigoso: é lançar-se num território sem mapas, onde podemos ser incompreendidos, rejeitados ou, mais assustador ainda, não reconhecidos nem por nós mesmos.

Por isso, muitos de nós preferimos vestir a máscara da representação: porque nos dá uma identidade clara, mesmo que apertada.

E aqueles raros momentos de expressão verdadeira, quando emergem, nos deixam nus, desarmados — mas também mais vivos.

Em busca de uma expressão mais leve

Talvez a solução esteja em uma convivência mais serena entre as duas forças. Reconhecer que sempre haverá representação (porque o mundo precisa de signos para nos entender) mas não perder a centelha da expressão (que é a nossa potência criadora).

Merleau-Ponty, com sua filosofia da percepção, apontava que o corpo é já expressão, antes de qualquer palavra ou papel social. Não escolhemos "representar" nossa alegria ao rir: nós a encarnamos.

Talvez devêssemos reaprender a confiar no corpo e nos gestos — nessas expressões primeiras — mais do que nas imagens que tentamos controlar.

Num mundo saturado de performances, onde o Instagram, o LinkedIn e até a conversa no elevador são arenas de representação, expressar-se é quase um ato de resistência.

Talvez a filosofia nos diga, em suas entrelinhas, que não há como escapar totalmente da representação — mas que podemos, ainda assim, tentar respirar dentro dela.
E quem sabe, como a moça da moto e o rapaz do retrovisor, possamos nos divertir um pouco com as máscaras que vestimos... sem esquecer que, às vezes, a melhor expressão é aquela que nem tentamos controlar.

domingo, 29 de setembro de 2024

Intramuros

Uma palavra que, ao ser dita, evoca a ideia de muros que cercam, protegem e, ao mesmo tempo, isolam. Ao refletir sobre ela, penso imediatamente na vida que construímos para nós mesmos, dentro de nossas próprias paredes mentais e emocionais, delimitando até onde permitimos que os outros nos conheçam ou onde ousamos nos aventurar no desconhecido. No nosso dia a dia, estamos o tempo todo "intramuros" – nas rotinas, nas redes sociais, nas bolhas de pensamentos e crenças. Esses muros, no entanto, podem ser tanto fortalezas de proteção quanto prisões invisíveis.

Você já reparou como gostamos de criar nossas próprias fronteiras? Sejam elas físicas, como a organização da casa, ou sociais, nas amizades e círculos que cultivamos. Fazemos isso porque o familiar nos oferece segurança. Sentimo-nos no controle quando conhecemos o terreno em que pisamos. Mas será que essas paredes que construímos, de certa forma, também não nos limitam?

Maurice Halbwachs, o sociólogo que estudou a memória coletiva, poderia dizer que os muros que erguemos têm a ver com a forma como preservamos nossas lembranças e histórias. Ele argumentava que a memória não é individual, mas coletiva, sendo influenciada pelo grupo ao qual pertencemos. Assim, ao construirmos nossos muros, estamos também definindo os limites de quem somos e do que lembramos, moldados pelas influências daqueles ao nosso redor.

Intramuros, na prática, pode ser aquela sensação de conforto ao seguir as tradições familiares, por exemplo. É o jantar em família aos domingos, onde repetimos conversas e rotinas já estabelecidas, reforçando o que é conhecido e compartilhado. Mas ao mesmo tempo, essa prática também nos prende em padrões que evitam o novo, impedindo que experimentemos algo fora da zona de conforto.

Há também a dimensão mais literal de intramuros. Basta pensar nas cidades muradas, como a histórica Intramuros, em Manila, nas Filipinas. Criadas para proteger seus habitantes de invasores, essas cidades antigas eram o perfeito exemplo de como a segurança pode também restringir a expansão. Dentro dos muros, a vida seguia um ritmo mais lento, mais controlado. Fora deles, o caos e a possibilidade da aventura.

Na nossa vida cotidiana, muitas vezes ficamos "intramuros" por medo do desconhecido, e não é difícil identificar exemplos. O trabalho que conhecemos, mesmo que seja frustrante, é mais seguro que tentar algo novo. A relação estável, ainda que desgastada, oferece mais conforto que a solidão ou a incerteza de um novo começo. Talvez, como Halbwachs sugeriria, seja o nosso ambiente e nossas interações que nos empurram a viver entre esses muros, de forma que nossa identidade está entrelaçada ao que construímos junto com os outros. O grande desafio, então, seria entender que, embora intramuros ofereça segurança, são as aberturas nesses muros que nos permitem crescer e evoluir.

Talvez o segredo seja encontrar um equilíbrio: reconhecer que precisamos de muros para nos proteger, mas também que devemos deixá-los permeáveis, permitindo que o novo e o desconhecido entrem e nos transformem.


terça-feira, 9 de abril de 2024

Zona de Conforto


No ritmo acelerado da vida cotidiana, é fácil cair na armadilha da comodidade. A zona de conforto, esse lugar seguro e familiar onde nos sentimos à vontade, pode parecer acolhedor, mas também é onde os sonhos muitas vezes ficam estagnados. Afinal, grandes coisas raramente vêm de se acomodar.

Imagine essa situação: você está confortavelmente instalado em seu sofá, envolvido por um cobertor macio, assistindo à sua série favorita pela milésima vez. Ah, que sensação maravilhosa de conforto! Mas, então, uma vozinha interior sussurra: "E se houvesse mais lá fora?". Acredito que pouca coisa vai sair da zona de conforto, mudanças é claro que não.

Essa vozinha está certa. O mundo lá fora é vasto e cheio de possibilidades esperando para serem exploradas. No entanto, para alcançá-las, é preciso dar o primeiro passo para fora da zona de conforto.

Isso pode soar assustador, eu sei. Às vezes, a ideia de se aventurar para além dos limites do familiar é o suficiente para fazer o coração bater mais rápido. Mas é exatamente esse medo que indica que você está no caminho certo. Afinal, o crescimento só ocorre quando desafiamos nossos próprios limites.

Vamos dar um exemplo prático: imagine que você tenha uma ideia brilhante para um projeto, algo que realmente te empolga. Mas logo em seguida, vem aquele pensamento de autodúvida: "E se eu fracassar? E se não der certo?". É a zona de conforto tentando te puxar de volta para o lugar seguro. No entanto, se você decidir seguir em frente, mesmo com o medo, grandes coisas podem acontecer.

Claro, sair da zona de conforto não significa necessariamente fazer algo grandioso e espetacular. Pode ser algo tão simples quanto tentar uma nova atividade, conhecer pessoas diferentes, ou aprender uma nova habilidade. Às vezes, são os pequenos passos que nos levam às maiores descobertas.

E não se engane: sair da zona de conforto não é um caminho livre de obstáculos. Haverá desafios, momentos de incerteza e talvez até fracassos. Mas é exatamente nessas dificuldades que encontramos oportunidades de crescimento e aprendizado. Cada obstáculo superado nos torna mais fortes e mais resilientes.

Então, quando sentir aquela tentação de se aconchegar na sua zona de conforto, lembre-se: é fora dela que as verdadeiras aventuras começam. Arrisque-se, desafie-se, e quem sabe que grandes coisas estão à sua espera além dos limites do familiar.