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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Cercado de Temporalidade

Com a porta entreaberta para o cotidiano

Às vezes, sem perceber, eu me flagro no meio da tarde olhando para o relógio não para saber as horas, mas para medir o invisível: o tempo que resta, o tempo que passou, o tempo que eu não vivi direito. É curioso como a vida, de tão cheia de prazos, rotinas e expectativas, parece nos envolver num cerco silencioso — uma espécie de cerca elétrica da temporalidade. Não dói ao toque, mas limita. É ali que começa a inquietação: afinal, o que significa estar cercado de temporalidade?

 

O tempo como fronteira que anda

Filosoficamente, a ideia de ser “cercado” remete a limitação, mas a temporalidade é uma fronteira que se move conosco. Santo Agostinho, com sua mistura de poesia e perplexidade, dizia que o tempo não existe fora da alma — passado é memória, presente é atenção, futuro é expectativa. Ou seja: o cerco não está do lado de fora, está dentro de nós. Somos cercados por aquilo que carregamos.

Mas, no cotidiano, a sensação parece outra. O ônibus que atrasa, o prazo que vence, o aniversário que chega rápido demais, a infância dos filhos que escorre entre fotos — tudo isso sugere que o tempo está do lado de fora, empurrando, comprimindo, exigindo.

É aí que aparece a contradição fundamental: vivemos o tempo como se fosse externo, embora ele só exista porque o interior o percebe.

 

A temporalidade como arquitetura da experiência

Heidegger, sempre com seu ar de quem sabe mais do que diz, entendia temporalidade como a própria estrutura do ser-no-mundo: nós somos tempo. Não temos tempo; somos esse fluxo de projeção, lembrança e presença que tenta se equilibrar entre possibilidades.

Se tomarmos isso para a vida concreta, dá para perceber a temporalidade como a arqueologia da nossa existência: tudo o que fazemos se apoia em camadas de já-feito e ainda-não-feito. Quando eu abro a geladeira à noite e encontro o restinho de comida que deixei de manhã, há ali uma versão minha passada acenando para mim — uma prova de que o tempo nunca se desprende totalmente, apenas se reorganiza.

Nessa perspectiva, estar cercado de temporalidade é estar atravessado por histórias, intenções, repetições, arrependimentos e esperanças. É viver no entremeio.

 

O cerco não como prisão, mas como condição

O problema é que acostumamos chamar de cerco tudo o que limita. Mas a temporalidade não limita por castigo; limita para possibilitar. N. Sri Ram, em sua serenidade sempre voltada ao desenvolvimento interior, lembrava que o tempo é um educador silencioso — ele revela o que realmente importa e dissolve o que era só ruído.

O tempo nos cerca para orientar. Ele oferece contornos, não muros. Sem temporalidade, não haveria começo, nem maturação, nem revelação. Viver seria um plano infinito sem relevo, sem textura, sem sentido.

No cotidiano isso é fácil de sentir: o pão fresco da manhã só tem encanto porque deixará de ser fresco; o abraço só tem calor porque não dura para sempre; a decisão certa só é possível porque houve hesitação antes dela.

A temporalidade funda o valor das coisas.

 

O combate interior: quando o cerco aperta demais

É claro que nem sempre percebemos esse valor. Às vezes o tempo pesa como dívida. Aí começam os sintomas: pressa, ansiedade, nostalgia paralisante. A temporalidade vira tirana, não educadora.

Mas não é o tempo que aperta — somos nós que apertamos demais nossas expectativas. Quando queremos controlar todos os ritmos, aceleramos ou desaceleramos o cerco, estrangulando a própria experiência.

Ficar cercado de temporalidade, nesses momentos, é como viver cercado de espelhos: cada gesto refletido em mil versões do que já foi ou poderia ter sido.

 

A saída do cerco

Se há saída, ela não está em fugir do tempo, mas em reconciliar-se com ele. Isso pode acontecer de forma simples: quando sentamos um pouco mais devagar; quando deixamos uma conversa não ter pressa; quando aceitamos que não seremos hoje quem imaginamos ontem; quando percebemos que os intervalos — sim, aqueles silêncios desconfortáveis — também fazem parte da música.

Reconciliação com o tempo é aceitar que o cerco não é inimigo, mas terreno fértil. É viver sabendo que cada instante é limite e possibilidade ao mesmo tempo.

 

Entre muros móveis

Estar cercado de temporalidade não é viver cercado por muros, mas por movimento. O tempo não cria prisão; cria passagem. Ele não exige fuga; exige presença.

E talvez o ponto mais humano desse cerco seja justamente o fato de que não há como rompê-lo — apenas atravessá-lo continuamente, como quem caminha numa rua onde o vento sopra dos dois lados ao mesmo tempo.

Afinal, o tempo não nos segura: ele nos faz ser.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Solicitude

 

Há pessoas que parecem carregar dentro de si uma espécie de radar silencioso para o sofrimento alheio. Elas percebem quando algo não vai bem mesmo sem ninguém dizer. É aquela colega que nota o cansaço antes de ouvir a queixa, o amigo que pergunta “tá tudo bem mesmo?” com uma ênfase que atravessa a máscara do “tudo ótimo”. Esse gesto — discreto, quase sempre invisível — é a matéria da solicitude. Não se trata de pena, nem de intromissão. É, antes, uma forma de presença atenta, uma disposição do ser para com o outro.

Na pressa do mundo contemporâneo, a solicitude virou quase um luxo. Vivemos tão imersos em nós mesmos — em nossas notificações, tarefas, urgências e distrações — que esquecemos o que Heidegger chamava de Mitsein, o “ser-com”. O filósofo alemão via no cuidado (Sorge) a estrutura fundamental da existência humana: somos seres que cuidam, que se preocupam, que se voltam para o outro e para o mundo. A solicitude, nesse contexto, é uma manifestação concreta desse cuidado compartilhado. Ela é o modo como o ser-com se traduz em gesto, em palavra, em olhar.

Mas Heidegger distingue dois modos de solicitude: uma que “salta no lugar do outro” — substituindo-o, tirando-lhe a responsabilidade — e outra que “salta à frente”, ajudando-o a retomar sua própria capacidade de ser. A primeira é paternalista; a segunda é libertadora. Quando alguém tenta resolver tudo por nós, sufoca nosso poder de agir. Já quando alguém nos estende a mão para que voltemos a caminhar, essa pessoa nos devolve a nós mesmos. A verdadeira solicitude, portanto, não é invadir o espaço do outro, mas abrir espaço com o outro.

No cotidiano, ela aparece nos lugares mais triviais: na professora que percebe o aluno calado demais, no vizinho que segura o elevador para quem chega ofegante, no médico que escuta antes de prescrever. São gestos pequenos, mas têm algo de ontológico — eles dizem: “você existe para mim”.

Em uma sociedade orientada pela eficiência, onde a indiferença se disfarça de objetividade, a solicitude é quase um ato de resistência. Ela exige tempo, silêncio e vulnerabilidade. É preciso desacelerar para enxergar o outro, e coragem para ser tocado por ele.

O filósofo Emmanuel Lévinas amplia essa ideia ao colocar o rosto do outro como fundamento da ética. Para ele, o simples fato de ver o outro — e perceber que ele me olha — já me convoca à responsabilidade. A solicitude nasce justamente dessa convocação: é o reconhecimento de que o outro me afeta, e que não posso permanecer neutro diante de sua existência.

No Brasil, a solicitude se torna ainda mais necessária — e paradoxalmente mais rara — num contexto em que as relações sociais se equilibram entre a cordialidade aparente e a indiferença cotidiana. Nos ambientes de trabalho, por exemplo, a preocupação genuína pelo outro muitas vezes é vista como fraqueza ou perda de tempo: “cada um com seus problemas”. Nas redes sociais, multiplicam-se gestos de solidariedade performática — curtidas, emojis, frases prontas — que pouco têm a ver com a atenção real a alguém. A solicitude, nesse cenário, seria uma contraofensiva silenciosa: um modo de resgatar o humano num país em que a pressa e a desigualdade tendem a desumanizar. Quando paramos para escutar de verdade, sem filtro e sem agenda, criamos o que o filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella chama de “encontros que edificam” — momentos em que a presença se transforma em construção mútua.

No fim das contas, a solicitude é a arte de estar presente sem possuir. É o cuidado que não quer nada em troca, a empatia que não se exibe, a atenção que não pesa. Num mundo que nos ensina a competir, ela nos reaprende a coexistir.

Como escreveu Lévinas, “o eu só se realiza plenamente quando é para o outro”. Talvez seja por isso que as pessoas verdadeiramente solícitas não se destacam — elas simplesmente se misturam à vida, restaurando silenciosamente o que o egoísmo quebra.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Banalidade Portentosa

O paradoxo da "banalidade portentosa" nos convida a refletir sobre a coexistência de grandeza e trivialidade na mesma experiência ou acontecimento. À primeira vista, parece contraditório: como algo cotidiano pode carregar uma magnitude que transcende sua aparência simples? Contudo, talvez seja justamente aí que resida o encantamento da vida: no extraordinário que se oculta nas dobras do ordinário.

A grandiosidade do comum

Imagine o ritual de tomar café pela manhã. Não há nada mais banal: a xícara sempre no mesmo lugar, o açúcar medido sem pressa, a colher girando no mesmo sentido. Um observador desatento poderia classificar esse momento como irrelevante. Mas e se, nesse instante de aparente simplicidade, encontrarmos a essência da existência? A repetição desse gesto é também um testemunho de continuidade, uma espécie de resistência silenciosa ao caos do mundo. Heidegger diria que é nesse "estar no mundo" que se revela a profundidade do ser: o ordinário como portal para o extraordinário.

A banalidade como narrativa portentosa

A literatura e o cinema frequentemente transformam o comum em épico. Em As Horas, de Michael Cunningham, um bolo mal assado é o estopim de uma crise existencial. Em A Vida é Bela, Roberto Benigni transforma a monotonia de um campo de concentração em uma história de esperança. Essas narrativas subvertem a percepção do banal, mostrando que ele pode carregar em si o peso de uma vida inteira. Assim como uma pedra lançada em um lago cria ondas que reverberam, o gesto mais simples pode ser o início de algo imensurável.

Filosofia e o olhar para o pequeno

Simone Weil, em sua obra, frequentemente apontava para a necessidade de uma atenção cuidadosa ao pequeno. Para ela, é na atenção que reside o sagrado. Não seria a banalidade, então, uma forma camuflada do divino? Talvez a verdadeira portentosidade resida em reconhecer que o sentido não se esconde apenas nos grandes eventos, mas também no que parece insignificante.

Banalidade portentosa no cotidiano

Pense em como uma conversa despretensiosa pode transformar um dia inteiro. Ou como um sorriso entre estranhos, na fila do mercado, pode reacender a crença na bondade humana. Esses momentos são pequenos portentos – pequenas epifanias que nos lembram da profundidade latente em cada experiência.

Um convite ao olhar portentoso

A "banalidade portentosa" nos desafia a reavaliar nossa relação com o mundo. É uma filosofia de atenção, um chamado à contemplação do que geralmente ignoramos. Porque, no final das contas, o sentido não está nas coisas, mas em como as percebemos. Nas palavras de Clarice Lispector:

“É uma pausa, um intervalo, mas que contém toda a vida."

E se olharmos mais de perto, talvez vejamos que toda banalidade carrega em si uma promessa de grandeza. O extraordinário já está aqui, na simplicidade de sermos.


domingo, 1 de dezembro de 2024

Vida de Momentos

A vida é feita de momentos. Às vezes, eles passam tão rapidamente que mal temos tempo de perceber sua importância. Mas e se parássemos um instante para refletir sobre cada um desses momentos fugazes que compõem nossa existência?

No cotidiano agitado, é fácil se deixar levar pela correria e pelas preocupações do dia a dia. Mas, se prestarmos atenção, perceberemos que são esses pequenos momentos que dão cor e significado à nossa vida. Por exemplo, aquele abraço apertado de alguém querido ao final de um longo dia de trabalho. Esse gesto simples pode trazer uma sensação de conforto e conexão que nos sustenta.

Em uma tarde ensolarada, sentar-se em um banco do parque e observar as crianças brincando pode nos lembrar da pureza e da alegria que muitas vezes esquecemos na idade adulta. São momentos como esses que nos conectam com nossa essência mais profunda, nos lembrando do que realmente importa na vida.

Pensando nisso, trago as palavras inspiradoras de Alan Watts, um pensador que explorou profundamente a filosofia oriental e a ideia de viver plenamente o presente. Watts ensina que a vida não é uma jornada para algum destino distante, mas sim uma série de momentos preciosos que devemos aproveitar enquanto podemos. Ele nos lembra que, ao focarmos no aqui e agora, somos capazes de experimentar uma paz interior e um sentido de gratidão pelo simples fato de estarmos vivos.

No entanto, não devemos confundir uma vida de momentos com uma vida de superficialidade ou hedonismo desenfreado. Valorizar cada momento não significa buscar constantemente prazeres passageiros, mas sim estar consciente e presente em tudo o que fazemos. É sobre cultivar relações significativas, buscar crescimento pessoal e contribuir positivamente para o mundo ao nosso redor.

Portanto, que possamos todos aprender a apreciar a vida de momentos. Que possamos olhar além das preocupações do futuro e das distrações do passado, e encontrar a beleza e a plenitude que existem no presente. Pois é nesses pequenos instantes que realmente vivemos e encontramos significado em nossa jornada.


sexta-feira, 31 de maio de 2024

Renascimentos Simbólicos

Você já teve a sensação de que, em determinados momentos da vida, passou por uma espécie de "renascimento"? Esses momentos podem não envolver mudanças drásticas, mas são significativos o suficiente para redefinir quem somos e como enxergamos o mundo. Esses renascimentos simbólicos acontecem com frequência e podem ser desencadeados por uma série de situações cotidianas.

Pequenos Grandes Momentos de Renascimento

Mudança de Carreira: Imagina que você trabalhou por anos em uma área específica, mas um dia decide seguir uma paixão antiga, como abrir uma pequena cafeteria ou tornar-se artista. Esse tipo de transição representa um renascimento simbólico. É o deixar para trás um velho eu para dar espaço a um novo.

Fim de Relacionamentos: Terminar um relacionamento amoroso pode ser extremamente doloroso, mas também abre a porta para um recomeço. Aos poucos, você reconstrói sua vida, redescobre interesses esquecidos e talvez até encontre um novo amor. Esse processo é um renascimento, onde você emerge mais forte e consciente de si.

Superação de Desafios Pessoais: Enfrentar uma doença grave, passar por dificuldades financeiras ou lidar com a perda de um ente querido são situações que testam nossa resiliência. A superação desses desafios pode nos transformar profundamente, resultando em um novo começo, uma nova perspectiva sobre a vida.

Reflexão Filosófica: O Pensamento de Nietzsche

Para entender melhor esses renascimentos simbólicos, podemos recorrer ao pensamento de Friedrich Nietzsche. Ele é conhecido por sua filosofia do eterno retorno e do "Übermensch" (super-homem), conceitos que, de certa forma, se alinham com a ideia de renascimento.

Nietzsche sugere que a vida é um ciclo constante de morte e renascimento, onde as dificuldades e desafios servem como catalisadores para nosso crescimento pessoal. Ele acredita que ao confrontar e superar os obstáculos da vida, nos tornamos mais fortes e nos aproximamos do ideal do "Übermensch". Esse conceito pode ser visto como um renascimento simbólico, onde a transformação pessoal é a chave para uma vida plena e autêntica.

Cotidiano e Transformações

Voltando ao nosso dia a dia, esses renascimentos simbólicos não precisam ser grandiosos ou dramáticos. Às vezes, um simples momento de introspecção pode ser suficiente. Imagine alguém que, após anos de correria e estresse, decide incorporar a meditação em sua rotina diária. Esse pequeno ato pode resultar em uma transformação significativa na maneira como essa pessoa lida com o estresse e se conecta consigo mesma.

Outros exemplos podem incluir a decisão de mudar hábitos alimentares, começar a praticar um novo esporte, ou até mesmo a adoção de um hobby que sempre teve vontade de explorar. Cada uma dessas ações, por menor que pareça, representa um renascimento simbólico, um passo em direção a uma versão renovada de si mesmo.

Renascimentos simbólicos são partes essenciais de nossas vidas. Eles nos permitem crescer, aprender e nos adaptar às mudanças inevitáveis que enfrentamos. Seja através de grandes decisões ou pequenas mudanças cotidianas, cada renascimento nos aproxima de uma versão mais autêntica e realizada de nós mesmos. Como Nietzsche sugere, é na superação dos desafios que encontramos a verdadeira essência do nosso ser, renascendo continuamente em busca do nosso potencial máximo.


terça-feira, 28 de março de 2023

Fiódor Dostoiévski, o desejo pela vida em forma de pensamentos

Ler é sempre uma oportunidade de ingressar num mundo novo, ler as obras de Dostoiévski são oportunidades únicas para uma mudança de pensamento e atitudes, sua vida tem muito a nos ensinar, é impossível ler suas obras e ao final sairmos como entramos ao folhear a primeira página, suas obras possuem um caráter psicológico determinante, sua alma está desnudada deixando transparecer seus traumas e alegrias, assim a partir de sua realidade podemos nos identificar com seus escritos até os dias de hoje.

Sua infância foi difícil, filho de pai severo ao extremo ele chegou a desejar a morte do pai, isto aconteceu, o pai foi assassinado possivelmente por seus empregados que eram maltratados, a morte do pai foi muito marcante na vida de Fiódor, ele acabou se culpando até o fim de sua vida. Esse fato foi muito estudado por Sigmund Freud em seu conhecido artigo “Dostoievski e o Parricídio” de 1928, objeto de estudo até hoje.

Ele foi militar, porem abandonou a carreira militar, tinha outras aspirações, Dostoievski atuou junto a um grupo socialista denominado Círculo Petrashevski que denunciava o abuso de poder cometido pelo governo autoritário do Tsar Nicolau I e em abril de 1849, como consequência do seu envolvimento com a política, foi preso e condenado à pena de morte, ele chegou a ser levado para o pátio de fuzilamento com outros presos, mas de última hora, sua condenação foi trocada por 5 anos de trabalhos forçados na Sibéria, onde permaneceu até 1854, este período na prisão foi muito traumático, ao ponto de levá-lo a relatar algumas de suas experiências na obra Memórias da Casa dos Mortos, publicada em 1862.

Dostoievski em sua vida amorosa foi marcada por amor e traição, dor causada por perdas e decepções, por último em 1867, Fiódor casou-se novamente. Sua segunda esposa foi Anna Grigoriévna, que era sua secretária e o auxiliou na produção do seu livro O Jogador, tornando-se um sucesso de vendas.

As obras de Dostoievski possuem uma profunda carga psicológica, provavelmente por isto seus personagens em sua maioria estão sempre questionando a validade da moral e da ética seus atos percorram uma linha tênue entre o bem e o mal, dentre os perfis dos protagonistas de suas obras temos pessoas doentes, sejam eles físicos ou mentais, donos de uma mente febril; infiéis; decadentes, criminosos; a angústia sempre percorre os seus pensamentos, provavelmente sua vida que foi difícil tenha sido refletida em suas obras, desde sua infância, a convivência com o pai extremamente severo, a perda da mãe ainda muito jovem, seu tempo de prisão, o trauma da sentença de morte que no derradeiro minuto a mudança para encarceramento por cinco anos numa prisão na Sibéria, as pessoas com que conviveu e conheceu ao longo de sua vida são retratos que serviram como base para suas reflexões e a biografia para seus livros, afinal a vida de cada um sempre tem histórias a serem contadas e se analisarmos bem a vida tem esta forma de ensinar, a vida de cada um é uma tônica que pode inspirar uma vida literária como inspirou a vida de Fiódor.

Suas principais obras foram: Memórias do Subsolo (1864); Crime e Castigo (1866); O Idiota (1869); Os Demônios (1872); Os Irmãos Karamazov (1881).

Sua escutatória habilidosa o permitiu ouvir a consciência dos humanos em suas dignidades, indignidades, ambiguidades e peculiaridades, isto o tornou um ser universal e atemporal, seus pensamentos condensados em frases tornaram-se símbolos
e meditações para aqueles que buscam uma luz no entendimento, o que nos legou foi trabalhado junto a natureza dos homens que estiveram presentes em seu convivio do cotidiano.

Então, alguma frases de Fiódor para refletir:

            A falta de liberdade não consiste jamais em estar segregado, e sim em estar em promiscuidade, pois o suplício inenarrável é não se poder estar sozinho.

A vida é um paraíso, mas os homens não o sabem e não se preocupam em sabê-lo.

A fé e as demonstrações matemáticas são duas coisas inconciliáveis.

Não será preferível corrigir, recuperar e educar um ser humano que cortar-lhe a cabeça?

Se alguém me provasse que Cristo está fora da verdade, e se realmente ficasse estabelecido que a verdade está fora de Cristo, eu preferiria Cristo à verdade.

Todas as mulheres sabem que os ciumentos são os primeiros a perdoar.

A verdadeira verdade é sempre inverossímil.

Não há assunto tão velho que não possa ser dito algo de novo sobre ele.

Podem ter a certeza de que não foi quando descobriu a América, mas sim quando estava a descobri-la, que Colombo se sentiu feliz.

Conhecemos um homem pelo seu riso; se na primeira vez que o encontramos ele ri de maneira agradável, o íntimo é excelente.

Quanto mais gosto da humanidade em geral, menos aprecio as pessoas em particular, como indivíduos.

Tenho de proclamar a minha incredulidade. Para mim não há nada de mais elevado que a ideia da inexistência de Deus. O homem inventou Deus para poder viver sem se matar.

Nem homem nem nação podem existir sem uma ideia sublime.

Às vezes o homem prefere o sofrimento à paixão.

A purificação pelo sofrimento é menos dolorosa que a situação que se cria a um culpado por uma absolvição impensada.

A tragédia e a sátira são irmãs e estão sempre de acordo; consideradas ao mesmo tempo, recebem o nome de verdade.

Nada serviu tanto o despotismo como as ciências e os talentos.

Não há ideia nem fato que não possam ser vulgarizados e apresentados a uma luz ridícula.

Aos olhos do artista, o público é um mal necessário; é preciso vencê-lo, nada mais.

A melhor definição que posso dar de um homem é a de um ser que se habitua a tudo.

O criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente.

Compara-se muitas vezes a crueldade do homem à das feras, mas isso é injuriar estas últimas.

A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz.

Todos somos responsáveis de tudo, perante todos.

Deus, no Céu, cada vez que vê um pecador o invocar com todo o coração tem a mesma alegria que uma mãe quando vê o primeiro sorriso no rosto do filho.

A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais.

Se queres vencer o mundo inteiro, vence-te a ti mesmo.

Se Deus não existisse, tudo seria permitido.

A beleza salvará o mundo.


Ler é abrir uma porta e uma janela, é ingressar num novo ambiente, o mundo de Fiódor se revela e nos conta como sua alma peregrinou em seu tempo e chegou até nós, sua mensagem nunca deixou de impressionar aqueles que o procuram.