Com a porta entreaberta para o cotidiano
Às
vezes, sem perceber, eu me flagro no meio da tarde olhando para o relógio não
para saber as horas, mas para medir o invisível: o tempo que resta, o tempo que
passou, o tempo que eu não vivi direito. É curioso como a vida, de tão cheia de
prazos, rotinas e expectativas, parece nos envolver num cerco silencioso — uma
espécie de cerca elétrica da temporalidade. Não dói ao toque, mas limita. É ali
que começa a inquietação: afinal, o que significa estar cercado de
temporalidade?
O
tempo como fronteira que anda
Filosoficamente,
a ideia de ser “cercado” remete a limitação, mas a temporalidade é uma
fronteira que se move conosco. Santo Agostinho, com sua mistura
de poesia e perplexidade, dizia que o tempo não existe fora da alma — passado é
memória, presente é atenção, futuro é expectativa. Ou seja: o cerco não está do
lado de fora, está dentro de nós. Somos cercados por aquilo que carregamos.
Mas,
no cotidiano, a sensação parece outra. O ônibus que atrasa, o prazo que vence,
o aniversário que chega rápido demais, a infância dos filhos que escorre entre
fotos — tudo isso sugere que o tempo está do lado de fora, empurrando,
comprimindo, exigindo.
É
aí que aparece a contradição fundamental: vivemos o tempo como se fosse
externo, embora ele só exista porque o interior o percebe.
A
temporalidade como arquitetura da experiência
Heidegger,
sempre com seu ar de quem sabe mais do que diz, entendia temporalidade como a
própria estrutura do ser-no-mundo: nós somos tempo. Não temos tempo; somos esse
fluxo de projeção, lembrança e presença que tenta se equilibrar entre
possibilidades.
Se
tomarmos isso para a vida concreta, dá para perceber a temporalidade como a
arqueologia da nossa existência: tudo o que fazemos se apoia em camadas de
já-feito e ainda-não-feito. Quando eu abro a geladeira à noite e encontro o
restinho de comida que deixei de manhã, há ali uma versão minha passada
acenando para mim — uma prova de que o tempo nunca se desprende totalmente,
apenas se reorganiza.
Nessa
perspectiva, estar cercado de temporalidade é estar atravessado por histórias,
intenções, repetições, arrependimentos e esperanças. É viver no entremeio.
O
cerco não como prisão, mas como condição
O
problema é que acostumamos chamar de cerco tudo o que limita. Mas a
temporalidade não limita por castigo; limita para possibilitar. N. Sri
Ram, em sua serenidade sempre voltada ao desenvolvimento interior,
lembrava que o tempo é um educador silencioso — ele revela o que realmente
importa e dissolve o que era só ruído.
O
tempo nos cerca para orientar. Ele oferece contornos, não muros. Sem
temporalidade, não haveria começo, nem maturação, nem revelação. Viver seria um
plano infinito sem relevo, sem textura, sem sentido.
No
cotidiano isso é fácil de sentir: o pão fresco da manhã só tem encanto porque
deixará de ser fresco; o abraço só tem calor porque não dura para sempre; a
decisão certa só é possível porque houve hesitação antes dela.
A
temporalidade funda o valor das coisas.
O
combate interior: quando o cerco aperta demais
É
claro que nem sempre percebemos esse valor. Às vezes o tempo pesa como dívida.
Aí começam os sintomas: pressa, ansiedade, nostalgia paralisante. A
temporalidade vira tirana, não educadora.
Mas
não é o tempo que aperta — somos nós que apertamos demais nossas expectativas.
Quando queremos controlar todos os ritmos, aceleramos ou desaceleramos o cerco,
estrangulando a própria experiência.
Ficar
cercado de temporalidade, nesses momentos, é como viver cercado de espelhos:
cada gesto refletido em mil versões do que já foi ou poderia ter sido.
A
saída do cerco
Se
há saída, ela não está em fugir do tempo, mas em reconciliar-se com ele. Isso
pode acontecer de forma simples: quando sentamos um pouco mais devagar; quando
deixamos uma conversa não ter pressa; quando aceitamos que não seremos hoje
quem imaginamos ontem; quando percebemos que os intervalos — sim, aqueles
silêncios desconfortáveis — também fazem parte da música.
Reconciliação
com o tempo é aceitar que o cerco não é inimigo, mas terreno fértil. É viver
sabendo que cada instante é limite e possibilidade ao mesmo tempo.
Entre
muros móveis
Estar
cercado de temporalidade não é viver cercado por muros, mas por movimento. O
tempo não cria prisão; cria passagem. Ele não exige fuga; exige presença.
E
talvez o ponto mais humano desse cerco seja justamente o fato de que não há
como rompê-lo — apenas atravessá-lo continuamente, como quem caminha numa rua
onde o vento sopra dos dois lados ao mesmo tempo.
Afinal,
o tempo não nos segura: ele nos faz ser.

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