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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Ideia de Infinidade

Tentei imaginar o infinito, eu estava olhando para o céu num fim de tarde qualquer. As nuvens passavam, o azul parecia não acabar, e minha cabeça simplesmente desistiu. O infinito não cabe. Ele escorre pelos cantos do pensamento.

No cotidiano, a gente vive cercado de infinitos disfarçados. A fila do banco quando estamos com pressa. As notificações que nunca acabam. A promessa silenciosa de que amanhã vou começar “uma vida nova” — como se houvesse um número ilimitado de versões minhas esperando na gaveta do tempo.

O curioso é que o infinito não é apenas grande demais; ele é, sobretudo, incômodo. Porque nos lembra que não controlamos o todo. Posso contar moedas, passos, dias, mas não consigo contar possibilidades. Cada escolha que faço abre um corredor invisível de escolhas que deixei de fazer. Um pequeno infinito pessoal.

Na matemática, o infinito é elegante. Na vida, ele é meio bagunçado. Está no amor que promete “para sempre”, no luto que parece não terminar, no desejo que nunca se satisfaz por completo. O infinito, no fundo, é a nossa incapacidade de fechar a experiência com um ponto final.

Às vezes penso que buscamos o infinito não por ambição, mas por medo. Medo de que tudo acabe simples demais. Que sejamos apenas um parágrafo curto num livro muito grosso.

O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos dizia que o infinito não é algo que se alcança, mas algo que se pressente. E talvez seja isso: o infinito não mora no espaço, mora na intuição. Ele aparece quando a gente percebe que a realidade é maior do que nossas explicações.

No café da manhã, quando a xícara acaba, o café acaba. Mas a conversa não. A memória não. A saudade não. A pergunta “e se?” não. O infinito começa justamente aí: onde as coisas visíveis terminam e as invisíveis continuam trabalhando em silêncio.

No fim das contas, talvez a ideia de infinidade não seja sobre o universo, mas sobre nós. Sobre essa estranha certeza de que somos finitos — e, mesmo assim, insistimos em pensar como se não fôssemos.

E é nessa contradição que o infinito respira.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Reconciliação Com os Limites


Demorei para entender que limite não é derrota. No começo, ele aparece como frustração: o corpo que cansa, o tempo que falta, a inteligência que não alcança tudo, o dinheiro que impõe fronteiras, o outro que diz “não”. A sensação inicial é sempre a mesma — se eu me esforçasse mais, isso não estaria aqui. Mas os limites insistem. Eles não vão embora.

A reconciliação começa quando percebo que o limite não está ali para me humilhar, mas para me situar. Ele é como a borda da mesa: não serve para impedir o jantar, mas para que ele aconteça sem que tudo caia no chão. No cotidiano isso é claro, embora a gente finja não ver. O profissional que aceita que não dá conta de tudo trabalha melhor. O pai ou a mãe que reconhece a própria falha educa com mais humanidade. O amigo que assume que não sabe ouvir em certos dias evita ferir sem querer.

Há algo profundamente moderno na recusa dos limites. Vivemos como se tudo fosse possível, o tempo todo. Resultado: exaustão, comparação infinita, culpa crônica. A reconciliação é quase um ato de rebeldia silenciosa. É dizer: isso eu posso, isso não posso — e está tudo bem. Não como desistência, mas como clareza.

Lembro de uma ideia muito simples, mas poderosa, de Rubem Alves: a de que maturidade não é acumular possibilidades, mas aprender a escolher — e toda escolha implica perda. Só quem aceita perder consegue, de fato, habitar o que escolheu. O limite, então, deixa de ser muro e vira moldura. É ele que dá forma ao sentido.

Reconciliação com os limites não é resignação amarga. É amizade. É parar de lutar contra o que não sou para finalmente cuidar do que sou. Curiosamente, é nesse ponto que algo se expande. Quando aceito o tamanho da minha casa, começo a arrumá-la melhor. Quando aceito minha finitude, o tempo ganha peso. Quando aceito meus limites, a vida fica menos ruidosa — e mais verdadeira.

No fundo, talvez crescer seja isso: parar de sonhar em ser infinito e começar a viver bem dentro do possível, principalmente quando passamos dos sessenta!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Cercado de Temporalidade

Com a porta entreaberta para o cotidiano

Às vezes, sem perceber, eu me flagro no meio da tarde olhando para o relógio não para saber as horas, mas para medir o invisível: o tempo que resta, o tempo que passou, o tempo que eu não vivi direito. É curioso como a vida, de tão cheia de prazos, rotinas e expectativas, parece nos envolver num cerco silencioso — uma espécie de cerca elétrica da temporalidade. Não dói ao toque, mas limita. É ali que começa a inquietação: afinal, o que significa estar cercado de temporalidade?

 

O tempo como fronteira que anda

Filosoficamente, a ideia de ser “cercado” remete a limitação, mas a temporalidade é uma fronteira que se move conosco. Santo Agostinho, com sua mistura de poesia e perplexidade, dizia que o tempo não existe fora da alma — passado é memória, presente é atenção, futuro é expectativa. Ou seja: o cerco não está do lado de fora, está dentro de nós. Somos cercados por aquilo que carregamos.

Mas, no cotidiano, a sensação parece outra. O ônibus que atrasa, o prazo que vence, o aniversário que chega rápido demais, a infância dos filhos que escorre entre fotos — tudo isso sugere que o tempo está do lado de fora, empurrando, comprimindo, exigindo.

É aí que aparece a contradição fundamental: vivemos o tempo como se fosse externo, embora ele só exista porque o interior o percebe.

 

A temporalidade como arquitetura da experiência

Heidegger, sempre com seu ar de quem sabe mais do que diz, entendia temporalidade como a própria estrutura do ser-no-mundo: nós somos tempo. Não temos tempo; somos esse fluxo de projeção, lembrança e presença que tenta se equilibrar entre possibilidades.

Se tomarmos isso para a vida concreta, dá para perceber a temporalidade como a arqueologia da nossa existência: tudo o que fazemos se apoia em camadas de já-feito e ainda-não-feito. Quando eu abro a geladeira à noite e encontro o restinho de comida que deixei de manhã, há ali uma versão minha passada acenando para mim — uma prova de que o tempo nunca se desprende totalmente, apenas se reorganiza.

Nessa perspectiva, estar cercado de temporalidade é estar atravessado por histórias, intenções, repetições, arrependimentos e esperanças. É viver no entremeio.

 

O cerco não como prisão, mas como condição

O problema é que acostumamos chamar de cerco tudo o que limita. Mas a temporalidade não limita por castigo; limita para possibilitar. N. Sri Ram, em sua serenidade sempre voltada ao desenvolvimento interior, lembrava que o tempo é um educador silencioso — ele revela o que realmente importa e dissolve o que era só ruído.

O tempo nos cerca para orientar. Ele oferece contornos, não muros. Sem temporalidade, não haveria começo, nem maturação, nem revelação. Viver seria um plano infinito sem relevo, sem textura, sem sentido.

No cotidiano isso é fácil de sentir: o pão fresco da manhã só tem encanto porque deixará de ser fresco; o abraço só tem calor porque não dura para sempre; a decisão certa só é possível porque houve hesitação antes dela.

A temporalidade funda o valor das coisas.

 

O combate interior: quando o cerco aperta demais

É claro que nem sempre percebemos esse valor. Às vezes o tempo pesa como dívida. Aí começam os sintomas: pressa, ansiedade, nostalgia paralisante. A temporalidade vira tirana, não educadora.

Mas não é o tempo que aperta — somos nós que apertamos demais nossas expectativas. Quando queremos controlar todos os ritmos, aceleramos ou desaceleramos o cerco, estrangulando a própria experiência.

Ficar cercado de temporalidade, nesses momentos, é como viver cercado de espelhos: cada gesto refletido em mil versões do que já foi ou poderia ter sido.

 

A saída do cerco

Se há saída, ela não está em fugir do tempo, mas em reconciliar-se com ele. Isso pode acontecer de forma simples: quando sentamos um pouco mais devagar; quando deixamos uma conversa não ter pressa; quando aceitamos que não seremos hoje quem imaginamos ontem; quando percebemos que os intervalos — sim, aqueles silêncios desconfortáveis — também fazem parte da música.

Reconciliação com o tempo é aceitar que o cerco não é inimigo, mas terreno fértil. É viver sabendo que cada instante é limite e possibilidade ao mesmo tempo.

 

Entre muros móveis

Estar cercado de temporalidade não é viver cercado por muros, mas por movimento. O tempo não cria prisão; cria passagem. Ele não exige fuga; exige presença.

E talvez o ponto mais humano desse cerco seja justamente o fato de que não há como rompê-lo — apenas atravessá-lo continuamente, como quem caminha numa rua onde o vento sopra dos dois lados ao mesmo tempo.

Afinal, o tempo não nos segura: ele nos faz ser.

sábado, 29 de novembro de 2025

Sorte Revela


Você já parou para pensar que a sorte, aquela que chamamos de “acaso”, pode ser uma grande professora? Eu já pensei! Muitas vezes, vemos eventos inesperados como simples coincidências ou, pior, como injustiças. Mas e se esses acontecimentos tivessem algo a nos dizer sobre nós mesmos e sobre o mundo ao nosso redor? Vamos pensar um pouco...

Pense naquele dia em que você perdeu o ônibus, mas acabou encontrando alguém que não via há anos. Ou quando um contratempo aparentemente ruim abriu espaço para algo melhor. A vida cotidiana está cheia dessas pequenas surpresas — e cada uma delas carrega uma mensagem, se estivermos atentos.

A chave está na percepção. Não se trata de acreditar que tudo está predestinado, mas de desenvolver sensibilidade para enxergar oportunidades escondidas nos eventos que parecem aleatórios. A sorte, então, deixa de ser mero capricho do destino e se torna um alerta: preste atenção, reflita, aprenda.

Como disse um filósofo moderno, “o acaso não é inimigo; é espelho”. Ele nos mostra nossas próprias expectativas, medos e desejos. Um encontro fortuito, uma perda inesperada ou uma oportunidade inesperada podem ser sinais para reconsiderar nossas escolhas, ajustar o rumo e crescer.

Na prática, isso significa transformar pequenos incidentes em aprendizado. Perder um ônibus pode se tornar um momento de contemplação no caminho a pé; um erro no trabalho, uma oportunidade de rever prioridades; um encontro casual, o início de uma nova amizade. A sorte, quando revelada, não é aleatória: é um convite à consciência.

No fim, perceber a sorte é perceber a vida. Cada detalhe inesperado é uma chance de aprender, ajustar e viver com mais atenção e gratidão.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Saber o Futuro


Outro dia, enquanto esperava um amigo num café, notei uma senhora jogando cartas de tarô para uma cliente atenta. O ambiente tinha aquele ar de mistério misturado com aroma de café fresco. A cliente olhava fixamente para as cartas, como se, ao decifrar aqueles símbolos enigmáticos, pudesse antecipar o que lhe aguardava. Fiquei ali pensando: por que a ideia de saber o futuro nos fascina tanto?

Desde tempos imemoriais, a humanidade tenta desvendar o que está por vir. Oráculos gregos, astrologia, profecias religiosas, inteligência artificial prevendo tendências – a busca pela previsibilidade atravessa eras e culturas. Mas por que essa obsessão? Talvez porque o futuro represente o grande desconhecido, e conhecer o desconhecido é uma forma de controle. Se soubéssemos o que vai acontecer, talvez pudéssemos evitar tragédias, tomar melhores decisões ou, no mínimo, preparar-nos psicologicamente.

Porém, a possibilidade de saber o futuro também carrega um paradoxo: se o futuro já está determinado e pode ser conhecido, onde fica o livre-arbítrio? Se uma previsão é infalível, então nossa liberdade é apenas uma ilusão? Este dilema já inquietava os antigos estoicos, que acreditavam num destino inescapável, e também preocupou Santo Agostinho, que buscou conciliar a onisciência divina com a liberdade humana.

Por outro lado, se o futuro for apenas um campo de possibilidades abertas, então toda tentativa de predizê-lo é em vão. A filosofia existencialista de Sartre defenderia que o ser humano está condenado à liberdade, ou seja, sempre tem escolha e sempre está criando o futuro a partir do presente. Esse pensamento talvez nos liberte do medo do destino, mas também impõe uma grande responsabilidade: somos os artesãos do nosso próprio caminho, sem mapas garantidos.

Talvez a nossa busca por saber o futuro seja, no fundo, um desejo de aliviar a angústia da incerteza. Mas, paradoxalmente, é essa mesma incerteza que dá sabor à vida. Se soubéssemos exatamente como tudo vai acontecer, restaria algum encanto na jornada? A vida, como um romance, precisa do inesperado para ser emocionante. E talvez o maior mistério não seja saber o futuro, mas sim aprender a viver bem no presente.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Certeza Dúbia

O paradoxo que move

Vivemos tempos em que se espera que tenhamos certezas sobre tudo. O que queremos ser, o que pensamos sobre o mundo, de que lado estamos. E, no entanto, existe algo mais comum – e mais honesto – do que a dúvida escondida dentro das nossas convicções? A certeza dúbia é esse estado híbrido, quase poético, em que seguimos agindo como se soubéssemos, mesmo quando o chão sob nossos pés range como tábua velha.

Acordamos com o despertador e temos certeza de que precisamos ir trabalhar, mas lá no fundo a dúvida existe: “É isso mesmo que eu quero fazer da minha vida?”
Dizemos que amamos alguém, e amamos, sim, mas em certos silêncios ou ausências nos perguntamos: “Será que isso é amor ou apego?”

Vamos ao supermercado com a certeza de que não vamos comprar besteira, mas passamos pelo corredor dos chocolates e algo dentro de nós diz: “Só esse hoje...”

Essa é a matéria da qual somos feitos: um entrelaçado de segurança e hesitação. Não somos máquinas que seguem comandos; somos seres que vivem entre apostas e possibilidades. A certeza nunca é absoluta, e talvez isso seja bom. Porque é esse grau de incerteza que nos permite mudar de ideia, pedir desculpas, crescer, recomeçar.

Na vida profissional, muitos dizem ter “certeza” de sua vocação. Mas quantas vezes essa certeza é sustentada apenas pelo tempo investido, pelo medo da mudança ou pelas expectativas alheias? Um médico que sempre sonhou ser músico. Uma advogada que carrega cadernos cheios de poemas escondidos no fundo da gaveta. A dúvida pode até incomodar, mas a certeza rígida demais sufoca.

Na esfera pessoal, o mesmo se repete. Temos certeza de quem somos — até que uma experiência nova, um livro lido por acaso, uma conversa no fim de tarde, muda o jeito como vemos tudo. Somos seres em construção, mas fingimos já estar prontos.

O filósofo francês Edgar Morin defende a ideia da complexidade: a vida não é feita de opostos puros, mas de misturas. A certeza dúbia é isso — um retrato da complexidade humana. Não é contradição; é profundidade. E é justamente nessa profundidade que mora a verdade mais viva.

Podemos aprender a não ter medo da dúvida. Ter dúvidas não nos enfraquece; nos torna mais atentos. A certeza dúbia nos impede de cair no fanatismo, nos obriga a escutar o outro, e a escutar a nós mesmos de novo. Ela é incômoda, sim, mas é também um convite à honestidade.

Agir mesmo com dúvidas não é fraqueza, é coragem. É fazer o melhor possível com as ferramentas de agora, sabendo que talvez amanhã sejamos outras pessoas. A vida exige esse tipo de firmeza flexível, como o bambu que enverga sem quebrar.

No fim, talvez a certeza dúbia não seja uma falha, mas uma virtude. Um sinal de que estamos vivos, abertos, atentos. E que seguimos em frente — com o coração firme e os olhos abertos.


terça-feira, 23 de setembro de 2025

Vertigem da Inação

Com os pés no chão e os olhos na queda

Há dias em que a gente acorda, mas não desperta. O corpo levanta, mas a alma continua deitada. É como se o mundo lá fora estivesse em alta velocidade, e nós estivéssemos congelados na calçada, vendo tudo passar sem conseguir atravessar a rua. Não é preguiça, tampouco desinteresse. É uma espécie de vertigem silenciosa — a vertigem da inação.

Tomar café, abrir o e-mail, deixar os pratos na pia, olhar o celular, não responder. O dia vai se desenrolando sem que nada realmente aconteça. Não porque faltam tarefas, mas porque falta algo mais difícil de nomear: o ímpeto de agir. A decisão parece um penhasco. Qualquer escolha é um salto. E então ficamos, presos ao corrimão da hesitação.

Søren Kierkegaard, filósofo dinamarquês do século XIX, falou sobre esse tipo de abismo. Para ele, a angústia é a vertigem da liberdade: o momento em que nos deparamos com o leque infinito de possibilidades e, em vez de nos sentirmos poderosos, somos tomados por uma espécie de tontura existencial. A liberdade assusta porque exige responsabilidade. E agir é sempre se arriscar a errar.

Na vida cotidiana, isso aparece de formas sutis. A jovem que sonha mudar de carreira, mas não consegue pedir demissão. O estudante que estuda tanto o melhor jeito de estudar que nunca começa. O casal que sabe que algo precisa ser dito, mas permanece no silêncio incômodo da rotina. Todos experimentam essa vertigem. Não estão exatamente parados — estão paralisados.

E tem também a versão tragicômica da coisa. Quem nunca passou uma hora inteira escolhendo um filme e, quando finalmente escolhe, já está tarde demais para assistir? Ou a clássica situação de olhar para a geladeira cheia, não saber o que fazer com nada e pedir delivery mais uma vez, como se a indecisão culinária fosse um drama shakespeareano? Rimos, mas no fundo sabemos: às vezes, somos mestres na arte de fugir da escolha como quem foge de um monstro.

O paradoxo é que a inação também é uma forma de ação. Adiar, evitar, esperar, fugir — são escolhas camufladas de passividade. Cada vez que deixamos de agir, afirmamos algo: que não estamos prontos, que não confiamos no caminho, que preferimos a zona morna da dúvida à zona incerta do risco.

E no entanto, a vida continua. Os prazos vencem, os ônibus partem, as mensagens não respondidas envelhecem. Há um preço na não-ação: o tempo não espera. Como numa fila de supermercado que avança mesmo se você estiver distraído, a vida nos empurra para frente mesmo quando estamos imóveis.

Mas nem tudo é perda. Às vezes, a vertigem da inação é também um chamado à escuta. Um alerta de que estamos desconectados de algo essencial. Talvez, como dizia Kierkegaard, seja preciso atravessar essa angústia para então agir com mais verdade. Agir não por impulso ou obrigação, mas por consciência.

A saída, então, não é fugir da vertigem — é olhá-la de frente. Reconhecer que o abismo existe, mas que ele também pode ser uma ponte. Entre a hesitação e o movimento há um momento precioso: aquele em que, apesar do medo, decidimos dar um passo. E às vezes, tudo o que a vida pede da gente é isso: um primeiro passo.


terça-feira, 20 de maio de 2025

Zero e Nada

 


O valor secreto do zero e do nada

Outro dia, enquanto esperava o sinal abrir, reparei num grafite na parede: um enorme “0” rabiscado, quase como um protesto. Curioso como um simples círculo pode carregar tanto silêncio e, ao mesmo tempo, tanto significado. Ali, parado entre buzinas e mensagens não lidas, me dei conta: o zero e o nada, esses personagens invisíveis da existência, têm mais valor do que costumamos perceber.

Estamos acostumados a valorizar o cheio: uma conta bancária recheada, uma agenda lotada, uma casa com todos os cômodos ocupados. O nada, por outro lado, parece assustar. Zero parece fracasso. E, no entanto, o zero é condição de possibilidade. Como nos lembra o filósofo francês Gaston Bachelard, em A Intuição do Instantâneo, é no intervalo vazio que a mudança acontece. O nada não é ausência absoluta, mas espaço para o vir-a-ser.

Na matemática, o zero não representa apenas o “nenhum”; ele é marco de origem, ponto de referência, equilíbrio entre positivos e negativos. Sem ele, as contas se perderiam. No tempo, o zero é a aurora de todas as possibilidades. E no pensamento, o nada é o repouso necessário para o surgimento de uma nova ideia. Quem nunca teve um “branco” antes de uma inspiração súbita?

Bachelard nos ensina que o instante criador nasce da ruptura, não da continuidade. O nada, então, é ruptura fecunda. Quando dizemos “não sei”, estamos abrindo uma clareira para o saber. Quando dizemos “não tenho nada a perder”, abrimos espaço para agir sem medo. O zero é coragem de começar do começo.

Nas relações, também é assim. Às vezes, precisamos zerar as expectativas, silenciar os ruídos, aceitar o “nada acontecendo” para que algo novo possa surgir. O afeto verdadeiro não é barulhento — ele se acomoda no intervalo das palavras, no gesto não dito, no tempo que se dá sem pressa.

Na correria do dia a dia, esquecemos que o valor não está só no acúmulo. Uma sala vazia pode ser mais acolhedora que uma abarrotada. Uma pausa no meio do caos pode valer mais que um dia inteiro preenchido por obrigações. O nada tem peso, tem densidade. O zero é um tipo de presença discreta — como uma vírgula no texto da vida, indicando que algo ainda está por vir.

Talvez o grafite na parede estivesse dizendo isso. Que às vezes, tudo começa com o zero. Com o nada que ainda não foi contaminado pelo excesso. Com o espaço limpo de expectativas, onde a existência pode, enfim, respirar.

Você já parou para valorizar o que não está lá?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Filosofia da Sombra

O que Escolhemos Não Ser

Outro dia, observando uma vitrine qualquer, me peguei imaginando como seria minha vida se tivesse escolhido outra profissão, outro lugar para viver, outra forma de ser. É um pensamento comum, mas que logo desvia para um território pouco explorado: não apenas o que poderia ter sido, mas o que escolhi não ser.

Nosso tempo é obcecado pela identidade. Livros de autoajuda, discursos motivacionais e até o algoritmo das redes sociais giram em torno da ideia de descobrir quem você é. Mas e se, ao invés de perguntar "quem sou eu?", perguntássemos "quem não sou?" ou "quem escolhi não ser?" A identidade pode não ser apenas aquilo que abraçamos, mas também o que rejeitamos – e é essa sombra, esse rastro de vidas não vividas, que nos molda silenciosamente.

A Identidade Negativa

A identidade, como geralmente pensamos, é construída por afirmação: "sou isso", "faço aquilo", "acredito nisso". Mas ela também se forma por negação: "não sou isso", "nunca faria aquilo", "jamais acreditaria nisso". Desde pequenos, traçamos limites invisíveis entre aquilo que aceitamos ser e o que deixamos para trás. Cada escolha não é apenas um caminho seguido, mas um leque de possibilidades descartadas.

Esse fenômeno fica evidente em decisões grandes, como a escolha de uma carreira. O médico que nunca foi músico. O professor que jamais foi atleta. O advogado que poderia ter sido cineasta. Mas ele também está nas pequenas escolhas do dia a dia. O "não vou responder essa provocação". O "não quero ser essa pessoa".

Seríamos capazes de definir uma vida inteira apenas pelo que uma pessoa não foi? Talvez. Pense em alguém que passou a vida fugindo de conflitos, rejeitando riscos, evitando envolvimentos. Essa identidade negativa moldou sua existência tanto quanto qualquer decisão afirmativa.

A Sombra e o Eu

Carl Jung falava da "sombra" como o lado oculto da psique, aquilo que reprimimos ou negamos em nós mesmos. Mas aqui, a ideia da sombra vai além do inconsciente. Não se trata apenas de desejos reprimidos, mas de tudo aquilo que, consciente ou inconscientemente, deixamos de ser.

Toda escolha carrega uma perda. Ao decidir seguir um caminho, não apenas escolhemos um destino, mas deixamos de trilhar todos os outros. Será que nossa sombra – esse espectro de vidas não vividas – se acumula silenciosamente, nos observando de longe?

Se sim, como lidar com ela? Alguns vivem atormentados pelas possibilidades que não seguiram, sentindo-se aprisionados pelas decisões tomadas. Outros fazem as pazes com suas sombras, reconhecendo que são parte essencial do que são.

O Peso das Escolhas

Nietzsche dizia que deveríamos viver de forma a desejar o eterno retorno: escolher cada ato como se fôssemos repeti-lo infinitamente. Mas essa perspectiva pode ser angustiante. Afinal, como ter certeza de que nossas escolhas são as certas? Talvez devêssemos perguntar não apenas o que escolhemos ser, mas o que escolhemos não ser – e se essa sombra é um peso ou um alívio.

Na vida, nunca seremos tudo o que poderíamos ter sido. Mas talvez seja justamente essa ausência que dá forma ao que realmente somos.