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sábado, 27 de setembro de 2025

Mergulhar nas Sombras

Na visão de Nietzsche

Há momentos em que a luz ofusca mais do que ilumina. Nessas horas, não é incomum preferirmos o recuo, a sombra, o silêncio de um quarto fechado — não como fuga, mas como preparação. Friedrich Nietzsche, o filósofo que dançou com o abismo e chamou a si mesmo de dinamite, enxergava as sombras não como o lado obscuro da vida a ser evitado, mas como território fértil para a criação de sentido.


No dia a dia, evitamos o desconforto: desviamos da tristeza, racionalizamos a raiva, abafamos o tédio com distrações. Mas Nietzsche nos propõe algo radical:
abraçar esses estados. Não para sofrer por sofrer, mas porque só quem mergulha nas profundezas pode retornar com algo novo — como um pescador que só encontra pérolas nos fundos escuros do mar.

Ele dizia: “É necessário ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.” O caos de que fala não é destruição gratuita, mas o tumulto interno que sentimos quando questionamos valores herdados, quando perdemos uma fé antiga, quando nos damos conta de que o mundo não tem garantias. Nesse caos, há potência.

Imagine alguém que perde o emprego. A sombra chega: insegurança, dúvidas, sensação de fracasso. Mas se essa pessoa resistir ao impulso de fugir e, em vez disso, olhar para o vazio, talvez descubra uma vocação esquecida, uma habilidade desprezada, um novo caminho. A sombra revelou não um fim, mas um começo.

Nietzsche não acreditava em verdades absolutas nem em morais fixas. Para ele, quem deseja realmente viver deve estar disposto a se reinventar, e essa reinvenção exige atravessar desertos internos. Nada de fórmulas prontas, nada de atalhos. Como ele mesmo sugeriu: “Torna-te quem tu és.” Mas quem somos não está à vista — está oculto, em parte, nas sombras que evitamos.

Então, quando a escuridão aparecer — aquela tristeza sem nome, aquele desconforto diante da rotina, aquele vazio no domingo à tarde — talvez não seja o caso de acender todas as luzes. Talvez seja hora de mergulhar, como Nietzsche, e escutar o que as sombras têm a dizer. Afinal, é do fundo da noite que surgem as estrelas dançantes.


domingo, 7 de setembro de 2025

Incoerências da Visão

O Olho que Engana e o Mundo que Foge

A visão costuma ser tratada como o mais confiável dos sentidos. É a primeira prova que apresentamos para atestar algo: “Eu vi com meus próprios olhos”. No entanto, o ato de ver é atravessado por incoerências sutis — e às vezes cruéis — que revelam que enxergar não é sinônimo de conhecer.

O filósofo brasileiro José Arthur Giannotti, ao refletir sobre percepção e linguagem, nos lembra que não vemos as coisas “nuas”, mas sempre filtradas por categorias, expectativas e hábitos. O olho não é uma câmera objetiva, mas um intérprete apressado. É por isso que duas pessoas podem presenciar o mesmo acidente e descrever cenas diferentes: o que a visão captou foi imediatamente moldado por memórias, medos e interesses.

No cotidiano, essa incoerência aparece nos gestos mais simples. Ao procurar as chaves que estão “bem na frente”, passamos os olhos várias vezes pelo lugar, mas não as vemos — até que, de repente, elas “surgem” no campo visual. Não foi mágica: foi o cérebro ignorando informações que, no momento, julgou irrelevantes. O mesmo vale para encontros: um amigo passa na rua, a dois metros de distância, e só depois de alguns segundos nos damos conta de que era ele. A visão não falhou no sentido físico; falhou na coerência entre dado e interpretação.

Há também incoerências mais profundas, quando o que vemos contradiz o que acreditamos. O pôr do sol, por exemplo, parece indicar que o sol se move e a Terra está parada. Milênios de ciência não mudam a impressão imediata — e, nesse caso, vemos o falso com mais nitidez que o verdadeiro.

Giannotti nos convidaria a assumir essa instabilidade não como fraqueza, mas como abertura. Se a visão é incoerente, é porque o mundo é mais complexo do que um único ponto de vista pode captar. Assim, o olho que engana também é o olho que possibilita: o erro nos força a interrogar o que julgávamos óbvio.

Talvez o maior risco não seja a incoerência em si, mas a confiança cega na visão como juiz absoluto. Ao esquecer que ver é sempre interpretar, caímos na armadilha de tomar imagens — e narrativas visuais — como verdades sólidas. Na era das telas e das manipulações digitais, essa ingenuidade se torna ainda mais perigosa.

O olho, afinal, não nos entrega o mundo. Ele nos entrega um esboço, que completamos com memória, desejo e imaginação. É nessa mistura, incoerente e fascinante, que vivemos.


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Contrato Social

Visão Contemporânea do Contrato Social

Todo mundo já assinou contrato sem ler. Seja na hora de comprar um celular, alugar um apartamento ou baixar um aplicativo. A gente rola a tela, clica em “aceito” e segue a vida. O curioso é que, em certo sentido, a vida em sociedade funciona do mesmo jeito: há um contrato social tácito que todos nós “aceitamos”, mesmo sem ter lido as letras miúdas.

Esse contrato não está impresso em papel timbrado nem reconhecido em cartório. Ele se manifesta quando paramos no sinal vermelho, quando respeitamos a fila do mercado, quando sabemos que não podemos atravessar a cidade tocando música em volume máximo de madrugada. São regras silenciosas que permitem a convivência entre diferentes.

O filósofo Jean-Jacques Rousseau tornou célebre essa ideia ao afirmar que, para escapar da selva de interesses individuais, os homens decidiram se unir em um pacto que não anula a liberdade, mas a transforma em liberdade civil. Em vez de viver submetido apenas à força bruta, o indivíduo passa a viver segundo leis criadas por todos. O paradoxo é bonito: ao abrir mão de uma parte da liberdade natural, ganhamos uma liberdade maior, sustentada pela coletividade.

Na prática, isso aparece o tempo todo. No trânsito, quando paramos diante de uma faixa de pedestres, cumprimos o pacto de que a vida do outro tem valor. Já quando alguém fura o sinal ou dirige bêbado, rompe o acordo e põe todos em risco. No trabalho, respeitar horários, dividir responsabilidades e reconhecer o esforço alheio é parte do contrato invisível que sustenta a confiança no ambiente coletivo. Quando alguém burla essas regras, mina o espírito de cooperação. E nas redes sociais, embora não pareça, também vigora um contrato: falar, discordar, compartilhar — tudo isso faz parte da liberdade, mas sem transformar a tela em campo de agressão, pois o pacto social não desaparece só porque estamos atrás de um avatar.

Mas esse contrato contemporâneo enfrenta rachaduras. Cresce o individualismo, e muitos preferem usufruir das vantagens do pacto sem reconhecer os deveres. A pergunta que Rousseau fez no século XVIII continua atual: como manter a liberdade individual sem destruir a base comum que a sustenta?

O pensador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda ajuda a iluminar essa questão ao lembrar, em Raízes do Brasil, que o “homem cordial” nem sempre respeita o contrato social, pois tende a privilegiar laços pessoais em detrimento das regras impessoais. O desafio brasileiro, portanto, é tornar efetivo o pacto num país onde a amizade, a simpatia ou o “jeitinho” muitas vezes se sobrepõem ao cumprimento da lei.

O contrato social, longe de ser um acordo assinado no passado, é uma negociação viva. Ele depende de cada gesto cotidiano, de cada escolha ética, de cada reconhecimento do outro como parte do mesmo pacto. Afinal, viver junto nunca é automático: é sempre uma tarefa em andamento.


segunda-feira, 23 de junho de 2025

Vazamento Temporal

Evidências do Que Ainda Não Ocorreu!

Há dias em que a gente acorda com a estranha sensação de que "algo" está para acontecer. Não há nenhuma mensagem no celular, nenhum e-mail suspeito, nenhum recado no espelho do banheiro. E, mesmo assim, o corpo sabe. O pensamento lateja de leve, o olho desvia do caminho habitual, e o mundo parece inclinar-se para o lado de um futuro que ainda não chegou — mas que já se anuncia em pequenos sinais.

Será possível encontrar evidências do que ainda não aconteceu? Ou melhor: será que o futuro deixa rastros no presente, tal como o cheiro da chuva que ainda não caiu?

A lógica comum diria que não: que o futuro, por definição, não existe e, portanto, não pode se manifestar. Mas nossa experiência cotidiana desmente esse raciocínio puro. O corpo antecipa um tropeço segundos antes do sapato escorregar; a intuição avisa que aquele velho amigo vai ligar, e ele liga mesmo. Não são dons mágicos — são microevidências: gestos, ritmos, silêncios, cheiros, vibrações que escorregam pelas frestas do tempo, revelando o que virá.

Na vida prática, essas evidências do não-ocorrido aparecem sem cerimônia. O mecânico que ouve um som diferente no carro e já prevê a pane; o professor que sente, pela forma como o aluno fecha o caderno, que ele não voltará na próxima aula; a mãe que sabe, só pelo silêncio do filho, que ele esconde alguma coisa importante. O futuro não é um desconhecido absoluto: ele é tecido a partir de fragmentos já visíveis.

Mas é aqui que entra uma provocação filosófica decisiva: David Hume, no século XVIII, já alertava que o hábito é o grande criador de ilusões sobre o futuro. Para Hume, não temos garantia alguma de que o amanhã repetirá o hoje — apenas uma tendência psicológica, fruto da repetição, de esperar que o sol nasça novamente, que a água apague o fogo, que as pedras caiam se largadas no ar. Para ele, toda previsão do futuro é um ato de fé disfarçado de certeza, pois a conexão necessária entre causa e efeito nunca é observável — só suposta.

Assim, quando achamos ver evidências do que ainda não ocorreu, talvez estejamos apenas projetando velhos padrões em situações novas. O mecânico ou a mãe não têm acesso a um futuro real: eles apenas aplicam memórias passadas a um presente estranho. E no entanto — e este é o paradoxo — muitas vezes acertam. Hume nos adverte: o futuro é uma aposta, não um conhecimento.

As ideias de Hume me remetem a pensar sobre conselhos sobre causa e consequência, seja para um filho quando aconselhamos a afastar-se das más companhias, do amigo que tem uma queda pela bebida alcoólica, e assim por diante, presumimos que algo dará errado e quando dá, percebemos o vislumbre da lógica do cotidiano em mais um vislumbre do vazamento temporal.

Mas nem só de razão vive o pensamento. Aqui entra uma outra chave possível, vinda da psicologia profunda de Carl Gustav Jung. Para Jung, o universo não é só feito de causas e efeitos mecânicos, mas também de sentidos ocultos, de ligações simbólicas. Seu conceito de sincronicidade descreve justamente esses casos em que um acontecimento no mundo exterior coincide de modo significativo com um estado interior da alma — sem relação causal aparente.

Quando alguém sonha com um velho amigo e ele, inesperadamente, telefona no dia seguinte; quando uma palavra esquecida aparece repetida em vários lugares num mesmo dia — não são previsões baseadas em probabilidade, mas manifestações de um campo simbólico maior, talvez do próprio inconsciente coletivo. Para Jung, o futuro não é totalmente separado do presente: ele já pulsa em símbolos, arquétipos, imagens que surgem nos sonhos, nas intuições, nos mitos.

Assim, enquanto Hume nos convida à prudência — lembrando que toda expectativa futura repousa em crença costumeira — Jung abre uma porta para o mistério: talvez certos fragmentos do futuro escapem, por vias simbólicas, para dentro do agora. O corpo sabe o que a razão não alcança. O acaso pode não ser tão cego quanto parece.

O filósofo brasileiro Vilém Flusser dizia que o homem é um "animal projetivo": vive sempre adiante de si mesmo, sempre jogando sentido para frente. O futuro não é um lugar distante, mas uma parte de nós mesmos que já tenta emergir. Por isso as evidências do que não ocorreu estão por toda parte — na palavra mal pronunciada, no encontro casual, na hesitação de um olhar.

O perigo, claro, é forçar o sentido. Ver presságios onde só há ruído, construir certezas sobre incertezas. Mas o risco maior talvez seja o oposto: ignorar os sinais do que vem. Desprezar o aviso do corpo, o alerta da alma, o indício que se repete sem motivo aparente.

Afinal, como ensinava Heráclito: “O deus cuja morada é o oráculo de Delfos nada diz nem oculta, mas sinaliza”. O futuro também sinaliza — discreto, modesto, mas insistente. Cabe a nós treinar os olhos, o ouvido, o coração, para notar suas evidências invisíveis.

Talvez o que ainda não ocorreu já esteja, de certo modo, acontecendo.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Clima de Opinião

Uma Reflexão Filosófica Inspirada em W. H. Auden

Wystan Hugh Auden, poeta britânico do século XX, capturou em sua obra a complexidade da experiência humana frente ao contexto histórico, social e político. Um de seus conceitos que desperta interesse é o "clima de opinião," expressão que sintetiza as forças invisíveis que moldam nossas perspectivas coletivas e individuais. Como o ar que respiramos, este clima permeia nossas vidas, determinando o que parece razoável ou absurdo, aceitável ou transgressor.

Mas o que exatamente é o "clima de opinião"? E como ele afeta a nossa maneira de ser e agir?

O Invisível que Constrói o Real

Auden usava o termo para se referir ao conjunto de ideias, crenças e sentimentos que pairam no espírito de uma época. Não se trata apenas de uma opinião individual ou isolada, mas de um consenso tácito que configura o pano de fundo de nossas decisões cotidianas. Tal clima pode ser tão envolvente que sequer nos damos conta de sua presença — como peixes que não percebem a água em que nadam.

Pense, por exemplo, na aceitação quase automática de certos hábitos de consumo: a necessidade de um smartphone de última geração, o ritmo acelerado do trabalho ou mesmo os padrões de beleza promovidos pelas redes sociais. Cada um desses elementos parece natural em nosso tempo, mas são, na verdade, manifestações do "clima de opinião."

A Filosofia no Vento da Mudança

O filósofo francês Michel Foucault oferece uma perspectiva complementar ao de Auden, analisando como discursos moldam o que consideramos verdadeiro ou falso. Para Foucault, o clima de opinião não é neutro; ele é carregado de relações de poder. O que prevalece em uma época como "verdade" muitas vezes serve para legitimar certas práticas e marginalizar outras.

Um exemplo histórico claro está na transição das ideias sobre saúde mental. Durante o século XIX, práticas como a lobotomia eram consideradas aceitáveis porque estavam inseridas no clima de opinião da época, que naturalizava a objetificação do paciente. Hoje, esse tipo de intervenção seria visto como um absurdo.

Do Pessoal ao Coletivo: Situações do Cotidiano

No dia a dia, o clima de opinião aparece de maneiras sutis, mas impactantes. Imagine-se em uma roda de amigos onde todos comentam sobre a última série da moda. A pressão para estar atualizado, ainda que silenciosa, reflete como o clima molda até mesmo nossos lazeres. Ou então, em situações de trabalho, quando alguém questiona as metas inalcançáveis da empresa, frequentemente é silenciado pelo "é assim que as coisas são."

Mesmo decisões aparentemente triviais, como o que vestir, podem ser influenciadas por esse ambiente compartilhado. Por que calças rasgadas eram consideradas rebeldes nos anos 90 e hoje são um item mainstream? A resposta está no vento cultural que sopra e ressoa em nossas escolhas.

Reflexão e Resistência

Mas será possível resistir ao clima de opinião? Auden não parecia acreditar na possibilidade de escapar completamente, mas nos alertava para a importância de refletir criticamente sobre o ar que respiramos. Ao nos tornarmos conscientes dos ventos que nos cercam, podemos pelo menos escolher como navegar.

A filósofa brasileira Marilena Chaui também enfatiza a necessidade de desnaturalizar o que nos é apresentado como óbvio. Segundo ela, "a ideologia opera fazendo com que o social pareça natural." Assim, cabe a cada um de nós cultivar uma atitude crítica que desafie os consensos estabelecidos.

O clima de opinião é, ao mesmo tempo, uma força formadora e uma armadilha. Ele nos conecta ao espírito de nosso tempo, mas também limita nossa visão do que é possível. Inspirados por Auden, devemos aprender a perceber o invisível, questionar o inquestionável e, acima de tudo, lembrar que o vento das ideias pode mudar — e nós, como navegantes, temos o poder de ajustar nossas velas.

Que tipo de clima queremos respirar amanhã? Essa é a questão que Auden, e tantos outros pensadores, nos convidam a enfrentar. A Filosofia está ai para nos ajudar a refletir.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Descolonialismo

Descolonialismo é um desses temas que parece pertencer a um capítulo fechado da história, mas na verdade continua a moldar silenciosamente nossas vivências diárias, tanto nas cidades quanto nas relações pessoais, sociais e culturais. Quando falamos de descolonialismo, evocamos um esforço para desfazer as amarras invisíveis que ligam o presente ao passado colonial, um passado que ditava quem poderia possuir conhecimento, quem detinha o poder, e como o “outro” deveria se comportar ou ser visto. Mas a questão principal é: e nós com isso? Por que um termo aparentemente distante deve importar para quem vive no cotidiano do século XXI?

Primeiro, é preciso perceber que o descolonialismo não é apenas uma teoria; ele é uma lente crítica para observarmos o mundo. E ao olhar por essa lente, surge a possibilidade de desconstruirmos narrativas e estereótipos, revelando um novo tipo de liberdade. A grande questão, portanto, não é apenas intelectual; é profundamente prática. Isso nos afeta porque, consciente ou inconscientemente, muitos de nós continuamos a ser influenciados por valores e percepções construídas no passado colonial. Essas influências se manifestam em nossa visão do que é "bom" e "belo", em nosso preconceito velado contra a estética ou a espiritualidade de culturas que antes foram marginalizadas, e até nas dinâmicas familiares, quando inconscientemente repetimos padrões e atitudes que herdamos sem questionamento.

Descolonizar, nesse sentido, significa mais do que simplesmente resgatar as culturas e tradições locais; é um esforço para renovar o pensamento e reimaginar a sociedade em suas interações diárias. Pense, por exemplo, em como valorizar a história indígena não é apenas um ato de justiça histórica, mas também uma forma de enriquecer nossa cultura e compreensão da natureza e do espaço que habitamos. E não se trata apenas de resgatar tradições ancestrais, mas de desafiar o conceito de progresso e desenvolvimento como uma linha que precisa, necessariamente, seguir os moldes de uma estrutura ocidentalizada e industrial.

O filósofo Frantz Fanon foi um dos que enxergou de forma profunda o impacto do colonialismo na psique humana, destacando como os colonizados internalizaram uma visão distorcida de si mesmos, julgando-se sempre pela régua do colonizador. Ele sugeria que o caminho para a libertação não era apenas romper as correntes físicas, mas também as correntes internas de uma autoimagem aprisionada. No nosso cotidiano, o eco do pensamento de Fanon ressoa quando percebemos que o autojulgamento, a autocrítica exagerada, ou o desejo de se adequar a um padrão que não corresponde à nossa essência, são formas contemporâneas de uma colonialidade persistente.

Quando nos perguntamos “e nós com isso?”, a resposta pode ser vista no modo como nos relacionamos com as nossas raízes e com a identidade cultural que nos cerca. Muitas vezes, temos uma relação ambígua ou superficial com o que é local. Ainda olhamos para fora como se o conhecimento e as soluções mais valiosas fossem sempre aquelas que vêm de centros tidos como mais “avançados.” O descolonialismo, portanto, é um convite para pensarmos em termos de pertencimento. Trata-se de nos darmos conta de que, ao validar apenas aquilo que vem de fora, perpetuamos uma hierarquia colonial e invalidamos, pouco a pouco, nossas próprias vozes.

Então, descolonizar implica desconfiar das ideias de que o "progresso" significa sempre ir para frente, de que o que vem de fora é sempre melhor, e de que nossas próprias culturas, saberes e modos de vida são menos significativos. Implica também em recuperar a noção de que as tradições não precisam ser vistos como obstáculos ao desenvolvimento, mas como pilares que enriquecem nossas identidades.

Aqui estão algumas situações do cotidiano onde as marcas do colonialismo se fazem sentir de forma sutil, revelando como o descolonialismo ainda é um tema importante e relevante:

No ambiente de trabalho: Em muitas empresas, especialmente multinacionais, há um peso maior atribuído a padrões de comportamento, estilo de vestimenta e linguagem que seguem modelos ocidentais. Funciona como uma norma implícita para "profissionalismo", e qualquer divergência disso pode ser vista como "não adequada". Um exemplo comum é o uso de cabelo natural por pessoas negras, que ainda enfrenta resistências e preconceitos em algumas corporações. Isso demonstra como certos padrões “coloniais” de estética ainda influenciam noções de aceitabilidade e profissionalismo.

Nas escolhas de consumo: As preferências por produtos estrangeiros em detrimento dos locais são muitas vezes moldadas por uma percepção de que o que vem de fora é "melhor" ou "mais sofisticado." Isso aparece em tudo, desde roupas e cosméticos até eletrônicos e produtos alimentícios. Escolher um produto nacional é, muitas vezes, visto como “inferior” ou de “menor qualidade”, uma visão alimentada por uma ideia antiga e colonial de que o que é produzido localmente tem menor valor.

Na educação: A história ensinada nas escolas muitas vezes dá destaque a uma narrativa eurocêntrica, deixando as culturas e histórias locais como uma nota de rodapé. O apagamento ou simplificação das contribuições dos povos indígenas, afrodescendentes e outras culturas marginalizadas ainda é uma realidade em muitos sistemas educacionais. Essa estrutura ensina as gerações futuras a valorizar uma narrativa "universal" que, na prática, é limitada e incompleta.

Na moda e na estética: Em editoriais de moda, redes sociais, e até no comportamento diário, muitas vezes vemos uma padronização estética que privilegia certos tipos de corpo, cores e características faciais de origem ocidental. Esse padrão acaba reforçando estereótipos de beleza que marginalizam ou “exotizam” traços de outras etnias. Escolher, por exemplo, usar uma vestimenta tradicional indígena ou africana, pode ser visto como “alternativo” ou “excêntrico”, ao invés de simplesmente uma escolha legítima de expressão cultural.

No turismo: Quando viajamos para outras regiões, seja dentro do próprio país ou para fora, muitas vezes esperamos que o destino tenha a infraestrutura, os costumes e até a organização de uma forma "ocidentalizada". Esperamos que falem o nosso idioma, que os pontos turísticos tenham uma organização que reflita nossa própria cultura de consumo e até mesmo que os preços estejam adaptados à nossa moeda. Este tipo de expectativa mostra como um pensamento colonial continua presente, onde a experiência do “outro” deve se adaptar aos nossos desejos.

Na valorização de saberes tradicionais: No contexto médico e científico, por exemplo, práticas de cura tradicionais, como ervas medicinais usadas por povos indígenas ou afrodescendentes, são muitas vezes marginalizadas ou descreditadas, enquanto abordagens ocidentais são vistas como “mais avançadas” ou “científicas”. Esse desprezo pelos saberes tradicionais é um reflexo de uma hierarquia de conhecimentos onde o saber "acadêmico" e ocidental se coloca no topo.

Essas situações mostram como o descolonialismo é um convite a percebermos o valor do local, do diverso, e do não ocidental como partes legítimas de nossa vida cotidiana, nos desafiando a reconsiderar e transformar padrões culturais que herdamos sem questionar.

No fundo, o descolonialismo trata de liberar a sociedade de uma visão de mundo restrita, onde o valor está sempre em algum outro lugar que não no aqui e agora. Talvez, ao final, o descolonialismo nos mostre que a liberdade não é apenas sobre a ausência de grilhões, mas sobre a capacidade de cada indivíduo e cada cultura de se ver e ser visto de forma plena, sem os filtros de um passado que já não faz sentido manter.